Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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sexta-feira, julho 15, 2011

CONFESSIO SPONTANEA (Dauri Batisti)

























Na crista da (terceira) onda histórica, radical, renovadora, e até mesmo, perturbadora, está a poética com que abaixo vos inquietarei.
Não há mesmo mais tempo para a poética dos saraus, das serenatas à lua e outros afins. Embora, creio eu, tudo isso deve estar contido numa poesia que instaure a voz do seu tempo.
Que diga das angústias, com arte;
Que fale de nossa fragmentada existência
e de nossa virtual desesperança, com lirismo reflexivo;
Que, até mesmo, possa revisitar o discurso agostiniano,
ou de outro pensador, também angustiado,
expondo nossos descaminhos em públicas confissões.

Mas é vital que esse Poeta, esteja, (como estava um Fernando Pessoa, em sua época), no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma cultura.
Imprescindível, também, que diga tudo na linguagem desse nosso tempo:
na apresentação calidoscópica das imagens;
nos versos em síncopes, de ritmo quase à Hermeto Paschoal;
fazendo ainda, pessoanamente, a crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez de uma geração.

Essa poética que vos apresento, em nossa língua-mátria mais pura, é difícil de encaixilhar-se num rótulo.
Nem pós-moderna, nem neobarroca, nem mesmo, neomoderna.
Nada disso!
Melhor dizer: radical, universal e clássica, como a crítica define uma poética, quando atemporal.
Esse poética é brasileira, lusófona, e seu poeta se chama
Dauri Batisti. Leiam-na:




, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.


Dauri Batisti

da série de poemas
CONFESSIO SPONTANEA

(Insisto: leiam toda a série!)

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Mais de Dauri, o Batisti, nos sítios
Essa PalavraLados Multiplicados e Deserto Povoado de Tribos, onde o poeta elabora as "séries" que apontam para a contemporaneidade da poesia e antecipam a forma e o conteúdo do que de belo pode estar se enformando/informando nessa era virtual.

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Nota do Blogueiro:
reedição de poema, com o mesmo espanto da primeira leitura!




Fonte da img:

http://aspalavras.blog.terra.com.br/files/2009/08/salvador_dali.jpg

quarta-feira, julho 28, 2010

Ranhuras no ventre da baleia



“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão,
modelando vasos fechados e cortando lanças circulares,
não mais portadoras de aguilhão.
Uma besta espantosa, de índole recurva,
nasceu do cansaço universal e impera entre nós:
come voraz a cauda e engole a própria garganta.
Criações e atos perecem: sua respiração, interna, letal.”
********************** (Osman Lins, in AVALOVARA)


Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um inútil objeto estético. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre duma baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz roufenha e gutural de Chico Science: "...do caos à lama/da lama ao caos...". Pela janela, vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa alimária espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:

“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”

Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a
ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Poeta, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman ou Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que, desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Nesse tempo, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse anfíbio. Creio ser esta a única atitude possível a quem navega nessa bizarra embarcação.

***



Fonte da img.:
Jonas chega a Nínive


***

N. do A.:
o texto acima é fragmento de meu romance Bóstrix n'água.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Mátria n º 7: Poeta universal, poeta radical, poeta clássico...
























Gilberto de Mello Kujawski inicia o seu Fernando Pessoa, o Outro, que ele intitula de ensaio de hermenêutica cultural, situando o fenômeno Pessoa no epicentro da renovação da cultura portuguesa, após a morte de Eça e com a extinção do realismo.
Pessoa, segundo Kujawski, herda a disposição crítica do realismo para laborá-la em um nível mais profundo, instaurando a “crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez em sua geração”.

Pessoa estava, portanto, no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma Cultura. Com sua obra atemporal, dialogava com a poesia desde sua gênese, tornando-se, ao mesmo tempo em que era o intérprete da sua problemática individual, o poeta cuja poesia reverbera nas vastidões de uma consciência universal.

E o que se entende por universalidade de um poeta?
Responde o autor: Universal é o poeta que fornece uma interpretação, ao mesmo tempo múltipla e unitária da vida, sendo, por isso, “portador de um universo, de uma cosmovisão”. O poeta universal mergulha nas raízes de sua província, mas traz a fronde no mundo inteiro.
Entre nós, Carlos Drummond de Andrade, recentemente, foi esse poeta.

Mas não basta de dizer de Pessoa que ele é um poeta universal. Além disso, sobreleva-se como um poeta radical. Radical é o poeta que se alimenta de certa protopoesia, como diria Vicente Ferreira da Silva, ou seja, desse “núcleo da poesia anterior e subjacente a todas as interpretações, escolas e estilos preexistentes”.
Esse é o poeta que subverte os gêneros meramente didáticos da literatura e liberta a poesia das suas obsessivas fixações, provocando-lhe uma catarse libertadora.

Por fim, Kujawski define o poeta clássico.
Para ele, o poeta que se faz fundador de uma poética que, além de radical é também universal, deve ser chamado de Poeta Clássico. No entanto, não se tome, aqui, clássico, no sentido de uma cristalização de valores estéticos, fora da História viva. O poeta clássico, ao mesmo tempo em que renova esses valores, repudia os cânones mumificados por uma "imobilização quase hierática".
“O espírito clássico é aquele que está à altura do seu tempo”.
Mais: não é apenas o representante de uma atualidade, porém remete “à antecipação do que está por ser atual”.

Eis aí a função do poeta clássico: permitir que enxerguemos onde estamos situados, “que nos localizemos na crista de nosso itinerário histórico”.

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Na crista da (terceira) onda histórica, radical, renovadora, e até mesmo, perturbadora, está a poética com que abaixo vos inquietarei.
Não há mesmo mais tempo para a poética dos saraus, das serenatas à lua e outros afins. Embora, creio eu, tudo isso deve estar contido numa poesia que instaure a voz do seu tempo.
Que diga das angústias, com arte;
Que fale de nossa fragmentada existência
e de nossa virtual desesperança, com lirismo reflexivo;
Que, até mesmo, possa revisitar o discurso agostiniano,
ou de outro pensador, também angustiado,
expondo nossos descaminhos em públicas confissões.

Mas é vital que esse Poeta, esteja, como estava Pessoa, no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma cultura.
Imprescindível, também, que diga tudo na linguagem desse tempo:
Na apresentação calidoscópica das imagens;
Nos versos em síncopes, de ritmo quase à Hermeto Paschoal;
Fazendo ainda, pessoanamente, a crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez de sua geração.

Essa poética que vos apresento, em nossa língua-mátria mais pura, é difícil de encaixilhar-se num rótulo.
Pós-moderna, neobarroca, neomoderna.
Melhor dizer: radical, universal e clássica, como acima Kujawski definia a poesia pessoana.

Esse poética é brasileira, lusófona, e seu poeta se chama Dauri Batisti:


, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.


Dauri Batisti
da série de poemas
CONFESSIO SPONTANEA

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Mais de Dauri, no sítio
Essa Palavra, onde elabora as "séries" que apontam para a contemporaneidade da poesia e antecipam a forma e o conteúdo do que de belo pode estar se enformando/informando nessa era virtual.

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sexta-feira, dezembro 05, 2008

DUDA (poemeto neobarroco)








Paira a Duda, assim, pingente,
sobre os raios de um biciclo,
mirando-me, ambiguamente,
nos olhos, de modo oblíquo.
***


Duda, niña semiótica,
transita por entre os signos.
Levita, longe da lógica;
leva o abstrato consigo.
***
Dona de mim, traça órbitas
com o dúbio ciclo, nonsense.
Lança-me os dados da sorte,
gira no globo da morte,
faz piruetas circenses


***


Duda, voz dissimulada,
questiona-me, inocente.
Vacilante, Duda indaga,
num sussurro reticente
:
há um mistério nas coisas
porque em mim habita o mistério
ou
há um mistério em mim
porque o mistério habita as coisas?


***
Olho os céus,
fico silente,
minha mirada se turva,
mergulho no inconsciente
e me abraço à imensa Duda...




***





Dedico este poema ao artista Michael Cheval
A imagem que inspirou a conclusão do poema é:


Down to Earth
20”x20”
oil on canvas
http://chevalfineart.com/gallery/sense/b/19/


******************************** ~
No esboço desse poema, guardado desde
22/12/1997, havia também um dedicatória
ao místico italiano Pietro Ubaldi.








sábado, junho 14, 2008

Ranhuras no ventre da baleia



“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão,
modelando vasos fechados e cortando lanças circulares,
não mais portadoras de aguilhão.
Uma besta espantosa, de índole recurva,
nasceu do cansaço universal e impera entre nós:
come voraz a cauda e engole a própria garganta.
Criações e atos perecem: sua respiração interna, letal.”
**************************************(Osman Lins)


Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um objeto inútil. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre da baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz dorida de Edith Piaf. Pela janela vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa alimária espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:
“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”

Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a
ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Poeta, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman e Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Nesse tempo, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse anfíbio. Creio ser esta a única atitude possível a quem navega nessa bizarra embarcação.

***

Fonte da img.:
***
N. do A.:
o texto acima é fragmento de meu romance Bóstrix n'água.

sexta-feira, julho 06, 2007

Elegia Pós-moderna



Em 31/10/2006 publiquei a notícia abaixo.
Agora publico, em tempo, o poema que motivou uma rídicula censura da minha ex-terapeuta.


Tony Blair anuncia o fim dos tempos!!!
fonte: Jornal Nacional, de 30/10/2006

Tony Blair, na contramão do Mr. Bush, vem a público assumir a posição defendida pelos cientistas, de que, se continuarmos poluindo o planeta nesse ritmo, causaremos uma irreversível recessão economica mundial, nos próximos 50 anos. É que o mundo gastará mais com as consequências da poluição, do que o que gastaria com sua prevenção. Os gastos em 50 anos seriam da ordem de 5% do PIB mundial, provocando um colapso da economia capitalista.

Viva Deus!!!
Queria ver a cara da minha psicoterapeuta,
aquela que, pelos idos de 1988, me aconselhava
a não cuidar de temas ecológicos nos meus textos poéticos.

Taí:
a ecologia ganha dimensões de variável economica.
E com proporções catastróficas.

Anotem aí:
Desde o surgimento do Green Peace, nos idos de 1970, já se anunciava isso que agora vou dizer: O industrialismo e o crescimento economico cego estão com seus dias contados. Em suma: o capitalismo e o socialismo fundados no crescimento sem preocupações ecologicas levam ao extermínio da espécie!
Roger Garaudy já apregoava em 1979, no seu profético Apelo aos Vivos:
"o crescimento dos próximos 30 anos, sob pena de morte da espécie, não pode mais ter a mesma orientação nem o mesmo ritmo dos últimos 30 anos."

Concluo afirmando que, ao reelegermos o Lula, presidente, poderíamos também dar uma guinada em nosso modelo de crescimento, para um crescimento sustentável e ecológico, distanciando-nos do destruidor planetário G. W. Bush.

Eurico
Viva Deus, pequeno sou eu! 31/10/2006


O poema que a tal psicanalista disse-me que era sobre um assunto que não interessava a ninguém é esse aí. Isso em 1988. Confiram:

ELEGIA PÓS-MODERNA
ou Réquiem ao Futurismo

É preciso traduzir a náusea dos esgotos a céu aberto,
A lenta agonia dos canais imundos,
Escoadouros dos dejetos vis da máquina do mundo.
Quero versos oleosos e negros
Que exalem a fedentina dos peixes mortos
pelos milhões de barris de petróleo jogados ao mar.
Palavras pútridas e fétidas
Como a alma dos rios das cidades industriais.

Houve um tempo em que se cantavam odes triunfais
Fraques e cartolas saudavam fubicas velozes.
Mas os futuristas há muito mudaram-se para o campo
Apavorados com o rugido cruel dos motores McLaren.

Ó, adoradores do imediato,
Há motivo para exclamações eufóricas?
Hoje, um supersônico atravessa a Etiópia num segundo,
E nem por isso os negrinhos esquálidos sobrevivem à fome.

É preciso elegias e não odes.
Nossos versos não devem amar os antigos.
Façamos os versos para/odiá-los.
Na morte, para onde iremos, não há ciência ou indústria alguma.
E vos digo que Marinetti não leu uma linha sequer de Rudolf Clausius ou Sadi Carnot.
Saudava os automóveis num mundo laplaciano e
Com fontes inesgotáveis de energia.
Arre! Santa tolice!
Sobre as fábricas, sobre as gares das metrópoles modernas,
Pairava o irreversível anátema da entropia.

Era mentira a correria do progresso.
Havia um câncer na alma de aço do mundo.
Choremos, pois, à dolorosa luz das siderúrgicas,
Com seus fornos entrópicos, desagregadores e falidos,
onde arderam cadáveres proletários.

Novos profetas apregoam o fim de tudo!
(Entre eles vejo a cabeleira desgrenhada de Einstein)
Ogivas álgicas inauguram o apocalipse.
Baratas cascudas passeiam pelo parque, indiferentes.
E as criaturas perdidas na imensidão que enche a Terra
Olham o firmamento, angustiados olhos ardentes...

Tenho febre e escrevo:
Agora os poemas estão pejados de nojo.
Rói-me um cínico remorso:
Pertenço à raça abjeta de construtores dessa sociedade necrófila.
O que somos, além de um bando de aves de rapina?
Criaturas assombrosas e assombradas, digitamos programas genocidas.
Grandes máquinas soterram lagos.
Serras sórdidas ceifam florestas.
Ó civilização decadente e agonizante,
Ocaso caótico dos engenhos mórbidos,
Raça de víboras que morde a própria cauda!
Ó rodas... ó engrenagens enfraquecidas! Rangido obsoleto.
Mundo ferruginoso das máquinas esquecidas no pátio de manobras.
Espasmo retido dos maquinismos atrofiados.
Onde a fúria inconseqüente?

Tragam-me à cena os futuristas!
Velocíssimos computadores de quinta geração
Teleprocessarão dados dantescos:
Milhões de mortos na China;
Miséria nas favelas do Brasil e fome nas tribos africanas.
Distante, o brilho dos bólides sobre Guernica,
Chorem comigo lágrimas ardentes com os olhos japoneses de Hiroshima;
Assistam comigo aos mísseis pirotécnicos sobre o Vietnam.
E então eu lhes declamarei cloacas pestilentas
Rimas de vísceras de crianças mutiladas
Versos azuis de Césio 137.

No meu país os sofistas traficam leis no Planalto Central
Enquanto os filhos brincam games videotas cercados de seguranças.
É a nação dos que acordam sob as marquises e tropeçam bêbados na angústia.
Lá, os letrados insistem em dizer, em bom vernáculo:
Produzir é preciso!
Viver, não é preciso.

Por isso na há mais tempo para os poetas que se esgueiram pelos becos
Com elefantes escondidos entre os medos.
Nem se pode mais fugir pra Pérsia ou Gerais. Minas não há mais.
Mas há uma enorme pedra no caminho
E a vida humana exige a sua remoção.
Há metafísica maior do que cruzar com gente saudável e dizer bom-dia?
Há algum pecado em sonhar com uma menina a comer chocolates
E esperar que seu pai tenha um emprego para pagar a conta da Tabacaria?
É panfletário querer o poeta água limpa e comida nas mesas modestas?
Sim?!
Já não me importo!
Não há mais tempo.

A febre aumenta e ainda escrevo.
E ouço o ranger de dentes dos demônios do turno da noite.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a frieza disto.
Um frio entrópico disto totalmente imprevisível para os antigos
Que os gregos, os rabinos e Constantino
Morram asfixiados com o cheiro surpreendente das tintas e solventes
Da oficina de lanternagem!
E que os pequenos anjos do aroma sintético
Do pintor neobarroco Eugênio Paxelly, assaltem os passantes,
Ou sujem pára-brisas por moedas irritadas.

Gordas matronas empurram carrinhos repletos do inútil,
no Shoping Center Augusto Comte;
Aristóteles, zangado, faz careta ao fim do século.
Deliro, febril e convulsivo.
Digito, a custo, stop no remoto.
O vídeo perde o brilho estúpido e eu adormeço enquanto
Espero a morte lenta e contemporânea dos aidéticos
E os poemas escorrem do meu corpo, feridas purulentas e escuras,
Como os rios sem vida que cruzam a minha terra natal...