Uma Epígrafe
"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]
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terça-feira, dezembro 18, 2012
VIDA SECA
Não há muito por dizer
e as palavras que restaram estão gastas.
Errar, légua após légua,
assim por dentro, um ermo.
Errar pelo deserto
à busca de mim mesmo.
Toda essa luz na estrada e a boca seca.
Só me resta essa demasiada sede de viver.
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AbARCA
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sexta-feira, agosto 03, 2012
DEMARCAÇÃO DA POESIA Nº 1
Ao meu mestre e amigo Emanuel Bezerra de Brito
Meu canto é que nem um filete d’água
minando a pulso de um lajeiro.
É assim, arrastado, gutural,
canto monossilábico, melopéia pungente,
arrancada da pedra que sangra no reino de meu peito.
Canto esse meu canto agoniado, esse relincho, esse mugir,
essa infralinguagem,como a linguagem dos bichos
que tanjo em meu sertão profundo..
Vou cantando e tangendo esse gado invisível,
por entre espinharas sibilantes e seixos esbraseados.
Meu canto germina,
feito um cardeiro em minha alma de abrolhos,
na solidão e no silêncio,
durante as léguas tiranas dessa caatinga interior.
Dessa terra rachada e sem húmus,
exsurge um léxico raquítico,
vocábulos mínimos
que se alongam, tristes aboios, mugidos,
na minha garganta rouca e ressecada.
Com a morte em minhas lembranças
e a dor em minhas andanças,
canto uma agonia fechada, solitária,
universo parco de cabras e pedras,
quase sem palavras com que se cantar.
Eurico
in: Ser Tão Profundo/Mangue Interior
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segunda-feira, julho 30, 2012
CHAPADA DO ARARIPE

Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.
Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...
Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!
Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...
Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...
Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?
Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.
Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)
Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:
Nada... nada... nada...
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Sertão de Pernambuco
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quarta-feira, março 23, 2011
TAIPA
Minh'alma
uma velha casa de taipa encardida
num perdido rincão
esses sertões...
a minha alma deserta e milenária.
Paredes rubras, a minh’alma,
barro curtindo ao sol
e uns oleiros ébrios à sombra do poente...
Ó minha alma, soçobro!
O balido dos rebanhos de cabras nos terreiros
e eu, ainda sóbrio.
A minh’alma sedenta, sem Deus.
E te ausculto, minh'alma
E te oiço, minh'alma
de alhures, te miro
na pátina de nossas construções exteriores...
os dedos demiurgos na lama avermelhada
essa argila descorada,
a minh’alma de taipa
Um oleiro ébrio brinda ainda,
nos debruns da tarde,
a casa erguida com as próprias mãos:
A Deus!
Há Deus?
Minh'alma esboroa-se...
Frágil e deserta.
Adeus.
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http://fatosefotosdacaatinga.blogspot.com/2010/08/seca-e-os-animais-na-caatinga_08.html
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terça-feira, março 22, 2011
CARCARÁ (linossignos onomatopaicos)

O Carcará
(volataria rés-do-chão, ou um close-up cabralino)
O carcará é o eco do eco,
Do eco seco,
Onomatopaico eco.
Falcão modesto
E sem estirpe
Que, não se apresta, de resto,
Aos exercícios fidalgos
Da caça em volataria.
Voa rés-do-chão, rasante,
Vôo sem nada elegante
Aqui mesmo, nas barrancas
À jusante ou à montante,
do leito seco do rio.
Tem um pouco de caprino (cabra alada?)
Quando escava o chão infértil
No vão das palmas de espinhos,
caçando o rato-preá
que se esconde entre as raízes.
Um pouco de cabra ou de ema,
Outra ave de pouco senso,
Pois não escolhe alimento.
Come tudo. Rato, lagarto e cobra.
Outra ave de pouco senso,
Pois não escolhe alimento.
Come tudo. Rato, lagarto e cobra.
E por que haveria de escolher
entre as pedras da escassez?
Vai reto e certeiro, ao ponto.
Bicho do mato, agreste e rude,
Não faz o arrodeio e o rito
Funéreo, assim como o abutre
Que espera a morte matar.
A fome, que dá sentido
Ao seu jeito de caçar,
Não lhe permite a espera.
E nem se diz que ele caça,
Pois caça é arte mui nobre,
Pra um bicho pobre e sem raça
Pra um bicho sem sobrenome.
O carcará vai bem reto
Guiado por sua fome
Não metaforiza a lida,
Não tem pena, não vacila,
Que nenhum dó lhe consome.
Pega e arrasta a lagartixa
Abre-lhe o ventre
E, ali, come.
Lições de vida
Pros homens,
Crias da caatinga braba,
Ventres e bocas aflitas,
São os carcarás e as cabras,
Emas, ratos, lagartixas;
Lições de vida
E de morte.
De fado, de sina e sorte,
Homem e bicho
Vai reto e certeiro, ao ponto.
Bicho do mato, agreste e rude,
Não faz o arrodeio e o rito
Funéreo, assim como o abutre
Que espera a morte matar.
A fome, que dá sentido
Ao seu jeito de caçar,
Não lhe permite a espera.
E nem se diz que ele caça,
Pois caça é arte mui nobre,
Pra um bicho pobre e sem raça
Pra um bicho sem sobrenome.
O carcará vai bem reto
Guiado por sua fome
Não metaforiza a lida,
Não tem pena, não vacila,
Que nenhum dó lhe consome.
Pega e arrasta a lagartixa
Abre-lhe o ventre
E, ali, come.
Lições de vida
Pros homens,
Crias da caatinga braba,
Ventres e bocas aflitas,
São os carcarás e as cabras,
Emas, ratos, lagartixas;
Lições de vida
E de morte.
De fado, de sina e sorte,
Homem e bicho
Bicho e homem.
Fauna em flora estiolada.
Juntos na mesma desdita.
***********************************
Eurico,
reeditando signos cíclicos...rsrs***********************************
Eurico,
***********************************
Éverton Vidal.
sábado, março 19, 2011
UAUÁ (linossignos oscilantes)
![]() |
| Pirilampos (in Firefly Flashing) |
Chegaríamos na noite,
noite profunda,
noite ignara e hermética,
depois duma escuridão de léguas...
O sereno, no entanto,
molhava as c'roas e as palmas
e nos breus, de instante a instante
flutuavam
dois fonemas oscilantes
Uauá
lume aceso que se apaga,
que outra vez lucila e apaga,
lume que vaga, e não vaga
pelas barrancas do arroio
Uauá
(borbulhar luminescente...)
E eu que tinha algo a dizer,
Calei-me.
Na noite densa,
gelada, feito a orla do deserto,
deu-me um calafrio de tragédia.
Naquela chã, ainda ecoa o genocídio
:
As estrelas eram os olhinhos
das menininhas tapuias que as gentes viam na noite.
Apagaram-se as estrelas.
As indiazinhas, também.
Restaram os vagalumes, soluços de luz,
Uauás (so)lucilantes.
Rio-abaixo,
mais adiante
era Canudos, Bello Monte,
à jusante
do velho Vaza-barris...
Era Canudos, num é mais.
Nosso Senhor assim quis...
Lá, meus irmãos, no entanto,
já não brilham pirilampos, como brilham por aqui
:
Furaram os olhos dos santos
e inundaram a Matriz...
Eurico
"em viagem, metonímica e sinestésica, pelos sertões"
Fonte da imagem:
Pirilampos
quinta-feira, dezembro 23, 2010
D'US NA CAATINGA (invernada e conação)
“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV, da Ética de Spinoza,)
Faz três noites que relampeia...
Ribombam trovões na caatinga.
Estou sem mim.
Vaga pela noite o que eu julgava ser.
Olhos nômades, intumescidos de esperança.
Clarões no horizonte.
A noite rasgada por luzes.
Fluxos coruscantes.
Apalpo-me.
Não tenho em que me tocar.
Sou relâmpagos.
Fui.
Sou ainda.
Isso persevera em mim e em mim se ama.
Sou esse arbusto em chamas.
Quando desabar a chuvarada,
jatos de fogo e água, de ar e terra,
Serei manhã.
Serei saúde.
Serei a vontade de ser que já sou.
Encharcado de D'us, que nem Baruch...
Fonte da imagem:
Raios no sertão
quinta-feira, dezembro 16, 2010
NA VELHA ESTRADA DE IBIMIRIM (cismas no ocaso)
Era estreita e sinuosa
a antiga estrada de Ibimirim.
Os pequenos aclives nos tiravam a visão.
Num fim da tarde, uma boiada
surgiu no horizonte, vagarosamente.
Ágil e presto, o motorista, em ziguezagues,
nos salvou do choque.
Seguimos ilesos, bois e passageiros.
Nunca me esquecerei dos grandes olhos daquele boi manso,
em minhas retinas tão fatigadas.
A viagem seguiu serena.
Somos pequeninos e frágeis sobre rodas.
Somos pequeninos e frágeis, sempre.
A parte disso, temos tantas certezas,
tantas fortalezas,
confiamos em nosso absoluto domínio
sobre as coisas em derredor.
Quando voamos na autoestrada,
rimos, confiantes, feito as formigas sobre a mesa,
antes de lhes
darmos um piparote.
É...
o mundo não anda nada poético...
Tento entender o que diz um telejornal.
Explico-me:
tento tirar algo mais do que dados economicos,
estatísticas de mortes no trânsito,
performance das vendas do Natal;
quanto há ali de profundamente humano,
quanto há de esforço pela compreensão da vida humana...
Queria ouvir falar de valores, não os da bolsa.
Aliás, valor é uma palavra dúbia,
e sob certo sentido, obsoleta.
Não se adequaria num telejornal.
Como encaixar valor, neste cenário pós-moderno?
Eis que estou a tresvariar.
A boiada... os olhos do boi manso pelo retrovisor...
O susto.
Sob o impacto de certas emoções,
fica difícil dizer algo coerente.
Muito mais dificil fica a poesia...
Sabe, aquele ágil motorista, o que nos salvou a vida
na velha estrada de Ibimirim, soube dele dia desses...
a bebida...
a tristeza...
a velhice... as perdas,
Essas coisas que não ficam muito claras nos telejornais...
Esse sentido da vida... se há nela algum sentido.
A necessidade de ser veloz, de fugir de si mesmo...
Os ziguezagues da estrada...
As perdas no meio do caminho.
Essa enorme e abstrata pedra...
...que a viagem dele tenha sido serena...
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Uma velha estrada
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segunda-feira, dezembro 13, 2010
CHAPADA DO ARARIPE (de volta à superfície)

Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(Como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.
Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...
Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!
Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...
Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...
Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?
Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.
Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)
Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:
Nada... nada... nada...
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Sertão de Pernambuco
domingo, dezembro 12, 2010
NOITES DE PAZ (presépio interior)
É quase Natal.
Vou fugindo por essa estrada sertaneja, feito rês desgarrada.
As alpercatas ressecadas
pisam pedregulhos,
os santos pedregulhos desse sertão profundo.
Mas e o Oriente?
Pra que lado fica?
Sei que nada é assim tão fácil de crer...
Há um centro de convergência dos sentidos,
das significações dessa existencia.
Isso que Adélia Prado chama de Deus.
Isso: essa experiencia poético-pensante do Ser.
Isso me entusiasma.
Logo, o que não me entusiasma, não é Deus...
Num radinho de pilhas, um homem
anuncia, com voz bela e empostada
:
"As vendas devem aumentar de 12 a 13%,
em relação ao ano passado.
A economia cresceu e o povo está feliz."
Eu não estou feliz.
Nem sei porque.
Minhas emoções estão impermeabilizadas.
Nenhum desses produtos me agrada.
Sou o 0% do consumo.
Sou o nada.
E por isso mesmo tomei o rumo dessa estrada interior.
Busco algo instintivo, algo sagrado em mim,
um religare introjetado em um gene qualquer.
O tal grão de mostarda.
A fé.
Mesmo que seja a fanática fé dos habitantes do arraial de Canudos,
ou dos que davam suas crianças em sacrifício, na Pedra Bonita.
A Fé.
Deve habitar em algum lugar psíquico.
Mas, sem essas luzes piscando.
Sem essa saturação de cores.
Sem esses monótonos clichês.
Fechar os olhos.
Retornar à estrada empoeirada.
Quem sabe pousar numa estrebaria.
Deitar entre a forragem de palmas, de mandacarus.
E achar ali um místico presépio,
um centro de irradiação de Deus.
Um delírio. Um desdobramento.
Algo menos ridículo que os feéricos presépios , nos centros de compras.
Por quem morreu o beato Antonio Vicente?
Por quem sangraram as mãos de Francisco Bernadoni?
Pela fé, pela loucura, por nada?
Há um centro de convergencia das significações do ser,
disse Adélia Prado.
Dolorido, difícil de achar, mas, verdadeiro.
Guardo-o aqui,
em meu ser tão profundo,
num aboio distante,
na noite que cai,
no zurrar de um jumento,
e no chocalho dos bois.
Tenho aqui uma manjedoura verdadeira,
onde comem as cabritas e as ovelhas,
e em que acredito,
vejo e apalpo como o bom Tomé.
Ouço-as até ruminar e balir.
Seria esse meu centro de sentido?
O meu nervo do divino?
Estaria aqui, também escondido, o Menino-deus,
com pavor dos fogos de artifício
e fugindo daquele obeso senhor de agasalho vermelho,
que sempre lhe rouba o dia natalício?
Não sei.
Sei que eu estou fugindo.
E aqui já é quase Natal...
Silencioso natal das solidões ancestrais.
Nos sertões, nas estepes, nos desertos há noites de paz...
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Magos e Estrela
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sábado, dezembro 11, 2010
UAUÁ (linossignos oscilantes)
Chegaríamos na noite,
noite profunda,
noite ignara e hermética,
depois duma escuridão de léguas...
O sereno, no entanto,
molhava as c'roas e as palmas
e nos breus, de instante a instante
flutuavam
dois fonemas oscilantes
Uauá
lume aceso que se apaga,
que outra vez lucila e apaga,
lume que vaga, e não vaga
pelas barrancas do arroio
Uauá
(borbulhar luminescente...)
E eu que tinha algo a dizer,
Calei-me.
Na noite densa,
gelada, feito a orla do deserto,
deu-me um calafrio de tragédia.
Naquela chã, ainda ecoa o genocídio
:
As estrelas eram os olhinhos
das menininhas tapuias que as gentes viam na noite.
Apagaram-se as estrelas.
As indiazinhas, tambem.
Restaram os vagalumes, Uauás lucilantes.
Rio-abaixo,
mais adiante
era Canudos, Bello Monte,
à jusante
do velho Vaza-barris...
Era Canudos, num é mais.
Nosso Senhor assim quis...
Lá, meus irmãos, no entanto,
já não brilham pirilampos, como brilham por aqui
:
Furaram os olhos dos santos
e inundaram a Matriz...
Eurico
"em viagem interior ao sertão de Canudos"
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sexta-feira, dezembro 10, 2010
MEDITAÇÕES EM VAZA-BARRIS (predição de wikileaks?)

1
Busco a nascente inundada do Vaza-barris e medito.
Quanta sabedoria a dos profetas,
a dos videntes,
a dos utópicos e a dos beatos dementes...
Quanta presciência...
2
Mediam-nos os crânios decapitados
e nos expunham em praça pública,
os detentores duma pseudo-ciência.
Que tipo de saber lhes coube, lhes cabe?
O que aprenderam em nossos crânios, não sei.
Mas percebo seus efeitos
na civilização (entrópica) de que se ufanam.
(Ajunto numa pequena cuia de pedinte em Bello Monte,
toda a pretensa teoria desses Lombrosos e Comtes.)
E não mais me estendo nessa prosa,
posto que é prosa isso que ledes,
prosa p(r)o(f)ética:
"Há de chegar o tempo em que todas as perfídias ocultas
virão ter à luz do Sol..."
Sobre Wikileaks:
"No inglês, a palavra leak remete ao germânico lechzen ("ressecar", "produzir sede"). O sentido de "tornar conhecido algo sigiloso" data do início do século XIX." Gabriel Perissé
Leia mais sobre em... Massacre de Canudos
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Cantiga da Flor de Cacto

Há um logos da caatinga
que me circunda e sou eu.
Nessa flora estiolada,
palpita um nervo de D'us...
Fiz inúteis cavalgadas
a procurar quintessências.
Regressei de mãos vazias.
Minha alma então cansada
de deambular por chapadas,
cruzando o sertão bravio,
voltou-se pras minudências,
e desvendou, ad-mirada,
na flor que enfrenta o estio,
o mistério da existência.
Quase palpei com as pupilas
a miúda flor de cacto,
essa líquida ironia,
que umedeceu minha alma.
E a divindade, buscada
por inacessíveis plagas,
brotou ao alcance da palma
de minha mão estendida,
na flor da beira da estrada.
Há um logos da caatinga
e o que me circunda sou eu.
Na vegetação rasteira,
palpita um nervo de D'us...
que me circunda e sou eu.
Nessa flora estiolada,
palpita um nervo de D'us...
Fiz inúteis cavalgadas
a procurar quintessências.
Regressei de mãos vazias.
Minha alma então cansada
de deambular por chapadas,
cruzando o sertão bravio,
voltou-se pras minudências,
e desvendou, ad-mirada,
na flor que enfrenta o estio,
o mistério da existência.
Quase palpei com as pupilas
a miúda flor de cacto,
essa líquida ironia,
que umedeceu minha alma.
E a divindade, buscada
por inacessíveis plagas,
brotou ao alcance da palma
de minha mão estendida,
na flor da beira da estrada.
Há um logos da caatinga
e o que me circunda sou eu.
Na vegetação rasteira,
palpita um nervo de D'us...
***
N. do A.: cantiga dedicada aos poetas blogueiros,
cuja clareza textual me faz buscar a simplicidade,
que julgo não alcançar, mesmo nessa espécie de xote.
cuja clareza textual me faz buscar a simplicidade,
que julgo não alcançar, mesmo nessa espécie de xote.
***
fonte da img.:
.
Alcácer-quibir revisitada

Uma monocromia armorial
dedicada a Dom Ariano Villar Suassuna
Vermelhidões no poente,
céu sangüíneo, incandescente.
Da porfia oiço o alarido:
Rezas,
.......rajadas,
...............rugidos.
sonho um sonho mal dormido:
de morte, em luta renhida,
foi Dom Sebastião malferido?
Feito de sonho é o que vejo:
estranhos carros de fogo
cruzam os céus sertanejos.
Ungem de luz a caatinga
Essas flamejantes bigas.
Vermelhidões no poente:
Seriam sarças ardentes?
Nos sertões os céus tão rubros:
sangue na chã de Canudos?
Ao longe oiço estampidos:
raios,
......trovões
............. e gemidos...
Vermelhidões no poente
rumores de gado e gente
clamor do sangue inocente:
hereges sangrando os crentes?
sonho um sonho mal dormido:
de morte,( ouço o rugido)
foi o Prinspe atingido?...
Vermelhidões no poente:
crepúsculo enceguecente,
E, em estranho disco de fogo,
vejo Dom Sebastião soerguido...
Eurico
Fonte do texto:
meu inédito, Ser/tão profundo - Mangue interior,
Fonte imagem:
Batalha de Alcácer-quibir
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quinta-feira, dezembro 09, 2010
AÇUDE COCOROBÓ

"ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. (...)" Euclydes da Cunha
Sentei-me às margens do Cocorobó,
e chorei copiosamente.
Pranteei os loucos,
os deserdados do mundo,
os sem-teto, os sem-terra, os sem-história.
Os zé-ninguém,
aqueles, paupérrimos de espírito, de N. S. Jesus Cristo.
O Sol da tarde ia sumindo no horizonte e eu
dependurei meu alforje nas galhadas dos salgueiros.
Fiquei matutando, cá com minhas armoriais tristezas:
os filhos da República mais avançada do mundo
morrem de obesidade mórbida;
a República do povo do D'us único
ameaça seus vizinhos com a bomba;
as modernas metrópoles republicanas,
com sua arquitetura e urbanismo,
sua ciência e tecnologia,
estão quase sem ar puro pra respirar...
Apocalíptica ironia do mundo moderno:
Ninguém os toma por loucos.
(Os loucos estavam mesmo em Canudos e eram
miseráveis hereges e monarquistas)
Submersas sob Cocorobó,
as ruínas de nossa Atlântida sertaneja:
cidadela dos santos loucos,
dos fanáticos visionários,
(e quem sabe, até, dos nossos primevos comunistas)
Submersa a capela dos heróicos ébrios de Deus.
Uma tentativa (inútil) de banir sua memória,
com essa inundação infame e letal.
De meu peito intra-histórico
verto essa lacrimosa ladainha sebastianista...
E creiam-me, os que aquecem o planeta
com milhões de fornos entrópicos e suicidas,
"O mar, senhores donos do mundo, há de virar sertão!"...
*************************************
Eurico, mergulhado no sertão de Cocorobó.
(com a permissão visionária do eu-lírico)
Fonte da imagem:
Canudos submersa
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Mandacaru em flor

Olhai para as flores do campo ...
Mt 6:28
Das rotinas profundas
de seiva e de caules,
repetindo gestos,
pacientemente,
careço entender...
Que os momentos são copas do tempo.
Que a corola da flor é o momento presente.
Vem da erva que brota do chão,
da semente,
todo esse vigor.
Vem da alma da terra,
essa mente,
essa e/terna/mente.
Vem do viço da terra,
da hera, das eras,
do trabalho incessante
do tempo em aquíferos fundos,
profundos abismos
e grotas da terra exsicada...
repetindo gestos,
pacientemente,
careço entender...
Que os momentos são copas do tempo.
Que a corola da flor é o momento presente.
Vem da erva que brota do chão,
da semente,
todo esse vigor.
Vem da alma da terra,
essa mente,
essa e/terna/mente.
Vem do viço da terra,
da hera, das eras,
do trabalho incessante
do tempo em aquíferos fundos,
profundos abismos
e grotas da terra exsicada...
*
Ó, Flor da Água e do Tempo,
me ensina a esperar!
***
Eurico
com o Sertão aflorando n'alma
******************
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terça-feira, dezembro 07, 2010
BELÉM (o milagre das águas)

Quando vem a invernada e a ventania,
o milagre e a poíesis se confundem no sertão.
Dos poros da areia estéril
emergem filetes d’água
que, descendo dos barrancos,
soprados pela espinhara,
vão tornando as enxurradas
em multidão de afluentes:
Riachos
da Conceição,
dos Serrotes Brancos, Quixaba,
do Meio, da Santa Fé, de Baixo,
do Paraguá, Vaca Morta, do Sebo,
do Pau-Ferro, Pequeno, Ouricuri,
do Juazeiro, da Porta, do Umbuzeiro,
das Caraíbas, da Malhada Grande, Pocinhos, Tigre,
do Mateus, Caroá, Arapuá, Ipueira, Fechado, Traíras, Jequi,
Arroios
dos Brandões,
da Pedra, Fundo, Grande, Talhado, do Saguim,
de Baixo, da Serra, da Boa Esperança, Saco dos Cavalos,
da Macambira, do Logradouro, do Mocó,
do Retiro, da Simpatia, do Moleque, da Cachoeira,
da Pedra, da Estiveira, do Simões,
do Capim, do Cachorro, do Mulungu,
da Ingazeira, do Serrote, S. José,
da Várzea, do Iço, do Capim Grosso, Bom Viver,
da Tocaia, das Ipueiras, do Moselo, do Caldeirão, Água Ruim,
do Mari, das Pintadinhas e das Cabaças.
Brotam do chão seco as Lagoas
da Jurema, de Dentro,
do Campo Comprido, do Pajeú, da Areia, Grande,
do Tapuio, dos Algodões, da Espadilha, do Pombo,
dos Pregos, da Vassoura, da Malhada Vermelha, de Santana,
da Pedra Vermelha e das Pintadinhas,
E os abençoados Açudes
Riacho Pequeno e o Poço da Caatinga.
Tudo isso é pura poíesis!
Milagrosa hidrologia!
E pensar que há um imenso lençol de águas claras
sob a sedenta e semi-árida Cabrobó,
que se estende, subterrâneo, até a nossa Belém,
do São Francisco.
Os geólogos, incréus, afirmam que
a permeabilidade do solo sertanejo
foram o ensejo
para que esse imenso aquífero
escapasse da evaporação do Sol causticante.
Eu prefiro o milagre e a poesia!
Eu prefiro poetizar forças aórgicas, milenárias,
guardando, demiúrgicas, as águas,
contendo a inclemência do Sol,
e abrindo caudais, sob o solo esturricado.
Eu creio no milagre em Belém...
Fonte da imagem:
Imbu Brasil
Dados hidrográficos:
recolhidos do Google.
Eurico
Ainda o mergulho (natalino) no Sertão profundo de mim.
Há milagres e Deus, na natureza como ela é...
domingo, dezembro 05, 2010
O FATO (ou, esvaziamento do discurso acadêmico)

Ao Mestre Vasconcellos Sobrinho
O sol é exato, é fato.
A ciência apura: quantas, fótons.
E eu, cá embaixo,
Um fato?
Dado concreto, objeto dissecado.
No entanto, assistemático.
Quem mensura não me explica.
Que morra toda a estatística
E que a ciência estertore
Como fato de cabrita
Pendurada no curtume.
Sob o sol, nesses ardores,
Não calculem minhas dores.
Quero p(r)o(f)etas,
Não, doutores.
O sol deveras é exato, lá no alto.
E eu,
o objeto, o fato,
ressecado no arame.
Rejeito o método.
Rejeito o número.
Rejeito o nome.
Só me consumo.
E o sol me consome.
Eis um homem!
Fonte da imagem:
Estamira - o filme
KINO-GLAZ ÁRIDO (ou, meu cine-olho lírico)

a Dziga Vertov
Pra beber água?
Imita o gado.
É coisa simples:
Basta colar a boca na beira do barreiro
E sorver de vez o líquido quente, assim;
Com os dentes prender
os grãos de areia e
deixar descer pela goela a água tépida
a decantar-se em argila na traquéia.
Se como ratos?
Lagartixas?
Gafanhotos, feito São João Batista?
Por esse sol que me alumia, já comi, sim,
faz tempo...
e, sem ser profeta..
**************************************
E essa máquina que filma minha neta,
Assim franzina
(sai, menina!)
brincando nessa terra ressecada,
(sai, Dolores!)
zanzando ainda, comigo pelo mundo, Deus é pai!
Grave um recado pros homens que governam essa terra...
Ah, nojentos!
Insetos no solado da alpercata!
Diga a eles que de fome se morre,
Mas que de fome se mata!
Que as gentes não têm sangue de barata!
************************************
O Eu-lírico mergulha no semi-árido.
(fugindo da zona de conforto;
tenho terror-pânico do Papai Nöel)
Fonte da imagem:
Fatos e Fotos da Caatinga
sábado, dezembro 04, 2010
DAS DORES (releitura em Eleanor Rigby)

...................................a Lennon e McCartney
Das Dores era uma mulher solitária.
Habitava uma casinha de taipa no sertão do Exu,
E criava muitas cabras, todas pretas, soltas pela caatinga.
Só costumava ir à missa
nos dias em que havia casamento,
a ver se conseguia pegar o buquê.
Nesses dias o velho padre lhe falava da salvação da alma.
Flores na mão, seguia rindo, pela estrada empoeirada.
Ria muito, aquela mulher, casta e solitária.
Ria, não se sabe de quê.
As cabras a seguiam, em cortejo, comendo as flores murchas.
Quando morreu não havia ninguém no enterro.
As cabras não vieram: não houve flores.
Somente o vulto de uma cadela, preta e triste, rondava o campo santo.
O velho pároco recitou um trecho do Sermão de Santo Antonio aos Peixes, à beira da cova rasa.
“Vos estis sal terrae...”
Um inútil sermão para uma alma extinta e breve.
Que o sal dessa terra seca lhe seja leve...
***************************************
Eurico uma releitura livre e
ditada pela emoção que sinto ao ouvir Eleanor Rigby.
AH, LOOK AT ALL THE LONELY PEOPLE!
AH, LOOK AT ALL THE LONELY PEOPLE!
ELEANOR RIGBY PICKS UP THE RICE IN THE CHURCH
WHERE A WEDDING HAS BEEN
LIVES IN A DREAM
WAITS AT THE WINDOW
WEARING A FACE THAT SHE KEEPS IN A JAR BY THE DOOR
WHO IS IT FOR?
ALL THE LONELY PEOPLE
WHERE DO THEY ALL COME FROM?
ALL THE LONELY PEOPLE
WHERE DO THEY ALL BELONG?
FATHER MCKENZIE, WRITING THE WORDS OF A SERMON
THAT NO ONE WILL HEAR
NO ONE COMES NEAR
LOOK AT HIM WORKING, DARNING HIS SOCKS IN THE NIGHT
WHEN THERE´S NOBODY THERE
WHAT DOES HE CARE?
ALL THE LONELY PEOPLE...
ELEANOR RIGBY DIED IN THE CHURCH
AND WAS BURIED ALONG WITH HER NAME
NOBODY CAME
FATHER MCKENZIE WIPING THE DIRT FROM HIS HANDS
AS HE WALKS FROM THE GRAVE
NO ONE WAS SAVED
ALL THE LONELY PEOPLE...
AH, LOOK AT ALL THE LONELY PEOPLE!...
Mormente, ao ler a versão da Cássia Eller.
Ohw, olhe pra todas as pessoas solitárias...
Ohw, olhe pra todas as pessoas solitárias...
Eleanor rigby recolhe arroz na igreja
Onde houve um casamento
Vive num sonho
Espera na janela
Ostentando um rosto que ela deixa numa jarra ao lado da porta
Para quem é isso?
Todas as pessoas solitárias...
De onde elas vem?
Todas as pessoas solitárias...
A onde elas pertencem?
Padre Mckenzie escrevendo um sermão
Que ninguém vai ouvir
Ninguém se aproxima
Olhe pra ele trabalhando, costurando suas meias à noite
Quando ninguém está lá
Pro quê ele se importa?
Eleanor rigby morreu na igreja
E foi enterrada junto com seu nome
Ninguém veio
Padre Mckenzie limpando a sujeira das mãos
Enquanto caminha da sepultura
Ninguém foi salvo
Moral do poeminha:há solidão em qualquer lugar,
em Liverpool
ou no Exu.
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Fonte da imagem:Ohw, olhe pra todas as pessoas solitárias...
Ohw, olhe pra todas as pessoas solitárias...
Eleanor rigby recolhe arroz na igreja
Onde houve um casamento
Vive num sonho
Espera na janela
Ostentando um rosto que ela deixa numa jarra ao lado da porta
Para quem é isso?
Todas as pessoas solitárias...
De onde elas vem?
Todas as pessoas solitárias...
A onde elas pertencem?
Padre Mckenzie escrevendo um sermão
Que ninguém vai ouvir
Ninguém se aproxima
Olhe pra ele trabalhando, costurando suas meias à noite
Quando ninguém está lá
Pro quê ele se importa?
Eleanor rigby morreu na igreja
E foi enterrada junto com seu nome
Ninguém veio
Padre Mckenzie limpando a sujeira das mãos
Enquanto caminha da sepultura
Ninguém foi salvo
Moral do poeminha:há solidão em qualquer lugar,
em Liverpool
ou no Exu.
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Vidas Secas
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