Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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terça-feira, agosto 25, 2009

Canto 1º, Soneto XXVI


















XXVI



Qualquer seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios

Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

Jorge de Lima

Fonte do texto:

Invenção de Orfeu, 1º Canto, p. 47



Fonte da imagem:

Deslimites do Ser (visitem esse blogue, vale a pena!)

sábado, abril 18, 2009

E por falar em inutilidades, leiam Jorge de Lima




















Aos 21 de setembro de 2006, publiquei, aqui mesmo, alguns sonetos da Invenção de Orfeu, do genial poeta Jorge de Lima. Porém, esse tema da inutilidade da poesia (inutilidade que lhe faz superior às coisas úteis, mas poluentes) trouxe-me à memória dois sonetos, em especial: o Sétimo, do Quinto Canto, e, logo a seguir, o Quinto, do Primeiro Canto.


VII (Quinto Canto)


Estão aqui as pobres coisas: cêstas
Esfiapadas, botas carcomidas, bilhas
Arrebentadas, abas corroídas,
Com seus olhos virados para os que

As deixaram sózinhas, desprezadas,
Esquecidas com outras coisas, sejam:
Búzios, conchas, madeiras de naufrágio,
Penas de ave e penas de caneta,

E as outras pobres coisas, pobres sons,
Coitos findos, engulhos, dramas tristes,
Repetidos, monótonos, exaustos,

Visitados tão só pelo abandono,
Tão só pela fadiga em que essas ditas
Coisas goradas e orfãs se desgastam.


Jorge de Lima
(Quinto Canto, Sétimo soneto)



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V ( Primeiro Canto)


Não esqueçais escribas os somenos
As geografias pobres, os nordestes
Vagos, os setentriões desabitados
E essas flores pétreas antilhanas.

Há nesses mapas números pequenos,
Uns tempos esbraseados para pestes
E muitos ossos tíbios chamuscados,
Faces perdidas, formas inumanas.

Não esqueçais, escribas, ir contando
Nas cartas, o que está aparente, ao lado
Das invenções em seu fictício arranjo.

E os pequenos orgulhos, sempre quando
Quereis fugir ao mundo persignado,
Ó impenitente e despenhado arcanjo.


Jorge de Lima
(Canto Primeiro, Quinto soneto.)




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Clique na imagem para ver sua origem.

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quinta-feira, setembro 21, 2006

Orfeu nordestino




Jorge de Lima, o inventor de Orfeu

Só a poesia une os extremos
e numa mesma frase alberga
imagens tão díspares,
como nestes versos de Caetano:

"...um amor assim violento,
quando torna-se mágoa,
é o avêsso de um sentimento:
oceano sem água"


Embora o mar se esconda em léguas de vazante
antes de virem as terríveis tsunamis,
esse deserto marinho seria impossível
sem a presença órfica da poesia.

Essa presença órfica transcende todos os limites em Jorge de Lima,
que reinventa a língua e desafia os deuses, como Orfeu,
criando um universo novo e só possível pela poesia,
pela punjante e criadora força mitopoética desse alagoano,
cujo fascínio transcrevo em poucos sonetos, aqui neste blog lírico,
que fica invadido do mais puro e profundo lirismo!
Aqui estão os cantos que escolhi em Invenção de Orfeu:



V


Não esqueçais escribas os somenos
As geografias pobres, os nordestes
Vagos, os setentriões desabitados
E essas flores pétreas antilhanas.

Há nesses mapas números pequenos,
Uns tempos esbraseados para pestes
E muitos ossos tíbios chamuscados,
Faces perdidas, formas inumanas.

Não esqueçais, escribas, ir contando
Nas cartas, o que está aparente, ao lado
Das invenções em seu fictício arranjo.

E os pequenos orgulhos, sempre quando
Quereis fugir ao mundo persignado,
Ó impenitente e despenhado arcanjo.


Jorge de Lima
Canto Primeiro, Quinto soneto.



VII


Estão aqui as pobres coisas: cêstas
Esfiapadas, botas carcomidas, bilhas
Arrebentadas, abas corroídas,
Com seus olhos virados para os que

As deixaram sózinhas, desprezadas,
Esquecidas com outras coisas, sejam:
Búzios, conchas, madeiras de naufrágio,
Penas de ave e penas de caneta,

E as outras pobres coisas, pobres sons,
Coitos findos, engulhos, dramas tristes,
Repetidos, monótonos, exaustos,

Visitados tão só pelo abandono,
Tão só pela fadiga em que essas ditas
Coisas goradas e orfãs se desgastam.


Idem
Quinto Canto, Sétimo soneto



VIII


A estepe e a noite se deitaram juntas,
Paralelas as asas sobre as asas,
Ambas com as solidões, ambas defuntas,
E entre elas, sós, ardentes como brasas,

Espreitando à direita e à esquerda o estrito
Espaço ínfimo que entre as duas corre,
Correm cruciados como o imenso grito,
Imenso grito mudo de quem morre,

Os olhos renegados de quem está
Esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente

Às trevas opressoras, olhos que a
Estepe e a noite juntas se estreitando
Apagam misericordiosamente.

Idem
Quinto Canto, Oitavo soneto.


XV


Vem amiga; dar-te-ei a tua ceia
E a comida que acaso desejares,
E algum poema que ilumine os ares
Menos que a luz malsã dessa candeia.

Aqui terás o peixe desses mares
E o mais gostoso mel de toda a aldeia.
De onde vens? De que cimos? De que altares?
Que luz angelical te agita a veia?

Como te chamas vida da outra vida,
Espelho noutro espelho transmudado,
Lume na minha luz anoitecida?

Serás o dia à noite do outro lado
De meu ser que nas trevas se apagou?
Ou serás qualquer lume que não sou?


Idem
Segundo Canto, Décimo-quinto soneto


XXVI

Qualquer que seja a chuva desses campos
Devemos esperar pelos estios;
E ao chegar os serões e os fiéis enganos
Amar os sonhos que restarem frios.

Porém se não surgir o que sonhamos
E os ninhos imortais forem vazios,
Há de haver pelo menos por ali
Os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde
E julga tê-los em seus próprios bicos
E ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas
Possa mirar-se as asas depenadas
E contentar-se com as secretas penas.


Idem
Primeiro Canto, Vigésimo-sexto soneto.


Pequena Biografia
copiada do © Projeto Releituras Arnaldo Nogueira Jr


Jorge Matheos de Lima nasceu em Alagoas, em 3 de abril de 1893. Fez os primeiros estudos em sua cidade, União, e depois em Maceió, no Colégio dos Irmãos Maristas. Estudou Medicina em Salvador, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde defendeu tese sobre os serviços de higiene na capital federal. Ainda estudante de Medicina, publicou seu primeiro livro, XIV Alexandrinos (1914). Após ter se formado, retornou a Maceió. Sem jamais ter abandonado a Medicina, lecionou na Escola Normal Estadual da cidade, chegando a ser diretor. Ocupou outros cargos públicos estaduais, como Diretor-Geral da Instrução Pública e Saúde e Deputado, além de manter constante seu interesse pelas artes plásticas.

Em 1930, transfere-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro, onde clinica e leciona Literatura Brasileira, nas Universidades do Brasil e do Distrito Federal. Em 1925 foi eleito vereador, ocupando, três anos mais tarde, a presidência da Câmara, no Rio de Janeiro.

Assinalou a polimórfica trajetória com muitos e sucessivos rótulos estéticos: modernista, regionalista, nativista, “cantor da poesia negra e do folclore”, neo-simbolista, místico-realista, “poeta cristão.” ·

Sua obra mais conhecida, "Essa negra Fulô", foi publicada em seu livro "Novos Poemas".

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 1953.

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

XIV Alexandrinos (1914); O Mundo do Menino Impossível (1925); Poemas (1927); Novos Poemas (1929); Poemas Escolhidos (1932); Tempo e Eternidade (1935) - em colaboração com Murilo Mendes; A Túnica Inconsútil (1938); Poemas Negros (1947); Livro de Sonetos (1949); Obra Poética (1950) - inclui produção anterior, juntamente com Anunciação e Encontro de Mira-Celi; Invenção de Orfeu (1952); Castro Alves - Vidinha (1952).

Romances

Salomão e as Mulheres (1927); O Anjo (1934); Calunga (1935); A Mulher Obscura (1939); Guerra dentro do Beco (1950).

Ensaios, história, biografias

A Comédia dos Erros (1923); Dois Ensaios (1929) [Proust e Todos Cantam sua Terra]; Anchieta (1934); Rassenbildung und Rassenpolitik in Brasilien (1934); História da Terra e da Humanidade (1944); Vida de São Francisco de Assis (1944); D. Vital (1945); Vida de Santo Antonio (1947).