Nessa pequena porção de terra, banhada pelo rio Capibaribe, havia 16 banguês e uma pequena povoação, com sítios, chácaras, quintas e sobrados. Uma população que vivia entre o urbano e o rural, com seu labor agrícola, com sua pequena criação, com suas procissões, com suas festas. Nós somos os herdeiros dessa Várzea rurbana e cult/rural. E, agora, pelo entrudo, (entrudo, sim, nosso carnaval é mais próximo do entrudo que do Carnaval de Veneza, lá do Recife Antigo)...
Pois bem, pelo entrudo nos vestimos de cores, de luz, e deixamos fluir a alegria do efêmero, desse instante transitório que é a existência humana, com a maneira telúrica do povo, com os saberes e fazeres da gente simples do povo!
Evoé, brincante varzeano! O tempo passa, mas no teu semblante estão as marcas vivas dessa Várzea quatrocentona!
Evoé, Sori Galtama, que conta essa história com maestria, em tua máquina de guardar sonhos! Evoé!
Uma Epígrafe
"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]
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sexta-feira, fevereiro 20, 2015
quinta-feira, janeiro 23, 2014
CARNAVAL DO RECIFE - a Dança, a Música, a Língua (2)
Nota inicial (sobre a figura acima):
Quem conhece o carnaval de Olinda, há de lembrar do calunga chamado de Homem da Meia-noite, um quase-totem ambulante, que é carregado nos ombros pelas ruas da cidade alta, na madrugada do sábado para o domingo de carnaval. Percebam, pois, pela tapeçaria acima, o que há de Ibéria em nossa carnavália.
Pois bem:
Eu dizia, na postagem anterior, que o Recife é uma cidade profundamente ibérica. Pode isso parecer ululantemente óbvio, sabendo-se que todo o país já foi um dia Reino de Portugal e Algarves. No entanto, comparando a nossa capital com outras grandes cidades do Brasil, por suas manifestações culturais, ficará evidente o quão mais portuguesa do que as outras é a nossa Arrecifes dos Navios.
Há poucos anos, movido de compaixão pelos menores de rua, um desembargador humanista e comprometido com a nossa cidade, resolveu fazer um resgate dessas crianças abandonadas, através da música. Lembrem que na Bahia, já faz algum tempo, os timbaleiros, os percussionistas, já tinham feito o mesmo com o projeto Olodum, tendo alcançado excelentes resultados na assistência aos pequeninos "capitães da areia". No Rio de Janeiro, de há muito se ouve o samba dos Meninos da Mangueira, inclusão social e divertimento ao mesmo tempo. Portanto, duas importantes expressões de cultura negra, uma baiana e outra carioca, ambas atuando em prol da inserção dos menores na vida social.
Bem, mas o que fez o nobre magistrado recifense para resgatar os infantes de nossas ruas?
Fundou a mais bela e virtuosa banda sinfônica infantil já vista em nossa cidade: a Orquestra Criança Cidadã, dos meninos e meninas do Coque. O Coque é uma antiga comunidade de carvoeiros, hoje favela urbana, com população carente e alvo de muita violência. Lá foi criada uma maravilhosa orquestra de pequenos virtuoses.
E aqui faço um alargamento da minha frase inicial: o Recife é bem mais do que ibérica, é profundamente européia.
Os meninos do Recife não batem em latas, em surdos, nem em timbales. Os violinos e cellos da Orquestra da Criança Cidadã enchem nossa alma de melancólica ternura. Isso é o Recife. Querem algo mais europeu? Os resultados são tão bons quanto os da Bahia e do Rio, diga-se de passagem. Mas, a forma de estruturar a ação é solene, racional e erudita: um desembargador e um maestro da sinfônica, juntos, lideram a excelente empreitada pelas crianças, nesse Recife europeu.
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| Maracatu |
Agora, volvamos os olhos para a nossa maior expressão de cultura afro: o maracatu. Embora o ritmo das suas alfaias faça ecoar pelas nossas esquinas o mais visceral elemento negro, o que vemos nas ruas? Um majestoso cortejo, reis, rainhas, duques, duquesas, damas do paço e bonecas de cera, trajando a luxuosa indumentária das cortes européias. Eu sei, eu sei. Era a forma de resistência dos agrupamentos negros, que tinham no sincretismo religioso uma válvula de escape para sua própria concepção do sagrado.
Também, sei: O maracatu veio das Irmandades do Rosário dos Pretos e da festa do Rei do Congo. Mas, por que tão forte no Recife? Não seria a nossa alma ibérica envolvendo o corpo africano? Sei lá!
E mais, tem mais, tem o frevo, o frevo, o nosso frevo veio dos dobrados militares europeus, que, ao ter o andamento acelerado, e deu nessa gostosa e anárquica folia. Chego a sugerir que o passo já estava, embrionário, nos ditos saltos reais, executados por Diogo Dias, como consta na Carta de Caminha. Não lembra o passo (a dança) o saltitar do vira português, em ritmo apressado? Não lembra o passo um saltitar de bailarinos zíngaros?E o jogar de pernas da dança dos cossacos já era o passo?
E as fantasias multicores: dominós, pierrots, colombinas, arlequins, bufões, palhaços. Eis aqui toda a comédia dell'arte. Não é por acaso que o Recife é chamada de a Veneza Brasileira!
Finalmente, chego onde todos sabem que eu queria chegar. Nos maviosos blocos líricos do carnaval pernambucano.
No Rio de Janeiro, a velha guarda é do samba, na Bahia, do afoxé Filhos de Gandhi. Duas expressões puramente africanas.
Em Pernambuco,
a velha guarda é dos blocos carnavalescos líricos:
Em Pernambuco,
a velha guarda é dos blocos carnavalescos líricos:
Ouçam trinar as requintas,
e florear os flautins.
Banjos, violões, bandolins,
em harpejos e dedilhados.
E um coro de vozes álacres,
senhoritas e senhoras a cantarolar modinhas,
feito cantigas de roda,
rondós, marchinhas,
cirandas.
Há algo mais europeu?
Recife tem esse nicho de poesia,
que se mantém muito vivo.
Não aquele Recife dos Mascates,
dos ideais libertários,
mas, o Recife do bom Sebastião, de Capiba.
Recife, de Manuel Bandeira.
Recife, ibérico, europeu.
Recife dos blocos líricos...
Recife, meu.Recife, eu...
Fonte da imagem da tapeçaria:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm
Outras imagens:
recolhidas do Google.
CARNAVAL DO RECIFE - a Dança, a Música, a Língua (1)
O modo português de festejar está bem descrito em antiga crônica de João de Barros, ao tratar da espetacular partida da frota de Pedro Álvares Cabral, em 1500:
"A qual despedida, geralmente a todos, foi de grande contemplação, porque a maior parte do povo de Lisboa, por ser dia de festa e mais tão celebrada por El-rei, cobria aquelas praias e campos de Belém, e muitos em bateis, que rodeavam as naus, levando uns, trazendo outros, assim serviam todos com suas librés e bandeiras de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores, com a frol daquela mancebia juvenil que embarcava. E o que mais levantava o espírito destas coisas, eram as trombetas, atabaques, sestros, tambores, flautas, pandeiros, e até gaitas, cuja ventura foi andar em os campos no apascentar dos gados, naquele dia tomaram posse de ir sobre as águas salgadas do mar, nesta e outras armadas, que depois a seguiram, porque, para viagem de tanto tempo, tudo os homens buscavam para tirar a tristeza do mar."
(João de Barros, apud HOMO LUDENS NA ÉPOCA DAS DESCOBERTAS, Profa. Dra. Maria Augusta Alves Barbosa, Conferência em Coimbra, 1995)
Sem embargo da violenta cobiça que motivava as “grandes navegações”, as novas colônias conquistadas logo iriam conhecer o lado festeiro desse povo, que, para afugentar o tédio daquelas longas viagens, portavam instrumentos musicais, do mesmo modo pelo qual, nos dias atuais, trazemos, por exemplo, um DVD portátil, em nossas viagens cotidianas. Foi assim que esses navegantes nos trouxeram sua dança e sua música, em folguedos que até hoje costumam alegrar os nossos tristes tropiques.
Prova de que esses instrumentos pastoris cruzaram o Atlântico está na Carta de Pero Vaz de Caminha, pela qual se descreve a D. Manuel, o "descobrimento" do Brasil. Relata o famoso escrivão que, depois da missa de Páscoa, tendo em vista os costumeiros folguedos da época, um gracioso marinheiro executa saltos reais ao som de uma gaita e participa das danças dos aborígenes. Esse encontro musical, segundo Caminha, foi motivo de muita alegria:
"(...) passou-se então além do rio Diogo Dias, que veio de Sacavém e que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo hum gaiteiro nosso com uma gaita e meteu-se com eles a dançar tomando-os pelas mãos e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez-lhes ali andando no chão muitas voltas ligeiras e salto real de que se espantavam e riam e folgavam muito."
(Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel)
Diogo Dias, pois, era o nome de nosso primeiro brincante. Na nova terra, desde a primeira páscoa, já se dançava a nossa ciranda-de-praia. Nos dias de hoje, quem viajar pelo Brasil encontrará, de norte a sul, essa herança musical e coreográfica dos lusos: haja marujada, folia de reis, pastoris, serenatas e... o entrudo...
Ah, o entrudo! Esse milenar folguedo é o que mais me encanta. Mormente, na merencória folia dos seresteiros de pau e corda, os chamados blocos carnavalescos líricos.
Esses harmoniosos blocos líricos, bastiões do carnaval do Recife, evocam e preservam não só o modo português de festejar, seus folguedos e danças de celebração, mas guardam as profundas nuanças líricas, entranhadas na alma dessa Língua que também veio com as caravelas.
Revisitando, (como sempre faço, nesses dias que antecedem a folia), as composições de antigos blocos recifenses, reencontro essas canções dolentes, perpassadas de uma triste alegria, de uma saudade calcada em algo não-vivido, e que, além disso, primam por letras vazadas em bom vernáculo, de onde vem o puro olor, o cheiro bom, o aroma dessa última flor neolatina, em poesias pejadas do lirismo e da ternura da velha e boa língua-mátria.
Sobre isso, vale a pena citar Gilberto de Mello Kujawski, in "Fernando Pessoa, O Outro", quando afirma que "o dizer português é sempre vizinho da efusão lírica, pronto a vibrar em toda a escala de íntimas lamentações e exultações, de secretos cuidados e enternecimentos próprios às fundas confidências."
Todavia, não é só esse aspecto que deve ser revisitado nos blocos líricos.
Atentem bem para a semelhança desses brincantes recifenses com as danças pastoris, com os cortejos órficos das festas quase-pagãs que aconteciam nas afastadas vilas campesinas da Luzitânia, e até mesmo nos átrios engalanados, nos velhos paços da corte portuguesa, essas danças profanas que estão implícitas na citação de João de Barros, transcrita acima. O Recife é uma cidade profundamente ibérica. E nossas danças, músicas e folguedos guardam a semelhança daqueles costumes lusos.
Regressemos, agora, a esse longínquo pretérito, acompanhando as palavras de um dançar dionisíaco, que nos chegaram através do léxico arcaico de outro cronista-narrador: Fernão Lopes.
Deitem os vossos olhos sobre esses vetustos vocábulos que abaixo vos apresento; soprem-lhes os fonemas e deixem emergir do inconsciente os albores do efusivo lirismo dessa Língua Portuguesa, em essa prosódia, “alongada e ondulante; com ondulações que se perdem ao longe" e, decerto, encontrarão as origens avoengas dos cortejos musicais de nossos blocos carnavalíricos:
Viinha elRei em batees Dalmada pera Lixboa, e saiam-no a reçeber os cidadãaos e todollos dos mesteres com danças e trebelhos, segumdo estomçe husavom; e el saia dos batees, e metiasse na dança com elles, e assi hia ataa o paaço. Paraae mentes se foi boom sabor: jazia elRei em Lixboa huuma noite na cama, e non lhe viinha sono pera dormir e fez levamtar os moços e quamtos dormiam no paaço, e mandou chamar Joham Mateus, e Lourenço Pallos que trouvesem as trombas de prata, e fez açemder tochas, e meteosse pela villa em damça com os outros; as gentes que dormiam, sahiam aas janelas, veer que festa era aquella, ou porque se fazia; e quando virom daquella guisa elRei tomarom prazer de o ver assi ledo; e amdou elRei assi gram parte da noite, e tornousse ao paaço em damça; e pedio vinho e fruita, e lançouse a dormir. (Crónica de D. Pedro I, Barcelos - 1932, pp 42-43, apud FERNANDO PESSOA, O Outro, G. M. Kujawski, pp. 25,26)
Evoé, Flores do Capibaribe!
Carnaval chegou!
Eurico
blogador e folião. **********************************************************************
Ilustração e algumas citações:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm
**********************************************************************
Frevo de Saudade - Aldemar Paiva - (Coral do Bloco da Saudade)
Obs.:
Como é difícil encontrar a genuína música pernambucana na internet!
Carecemos pintar nossa aldeia, se quisermos ser universais, como aconselhava Leon Tolstoi.
Achei mais uma:
Último Regresso - Getúlio Cavalcanti - (Coral do Bloco da Saudade)
Último Regresso - Getúlio Cavalcanti - (Coral do Bloco da Saudade)
E mais essa:
Sabe lá o que é isso, de João Santiago.
Sabe lá o que é isso, de João Santiago.
(Hino dos Batutas de São José e dos casais enamorados)
domingo, fevereiro 03, 2013
DOS BLOCOS LÍRICOS (notas para uma analítica da folia 5)
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| FLABELOS E. B. Brito |
"Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomei tristeza. Hoje tomo alegria!"
......................................Manuel Bandeira
Nada mais lisérgico do que o lirismo.
O lirismo é visceral.
É compulsão.
Se assim não fora, não haveria a embriaguez
desses alegres bandos,
que resistem,
com seu cantar de serestas,
nostálgicos, em plena festa,
contendo o frevo, ao bordão...
Muitos aludem às delicadas evoluções
E aos singelos volteios, em marcha lenta,
do leque das flabelistas,
bem à frente,
bem à vista
de todos;
Eles se iludem
com essa suavidade,
que esconde um atavismo:
O quanto há de ancestral nesse lirismo.
Eles não sabem que o lirismo é intenso, rizoma
de pulsões, disso que assoma,
quando nos invade a alma
o trautear dum flautim
o dedilhar das manolas,
banjos, violões, bandolins.
(Eu mesmo, esqueço de mim.)
Soou o apito!
Segue-se um acorde em uníssono!
Cantarolam, as pastorinhas!
(Já não estou eu, estou todos,
delírico frenesi.)
Não há nada mais lisérgico do que o lirismo.
Fonte do desenho acima :
![]() |
| Cantem, pastorinhas! Bloco lírico Flores do Capibaribe 2013 |
Poema dedicado às Flores do Capibaribe!
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quinta-feira, janeiro 31, 2013
DOS BRINCANTES (notas para uma analítica da folia 4)
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| BURRINHA Emanuel Bezerra de Brito |
Quem há de botar rédeas
ao coração que trota numa primeira emoção?
Quem há de lhe proibir esse júbilo,
mesmo que ilusório?
Os petizes guardam luzes
que brincam nos olhos;
E, nos ouvidos, levam a voz
do que é passageiro e provisório;
A alegria é o trotar duma alimária tosca
Que, lúdica, balouça
no entorno de nós.
Que tem cor, brilho, ruídos
Que traz guizos, cincerros, sinetes.
Feita disso
que enfeita os sentidos;
e, por isso, ó ginetes,
quem há de botar rédeas à emoção infantil?
Eurico,
carnavalírico rsrsrs
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segunda-feira, janeiro 28, 2013
DOS CORTEJOS (notas para uma analítica da folia 3)
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| STANDART E. B. Brito |
Os lumes no firmamento
Os numes d’alma, bem dentro
E as luzes pisca-piscando, nessas noites olindenses...
O sonido das buzinas,
Das maracás, castanholas.
Mil badalos dos lanceiros,
Nessa fuzarca louçã!
Aonde vai toda essa gente?
O que os leva nesse afã?
Dentre eles eu me vejo,
Um dos muitos de um cortejo
De flaneurs e bon vivants!
A que vem toda essa gente?
Vem celebrar o sentido
Que a vida tem nesses dias.
Que a vida é essa alegria!
Essa efêmera alegria,
livre, profana, pagã.
E o bom da vida é viver!
É o lema dos standarts,
Das flâmulas, dos flabelos,
Que avisam por toda a parte:
Tristeza, passe amanhã!
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sábado, janeiro 12, 2013
BONECO DE ENGONÇOS (notas para uma analítica da folia 2)
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| O PALHAÇO E. B. Brito |
Vem, todo engonçado,
nessa fatiota,
liforme listado,
nariz de bolota.
Quem te pôs engonços?
Foi Deus?
Foi o Acaso?
Bem,
não vem ao caso,
se girar nos gonzos é o teu destino.
Glosa o inesperado, mercê do fortuito,
Poeta dos saltos soltos e dos sustos,
Pândego das troças, do riso gratuito.
Eis a tua sina:
Rir, todo engonçado,
nessa fatiota,
nesses suspensórios;
corpo articulado,
nas calçolas frouxas,
nas imensas botas,
liforme listado,
nariz de bolota.
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AbARCA
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segunda-feira, janeiro 07, 2013
DA FANTASIA - notas para uma analítica da folia
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| CARNAVÁLIA E. B. Brito |
Untar de fantasia o corpo pela rua
Esse mesmo corpo que sustenta, nua,
a realidade.
Untar-se, pois, e besuntar –se
de toda a fantasia
possível e imaginável.
de toda a fantasia
possível e imaginável.
E dessa fantasia estão surgindo sempre
os monstros e os mantras.
Brincantes são crianças,
grotescos e risíveis,
gigantes claudicantes, feios, deselegantes:
O Calunga,
O Mão-molenga,
O Mão-molenga,
Os Diabretes e os Bufões...
Olé! Olá! A fantasia está
na rua!
Essa rua que serpeia com os dragões
Essa rua que serpeia com os dragões
dos átrios de Beijing, aos antros da Bonfim.
Aqui dançam-se troças, farsantes e gracejos.
E o que vejo?
Ladeiras, suor e beijos
e a obscenidade boa e livre dos cortejos.
É a fantasia, essa que passa
em blocos (de palavras),
os tropos sobre antropos.
É a fantasia, aquela que faz graça, faz metáforas
e banha os corpos de alegria
(apesar dessa dor nossa de cada dia)
Essa alegria fescenina,
é a fantasia,
ridícula,
delírica,
de riso, gozo, festa e pirueta
de treta, de mutreta.
É a fantasia,
ao som contagiante das retretas.
Quem vai buscar sentido ao pueril?
Eurico
07/01/2013
Fonte da imagem:
AbARCA
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sexta-feira, fevereiro 10, 2012
CARNAVÁLIA (excerto em Manuel Bandeira)
(...) Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e
[seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores. (...)
SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA (fragmento)
Nota do blogueiro:
Estamos acampados no Sítio (intra-histórico) d'Olinda.
terça-feira, fevereiro 07, 2012
ALA DOS COMPOSITORES - convite à folia!
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quinta-feira, fevereiro 02, 2012
CELEBRANDO O FREVO! (mais uma pro Mário de Andrade)
No dia 09 de fevereiro de 2007, o Recife celebrava os 100 anos do Frevo,
desde então tombado como patrimônio imaterial do Brasil.
Não é por acaso que aqui se diz "vamos brincar" o carnaval:
Aqui, trecho do DVD NOVE DE FEVEREIRO,
do multiartista Antonio Nóbrega,
em que se celebra esse ritmo, essa dança, esse brincante.
Em tempo.
Leiam o que, do frevo e do passo, dizia o musicólogo e poeta, Mário de Andrade:
"Mas será possível que uma coreografia, assim, ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória, que o país ignora, simplesmente porque entre nós ainda são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”.(MÁRIO DE ANDRADE)
desde então tombado como patrimônio imaterial do Brasil.
Não é por acaso que aqui se diz "vamos brincar" o carnaval:
Aqui, trecho do DVD NOVE DE FEVEREIRO,
do multiartista Antonio Nóbrega,
em que se celebra esse ritmo, essa dança, esse brincante.
Em tempo.
Leiam o que, do frevo e do passo, dizia o musicólogo e poeta, Mário de Andrade:
"Mas será possível que uma coreografia, assim, ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória, que o país ignora, simplesmente porque entre nós ainda são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”.(MÁRIO DE ANDRADE)
TAÍ, MÁRIO, O BALÉ QUE TU QUERIAS
“A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional. É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca, mais dionisíaca de nossa música nacional. E aquele rapaz que dançou! Mas será possível que uma coreografia, assim, ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória, que o país ignora, simplesmente porque entre nós ainda são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”. (MÁRIO DE ANDRADE)
Taí, Mário, o FREVO que tu que tu querias:
Performance realizada durante Congresso Internacional de Dança Brasileira - Rio - 2006
por Uyra Mangueira
Professor e Passista de Frevo
Brasilia-Brasil
Frevo: Canjiquinha
Composição de Lourival de Oliveira,
Arranjo e interpretação de Antônio Nóbrega (em seu CD Lunário Perpétuo)
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
DUDA NO FREVO (uma loa)

Maestro Duda ou Mestre Duda, o José Ursicino da Silva, nasceu em Goiana, interior de Pernambuco, em 23 de dezembro de 1935. Aos oito anos começou a estudar música, aos dez já era integrante da Banda Saboeira e logo escreveria sua primeira composição, o frevo Furacão. Dali podia-se prever que se tornaria Duda um dos maiores regentes, compositores, arranjadores e instrumentistas de todos os tempos e do frevo em especial. Gênio da composição e arranjo, como ampla formação chegou a tocar Oboé na Orquestra de Recife, mas seu múltiplo talento o levou a experimentar de tudo. Formou várias bandas de frevo que invariavelmente eram eleitas nos carnavais como as melhores do ano.
A carreira é repleta de sucessos e de grandes parcerias: Para o teatro músicou, "Um Americano no Recife" como direção de Graça Melo e outras peças dirigidas por Lúcio Mauro e Wilson Valença. Foi chefe do departamento de música da TV Jornal do Commercio e depois contratado da TV Bandeirantes em São Paulo. Compositor de choros gravados por Severino Araújo e Oscar Miliani, sambas gravados por Jamelão, músicas para Quinteto de Sopros e Quinteto de Metais, banda e orquestra, recebeu o prêmio de melhor arranjo de música popular brasileira em 1980, em concurso promovido pela Globo, Shell e Associação Brasileira de Produtores de Discos.
Para arremate da postagem:
"Duda no Frevo" (frevo de rua)
Turibio Santos (sotaque carioca/maranhense)
Armandinho (sotaque baiano)
Orquestra de Duda (o sotaque original)
Nota do blogueiro:
O nosso Duda é considerado um dos 10 melhores arranjadores do mundo.
Evoé, Maestro!
Fonte do txt.:
http://www.nacaocultural.pe.gov.br/biografia-de-maestro-duda-do-projeto-frevos-de-pernambuco
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Maestro Duda
terça-feira, janeiro 31, 2012
CARNAVÁLIA (o Recife europeu dos blocos líricos)
Nota inicial (sobre a figura acima):
Quem conhece o carnaval de Olinda, há de lembrar do calunga chamado de Homem da Meia-noite, um quase-totem ambulante, que é carregado nos ombros pelas ruas da cidade alta, na madrugada do sábado para o domingo de carnaval. Percebam, pois, pela tapeçaria acima, o que há de Ibéria em nossa carnavália.
Pois bem:
Eu dizia, na postagem anterior, que o Recife é uma cidade profundamente ibérica. Pode isso parecer ululantemente óbvio, sabendo-se que todo o país já foi um dia Reino de Portugal e Algarves. No entanto, comparando a nossa capital com outras grandes cidades do Brasil, por suas manifestações culturais, ficará evidente o quão mais portuguesa do que as outras é a nossa Arrecifes dos Navios.
Há poucos anos, movido de compaixão pelos menores de rua, um desembargador humanista e comprometido com a nossa cidade, resolveu fazer um resgate dessas crianças abandonadas, através da música. Lembrem que na Bahia, já faz algum tempo, os timbaleiros, os percussionistas, já tinham feito o mesmo com o projeto Olodum, tendo alcançado excelentes resultados na assistência aos pequeninos "capitães da areia". No Rio de Janeiro, de há muito se ouve o samba dos Meninos da Mangueira, inclusão social e divertimento ao mesmo tempo. Portanto, duas importantes expressões de cultura negra, uma baiana e outra carioca, ambas atuando em prol da inserção dos menores na vida social.
Bem, mas o que fez o nobre magistrado recifense para resgatar os infantes de nossas ruas?
Fundou a mais bela e virtuosa banda sinfônica infantil já vista em nossa cidade: a Orquestra Criança Cidadã, dos meninos e meninas do Coque. O Coque é uma antiga comunidade de carvoeiros, hoje favela urbana, com população carente e alvo de muita violência. Lá foi criada uma maravilhosa orquestra de pequenos virtuoses.
E aqui faço um alargamento da minha frase inicial: o Recife é bem mais do que ibérica, é profundamente européia.
Os meninos do Recife não batem em latas, em surdos, nem em timbales. Os violinos e cellos da Orquestra da Criança Cidadã enchem nossa alma de melancólica ternura. Isso é o Recife. Querem algo mais europeu? Os resultados são tão bons quanto os da Bahia e do Rio, diga-se de passagem. Mas, a forma de estruturar a ação é solene, racional e erudita: um desembargador e um maestro da sinfônica, juntos, lideram a excelente empreitada pelas crianças, nesse Recife europeu.
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| Maracatu |
Agora, volvamos os olhos para a nossa maior expressão de cultura afro: o maracatu. Embora o ritmo das suas alfaias faça ecoar pelas nossas esquinas o mais visceral elemento negro, o que vemos nas ruas? Um majestoso cortejo, reis, rainhas, duques, duquesas, damas do paço e bonecas de cera, trajando a luxuosa indumentária das cortes européias. Eu sei, eu sei. Era a forma de resistência dos agrupamentos negros, que tinham no sincretismo religioso uma válvula de escape para sua própria concepção do sagrado.
Também, sei: O maracatu veio das Irmandades do Rosário dos Pretos e da festa do Rei do Congo. Mas, por que tão forte no Recife? Não seria a nossa alma ibérica envolvendo o corpo africano? Sei lá!
E mais, tem mais, tem o frevo, o frevo, o nosso frevo veio dos dobrados militares europeus, que, ao ter o andamento acelerado, e deu nessa gostosa e anárquica folia. Chego a sugerir que o passo já estava, embrionário, nos ditos saltos reais, executados por Diogo Dias, como consta na Carta de Caminha. Não lembra o passo (a dança) o saltitar do vira português, em ritmo apressado? Não lembra o passo um saltitar de bailarinos zíngaros?E o jogar de pernas da dança dos cossacos já era o passo?
E as fantasias multicores: dominós, pierrots, colombinas, arlequins, bufões, palhaços. Eis aqui toda a comédia dell'arte. Não é por acaso que o Recife é chamada de a Veneza Brasileira!
Finalmente, chego onde todos sabem que eu queria chegar. Nos maviosos blocos líricos do carnaval pernambucano.
No Rio de Janeiro, a velha guarda é do samba, na Bahia, do afoxé Filhos de Gandhi. Duas expressões puramente africanas.
Em Pernambuco,
a velha guarda é dos blocos carnavalescos líricos:
Em Pernambuco,
a velha guarda é dos blocos carnavalescos líricos:
Ouçam trinar as requintas,
e florear os flautins.
Banjos, violões, bandolins,
em harpejos e dedilhados.
E um coro de vozes álacres,
senhoritas e senhoras a cantarolar modinhas,
feito cantigas de roda,
rondós, marchinhas,
cirandas.
Há algo mais europeu?
Recife tem esse nicho de poesia,
que se mantém muito vivo.
Não aquele Recife dos Mascates,
dos ideais libertários,
mas, o Recife do bom Sebastião, de Capiba.
Recife, de Manuel Bandeira.
Recife, ibérico, europeu.
Recife dos blocos líricos...
Recife, meu.Recife, eu...
Fonte da imagem da tapeçaria:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm
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