Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

Mostrando postagens com marcador mitopoese. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mitopoese. Mostrar todas as postagens

domingo, julho 31, 2011

CÁLIX



De pé sobre as águas
Ergo até a fronte, em brasa,
A Palavra.
Seu hálito me invade
E acende a porta, a estreita porta,
Vazada sobre a noite dos tempos.
Mesmo quando sobrevoa-me em círculos
A ave do ocaso:
Nada dizer.
Nenhum pensar.
Nada ser.
Chorar sobre a cidade agônica
E olhar-me de fora das muralhas.
Tenho um centro ou dilato-me centrífugo?
Todos os ninhos estremecem vazios.
Estou sem mim.
Mas há címbalos.



Luiz Eurico de Melo Neto

Poema também publicado, anos atrás,  em http://www.blocosonline.com.br/
por gentileza da amiga Leila Míccolis - Maricá-RJ
***********************************************


Imagem:
Solidão

Comentário deste poema em
Um Cronist'Amador


Ouçam, baixinho e reverentemente, Cálice -Chico e Milton:

quarta-feira, abril 13, 2011

Syrinx (flauta interior)














Súbito, um abraço
no Vazio

e a sensação
de que a Vida,
me escapa sempre,
e não faz nenhum sentido.

Apesar da taxonomia de Lineu,
dos exercícios (meta)físicos matinais,
com Alice no jardim;
e das dietas fáceis da auto-ajuda,
a Vida sempre escapa,
às margens desse rio.

Abraçar-se ao inesperado bambuzal
e adentrar em Pã.
Em pânico,
sem pai, nem mãe.
Sem o aconchego de um lugar conceitual.
Sem as respostas prontas para as perguntas
nossas de cada dia.

Abraçar-se, enfim, ao bambuzal
despido das noções
daquele mundo exato (e antinatural).

Quer vir comigo?
pergunta o Medo Imenso.

Agora, as mãos geladas.
As patas, trêmulas.
Mais animal que racional.
Vertigem em poço fundo.

Mas..., resta-me um flautim
:
Aos poucos, ir soprando
o ar, nos dutos d'alma de bambu.
Sentir a náusea ir se tornando
em ária. Arfante, o peito nu.
Ouvir, do bambuzal, sua voz de flauta,
fêmea, dulce, sensual.
E haurir, serenamente,
o Eros
dessa reconfortante vida trivial .
.........................

Eurico,
em autoterapia de ar puro, contra a anóxia desses dias.


Img flautista
http://aflautadepa.blogspot.com/









quarta-feira, março 16, 2011

M'BOIÚNA (sete serpes-linossígnicas)

Medusa
( imagem Google)



Desdobra-se em dobras, redobras,
por vértices e vórtices,
um ser de mil bocas
mil línguas
[in/tensa-cobra-mítica]

Quando,acuada, estertora prosódias,
                                            [sucuri-fônica]

Debate-se em rimas, plurirrimas assimétricas
    [áspide-rítmica]  .................................................

Tenta escapar do cerco
             [serpe-sintática]

                               Enrosca-se sobre si
[jibóia-morfológica]

Estruge, ruge,
                                 [anaconda-simbólica]

                                 Engole a própria cauda
[m'boiúna verbofágica]


E reverbera em verbos
...semióticos guizos...

 [linossignos ]

        guizos...
                                             [linossignos]
                                                                                    guizos...
                                                                          [..................]
                                                       
                                                                 guizos...           
                                                                                                  
                                                                                              [...p o e s i a...]                     






Fonte da imagem:
http://www.tonomundo.org.br/

sábado, março 06, 2010

Feminina (ciranda mitopoética)



"a vida vem em ondas como o mar" (Lulu Santos)


A consciência é profunda e marinha
e a vida é ondulada...
Ai... a vida é a in/exatidão feminina do mar!

Estava na beira da praia, na beira do mundo,
olhando o que há...
me veio por dentro essa onda
com a força do vento nordeste, girando no ar...
A praia era um abismo azulado,
era a beira de tudo,
essa coisa de fora
esse Estar.
A alma, molhada por dentro,
lembrava-me um útero, em um outro lugar.

Estava na beira da praia, olhando a ciranda
das ondas do mar.


A essência das águas me chama
é um doce acalanto, uma canção de ninar.
A água do abismo me ama,
e me faz levemente boiar.

A consciência é profunda e marinha
e a vida é a in/exatidão feminina do mar.


***

(singela homenagem aos seres femininos
que harmonizam a crosta desse planetinha azul)


Salve o 8 de março,
mas, todo dia é, em essência, Mulher!


segunda-feira, julho 20, 2009

Arquitetura Volátil (sculptores lapidum liberorum)





























Gn. 28:12,13




Essas paredes ascendem
por verticais monolíticas;
Saem do chão abruptas
Fundadas na pedra bruta.
Sete carreiras, na rocha
Lapidada em cantaria.

Erguer degraus é poesia?

Alvenaria abstrata,
Frases de argamassa e cal.
Essa peleja não é vã:
Tirar arestas à pedra;
Erigir versos de arrimo
E por a prumo as vertentes
Du'a volátil escadaria.



@@@@@@@@@@@@@@@@


Fonte da imagem:
O Sonho de Jacob

@@@@@@@@@@@@@@@@

P. S.:
Retomando uma parceria antiga, com o Carlinhos do Amparo, desde os tempos do Eu-lírico impresso, em que ele fazia um breve comentário aos meus poemas , a partir deste Arquitetura Volátil, o leitor poderá, se quiser, clicar em Resenha Poética, para ir ao blogue Sítio d'Olinda. Lá estarão as inusitadas "explicações poéticas" do meu compadre Carlos Pequeno do Espírito Santo, filodóxo e hermenauta das Olindas. Divirtam-se!

@@@@@@@@@@@@@@@@

terça-feira, junho 23, 2009

Reencontro com Pã (brincadeira poética ou arranjo fictício?)


Releitura em O Quarto, de Van Gogh




Calçar as velhas pantufas de couro de cabrito, era só o que eu queria ao chegar em casa. Eram eles, os chinelos velhos, o meu vínculo comigo. A certeza de não estar fora da órbita normal dos fatos cotidianos.

Li, outro dia, nem sei mais onde, que Rembrandt contornava com uma auréola, como a dos santos, pequenos objetos de seus quadros:

Um gato,
Um cachimbo,
Um par de botas.

Mesmo nos quadros mais solenes, nas paisagens mais majestosas, algo considerado banal recebia um, como que, fanal, a iluminar a peça, de modo que, antes insignificante, comum ou trivial, projetava-se, agora, a coisa aureolada, de encontro ao observador, como a lhe dizer:

Cá estou eu!
Humilde objeto, mas com reverberações em tua alma.
Fincar-me-ei no teu inconsciente.
Eu, oculto morador das tuas sombras,
coisa latente, venho à superfície,
para fazer-te estranhar o que te é familiar.

Enfim, depois de tantas desventuras, na velha estrada de meus ancestrais, cheguei em casa. Corri pros meus chinelos! Cansado da estrada carroçável, dos enguiços de motor, das maçadas. Ufa! Os pés sentiam falta do conforto das pantufas.

Abro a janela, por onde entra a aragem do nordeste; então escuto um assovio estranho, enigmático. Lembra-me a voz de uma flauta de caniços. Talvez, o silvo de um fauno, brinco com meus botões. Deve ser coisa da ventania, penso eu, enquanto procuro, tateando sob a cama, as minhas pantufas. No entanto, um troço duro feito uma ferradura, é o que sinto na ponta dos dedos. Olho para os meus pés e um calafrio me sacode.

Lá fora, o solo de pífaros da ventania continua.
Um arrepio me vai atravessando a espinha.

Olho outra vez pra baixo, entre receoso e intrigado, e vejo, como saída de um quadro de Rembrandt, uma auréola azulada a envolver meus velhos chinelos, ora transformados, só Deus sabe como, em dois bizarros pés de bode. (rsrsrs)

























########################################################


Nota:
Só um fauno, pra me fazer publicar essas minhas brincadeiras infantis... rsrsrs

Releia o miniconto, ouvindo Prelude L'Apres-Midi D'Un Faune, de Debussy:




########################################################

Fonte da imagem:
Releitura de "O Quarto" de Van Gogh








segunda-feira, junho 22, 2009

Syrinx (flauta interior)




























Súbito, um abraço no Vazio
E a sensação
De que a Vida,
ninfa ligeira, que me escapa sempre,
Não faz nenhum sentido.
Apesar da taxonomia de Lineu,
Dos exercícios meta/físicos matinais,
com Alice no jardim;
E das dietas fáceis da auto-ajuda,
A vida sempre escapa, às margens desse rio.

Abraçar-se ao inesperado bambuzal
E adentrar em Pã.
Em pânico,
Sem pai, nem mãe.
Sem o aconchego de um lugar conceitual.
Sem as respostas prontas para as perguntas
Nossas de cada dia.


Abraçar-se ao bambuzal
despido das noções
Daquele mundo exato (e antinatural).

Quer vir comigo?
pergunta o Medo Imenso.

Agora, as mãos geladas
As patas, trêmulas.
Mais animal que racional.
Vertigem em poço fundo.

Mas, resta-me um flautim.

Aos poucos, ir soprando
o ar, nos dutos d'alma do bambu.
Sentir a náusea ir se tornando
em ária. Arfante, o peito nu.
Ouvir, do bambuzal, sua voz de flauta,
fêmea, dulce, sensual.
E haurir, serenamente,
o eros
da reconfortante vida trivial .

.........................Luiz Eurico de Melo Neto


Img flautista
http://aflautadepa.blogspot.com/

sábado, maio 30, 2009

Anima (uma presença não-dita)




O inefável
traz colares e pulseiras
e salta
desde um mundo elemental.

O inefável
traz a pele tatuada
e torna
público algum mistério essencial.

O inefável
cinge a fronte com segredos
e sob os pés
ostenta o círc'lo armorial

O inefável
não conhece os altos muros.
Desloca as coisas, abre portas, faz futuro.

O inefável
é essa anímica presença
que se respira
e ateia o fogo original.
***

“...O mito talvez seja o constructo psicológico e cultural mais importante de nosso tempo. (...) Em uma cultura comprometida com o mundo da matéria, o acesso ao mundo invisível – que o mito torna possível junto com seus dois principais instrumentos, metáfora e símbolo – nunca foi tão crucial, para permitir algum equilíbrio do espírito.” James Hollis

A propósito, já que a prosa tenta invadir o Eu-lírico, gerando a indesejável interpretação do autor sobre o poema, leiam algo que anda me fazendo a cabeça:

A Alma Ancestral do Brasil

******************************


sexta-feira, maio 29, 2009

Aurora brasílica (lenda junguiana)


imagens google

*
Eis a alva!
Mãe de antemanhã.
O Sol
era uma fruta madura
que respingava reflexos de ouro
sobre a pele verde da mata espessa.

Brilhava a aurora luminosa!
E o húmus guardava as raízes da vida.
*

Ao contemplá-la, assim,
desnuda e sem véus,
sinto aflorar em mim, a emoção mais longínqua.
Oiço, bem dentro, num sussurro de milênios,
u'alma feminina e ancestral.
*
Havia um ermo anterior,
antes mesmo que aqui aportassem
as naus dos povos do crepúsculo.
Guardo, nos meus cromossomos,
essa arqueologia remotíssima,
de vozes, de gestos,
de construções de sentido.
As percepções das gentes aurorais.

Sim, eis a alvorada,
mítica mãe de um Mundo imemorial!

Do ventre dessa terra prometida
eclodiam seres aquáticos...
Não haviam as paredes de então.
Nem essas babélicas edificações.
O Sol
andava em Peixes...
E havia apenas manhã.
Alva e fêmea.
Era mãe e mulher.
Nela eu estive ab origine.
Ali eu estava de pé!
***

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Mitopoese III: Aphrodite


Dos olhos saltam peixes imprevistos,
não há punhais.
As mãos são aves, ágeis, finas.
Luzes feéricas ao seu passar,
cabras e carneiros no caminho de seus pés.
Acendam-se os luzeiros da noite:
Ei-la!



Eurico



***********************************

clique na imagem de Vênus
e conheça o sítio original
*************************************


Comentário deste poema em
Um Cronist'Amador

Publicado originalmente em
Blocos Online

domingo, junho 01, 2008

Mitopoese V: CONCEIÇÃO



Boiar
na água azul primacial...
Sentir
a fonte cálida e vital...
Buscar
raios da luz inicial...
E ser,
apenas Ser,
no amanhecer essencial...

Brotar
do alvéolo, n/ovo original...
Saber
desse regaço maternal...
Ouvir
cantar a ave inaugural...
E ser,
apenas Ser,
num alvorecer atemporal...



Eurico
poema sem data

Fonte da imagem:

quinta-feira, maio 22, 2008

Tupã m'tói



No princípio era o medo, pavor original...
*
Verde lama genésica, pântano mítico,
profundo e verde Tempo Anterior...
*
Um nume tremeluz sobre a maré sombria.
Relampejam augúrios do Trovão:
Fulgurações aórgicas, protopoíesis.
Undialvas palavras acopladas
na aurora da forja transumana.
*
Eis o nada que é tudo!
Coruscante, rasga os céus
um grito brilhante e abrupto.
O estrondo vivo de Deus
ab absurdo.
...


Eurico
poema sem data

sexta-feira, abril 11, 2008

Eu-lírico nº 3 (reedição-formato blog)



capa do Eu-lirico 3 - meados de 1994



Nota: cada edição do meu zine-collage trazia um poema,

Neste número 3, aparece também um posfácio.



****************************************



Mitopoese I: o Unicórnio



...Jaz a Noite Imensa sobre o mangue...

A Cidade surge antes,
das enchentes, das vazantes
fundação amorfa, sem face, vazia...

A Cidade emerge, ser eqüestre,
Alça as patas, veste a ventania,
Galopa vadia, égua numinosa.

A Cidade avança,
Besta airosa,
E aponta para o Atlântico o seu chifre calcário.

A Cidade é vária:
Puta dos batavos, marranos, mascates.

Múltipla, mistério:
Vila pescadora com matrizes míticas;
Titãs com tarrafas, jêjes argonautas,
Ninfas pomba-gira, reis iorubás.

A Cidade é anfíbia:
Ilhas de enxurradas,
Sertões arribados sobre palafitas.

(ouve-se o relincho de uma gente aflita...)

Antes, muito antes,
A Cidade dá cria (protopoesia?)
Sobre os arrecifes que detém o mar.

Vaza a Noite um imenso alfanje:
Ouve-se um vagido.
O sangue, rubro veio, escorre

e tinge o umbigo da pedra
do Reino do Amanhã

(ouve-se, em alarido, a turba;
ouve-se um trotar...)


Eurico
1994


***************************************


UM BREVE COMENTÁRIO

por Carlinhos do Amparo




O poeta não filosofa, confunde.
A ele não cumpre investigar o Universo, nem a História,
mas entregar-se amorosamente às forças do sonho,
mergulhar no aórgico, na palpitação jubilosa das origens do ser.
E a origem do ser, como dizem os doutos, dá-se na Poesia.
Qualquer dos doutos: Fichte, Schelling,
ou o nosso, brasileiríssimo, Vicente Ferreira da Silva.
"O mito é em substância Poesia", diz-nos um deles.
"Não é a história que faz o mito, mas o mito é que faz a história", diz-nos um outro.
Pois bem, Mitopoese I: o Unicórnio é o encontro poético
com as matrizes míticas, com a Noite Imensa,
com o Antes, com a Criação.
Em uma dionisíaca revelação,
o poeta foi buscar as fundações mitopoéticas
da Cidade que o trouxe ao Ser.
Confusos?
Não é filosofia. É Poesia.
Poemem-se.

(Carlinhos do Amparo é escritor olindense.)


********************************************************************************************


À GUISA DE POSFÁCIO:



Rompo um insulamento de vários anos

em que vivi entre leões osmanianos

ou na clausura das efabulações.

Trago os fantasmas, grifos voláteis

que me tocaiam nas entrelinhas.

Abro a janela: EU-LÍRICO

por ela escapa o imaginário,

meu arsenal de indagações.

Todo poeta traz o flanco nu

e adentra a arena.

Essa é a senha: não são moinhos, são gigantes!

Que se derreta a cera dessas asas.

O que me importa é essa luz, é o Sol.


Eurico
1994