Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, dezembro 24, 2012

PRESÉPIO NO INTERIOR

Os Magos Perdidos
 E. B. Brito



















É quase Natal.
Vou fugindo por essa estrada sertaneja, feito rês desgarrada.
As alpercatas ressecadas pisam pedregulhos,
os santos pedregulhos desse ser tão profundo.

Mas e o Oriente?
Pra que lado fica?

Sei que nada é assim tão fácil de crer...
Haverá um centro de convergência dos sentidos,
das significações dessa existência?
Isso que Adélia Prado chama de Deus.
Isso: essa experiencia poético-pensante do Ser.
Isso me entusiasma.
Logo, o que não me entusiasma, não é Deus...

Num radinho de pilhas, um homem
anuncia, com voz bela e empostada
:
"As vendas devem aumentar de 12 a 13%,
em relação ao ano passado.
A economia cresceu e o povo está feliz."

Eu não estou feliz.
Nem sei porque.
Minhas emoções estão impermeabilizadas.
Nenhum desses produtos me agrada.
Sou o 0% do consumo.
Sou o nada.

E por isso mesmo tomei o rumo dessa estrada interior.
Busco algo instintivo, algo sagrado em mim,
um religare introjetado em um gene qualquer.
O tal grão de mostarda.
A fé.

Mesmo que seja a fanática fé dos habitantes do arraial de Canudos,
ou dos que davam suas crianças em sacrifício, na Pedra Bonita.
A Fé.
Deve habitar em algum lugar psíquico.
Mas, sem essas luzes piscando.
Sem essa saturação de cores.
Sem esses monótonos clichês.

Fechar os olhos.
Retornar à estrada empoeirada.
Quem sabe pousar numa estrebaria.
Deitar entre a forragem de palmas, de mandacarus.
E achar ali um místico presépio,
um centro de irradiação de Deus.
Um delírio. Um desdobramento.
Algo menos ridículo que os feéricos presépios , nos centros de compras.

Por quem morreu o beato Antonio Vicente?
Por quem sangraram as mãos de Francisco Bernadoni?
Pela fé, pela loucura, por nada?
Há um centro de convergência das significações do ser,
disse Adélia Prado.
Dolorido, difícil de achar, mas, verdadeiro.

Guardo-o aqui,
em meu ser tão profundo,
num aboio distante,
na noite que cai,
no zurrar de um jumento,
e no chocalho dos bois.

Tenho aqui uma manjedoura verdadeira,
onde comem as cabritas e as ovelhas,
e em que acredito,
vejo e apalpo, como o bom Tomé.
Ouço-as até ruminar e balir.

Seria esse meu centro de sentido?
O meu nervo do divino?

Estaria aqui, também escondido, o Menino-deus,
com pavor dos fogos de artifício
e fugindo daquele obeso senhor de agasalho vermelho,
que sempre lhe rouba o dia natalício?

Não sei.
Sei que eu estou fugindo.
E aqui já é quase Natal...
Silencioso natal das solidões ancestrais.
Nos sertões, nas estepes, nos desertos há noites de paz...




Fonte da imagem:
ABARCA

terça-feira, dezembro 18, 2012

VIDA SECA

Ser tão triste
E. B. Brito



















 

Não há muito por dizer 
e as palavras que restaram estão gastas. 

Errar, légua após légua, 
assim por dentro, um ermo. 

Errar pelo deserto
à busca de mim mesmo. 

Toda essa luz na estrada e a boca seca.
Só me resta essa demasiada sede de viver.



Fonte da img.:
AbARCA

sexta-feira, dezembro 07, 2012

DAGUERREÓTIPO SOBRE DESTERRO



















O Sol é uma palavra cheia de claridade. 
Mas há algo enceguecente em sua luz. 
Por isso, quando alguém te disser 
que o Sol lateja sobre Desterro, 
não cismes em mais nada. 
Apenas lateja ao Sol. 

Simplesmente... 
Mas não tão simples: 

É que certas palavras podem ser inquietantes... 
Essas podem nos insular.

Basta captar imagens em preto e branco:
Desterro sob o Sol.

E nada mais dizer.




Fonte da img:
Dipity

quarta-feira, dezembro 05, 2012

DÉSIR


DANÇANTES 
E. B.Brito





















Estar...
...uma imperceptível corda
alçada sobre nonada,
de que se evola um tênue arpejo,
indefinível coma,
em que antevejo
(isso que assoma)
o imponderável drama,
entre o instante e o ensejo
:
Estou esse desejo...





Fonte da imagem:
AbARCA


Curtindo Time - Pink Floid



domingo, novembro 11, 2012

FLOR DE NADA


UMA FLOR?
E. B. Brito

















 





I

As coisas todas brotam de outras coisas,
concretas ou abstratas.
Frutas da physis,
poíesis,
todas inatas...


II

As rosas,
surgem das rosas.
Idéias,
nascem de idéias.
Azaléias, flores simples,
surgem dentro de azaléias.
Tudo isso que nós vemos
vem à luz como aletéia,
desde que em seu ventre haja o ensejo
de um fundo idêntico a si mesmo...


III

Mas,
um verso, flor de nada,
emerge, espontaneamente,
disso oco e sem sentido
que existe dentro da gente.
Sua forma, (isso que lemos,
esse agora, esse presente),
é o fundo igual que aflora,
é o ser passando a ente.




Fonte da imagem:
AbARCA

sábado, novembro 03, 2012

CIRANDA


UMA CIRANDA E MEIA
E. B. Brito


 
Há uma fogueira ancestral, no meio da praça!
E dança em círculo,
uma gente jubilosa.

No céu, giram miríades de astros sorridentes.

Deus vela pela alegria do efêmero,
e pela festa ao instante que passa...

Sua Mão cuida das nossas órbitas.
Nele vivemos, nos movemos e existimos...
Nele, o infindável movimento circular.
Giremos, pois, nessa ciranda.
Dancemos ao Eterno fluir...
Assim seja, sempre!
....
.


###########################
 





Eurico


Fonte da imagem:
AbARCA
 

domingo, outubro 28, 2012

ATO DE CONTRIÇÃO (vincos em Vico)

ESPINHOS
E. B. Brito




























1
(Vodu)

De há muito que vem sendo entretecida
essa urdidura, pespontada em vincos sensíveis,
lembranças,  gritos remotos, palavras-farpas.

Sim, existem palavras-farpas,
feito alfinetes acutíssimos,
(injunções, diriam os médicos da alma)
que marcam dentro, desde a mais tenra infância;


2
(Sulcos)

De há muito que entrevejo essas ranhuras,
dolorosas dobraduras, na tênue
película em que se (a)gravam
os danos d'alma.

Existir é como a terra sulcada,
a eira,
que  (con)sente,
os rasgos do arado,
resolvendo em adubo, os detritos,
curando a aridez do solo.
Dessa terra lavrada desabrocham grãos.
Fruteiras também brotam do monturo.


3
(Contrição)

Claro que já pensei em amarrar rojões nos rabos dos gatos.
em atirar pedras nos santos,
por vezes, pensei até em morrer de tanta tristeza, sem saber por quê.

Não morri.
Mas, trancado em meu quarto, tinha surtos poéticos.

(Naqueles dias aziagos, lembro de que havia uma capela,
onde se ia recitar um incompreensível Ato de Contrição.
Percebia-se alguma poesia no olhar das catequistas.)

Não morri, tenho quase certeza disso.
E estou quase sempre mentalmente sadio.
Mas quando em surto,
cometo poemas inúteis e sem sentido, como este,
que mais parece uma afiada faca japonesa.





Eurico,
(vincos subliminares e metafóricos,
remexidos por leituras em Giambattista Vico)


Fonte da imagem:
AbARCA

Releia, ouvindo Tárrega: Recuerdos de Alhambra

segunda-feira, outubro 22, 2012

DUDA

A MENINA
E. B. Brito


Paira a Duda, assim, pingente,
sobre os raios de um biciclo,
mirando-me, ambiguamente,
nos olhos, de modo oblíquo.
***


Duda, niña semiótica,
transita por entre os signos.
Levita, longe da lógica;
leva o abstrato consigo.
***
Dona de mim, traça órbitas
com o dúbio ciclo, nonsense.
Lança-me os dados da sorte,
gira no globo da morte,
faz piruetas circenses


***


Duda, voz dissimulada,
questiona-me, inocente.
Vacilante, Duda indaga,
num sussurro reticente
:
há um mistério nas coisas
porque em mim habita o mistério
ou
há um mistério em mim
porque o mistério habita as coisas?


***
Olho os céus,
fico silente,
minha mirada se turva,
mergulho no inconsciente
e me abraço à imensa Duda...




***




******************************** ~
No esboço desse poema, guardado desde
22/12/1997, havia também um dedicatória
ao místico italiano Pietro Ubaldi.


Fonte da imagem:
AbARCA



sábado, outubro 20, 2012

O ARQUIVISTA





















O arquivista cofia
os seus extensos bigodes
na incerteza se pode,
ou na certeza que não pode
forjar aquilo que acode
ao seu instinto de ordem.
E sente na alma, fria,
a estranha melancolia
do anseio da simetria
que faz do caos, harmonia.

O arquivista avalia
e seus bigodes cofia:
será a ordem doentia?
E a métrica, antipoesia?

Bilac, em ordem, escandia
e, pasmem, estrelas ouvia,
naquela monotonia
ritmada, mas vazia,
mais parnaso que poesia.

Também verseja, o arquivista,
por entre as caixas em ordem?
Ouve, no acervo, as estrelas?
Perdeu o senso entre os lotes?

Eis que o arquivista debalde
procura a normalidade
que em seu cérebro havia;
como o herói de Cervantes,
surtado, avista gigantes
entre as estantes esguias...
(Que bela patologia!)



Fonte da imagem:
http://storage.mais.uol.com.br/357613.jpg?ver=1

Nota:
Dia Nacional do Arquivista - 20 de Outubro
(uns ainda se orgulham da função)




Eurico
(clic de Juliana das Oliveiras)
 

terça-feira, outubro 16, 2012

TIJOLINHO (em memória de meu pai)




















I
Desci a ponte apressado,
perdi o bonde das cinco.
Volto pávido pra casa.
Mas não perdi a esperança.

II
Sei que os gatunos já espreitam,
na Estreita do Rosário,
Os bêbados
Os operários
que jogam com palitinhos.
Aqui se dorme cedinho.

III
Conheci um motorneiro
cujo nome, Tijolinho,
sempre me cai na cabeça.
Meu pai dizia: não desça,
antes de Tejipió.
Primeira vez, eu, no bonde,
andei só.

IV
O bonde aberto do lado.
Eu fora, dependurado,
com o guarda-chuva na mão.
Eu, de volta.
Eu, cansado.
Eu, eus, múltiplo, multiplicado.
Mil rostos,
mil e um pecados.

V
Eu, do Recife,
eu, do umbigo do mundo.
Eu, tão ambíguo, no mundo.
Vrrrummm! no bonde, um giramundos!

VI
Fui consultar u'a vidente.
Queria ver meu passado.
Meus trilhos. A ubiquidade;
Eu, tríbio.
Eu, sem idade.

VII
Num bonde andei.
Mas brincava sobre uma placa flutuante.
Um bonde é, antes, brincante;

f(l)ui, passageiro,
Eu passei...



Viagem poética, criada a partir de uma viagem real,
que fez o meu pai, Elias Eurico de Melo.
Meu velho, 86 aninhos, me contava seus causos d'infância,
naqueles dias frios do inverno de 2010 em que, juntos, cuidávamos
dos nossos corpos (e almas), alquebrados, mas serenos.
Eu convalescia de um câncer, que superei,
ele, de um Parkinson, que não o pouparia.


Fonte da Imagem:

Bonde de Tejipió
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1112501


Notas do blogueiro:

1- A reedição dessa postagem é em memória
do Sr.Elias Eurico de Melo  (31/08/1924 - 17/10/2011),
meu querido paizinho, que, há um ano, nos deixou saudosos.

2- Poema da série Evocações de um Recife Antigo (ago/2010).



Ao fundo, Taiguara - O Velho e o Novo:


Deixa o velho em paz
Com as suas histórias de um tempo bom
Quanto bem lhe faz
Murmurar memórias num mesmo tom


A sua cantiga, revive a vida
Que já se esvai
Uma velha amiga, outra velha intriga
E um dia a mais


Vão nascendo as rugas
Morrendo as fugas a as ilusões
Tateando as pregas
Se deixa entregue às recordações


Em seu dorso farto
Carrega o fardo de caracol
Mas espera atento
Que o céu cinzento lhe traga o sol


Ele sabe o mundo
O saber profundo de quem se vai
O que não faria
Pudesse um dia voltar atrás


Range o velho barco
Lamento amargo do que não fez
E o futuro espelha
Esse mesmo velho que são vocês



NADIR (ou zoom n'areia)

 
Conchinhas d'Areia
Emanuel B. Brito


 
e esse formigamento nos olhos
esses pequeníssimos e inumeráveis ciscos
e esses mil diminutos pontos graníticos,
e esse nadir: o avesso de milhares de miúdas estrelas,
ora esse quartzo que lateja,
ora esses prismas em mica,
e esses quase- animálculos, minúsculos
e esses esporos, áporos, inanimados,
e esses poros na pele de tudo
e essas miríades de formas no caminho
e esses fragmentos rútilos à magma
e essas retinas afadigadas
e essa sensação quase imperceptível
de rocha desagregada em sal, no solo,
nos solados ........................................



Fonte da imagem:

sexta-feira, outubro 12, 2012

O BEIJA-FLOR

FLORES
Emanuel B. Brito


I


O Beija-flor
beija a flor
inteira e não-conotativa.
Beija a realidade, flor sem artifícios.
Beija, o Beija-flor,
o cerne mesmo da Flor.


II

( ...era o meu intento envasar o aroma
dessa despetalada Flor, numa redoma).


III

A Flor e esse cativo Beija-flor
(fabrico-os dessa matéria plástica e furta-cor)
A flor, a derradeira e inculta.

A Flor.
(
...e em suas pét’las
errático,
um beija-flor,
flâneur vibrátil,
floreteia,

oral e erétil,
à flor,
à ineffabile e bela flor
do Lácio
)

 

***

Fonte da imagem:
 
AbARCA

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terça-feira, outubro 09, 2012

CANÇÃO DE TUDO


 
Sinfonia dos Pássaros
Emanuel B. Brito



Há uma melodia em tudo o que se move.
Uma música browniana,
eu diria,

que há mesmo um timbre subreptício
no fluxo do ser das coisas, ab initio.
Uma música no carreiro das formigas e das galáxias.
Uma música de tudo...

Desde o movimento imenso, o belo Sete-estrêlo ,
até o humilde arroio, em seu áspero leito.

Esse silêncio.

a débil vibração das asas de uma vespa.
e uma oitava acima, o luminoso som da aurora boreal,
Os entretons da voz sonora
das carambolas
que ora penduleiam
entre as galhas
que farfalham

que espalham uma melodia

Os sons.
A impressão dos sons...
esse ranger de dentes
um interno trote,
um galope, o coração..

A voz presa na glote,
o fagote,
a úvula, a uva e o euritmo da chuva.

O cravo temperado
o som das mangas verdes 
em diáfanos vestidos (não vedes?)
Gravetos percutidos pelos pés.
Mil setas que sibilam.
E o pipilar das aves, dentro e fora.

A música do agora 
brilhante e bela música
de uma eterna estação
Ecoa consoante
desde antes,
muito antes,
na música desse instante.


Nota do blogueiro:
(canção a ser musicada ao violão)



 

sexta-feira, outubro 05, 2012

PAVÃO SOBRE O TELHADO

PAISAGEM COM PAVÃO - E. B. Brito




















A gente cresce por fora,
Vivendo a vida recente.
Dentro, há muito mais d’outrora
Do que aqui se pressente.

A memória jorra agora
É irrupção no presente
E esparge coisas miúdas,
Antigas coisas e gentes
:
Ora é água de cacimba
salto solto em rio perene
e o baixio todo alagado.
Por vezes, estrada e sol
Léguas, pra ir no barreiro,
Pra dar de beber pro gado.

A memória traz visões,
nos sobressaltos da noite.
Cabriolas e pavões,
em cima de algum telhado,

A memória é dentro e fora
resíduo do impermanente
um imenso mundo que aflora
paisagem dentro da gente...


 
Fonte da img:
AbARCA

quinta-feira, outubro 04, 2012

ESTUDO Nº 2 (rabiscos em chávena chinesa)


     
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 *...sem a teia, *
uma aranha não urde
* * a realidade. A teia * *
* * é o modo com que funde * *
a perplexidade do que é labirinto na vida,
 * * * * ao nexo do entorno, ao chão * * *
  * * * * * * *  da (sua) finalidade... * * * * * *
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**
* * *
* * * *
 * * * Chã * * *
de artifícios, de fios
 * entrelaçados e frágeis; *
terreno instável, é verdade.
  * * * * * * Mas, * * * * * *
* * *um apodítico chão. * * *
*
*
*
*
 * *
* * *

* * E, * *
 * * * * como tal, * * * *
 faz-se uma certeza possível
 * ao oscilar sus/tentáculos, * 
nos quais a aranha acon/tece,
* * * * vacila, tece, vacila, * * * *
 * * * * * urdindo uma trama * * * * *
entre o acaso, a sina e a necessidade...



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***
Ao fundo, uma música tibetana:

 

TRABALHO - E. B. Brito
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Fonte da imagem:

quarta-feira, outubro 03, 2012

ÁPTERO (oitava ao rés do chão)



Queda sobre Espinhos - E. B. Brito


























Quebradas, as asas que não temos,
dóem muito mais, quando não vemos
onde é que dói a dor, ou não sabemos...


E que dizer do homem, ser terreno,
cria da terra, errante, o mais pequeno,
a querer avoar, bicho sem asa,
e, afinal, rastejar, dentro de casa,

tateando, a perseguir, em si,
seu proprium, em chã bem rasa?

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Eurico,

(num improviso para a amiga Mai,
ou seja, uma singela modinha, inspirada em Dante Alighieri,
na qual também ecoa uma secular oitava camoneana).
15/02/09

P.S.:

Não resisti à tentação e lhes trouxe a tal oitava de Camões,
que dedico ao áptero que existe dentro de cada um de nós:

"Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Luís de Camões)


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Fonte da img.:
AbARCA

terça-feira, outubro 02, 2012

ÁPTERO (ave tardia)

APTERIX - ave imaginária - E. B. Brito

 
 
E eu, aqui, in/significante,
fresta do acaso, entre voláteis vazadouros,
agarro-me ao nexo do estar.

Se é alado o céu e a ventania vai aonde quer,
por que pousar?

Tudo o que é vida passa, tudo é lábil
e a flor bela é frágil e breve.
Viver é instante e espanto,
imprevisível notação de uma ária dodecafônica.
Chuva fugaz, lugar nenhum.
Todas as instâncias se acotovelam em janelas irreais:

Há lócus de mim, não eu.
Não sou,

mas evidências instáveis resistem sem mim.
Creio no solo sob os pés.
Ando movediço...
Ave tardia.
Áptera.
E só.



Eurico
(poema sem data, sem hora, sem lugar...)

Fonte da imagem:
AbARCA

 


segunda-feira, outubro 01, 2012

UMA ROSA RASA

oqueimPORTA - E. B.Brito


Naqueles dias lia Foucault, As Palavras e as Coisas, e, depois de animado debate com Lana Reis,
estagiária do Memorial da Justiça, sobre a estética modernista com "a dura poesia concreta de suas esquinas" em contraponto com certo exagero neo-barroco e outras questões interessantes, a danadinha desafiou-me a fazer um poema sobre a porta da nossa sala de trabalho. Fiz.  Creio que dá pra publicar aqui:



UMA ROSA RASA



À porta, o simples:
ergue-se o ser plano e angular,
mera tábula.

À porta, o singular:
planta de folha única,
monolito em eucatex, uma rosa rasa.

À porta, a estética:
fruta de sua função.
bela sem ter a necessidade de pétala.

À porta, aportam
a forma e o fundo:
silogismo binário, o geométrico e profundo
ser que abre e fecha
a prosa do mundo


Eurico
14/06/2001




Poema dedicado a Lana Helane Reis Raposo,
uma das pessoas mais brilhantes que já conheci,
e de quem recebi lições profundas e belas
que guardo com o carinho e o cuidado de um eterno aprendiz.



Fonte da ilustração:
Mais uma obra prima de Emanuel B. Brito.

domingo, setembro 30, 2012

ARCO DA RABECA (litania d'Olinda)

ARABISCO: Caminho do Céu - E. B. Brito
 

Quem diria...
O arco da minha rabeca é árabe.
Mas nós é que inventamos os desertos
Os hamburgueres,
E as calamidades.

Deus! quanto é vã nossa modernidade.
Perfunctória e fútil, eis a verdade.
Essa fuligem é tão mórbida
Quanto a obesidade.

Havia um coqueiral na praia.
Algumas casas.

Um farol.
E o que agora encontro é a Realidade.
Nem peixes.
Nem tarrafas.
Nem anzóis.


Deus! quanto é vã nossa civilidade.
E quando o tempo nos tirar o véu,
Pode ser tarde.

O arco da minha rabeca é árabe.


Mas nós já temos a indústria.
E o forno arde.
Novos desertos surgem ao cair da tarde.
O mar avança
E alcança
a nossa vaidade.

Deus! quanto é vã a nossa ansiedade.

Entanto, indiferentes,
Erguemos túmulos litorâneos
E os batizamos:
Cidades.

...mas descobri, enfim,
que o arco da minha rabeca é árabe.


Quem diria...
O arco da minha rabeca é árabe.

 

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Eurico
(com arabisco de Emanuel B. Brito)


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sexta-feira, setembro 28, 2012

SAGRAÇÃO (mitopoese com Cabeça)


CABEÇA - E. B. Brito



...unge a tua cabeça, e lava o teu rosto
Mt 6:17





Fiz-me ao mar de mim.
Sou um silêncio
em que se funda o mito;
um mar intenso.


Fiz-me ao mar de noite.
O meu nigredo.
E ouço o marulhar:
mistério e medo.

***
 
(Essa totalidade eu não invento.
Se estou uno, a unicidade vem de dentro. )
 
 
***

 
 
Eurico
(releituras em Giambattista Vico)


terça-feira, setembro 25, 2012

CÁLIX (um mitologema)

CÁLICE - E. B. Brito
 

De pé sobre as águas
Ergo até a fronte, em brasa,
A Palavra.
Seu hálito me invade
E acende a porta, a estreita porta,
Vazada sobre a noite dos tempos.
Mesmo quando sobrevoa-me em círculos
A ave do ocaso:
Nada dizer.
Nenhum pensar.
Nada ser.
Chorar sobre a cidade agônica
E olhar-me de fora das muralhas.
Tenho um centro ou dilato-me centrífugo?
Todos os ninhos estremecem vazios.
Estou sem mim.
Mas há címbalos.



 

Poema também publicado, anos atrás,  em http://www.blocosonline.com.br/
por gentileza da amiga Leila Míccolis - Maricá-RJ
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Imagem:
Cálice in AbARCA

Comentário deste poema em
Um Cronist'Amador


 

sexta-feira, setembro 21, 2012

PASSAREDO (vitral abstrato)

Passaredo - E. B. Brito


 
Sounds of Nature - Forest Piano:

 

Oiço pássaros,
nesse palrar de traços;
 
Pássaros,
saltitam, abstratos;
 
Pássaros.
Alegres, ruidosos, inquietos, inexatos;

Vários:
ferreiros, sabiás,
canários e sanhaços;
 
Pássaros,
 gorjeiam nos rabiscos.
passeiam nos espaços.
 
Silêncio!

Oiçam os traços...
 
 
 
 ***

Nota do blogueiro:
Não é poema,
é mera legenda para essa imagem maravilhosa
de Emanuel B. Brito.
 
 
 

 

terça-feira, setembro 18, 2012

ESTUDO Nº 1 (poesia incidental)

FOLHAS - E. B. Brito
























Poderia ser Debussy,
se as folhas, pequeninas asas,
voluteassem sobre nós.

Poderia ser Debussy,
e a fauna acataria o fauno
sob os raios meridianos.
Decerto, nessas copas frondosas
Surgiriam generosas, as alas, em dó sustenido maior.

Se fosse Debussy
haveria condão de nuvens
e rajadas altissonantes
pelos cabelos em desalinho
de uma menina, em diáfano trampolim.

As árvores, naturalmente majestosas, alçariam vôo...

Assim,
Seríamos novas manhãs,
Novas sonoridades,
e não mais esses gritos estonados sob um tropel.


 
Releiam,  ouvindo um cristalino piano em Arabesque nº 1, do eterno Achile-Claude Debussy:



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DE LÍRICA - para uma metafísica do sensível

CORTINAS - E. B. Brito














































Subindo para o geral, sem jamais se desprender do ponto de partida, a ascensão metafísica é similar ao papagaio de papel a subir sempre mais sem desprender-se do cordel de quem o puxa; somente sobe porque está preso à terra. O metafísico, homem pequenino a puxar pelo cordel de suas idéias, atira o seu pensamento para as alturas; com as idéias intencionalmente nas nuvens, subirá sempre mais, à medida que der impulso a partir dos dados primitivos de sua própria metafísica.
(Evaldo Pauli)



Luzeiros na noite escura.
A chuva em que viça a flora.
Deliciar-se em doçura.
A tua presença agora.
Súbita flor na planura.
Uma ária ao romper da aurora...

Pobres dos que não os percebem!

Antes, os bêbados,
os clowns,
os birutas,
os poetas...
(Todos os que não padecem
da abulia que acomete
os normais e os exegetas.)

Mas, o que é isso, de fato?
Isso, indizível, mas, evidente,
que, vez em quando, invade,
assim, de lírica, a mente?

Flor, luzeiros,
chuva, aurora,
viço, doçura, presença...

Brilha nisso, simplesmente,
um indício in/ato,
de certa instância:
a estesia.
Pulsa um Ser, em entreato,
pulcro e abstrato:
A poesia.





Villa Lobos, Bachiana nº 5, Amel Brahim:


 
Fonte da imagem:
DELÍRICA

quinta-feira, setembro 13, 2012

UMWELT (poema-conceito)


OLHARES - E. B. Brito
























Ouvindo Dream, de Jean Michel Jarre:
(tentando fugir do lixo musical com que a grande mídia nos tem brindado...)




“Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que temos batizado realidade é uma ilusão ainda maior do que o mundo dos sonhos.” (Salvador Dali)


Cada olho, ventre,
cada olho, verte-se
cada olho in/verte
Cada olho:
Um vórtice,
toda impossível luz.


Ponto, linha, ponto.
Dobra, curva, canto
níveis superpostos:
esse plano e o espanto.


Cada olho, v/entre
cada olho, a/gente.
Cada olho:
Umwelt,
d'eus em vertiginosa luz.




Fonte da imagem:

segunda-feira, setembro 10, 2012

ARABESCOS OU A/RABISCOS - uma loa para E. B. Brito



CARANGUEJO - E. B. Brito




Que o desenho é o fundamento do trabalho dos grandes artistas, é sabido por todos. Mas não é só isso. Alguns o elegem como seu principal veículo de criação estética. Daí os grafismos, o tachismo, o bico de pena, as diversas apresentações do desenho, que perpassam os vários nichos da arte contemporânea.


Assim, os intrigantes desenhos de Emanuel Bezerra de Brito, (que, na sua modéstia de sábio cearense, ele costuma denominar de rabiscos), revelam sua insólita maneira de olhar o mundo, aparentemente caótica, decerto, mas, pontuada por representações de um mergulho interior, que esse artista eleva ao nível de obra de arte, produzindo formas viscerais e telúricas, tais como:

Astral
ou



Bizunga


















formas que, ao emergirem desse mergulho, vêm ensopadas de um lirismo abstrato e profundamente pessoal.

Essas linhas por vezes  se aproximam da forma tradicional dos arabescos, embora assistemáticas e sem preocupações geométricas, como nesses Caminhos:






Não lhe escapa, no entanto, um certo figurativismo, nascido da observação de seu entorno, de seu universo pessoal, com grande carga de elementos que transitam entre o sonho e o mítico, como os que se notam em


Ás de Copas


 
 
Vaqueiros
 
 





 
Mariamiranda



e na belíssima                                      
Colombina

 
 


Essa espécie de expressionismo lírico, despojado e até mesmo informal, (eu deveria dizer naïf) em sua abordagem técnica, pode sim, ser chamada de a/rabiscos (não apenas rabiscos!), posto que são verdadeiros arabescos intuitivos, mas, de surpreendente beleza, principalmente nos que lembram o que eu chamo de vitrais abstratos, tais como

Andaimes,


ou em Olhares





A reiteração de certas composições e traços trazem uma certo ritmo ao seu tracejado, uma musicalidade espontânea, lúdica, casual, que, nos leva à percepção das imensas possibilidades dessa obra, que permeia as mais imprevistas nuanças de uma ars poética, onírica e surreal,

como se vê neste impactante The Wall



Mais desse abstracionismo lírico os leitores hão de encontrar no blog AbARCA,
que navega serena e altaneira, levada pelas mãos desse artista bissexto e simples,
que guarda um estilo próprio dos grandes mestres.


Um abraço, Manel.


Eurico
setembro/2012

***

P.S.:
Estamos trabalhando juntos em um projeto que vai unir o meu inédito Ser Tão Profundo ao talento do amigo Emanuel.