Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

O Povoado dos Moinhos - Akira Kurosawa



















Diálogo entre o ancião e o viajante


Diálogo reproduzido do último conto do filme "SONHOS" de AKIRA KUROSAWA (Akira Kurosawa’s Dreams), denominado O POVOADO DOS MOINHOS ( Village of the Watermills).
Este trecho do filme traz uma mensagem aos seres humanos de todo o planeta.
Um velho sábio fala ao moço da cidade grande sobre as coisas que considera as mais importantes na vida de uma pessoa: a água e o ar puro.

De que adianta tanto conforto proporcionado pelas invenções da modernidade, se não há mais paz e se as pessoas esqueceram que preservar a natureza é fundamental? O filme termina com uma lição: um cortejo festivo para celebrar a morte de uma senhora de 99 anos – afinal, nada mais justo do que se despedir de uma pessoa que viveu muito bem e de forma completa com dança e música.


Viajante – Qual o nome deste povoado?
Ancião – Não tem. Só chamamos de “O Povoado”. Alguns chamam de Povoado do Moinho.
Viajante – Todos os habitantes moram aqui?
Ancião – Não. Moram em outros lugares.
Viajante – Não há eletricidade aqui?
Ancião – Não precisamos. As pessoas acostumam-se ao conforto. Acham que o conforto é melhor. Rejeitam o que é realmente bom.
Viajante – Mas, e as luzes?
Ancião – Temos velas e óleo de linhaça.
Viajante – Mas a noite é tão escura.
Ancião – É. Assim é a noite. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não ia querer noites claras, que não deixassem ver estrelas.
Viajante – O senhor tem arrozais. Mas não tem tratores para cultivá-los?
Ancião – Não precisamos. Temos vacas, temos cavalos.
Viajante – O que usa como combustível?
Ancião – Lenha, na maioria das vezes. Não achamos direito cortar árvores, e muitos galhos caem sozinhos. Cortamos e usamos como lenha. E para carvão de madeira, poucas árvores aquecem tanto quanto uma floresta. Também estrume de vaca dá bom combustível. Gostamos de viver respeitando a natureza. As pessoas, hoje, esqueceram que são apenas parte da natureza. Mas destroem a natureza da qual dependem nossas vidas. Elas sempre acham que podem fazer melhor. Especialmente os cientistas. Podem ser inteligentes, mas não compreendem o verdadeiro significado da natureza. Só inventam coisas que tornam as pessoas infelizes. Mas têm tanto orgulho das invenções deles. Pior é que muita gente também se orgulha. Encaram-nas como milagres. Idolatram-nas. Não percebem, mas estão perdendo a natureza. E, como conseqüência, vão morrer. As coisas mais importantes para o ser humano são ar puro e água limpa, as árvores e grama que os produzem. Tudo está sendo poluído, e perdido para sempre. Ar sujo, água suja, sujando os corações dos homens.
Viajante – Vindo para cá, vi algumas crianças colocando flores em uma pedra ao lado da ponte. Por quê?
Ancião – Ah, isso. Meu pai me contou uma vez. Há muito tempo, acharam um viajante morto, perto da ponte. Os aldeões ficaram com pena e o enterraram lá. Colocaram uma pedra na tumba dele e puseram flores. Tornou-se um costume colocar flores lá. Não só as crianças. Todos os aldeões colocam flores quando passam, embora a maioria não saiba por quê.
Viajante – Há um festival hoje? (ouvindo uma festividade aproximando-se).
Ancião – Não, é um funeral. Acha estranho? Um funeral é sempre agradável. Viver bem, trabalhar bem e morrer com agradecimentos é louvável. Não temos templos nem sacerdotes aqui. Assim, os próprios aldeões levam os mortos até o cemitério da colina. Mas não gostamos quando jovens e crianças morrem. É difícil comemorar tal perda. Mas, felizmente, as pessoas deste povoado levam uma vida natural. Então, morrem de acordo com a idade. A anciã que vai ser enterrada viveu gloriosamente os 99 anos. Agora, vou unir-me ao cortejo. Com licença. Na verdade, ela foi o meu primeiro amor. Mas ela partiu meu coração e me trocou por outro. Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Viajante – A propósito, quantos anos tem?
Ancião – Eu? Cem... mais três. Boa idade para parar de viver. Uns dizem que a vida é sofrimento. Isso é bobagem. Sinceramente, é bom estar vivo. É emocionante.

(O ancião dirige-se à estrada, seguido pelo viajante, para juntar-se ao cortejo festivo. Cumprimenta cordialmente o viajante e une-se aos outros aldeões em festa. O viajante assiste admirado o cortejo passar e, antes de retirar-se da aldeia, deposita flores na pedra do túmulo do viajante morto. A paisagem é indescritivelmente bela... E os moinhos, girando no ritmo da correnteza do rio, expressam o ritmo da vida).

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Fonte do texto e da imagem:


http://www.caminhosdeluz.org

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Assista no youtube:

O Povoado dos Moinhos



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(Ah, os grifos são meus. rs)

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10 comentários:

Dauri Batisti disse...

Belo post. Vou acolher sua sugestão e vou lá no youtube ver.

Abraço forte.

Jens disse...

Oi Eurico.
Te vi lá no Palimpnóia e vim aqui conhecer o teu espaço. Gostei. O diálogo entre o Ancião e o Viajante é uma daquelas histórias simples mas universais. Me lembrou um conselho de León Tolstói: "se queres ser universal, canta a tua aldeia".
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Uma carícia para o olhar o Renoir, lá embaixo.
***
Um abraço.

Shirley Pacheco disse...

Putz, Eurico, tu nem imagina a vontade que me deu de conhecer esse povoado (de repente até viver por lá, até meus 100... e mais um bocado de anos... rs).
Um beijo, desejos de um bom finde procê, querido!

Soninha disse...

Olá, Eurico!
Que lugar incrivelmente lindo a aldeia dos moinhos!
Assisti ao vídeo e adorei!
Deu vontade de estar ´lá...ouvindo o barulho da água com o girar ritmado dos moinhos.
Quanto verde...quanta tranquilidade...quanta paz!
Na festividade do cortejo fúnebre, deu vontade de fazer uma cantar e de fazer uma prece também.
Muito legal mesmo!
Valeu, Eurico. Agradeço por nos trazer isto.
Excelente final de semana!
Muita paz! Beijossssssssssss

Eurico disse...

Creio que vcs já viram, mas se não assistiram, vale a pena ver os outros quatro sonhos do filme do Kurosawa. Estão lá no youtube.
O do jovem pintor que penetra nos quadros do Van Gogh é incrível!

DiAfonso disse...

Adianta, Meu Grande Cumpadi!

Como "gafanhoto" diante do MESTRE, indago: - Haveria o "Povoado dos Moinhos", se não houvesse o universo mistificado de um Chico de Assis... Se não existisse a violência semântica e lindamente encarnada em flor de um Mahatma Gandhi... Se não houvesse o

"Ainda um grito de vida
e voltar
para onde tudo é belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe."

de um Drummond... Se não existisse a "ROSA DE HIROSHIMA"?

Sempre Existirá, MESTRE?

Abração!

Pernambucanos Arretados disse...

Que lindo. Tudo verdade. Vou procurar esse filme pra baixar =)

Loba disse...

Poeta querido!
Hj meu espírito e meu coração se alegraram contigo aqui!
Primeiro, Kurosawa! Sou uma ardorosa fã deste cineasta desde que vi, há mil anos atrás, Dersu Usala. Daí em diante, vi tudo dele e tantas vezes que alguns filmes, como Sonhos, já moram dentro de mim! rs...
Depois, este belo dialogoque vc pescou! tenho uma grande inveja de como os orientais encaram a morte. é uma cultura linda qdo se trata de aceitar a vida com esta provisoriedade que todos sabemos, mas náo aceitamos.
Credo! misturei tudo, mas vc me entende, né? rs... muito bom estar aqui, poeta.
Beijocas

Lucas Oliveira disse...

Eurico,
exatamente ontem, a professora de Sociologia, na faculdade, passou esse vídeo, para falarmos sobre ele. Por coincidência, resolvi buscar na internet uma imagem para postar no meu blog (porque fiz um post sobre o vídeo)... e acabei te encontrando.

Gostaria muito de que desse uma passadinha no meu blog ( clique aqui para entrar no blog! )...

Foi muito legal além de ter encontrado uma imagem, as falas completas do documentário.

Um abraço,

Lucas Oliveira

Rejane Martins disse...

Sabe Eurico,
Quando o tempo permite, não precisa ir muito longe em tuas postagens pra se garantir um alento para o olhar.
Kurosawa é meu preferido... gosto muito da ideia de ver ou ler novamente, e novamente, e novamente.
Te agradeço por isso.