
Quando Ela nos alcança, cadavérica e terrível,
De nada adiantam as especulações ontológicas,
A teleologia
ou
a incognoscível redução fenomenológica;
Nada nos salva,
nem mesmo a transubstanciação eucarística.
Ela chega destruindo toda ciência,
toda consciência.
Ela ressoa no cerne mesmo
daquilo que os saciados chamam alma.
Aos poucos Ela invade o núcleo das células,
que se vão devorando umas às outras,
fugindo da inanição.
As sístoles e as diástoles se atropelam.
A Razão fraqueja.
E o Ser começa a delirar na cor azul.
Porém, quando Ela nos alcança,
o sentido profundo da vida se revela,
em imperiosa e urgente concretude,
pois Ela não falseia a realidade.
Ela é a coisa mais pura e verdadeira:
A Fome, quando chega, não ilude.
Fonte da imagem: FOME EM ÁFRICA
Para carpir, (ou penitenciar-se, se preferes): Lacrimosa, de Mozart
ou Chico Buarque - Brejo da Cruz:
