Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, dezembro 30, 2008

Drummond - Receita de Ano Novo





















"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
" CDA


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Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

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Copiei da Esther o texto em prosa

e do Chorik, o poema de ano novo,

para fazer essa postagem drummondiana,

com que encerro o ano de 2008.

Muita saúde e paz para todos.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Natividade 3 ( o advento )


“Um menino nasceu para nós” (Is 9,5).



com o corpo terrestre dos mortais,
com a vulnerável e tenra idade das crianças


e apesar do ateísmo que me alcança,
rendo-me a Ele,
pois não faz sentido
viver sem esperança
e, Nele, louvo a natividade
de todas as crianças.



Eurico
25/12/2008
Feliz niver, menino-deus!!!

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Natividade 2 ( luzes: o despertar )

















Ali não havia eletricidade.

Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler —
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.

E reli a "Primeira Epístola aos Coríntios".

Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.

A "Primeira Epístola aos Coríntios" ...

Relia-a à luz de uma vela subitamente antiqüíssima,
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...

Sou nada...

Sou uma ficção...

Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
"Se eu não tivesse a caridade."
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...

"Se eu não tivesse a caridade..."
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade! ...





Poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Em tempo: o título é da postagem e não do poema!

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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Natividade 1 (O Kitsch)



As mais belas mentiras habitam aqui.
Nessa selva armada de concreto e cal.

Jogos de artifício.
Luzes de ilusão.
Magos mercadores,
Presti/digitação.

Verdes ruas doiradas,
feérica vermelhidão!

Nevascas fabricadas
com papel crepom,
Estrelas cintilantes
de processador,
e o excessivo choque
de imagem e de som.

As mais belas mentiras habitam aqui,
Nessa selva armada de concreto e cal.


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sábado, dezembro 20, 2008

Apontamentos de aprendiz-bibliodidata...



Foi o compadre Carlinhos do Amparo, filodoxo d’Olinda, quem cunhou o neologismo “bibliodidata”. Diz ele ser impossível existir autodidata, já que é nos livros que alguém aprende “sozinho”, ou seja, com os autores dos mesmos. Aliás, devo também ao Compadre Carlinhos, a questão que motivou essa postagem. Perguntava-me ele, à sombra de frondosa mangueira no Sítio d'Olinda:

Compadre Eurico, você que costuma exclamar: Ave, Palavra!
Me diga: Mátria e Palavra são a mesma coisa?
Ou seja, a série Mátria enseja uma saudação à Palavra ou à Língua?

Tentarei responder com a audácia e o risco
de quem trata
de assunto muito acima do seu nível de conhecimento,
e, com isso, inicio essas mal-traçadas notas d’aprendiz:

Como se viu, a série Mátria foi um périplo pela Língua Portuguesa, através de alguns instantâneos, pinçados da minha memória. Em fragmentos de poesia e prosa fiz uma breve loa da lusofonia.
Portanto, da louvação do idioma, é disso que cuida a série Mátrias.
Sendo a Mátria, a nossa língua-pátria: a
Língua Portuguesa.
Vide Caetano Veloso, em Língua:

"A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria..."

***

E a Palavra?
A Palavra é a mãe das mátrias e a todas contém.

Já explico:
O que chamo de Palavra não é o léxico, o vocabulário: os verbetes, os fonemas, os objetos verbais.
A Palavra prescinde inclusive das palavras.
Calma!
Não há negar que a Palavra também está expressa nas... palavras.
Mas no encontro com o novo, com a coisa inominada, adâmica, já existia a Palavra.
A Palavra é Mythu antes de ser Logus.
A Palavra antecede o próprio pensamento conceitual.
Nas sensações, na percepção da consciência mítica e na emoção lírica,
antes, pois, de qualquer verbalização,
já habita a Palavra,
a mãe dos idiomas.


A Palavra é, pois, perspectiva, possibilidade, latência.
A Palavra é eflorescência.
Physis grega antes de natura romana.
A Palavra é Poíesis.
A Palavra é, enfim, Protopoesia.








(Nota do Aprendiz: antes que a moçada blogueira me tome por pretensioso, digo-lhes que, mutatis mutandis, as idéias acima foram inspiradas pelo livro que ando relendo do G. M. Kujawski, Fernando Pessoa, O Outro, um ensaio de hermenêutica cultural.)






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sexta-feira, dezembro 19, 2008

Mitopoese III: Aphrodite


Dos olhos saltam peixes imprevistos,
não há punhais.
As mãos são aves, ágeis, finas.
Luzes feéricas ao seu passar,
cabras e carneiros no caminho de seus pés.
Acendam-se os luzeiros da noite:
Ei-la!



Eurico



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clique na imagem de Vênus
e conheça o sítio original
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Comentário deste poema em
Um Cronist'Amador

Publicado originalmente em
Blocos Online

terça-feira, dezembro 16, 2008

Mátria n º 7: Poeta universal, poeta radical, poeta clássico...
























Gilberto de Mello Kujawski inicia o seu Fernando Pessoa, o Outro, que ele intitula de ensaio de hermenêutica cultural, situando o fenômeno Pessoa no epicentro da renovação da cultura portuguesa, após a morte de Eça e com a extinção do realismo.
Pessoa, segundo Kujawski, herda a disposição crítica do realismo para laborá-la em um nível mais profundo, instaurando a “crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez em sua geração”.

Pessoa estava, portanto, no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma Cultura. Com sua obra atemporal, dialogava com a poesia desde sua gênese, tornando-se, ao mesmo tempo em que era o intérprete da sua problemática individual, o poeta cuja poesia reverbera nas vastidões de uma consciência universal.

E o que se entende por universalidade de um poeta?
Responde o autor: Universal é o poeta que fornece uma interpretação, ao mesmo tempo múltipla e unitária da vida, sendo, por isso, “portador de um universo, de uma cosmovisão”. O poeta universal mergulha nas raízes de sua província, mas traz a fronde no mundo inteiro.
Entre nós, Carlos Drummond de Andrade, recentemente, foi esse poeta.

Mas não basta de dizer de Pessoa que ele é um poeta universal. Além disso, sobreleva-se como um poeta radical. Radical é o poeta que se alimenta de certa protopoesia, como diria Vicente Ferreira da Silva, ou seja, desse “núcleo da poesia anterior e subjacente a todas as interpretações, escolas e estilos preexistentes”.
Esse é o poeta que subverte os gêneros meramente didáticos da literatura e liberta a poesia das suas obsessivas fixações, provocando-lhe uma catarse libertadora.

Por fim, Kujawski define o poeta clássico.
Para ele, o poeta que se faz fundador de uma poética que, além de radical é também universal, deve ser chamado de Poeta Clássico. No entanto, não se tome, aqui, clássico, no sentido de uma cristalização de valores estéticos, fora da História viva. O poeta clássico, ao mesmo tempo em que renova esses valores, repudia os cânones mumificados por uma "imobilização quase hierática".
“O espírito clássico é aquele que está à altura do seu tempo”.
Mais: não é apenas o representante de uma atualidade, porém remete “à antecipação do que está por ser atual”.

Eis aí a função do poeta clássico: permitir que enxerguemos onde estamos situados, “que nos localizemos na crista de nosso itinerário histórico”.

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Na crista da (terceira) onda histórica, radical, renovadora, e até mesmo, perturbadora, está a poética com que abaixo vos inquietarei.
Não há mesmo mais tempo para a poética dos saraus, das serenatas à lua e outros afins. Embora, creio eu, tudo isso deve estar contido numa poesia que instaure a voz do seu tempo.
Que diga das angústias, com arte;
Que fale de nossa fragmentada existência
e de nossa virtual desesperança, com lirismo reflexivo;
Que, até mesmo, possa revisitar o discurso agostiniano,
ou de outro pensador, também angustiado,
expondo nossos descaminhos em públicas confissões.

Mas é vital que esse Poeta, esteja, como estava Pessoa, no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma cultura.
Imprescindível, também, que diga tudo na linguagem desse tempo:
Na apresentação calidoscópica das imagens;
Nos versos em síncopes, de ritmo quase à Hermeto Paschoal;
Fazendo ainda, pessoanamente, a crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez de sua geração.

Essa poética que vos apresento, em nossa língua-mátria mais pura, é difícil de encaixilhar-se num rótulo.
Pós-moderna, neobarroca, neomoderna.
Melhor dizer: radical, universal e clássica, como acima Kujawski definia a poesia pessoana.

Esse poética é brasileira, lusófona, e seu poeta se chama Dauri Batisti:


, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.


Dauri Batisti
da série de poemas
CONFESSIO SPONTANEA

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Mais de Dauri, no sítio
Essa Palavra, onde elabora as "séries" que apontam para a contemporaneidade da poesia e antecipam a forma e o conteúdo do que de belo pode estar se enformando/informando nessa era virtual.

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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Ode - Ricardo Reis (pausa para meditação)




ODE


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis


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Trata-se de uma ode sem título
inserta entres outras na segunda
parte da edição de Mensagens
da Martin Claret, ano 2003.
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Sob o heterônimo de Ricardo Reis,
Pessoa ratifica o que postula no
texto que editei na postagem anterior.
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Serve, também, para tentar responder às pertinentes
questões colocadas por Paulinha Barros,
que, com seu instigante afã de compreensão,
me faz despertar a minha inútil vocação professoral.
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domingo, dezembro 14, 2008

Mátria nº 6 - Navegar é preciso...





















Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.


Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou

o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa



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clique na imagem para ver o site de origem.

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Mátria Nº 5 - Eulália - (um fado, afinal)






























OIÇO um canto de fadista.
És tu que cantas,
A essas minhas esp’ranças,
Que são tantas:

Sons em voz de lusitana
rapariga
...trazes, dos mediterrâneos,
as cantigas,
feito rios subterrâneos
de água amiga,
que escorrem, escondidos,
Deus o sabe,
à foz, em mar cristalino
do Algarve...

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?

***

Um dia fiz duas trovas
com sotaque visigodo,
numa eufonia de motes,
lamentando a pouca sorte
de meu coração tão doudo:

I
A saudade singra os mares
Desviando dos abrolhos
E se alimenta dos ares
Da lembrança dos teus olhos.

II
Ontem foste campesina
A ouvir cânticos mouros;
Já te encontrei concubina
Dum sultão lúbrico e louro.


***

Todas as linguagens trazes
numa etimologia
de cristais
em fonemas aéreos e vocálicos;
musicais.

Música aleatória e vária
em plangentes alaúdes:
ai! mouraria!
Potros, selins, bandeirolas,
A festejar tua vitória
Que é tão minha!

Vielas da Albufeira:
Casas lavadas de branco.
Quanta luz!

Não adianta chorares
Quero cruzar verdes mares,
com essa cruz.
Eis as velas triangulares
de uma fragata ligeirinha
que, por fé, minha rainha
batizara de... Jesus.

***

É teu, o aceno triste
de saudade,
no lenço branco que vejo,
vindo dos balcões moçárabes?



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A imagem, cujo sítio originário está nela linkado,
é da Albufeira, região de Algarve, Portugal,
último recanto luso tomado aos mouros.
Derradeiro nicho de resistência da Língua Portuguesa,
embora não se negue a riqueza dos empréstimos linguísticos
da cultura árabe.

Ave, Mátria!!!
Ave, nossa Língua Portuguesa!!!


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sábado, dezembro 13, 2008

Mátria Nº 4 - Índio (vaticínio do Caetano)






















Assim, a lenda se escorre,
a entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.

(Fernando Pessoa, in Mensagem)




Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante

E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito


Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá


E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio


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Mátria Nº 3: LÍNGUA - Caetano Veloso
























Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

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A ilustração diz tudo!!!
Mas, uma Língua que sobreviveu aos godos,
aos mouros e ao tempo...
que se fez Trova e se fez Fado
e que nos deu Pessoa
e Drummond,

Produziria, um dia, a Antropofagia,
a Tropicália,
e inventaria, enfim, Caetano Veloso!!!

(clique na imagem para ir ao sítio de origem)



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Mátria Nº 2, ou Dionisius Portugalliae Rex




















É Kujawski, quem afirma, in Fernando Pessoa, o Outro, que "o dizer português é sempre vizinho da efusão lírica, pronto a vibrar em toda a escala de íntimas lamentações e exultações, de secretos cuidados e enternecimentos próprios às fundas confidências. Daí as qualidades da prosódia da língua portuguesa -- alongada e ondulante; ondulações que se perdem ao longe (...)"
Regressemos a esse longínquo pretérito, acompanhando um dançar dionisíaco, através do léxico arcaico do cronista-narrador Fernão Lopes, que transcrevi da obra citada acima, p. 25. Deitem os vossos olhos sobre esses vetustos vocábulos, soprem-lhes os fonemas e deixem emergir do inconsciente, os albores do efusivo lirismo dessa Língua Portuguesa:

Viinha elRei em batees Dalmada pera Lixboa, e saiam-no a reçeber os cidadãaos e todollos dos mesteres com danças e trebelhos, segumdo estomçe husavom; e el saia dos batees, e metiasse na dança com elles, e assi hia ataa o paaço. Paraae mentes se foi boom sabor: jazia elRei em Lixboa huuma noite na cama, e non lhe viinha sono pera dormir e fez levamtar os moços e quamtos dormiam no paaço, e mandou chamar Joham Mateus, e Lourenço Pallos que trouvesem as trombas de prata, e fez açemder tochas, e meteosse pela villa em damça com os outros; as gentes que dormiam, sahiam aas janelas, veer que festa era aquella, ou porque se fazia; e quando virom daquella guisa elRei tomarom prazer de o ver assi ledo; e amdou elRei assi gram parte da noite, e tornousse ao paaço em damça; e pedio vinho e fruita, e lançouse a dormir.
(Crónica de D. Pedro I, Barcelos - 1932, pp 42-43, apud Fernando Pessoa, o Outro, G. M. Kujawski, pp. 25,26)


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Ilustração:
Casa de Locos - Goya
(clique na imagem e irá até o site de origem)
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sexta-feira, dezembro 12, 2008

Mátria Nº 1 ou minha pátria é minha língua

















Bernardo Soares é um heterônimo pouco conhecido do Fernando Pessoa. Mas são dele as palavras que se seguem mais abaixo e com as quais inicio uma série de postagens carregadas do que chamo de emoção metalinguística.
Ando tomado por um súbito acréscimo de receptividade, algo parecido com aquilo que G. M. Kujawski definia como uma apreensão lírica da realidade. Essa é a razão, creio eu, dessa quase litúrgica atitude ante a Língua Mãe (ou Mátria, como diz Caetano em uma canção).


Leia-se, abaixo, Fernando Pessoa (com a devida reverência):



"Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito muito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez, numa selecta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo até o fim, trêmulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das idéias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais -- tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda, choro" ... "Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa."


in Fernando Pessoa, o Outro,
Gilberto de Mello Kujawski
São Paulo, s.n.t., 1965, p. 15


A foto é de Orlanda Franco (clique na imagem para ir ao site de origem)
Título: Mesa de Fernando Pessoa, Restaurante Martinho das Arcadas, Lisboa, Portugal – 2004



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quinta-feira, dezembro 11, 2008

A solidão e sua porta




















Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),

quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo o que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

***

Dedico esse soneto do Carlos Pena Filho
ao meu filhão Maurício
e ao compadre e poeta Diógenes Afonso.



***

Fonte da imagem:
http://www.treklens.com/gallery/South_America/Brazil/Northeast/Alagoas/photo400329.htm


***

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Pausa para uma introspecção...




















O Homem Velho
(Caetano Veloso)


O homem velho deixa a vida e morte para trás

Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais

O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais

O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol

As linhas do destino nas mãos a mão apagou

Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll

As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai

No abismo das esquinas

A brisa leve traz o olor fugaz

Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon

Belezas, dores e alegrias passam sem um som

Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron

E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval

Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal

Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual

Já tem coragem de saber que é imortal








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(depois de ler e ficar horas ruminando

sobre o post Ondas Douradas, no Florescer, de julho/2008,

tive que vir pra cá, pro meu recanto,

lamber minhas próprias feridas e ouvir Caetano...)

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Fonte da imagem:

Poeta Pablo Neruda

http://galizacig.com/imxact/2006/03/pablo_neruda.jpg

Para ouvir Caetano, clique abaixo e depois minimize o wmplayer:

http://www.mp3tube.net/br/musics/Caetano-Veloso-O-Homem-Velho/48043/

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terça-feira, dezembro 09, 2008

Rua do Futuro (uma velha canção)




























Era um sítio bem sombrio,
jogado no fim da rua.
(em que vi, ainda menino,
uma moça toda nua).

Tinha um velho cajueiro,
uma mangueira frondosa,
um jasmineiro cheiroso.


Tinha um poço com roldana
como a de um livro famoso.

***

Ouçam!
Ouçam!
Pssiu!
São pássaros!
Muitos pássaros!
Os pássaros ruidosos de eu-menino...


***

Hoje, passando de carro,
pela Rua do Futuro,
vi uma enorme geringonça,
uma araponga medonha,
que em repetidas pancadas,
fincava na minha alma

essas agudas estacas.


E os engenheiros, suados,
com seus elmos na cabeça,
nem me ouviram, ocupados
em fazer que o monstro cresça:


Ouçam!
Ouçam!
São crianças!
Cantam livres sobre os muros...
Serão aves ruidosas
nos pomares do Futuro?

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1) Para a amiga Paulinha Barros:
estou em busca do dizer singelo...

2) Dedico, também, a Ligia, catequista,
cujo niver, ontem, estava cheio de avezinhas ruidosas
e felizes.

3) Seriam os ecos do milharal do Dauri? rs


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segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cantiga Esotérica





















Tragam-me alfaias
Que vem chegando o alvor!
E pandeirinhos
Que vem chegando o alvor!

Deixem que as aves
Revoem, contentes
E dancem, nuvens,
nos céus de seu ventre.

Que invadam-me a tenda
os livres pirilampos
incenso, oferendas,
e os odores do campo.

Aviem-se vestes e víveres!
Pomos dessa terra úbere!

Tragam-me cores
Que a festa é pagã.
Tragam-me amores
Que a alma é louçã.

Tragam-me a flora...
Não! Tragam-me o alvor!
E em seus entornos
tragam-me adornos:

Luzes do Lácio
E a alvissareira Flor.


**********************

Dauri, Jacinta e Mai, será que ecoam,
junguianamente, em mim,
essas misteriosas canções? rsrsrs



Fonte da imagem:
http://tbn3.google.com/images?q=tbn:8dXLU76B08dWwM:http://www.dancealmha.com/images/gerome.jpg

sexta-feira, dezembro 05, 2008

DUDA (poemeto neobarroco)








Paira a Duda, assim, pingente,
sobre os raios de um biciclo,
mirando-me, ambiguamente,
nos olhos, de modo oblíquo.
***


Duda, niña semiótica,
transita por entre os signos.
Levita, longe da lógica;
leva o abstrato consigo.
***
Dona de mim, traça órbitas
com o dúbio ciclo, nonsense.
Lança-me os dados da sorte,
gira no globo da morte,
faz piruetas circenses


***


Duda, voz dissimulada,
questiona-me, inocente.
Vacilante, Duda indaga,
num sussurro reticente
:
há um mistério nas coisas
porque em mim habita o mistério
ou
há um mistério em mim
porque o mistério habita as coisas?


***
Olho os céus,
fico silente,
minha mirada se turva,
mergulho no inconsciente
e me abraço à imensa Duda...




***





Dedico este poema ao artista Michael Cheval
A imagem que inspirou a conclusão do poema é:


Down to Earth
20”x20”
oil on canvas
http://chevalfineart.com/gallery/sense/b/19/


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No esboço desse poema, guardado desde
22/12/1997, havia também um dedicatória
ao místico italiano Pietro Ubaldi.








quarta-feira, dezembro 03, 2008

O BEIJO E A FLOR (Ainda a fauna... e a flora.)






I


O Beija-flor
beija a flor
inteira e não-conotativa.
Beija a realidade, flor sem artifícios.
Beija, o Beija-flor,
o cerne mesmo da Flor.


II

( ...era o meu intento envasar o aroma
dessa despetalada Flor, numa redoma).




III


A Flor e esse cativo Beija-flor
(fabrico-os dessa matéria plástica e furta-cor)
A flor, a derradeira e inculta.

A Flor.



(
...e em suas pét’las
errático,
um beija-flor,
flâneur vibrátil,
floreteia,
oral e erétil,
à flor,
à ineffabile e bela flor


do Lácio
)

***


Fonte da img.:


*****************

Pós-escrito:
em tempo, dedico este poemeto à amiga,
blogueira com nome de flor,
que, pelo que me parece, adora os colibris.
Também gosto deles porque se criam livres e soltos.




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sexta-feira, novembro 28, 2008

Pequena Fauna Poética (divertimento)


I - Auto-retrato: o tartaruga

O tempo
e
s
c
o
r
r
e
viscoso
feito melado de cana-de-açúcar
enquanto o poeta assobia a passos lentos,
tartarugalmente,
preguiçamansamente,
pachorrentamente,
velho amigo da perfeição.

O tempo
e
s
c
o

a
e-n-t-r-e-o-s-d-e-d-o-s...
...e os apressados não o sabem coar.Eurico
06/07/1994



***

II - Poemeto Chinês: o vagalume




Ora, deixa de queixumes, Vagalume,
tu também podes brilhar.
Deixa de olhar o sol com tal ciúme:
o sol nem sabe voar!


dedicado ao compadre Fernando Serpa
ano 1991
***

III - Poemeto Chinês - a aranha


A aranha urde a teia
porque vive
A aranha urde a teia pra viver
Urdir a teia é ser aranha
e o ser da aranha é o tecer...
Eurico
04/04/1994
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IV - Patência nº 1: A Borboleta



Borboleta!...
Ó Borboleta!...
Tu também foste tecida
com milhares de partículas indivisíveis como eu?
E de onde vem essa tua multicolorida atomicidade?

Somos ambos filhos da larva e da morte...
Mas eu, absolutamente, não te sou.
E tu, verdadeiramente, não me és.

Tento palpar com as pupilas
o teu saltitar amarelado, flor em flor,
mas apenas esvoaço em ti, amareladamente.
Surpreende-me o subitâneo choque com o patente.
Isso, assombroso.
Isso, apodítico.

É evidente:
Nós somos!

Inexoravelmente:
Nós somos!

Nós somos, alada amiga!

Eurico
Pina, 22/10/1992
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quarta-feira, novembro 26, 2008

Dilúculo (impressões)





















...a noite, ou o signo da noite,
esse envoltório, invisível e volátil,
cinge as coisas em derredor...

...nada faz sentido sem o envoltório
in(di)visível da palavra.
Nada.
Nem a escuridão da noite.
Nem mesmo a fugaz antemanhã...

...jamais serão pardos os telhados
dos pardieiros, sem o anúncio das gentes.
E o que dizem as gentes dos telhados pardos?
Dão vivas à revoada das aves na alva?
Ou aborrecem o arrebol,
esse vocábulo em que lucilam sombras?

Os pardos.
Os pardieiros.
E os padeiros.
Eis os que se insurgem contra as trevas,
a dividir o pão nas entrelinhas da madrugada,
grávida do dia-na-noite.

Eis os que despertam quais perdidos pardais....no impreciso Dilúculo.
Lê-se essa palavra (in)pávida,
claro-escuro,
lusco-fusco...
Bela,

enquanto bruxuleia
nas estepes do terrunho dicionário
em que hão de vir pascer os rebanhos da aurora.

Amanhece...

A palavra aflora, agora?
Ou passa a impressão
de quase manhã...











Fonte das imagens:
1) Vincent Van Gogh - Noite
http://sunsite.utk.edu/FINS/Knowledge_Organization/gogh-1.jpg

2) Claude Monet - Impressão, Sol Nascente, 1872
http://br.geocities.com/maritp31/monetsol.jpg

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domingo, novembro 16, 2008

TRIPÉ: um apontamento esférico



























O tripé que sustenta a Super-8 parece um louva-a-deus. Sua cabeça miúda aponta para o cais da Aurora:
O rio calça as botinas do lixo e da lama brotam pneus, flores inúteis. A vazante desnuda o Capibaribe. Jazem, nesse leito enegrecido, pequenas balsas e baiteiras, encalhadas feito capivaras moribundas. O velho rio, agônico, bebe o vômito que escorre pela boca das sarjetas.

Seres entrópicos é o que somos.
Erguemos túmulos às margens dos rios e os batizamos: Cidades.
Ajoelho-me sobre o pequeno inseto. Suas patas dobráveis inclinam-se sobre o cais. Sinto-me um lepidóptero. Minhas palavras, asas enlameadas. O rio escorre de minha boca, trompa espiralada, em sons inaudíveis, desce de minha alma, larva de tungstênio, cruza a Cidade, crisálida, casulos miseráveis, povo ribeirinho, mangue, o rio escorre de mim. Vem do mar e volta ao mar, dentro de mim: abissal é o eu-profundo. E o rio, este que aqui escorre esfereográfico, é o rio nascido de minhas entranhas. Seu nascedouro: um lago vulcânico em algum lugar de meu interior. Não é mais o rio que vejo (que via) sentada nas pedras do cais. Este é o rio sinuoso das minhas correntezas mais fundas. Sinuoso e enganador como as palavras que invento. Invento? Caminhando à margem (do rio?) ouço, quase mediunicamente, a voz, a fricativa voz da brisa recifense. Sussurra-me uma mensagem ultrafanica. O rio escorre hac hora da boca do Tempo: oiço vozes que não invento. Frases de vento. Inolvidáveis correntes que fluem de um rio invisível. Psicografo?

Foi em meados de 1972 que li A Queda, de Camus. Um livro agudo como uma adaga. Percorri com o Juiz-penitente um cais imaginário. Fitávamos, peripatéticos, aquelas águas turvas e agonizantes (do Sena ou do Reno?). Teço, hoje, esse cais de palavras. Pode haver uma relação distante e atravessada entre as águas do Capibaribe, que hoje escorrem enlutadas, e o monólogo do Juiz-penitente?

Do cais da Aurora o rio revisita, em sua língua morta, o cântico universal da dor humana.
Rio perpétuo e surdo, as serras esboroas, / Serras e almas, ó Tempo! / e, em mudas cataratas. / As tuas horas vão mordendo, aluindo, à toa... / Todas ferem, passando: e a derradeira mata.
As águas poluídas da minha alma turva e impenitente amaldiçoam as cidades erguidas sobre a lama dos homens. Através dessa olho-de-peixe, os diques lodosos me chegam distorcidos, imagens baças, circulares. A vida me vem enviesada, distorcida, circular. A lama. O lixo. A lama. Tento revelá-la nessa fraseologia em preto-e-branco.

O rio corre para o mar enlameado. Vejo um rosto lamacento no espelho que trago entre as mãos. As horas passam fluviais e atravessam essas páginas amareladas. Amarelentas, passam as horas. A maré, lenta, conta e reconta suas enchentes, suas vazantes. A maré lenta: um relógio lunar.
Lembro de uma frase que costumava ser escrita nos mostradores dos relógios antigos: Vulnerant omnes, ultima necat...
O rio, moribundo, aguarda a sua hora, a derradeira, agonizante. Abraçada ao louva-a-deus, recito Bilac:
E bendita, que, sobre a minha cova aberta, / Pairas, última, ó tu que matas e libertas!
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Img do encontro dos rios no Recife, no estuário, chamado,
impropriamente, Bacia do Pina:
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Nota do Editor:
TRIPÉ é um dos capítulos de BÓSTRIX N'ÁGUA (apontamentos esféricos),
uma espécie de romance virtual, um e-book,
experimento de narrativa digital que venho montando há alguns anos.
Publiquei alguns textos desse romance em postagens anteriores, aqui.
Esse trecho é dedicado à amiga Jacinta, que me honrou com a citação de
uma pequena passagem no blog Florescer, e eu decidi postar
para contextualizar aquele fragmento.
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P.S.: a voz narrativa é de uma personagem feminina,
a cineasta e fotógrafa Marília Spencer.
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sexta-feira, novembro 14, 2008

Regresso ao Drummond...



















Regresso ao Drummond, meu mestre, minha universidade, para
um novo exercício de leitura submarinha.
Leio e releio esse metapoema, desde muito jovem,
como quem recita um mantra:
repetidas vezes, mas com concentração profunda, com reverência.
Como não tinha disciplina para a vida academica,
estudei, desse modo inusitado, esquadrinhando os grandes poetas.
Nessa foto, em que Drummond aparece na intimidade,
sentado como um menino, despojada postura, eu também
aprendo algo.
Aprendo que o poeta não é o artista dos palcos, das luzes,
dos estereótipos (marginal, popular, letrista, cantador, erudito).
O poeta é apenas um ser humano, com suas pequenas e grandes
alegrias, tristezas, dúvidas, temores... angústias.
Eis o grande exemplo de poeta, como Pessoa, em Portugal:
simples, pacato e com a vida privada
resguardada dos holofotes da mídia.
Ave, Drummond!
Evoé, meu Mestre!
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PROCURA DA POESIA

Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças versos com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema.
Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



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Fonte do txt.:
http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema025.htm


Img Drummond lendo:
http://blog.uncovering.org/archives/uploads/2008/08041601_blog.uncovering.org_drummond.jpg


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