Estranha coisa, a poesia do que nos é familiar.
Bom domingo,
em todos os sentidos,
com a franco-argelina Amel Brahim-Djelloul,
en/cantando a ária Cantilena ( das Bachianas, nº 5, do Villa-Lobos).
Uma Epígrafe
"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]
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domingo, julho 24, 2011
sábado, julho 23, 2011
TERCEIRO OLHO ( ainda, Os Sentidos: o Sentido)
Ver não é apenas compilar
pontos desconexos, pixels,
varreduras de imagens por segundo.
Ninguém vê apenas com os olhos.
Esses mesmos olhos com que se está
à mesa da cozinha a cortar cebolas
e a chorar lágrimas sem nexo.
Ver vai além do apenas ver.
Interpreta-se assim que se olha,
se é cebola ou emoção,
o que arde nos olhos.
E o conceito já vem atado à coisa que se vê.
Por isso, acautelai-vos com o visual.
(Bom seria fechar os olhos por minutos
ou passar os dias longe dos televisores.
Há muito o que se ver na própria tela mental.)
Imaginem:
A Poesia é um imenso nascedouro de imagens.
Hubble às avessas.
Ôlho pra dentro.
Muito dentro,
em regiões abissais.
Dentro de mim,
o riso distraído e indene
de uma criança revolvendo a Terra.
A bola colorida e um pátio: o espaço.
Um poço com roldana.
Um olho que me olha no centro imemorial da noite.
A hera.
As eras.
Estrelas, lumes, vagalumes.
Lá no centro de mim,
sou um buraco negro e aquático,
galáxia aprazível.
Esse colo estelar, ubérrimo,
irresistível.
irresistível.
(Voluteio, centrípeto,
pra dentro de Deus?)
Eis que a Poesia alberga esse invisível
fulcro numinoso
:
:
Mãe!
Sou eu, filho...
| Imagem Google aqui |
Renasçam, entre o sagrado e o profano, ouvindo Debussy:
(a melodia é longa, mas é tão bela, que merece ser ouvida até a última nota)
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SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 5

KINO-GLAZ ÁRIDO - movie lírico (poema nº 5)
a Dziga Vertov
Pra beber água?
Imita o gado.
É coisa simples:
Basta colar a boca na beira do barreiro
E sorver de vez o líquido quente, assim;
Com os dentes prender
os grãos de areia e
deixar descer pela goela a água tépida
a decantar-se em argila na traquéia.
Se como ratos?
Lagartixas?
Gafanhotos, feito São João Batista?
Por esse sol que me alumia, já comi, sim,
faz tempo...
e, sem ser profeta..
**************************************
E essa máquina que filma minha neta,
Assim franzina
(sai, menina!)
brincando nessa terra ressecada,
(sai, Dolores!)
zanzando ainda, comigo pelo mundo, Deus é pai!
Grave um recado pros homens que governam essa terra...
Ah, nojentos!
Insetos no solado da alpercata!
Diga a eles que de fome se morre,
Mas que de fome se mata!
QUE AS GENTES NÃO TÊM SANGUE DE BARATA!
Fontes das imagens:
Fatos e Fotos da Caatinga
Música p/ BG: Recuerdos de la Alhambra (Tárrega) - Andres Segovia
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sexta-feira, julho 22, 2011
SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 4
CANÇÃO DE TUDO (poema nº 4)
Há uma melodia em tudo o que se move.
Uma música browniana,
eu diria,
que há mesmo um timbre subreptício
no fluxo do ser das coisas, ab initio.
Uma música no carreiro das formigas e das galáxias.
Uma música de tudo...
Desde o movimento imenso, o belo Sete-estrêlo ,
até o humilde arroio, em seu áspero leito.
Esse silêncio.
a débil vibração das asas de uma vespa.
e uma oitava acima, o luminoso som da aurora boreal,
Os entretons da voz sonora
das carambolas
que ora penduleiam
entre as galhas
que farfalham
que espalham uma melodia
Os sons.
A impressão dos sons...
esse ranger de dentes
um interno trote,
um galope, o coração..
A voz presa na glote,
o fagote,
a úvula, a uva e o euritmo da chuva.
O cravo temperado
o som das mangas verdes
em diáfanos vestidos (não vedes?)
Gravetos percutidos pelos pés.
Mil setas que sibilam.
E o pipilar das aves, dentro e fora.
A música do agora
brilhante e bela música
de uma eterna estação
Ecoa consoante
desde antes,
muito antes,
na música desse instante.
Fonte das imagens:
http://ini.topotesia.net/node/1079
Mangas na safra.
Nota do blogueiro:
(canção a ser musicada ao violão)
Os sons das coisas: (chuva sobre piano)
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SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 3
![]() |
| DINAMARCA |
http://turismo.culturamix.com/blog/wp-content/uploads/2010/06/28.jpg
OS DELFINS DINAMARQUESES (poema nº 3)
Compulsando
a gens portucalense
aqui aportada há cinco séc'los,
gente de armas e brasão:
Os Albuquerque,
Cavalcanti,
Maranhão,
reforço a minha crença
no criacionismo (sem ironia)
e na genealogia
desde Adão...
Não existe assertiva mais exata.
Como crer que gente tão ilustre foi primata?
Não.
Eles descendem dos galegos,
dos batavos, dos ostrogodos,
visigodos, romanos, gregos.
Diz-que foram mesmo (em outras vidas)
oráculos, sibilas, celtas e druídas.
Nunca houve uma estirpe mais sensata.
Como crer que essa boa gente foi primata?
Heróis do panteão,
Santos do hagiológio,
Deuses do Olimpo,
É o que foram.
Diz-nos a história.
Homero,
Cícero,
Camões,
os vates cantam as suas glórias.
e os exaltam.
Não há uma certeza mais exata.
Como crer que essa gente foi primata?
Discordo mesmo da corrente pessimista,
que chega a postulados desse porte:
O homem é um decadente.
Um ser-para-a-morte.
Como afirmar isso, minha gente?
Basta ver em ação seus descendentes:
Os vikings, os mongóis. O huno, Átila.
Seres serenos e gentis...
Por que primatas?
Criatura de Deus é o Homo Sapiens.
Um ser que ama a vida e nunca a morte.
No entanto,
há exceções de toda sorte
que encontrareis no mundo, em toda parte.
Mas, pasmem:
Até na civilizada Dinamarca,
há seres vis,
que não se deve mesmo comparar com o bom primata.
Existe por aí uma fera infra-humana
Um ser desnaturado, besta insana
que descende de Caim, vindo de Adão,
(uma exceção àquela regra tão exata)
que, além de um ser-para-a-morte, é
UM SER-QUE-MATA!!!
http://naodaparaficarcalado.blogspot.com/2009/09/matanca-de-golfinhos-em-ritual-de.html
http://petroglifotribal.blogspot.com/2009/10/dinamarca-matanca-anual-dos-golfinhos.html
Para aliviar os sentidos: Gregorian Chants - Kyrie eleison, de Mozart.
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quinta-feira, julho 21, 2011
SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 2

DELÍRIO EM AZUL (poema nº 2)
Quando Ela nos alcança, cadavérica e terrível,
De nada adiantam as especulações ontológicas,
A teleologia
ou
a incognoscível redução fenomenológica;
Nada nos salva,
nem mesmo a transubstanciação eucarística.
Ela chega destruindo toda ciência,
toda consciência.
Ela ressoa no cerne mesmo
daquilo que os saciados chamam alma.
Aos poucos Ela invade o núcleo das células,
que se vão devorando umas às outras,
fugindo da inanição.
As sístoles e as diástoles se atropelam.
A Razão fraqueja.
E o Ser começa a delirar na cor azul.
Porém, quando Ela nos alcança,
o sentido profundo da vida se revela,
em imperiosa e urgente concretude,
pois Ela não falseia a realidade.
Ela é a coisa mais pura e verdadeira:
A fome, quando chega, não ilude.
Fonte da imagem: FOME EM ÁFRICA
Para carpir, (ou penitenciar-se, se preferes): Lacrimosa, de Mozart
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quarta-feira, julho 20, 2011
SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) - Nº 1
Dobrada à René Descartes (poema nº 1)
Um boi fugiu.
Guardo a lembrança de eu-menino,
o tom aflito
dos mugidos (uivos, gritos?)
Dá-me um simpatético arrepio.
Um boi fugiu
dos seus algozes:
A fila, o banho, o abate, o choque.
Um boi fugiu.
Mais tarde,
distraídos (e atrozes),
digeríamos o fato.
Os fatos.
Fonte da imagem:
Abate com Pistola Pneumática
Leia também:
O BOI, em Planeta Lua
Que tal ouvir Karajan, em Tuba Mirum, de Mozart? Dá um arrepio!
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