Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Lirismo e Libertação




















Mas o que é mesmo lirismo?
Lirismo é uma maneira de ver e acercar-se das coisas, da realidade. Lirismo é pois, perspectiva, interpretação, ambas fundadas na emoção. Mas numa emoção vital, consciente da radical importância da vida na Terra. Vida dos homens, dos animais, das plantas. Vida.
Fundado nessa perspectiva, o lirismo  já é, em si, uma atitude política diante do mundo.
Portanto, o lirismo não é apolítico. Pode e quer o lirismo interferir nos rumos da pólis. Esse lirismo sonha atuar na sociedade, propondo um salto civilizatório. Um movimento pela qualidade da vida humana, dentro de uma visão ecossocialista, pacifista e libertária. Mas nossa política não é a dos grandes líderes messiânicos, nem a política partidária, (essa em que os fins justificam os meios), e sim, a política do cotidiano, feita por anônimos, que querem fundar uma sociedade da gentileza e da cortesia, tanto nas pequenas quanto nas grandes cousas.
Mas, como propor uma política da ternura, em um mundo em que parece imperar a indiferença, o desamor? Parece frágil, essa postura. Mas não é. Resiliente, talvez, frágil, jamais. Essa busca do lirismo e da ternura, diante de um mundo que fraqueja ante a lei da força, do poder pelo poder e da violência gratuita, é, sim, a atitude dos fortes, dos que ousam resistir e sonhar.
Quem se ocupa da musicalidade e da harmonia das cores, das palavras e dos sons, se incumbe também de ocupar um espaço (político) para a poesia, para o poético, para a beleza.
Esse lirismo interfere na pólis, ou seja, faz política, ocupando-se do belo, do bom e do bem, com a inocência e a ingenuidade da criança... nietzscheana. E isso não é utopia. É necessidade vital. A preservação da vida na Terra carece de uma tomada de atitude em defesa desse salto civilizatório. Essa atitude é radicalmente lírica e política.
Não existe, pois, um lirismo comedido. Todo lirismo já é, em si, libertação.

Eurico
10/07/2011

FONTE DA IMAGEM:
http://semeadoresdeestrelas.blogspot.com/2011/05/curando-com-o-reino-animal-como-nos.html

terça-feira, março 05, 2013

TAMBORES (ecos do carnaval...)


CRONOS
Emanuel Brito






















Dançar nas ruas
E celebrar as horas,
A par da própria fragilidade.
Dançar,
Afrontando, airosamente, o Inelutável.

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dançar com alegria, em fado incerto.

Assim, dançar nas ruas, impunemente,
Sem nenhuma inocência ou temor.
Acaso estaríamos protegidos da fugacidade,
Dentro de nossas cascas,
Com as nossas cabeças cobertas por véus?

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dancemos, com alegria, ao fado incerto.




Fonte da imagem:






sábado, fevereiro 23, 2013

DÉSIR




















Estar...
Uma imperceptível corda
alçada sobre nonada,
de que se evola um tênue arpejo,
indefinível coma,
em que antevejo
(isso que assoma)
o imponderável drama,
entre o instante e o ensejo
:
Estou esse desejo...




Fonte da imagem:
FORA DE MIM


Curtindo Time - Pink Floid



terça-feira, janeiro 01, 2013

MARINA

Imagem Google
















Entre o céu e o mar, a infinda linha...
O verdazul, a branca praia...
a água morna e uma sutil brisa marinha,

Um pasmo é inevitável:

...quem diria que, um dia, nesse mar de calmaria,
uma nau se fez infame
e tornou homens em galinhas...


Eurico
01/01/2013

sexta-feira, dezembro 07, 2012

DAGUERREÓTIPO SOBRE DESTERRO



















O Sol é uma palavra cheia de claridade. 
Mas há algo enceguecente em sua luz. 
Por isso, quando alguém te disser 
que o Sol lateja sobre Desterro, 
não cismes em mais nada. 
Apenas lateja ao Sol. 

Simplesmente... 
Mas não tão simples: 

É que certas palavras podem ser inquietantes... 
Essas podem nos insular.

Basta captar imagens em preto e branco:
Desterro sob o Sol.

E nada mais dizer.




Fonte da img:
Dipity

quarta-feira, julho 11, 2012

FLUSS (autorretraço)
















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.










fonte da img:

sábado, março 24, 2012

ATROPELAMENTO (vertigem lúcida no 12º andar)



















poema dedicado a Friedrich Wilhelm Nietzsche (in memoriam)

Podem confinar-me.
Sim, hoje estou pronto para ser levado ao asilo.
Há duas loucuras profundas em mim:

A primeira é doar todos os meus parcos bens aos pobres
E ir morar às ruas, com os pedintes e bêbados.

A outra, a mais difícil e quase inexequível,
Aquela que só raríssimos loucos alcançam,
A que verdadeiramente dá-me vertigens lúcidas:

Ir arrancando de mim
cada coisa produzida pelos homens;
Roupas de grife,
Tênis da moda,
Meias-soquete,
E esse agasalho de lã sintética;
Despir-me assim de uma vez, de tudo.
Lançar fora, mais do que franciscanamente,
Não somente os bens da terra;
Mas, expulsar de mim tudo o que me representa:
Opiniões.
Conceitos.
O meu nome.
Lançar fora a minha formação intelectual.
A língua com que escrevo esse poema.
E até mesmo o tema desses versos,
esse inútil clamor, em meu imenso deserto.

Estou debruçado à janela do 12º andar.

Arquitetado na área de um antigo sítio,
esse edifício em que habito
é a fruta mais perfeita da imbecilidade humana.
Fruta de casca dura e insípida.
Fruta de que não se pode desfrutar
nem o sabor, nem a carnação, nem nada.

Lá no pátio brincam crianças.
Lá no pátio riem crianças.
Ainda as há...a brincar
Pois os portões estão guarnecidos por uma sentinela.
Estão protegidas por grades, as crianças que brincam no antigo pomar de jaqueiras.

Ao longe, um pequenino vulto cruza a avenida.
Tomo dos binóculos.
Agora contemplo melhor.
É um pequenino cão das ruas.
Ah, meu pequenino irmão!
Vejo-te, ampliadas as tuas chagas, teus carrapatos,
Com esses óculos de longo alcance.
Mas não te alcança a minha alma, tão pós-modernamente cartesiana.

Ouço os sorrisos dessas crianças...
No entorno, os carros, feia fumaça,
Homens gritando, qual britadeiras,
Uma roda viva?
Uma roda à morte.
A roda enorme do caminhão que transporta o lixo.
O caminhão que tritura o lixo dessa cidade feita de lixo.
A roda enorme do caminhão...
Ouço um ganido...
Mortal ganido.
E a gritaria dos transeuntes...

Ai, não suporto mais essa vida!
Nu dos sentidos,
Livre das normas,
Desço correndo pelas escadas desse edifício,
(Hoje me levarão para o hospício.
Mas o que importa que façam isso?)
Invado a rua, assim, despido,
Tomo-te aos braços, bicho ferido.
Tomo-te aos braços, enlouquecido.

Todo o sentido teleológico, em mim desaba:

há duas patas esmigalhadas
sobre a calçada.

Fulo da vida, nego a mim mesmo, crísticamente.
Nego isso tudo:
Prédios, fumaça, caos, britadeiras.
Pois essas patas sob essas rodas
são um libelo contra a cultura, minha cultura.
E esses dois olhos com que me fitas
com tal candura,
são aforismos de Zaratustra,
são marteladas
contra essa Ordem filha da puta!
Assim te entendo, aqui, nu e louco;
Assim te entendo nessa hora angusta.
Mas não me entendo nessa Babel:

Tu representas os seres mudos e indefesos da criação?
És, nos meus braços, meu semelhante, como a novilha dos indianos?

Cachorro louco, feio, fedido, faminto, sujo e estropiado,
irmão dos homens abandonados, que vivem ao léu,

És um holocausto, tosca oferenda,
que, transtornado,
hoje, ergo aos céus.


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Fonte da imagem:
Quem é o irracional da foto?




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Cliquem em
Resenha Poética para lerem algo referente a esse atropelamento das minhas idéias.





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Reedição de postagem, só pra dizer que estou, relativamente, bem. rsrsrs

quarta-feira, janeiro 18, 2012

VIDA MENOR



(ouvindo uma sonatina para flauta e violão de Radamés Gnattali)

A fuga do real,
ainda mais longe a fuga do feérico,
mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
a fuga da fuga, o exílio
sem água e palavra, a perda
voluntária de amor e memória,
o eco
já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,
a mão tornando-se enorme e desaparecendo
desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
senão inúteis,
a desnecessidade do canto, a limpeza
da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.
Não a morte, contudo.
Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
já sem ornato ou comentário melódico,
vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte),
vida mínima, essencial; um início; um sono;
menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;
o que se possa desejar de menos cruel: vida
em que o ar, não respirado, mas me envolva;
nenhum gasto de tecidos; ausência deles;
confusão entre manhã e tarde, já sem dor,
porque o tempo não mais se divide em seções, o tempo
elidido, domado.
Não o morto nem o eterno ou o divino,
apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro.


Carlos Drummond de Andrade
in, A Rosa do Povo

Fonte da imagem:
Vida Menor

sábado, dezembro 10, 2011

DÉSIR




















Estar...
Uma imperceptível corda
alçada sobre nonada,
de que se evola um tênue arpejo,
indefinível coma,
em que antevejo
(isso que assoma)
o imponderável drama,
entre o instante e o ensejo
:
Estou esse desejo...




Fonte da imagem:
FORA DE MIM


Curtindo Time - Pink Floid


quarta-feira, dezembro 07, 2011

DO MÉTODO (para uma gnosiologia do sensível)

















O vento sobre o molhe extenso...
Algo revolto.
O vento...


Sentir?
Pensar?


Os olhos sabem a luz.
Plurais ou azuis;
Os pés, dois aprendizes na areia.
E esse descompassado palpitar.


Intensidade?
Imensidão?


Caminhar.
Isso clareia, coração.
Mas cada passo é um mar.



fonte da img:
ARARÊ


Debussy: Dialogue du Vent et Mer

segunda-feira, dezembro 05, 2011

DA ÓTICA (para uma teorética do sensível)






















Quando um poeta diz
bonina
diz/simulando,  apenas,
esse mundo sensível,
em que habita
dos olhos a menina.

Seria a poesia
a mera luz sobre a retina?

Quando um poeta diz
grená
e o som acaba
de brotar,
bruto,
dos lábios,
trata-se do inútil traduzir
o que há
nos pequeninos vasos
que irrigam isso que se chama
olhar...

Poesia é só o sangue a/tingindo um capilar?

Quando um poeta diz
magenta
eis que algo na massa cinzenta,
talvez um nervo-estético,
acorda em nós,
uma voz num vão secreto:
é a genetriz da cor,
a mãe,
a cor-da-cor...

Poesia
é só o ser sensível
que transborda e
acorda?

[Acorda]


Fonte da imagem:
Os nomes e as cores
Scienceblogs.com.br

domingo, dezembro 04, 2011

DE LÍRICA (para uma metafísica do sensível)





















Subindo para o geral, sem jamais se desprender do ponto de partida, a ascensão metafísica é similar ao papagaio de papel a subir sempre mais sem desprender-se do cordel de quem o puxa; somente sobe porque está preso à terra. O metafísico, homem pequenino a puxar pelo cordel de suas idéias, atira o seu pensamento para as alturas; com as idéias intencionalmente nas nuvens, subirá sempre mais, à medida que der impulso a partir dos dados primitivos de sua própria metafísica.
(Evaldo Pauli)



Luzeiros na noite escura.
A chuva em que viça a flora.
Deliciar-se em doçura.
A tua presença agora.
Súbita flor na planura.
Uma ária ao romper da aurora...

Pobres dos que não os percebem!

Antes, os bêbados,
os clowns,
os birutas,
os poetas...
(Todos os que não padecem
da abulia que acomete
os normais e os exegetas.)

Mas, o que é isso, de fato?
Isso, indizível, mas, evidente,
que, vez em quando,
invade, lírica, a mente?

Flor, luzeiros,
chuva, aurora,
viço, doçura, presença...

Brilha nisso, simplesmente,
um indício in/ato,
de certa instância:
a estesia.
Pulsa um Ser, em entreato,
pulcro e abstrato:
A poesia.



Villa Lobos, Bachiana nº 5, Amel Brahim:


 
Fonte da imagem:
DELÍRICA

sábado, dezembro 03, 2011

BALADA PARA UM LOUCO






Num dia desses ou, numa noite dessas
você sai pela sua rua ou, pela sua cidade ou,
ou, sei lá, pela sua vida, quando, de repente,
por detrás de uma árvore, apareço eu!!!

Mescla rara de penúltimo mendigo
e primeiro astronauta a pôr os pés em Vênus.
Meia melancia na cabeça, uma grossa meia sola em cada pé,
as flores da camisa desenhadas na própria pele
e uma bandeirinha de táxi-livre em cada mão.
Ah! ah! ah! Você ri... você ri porque só agora você me viu.

Mas eu flerto com os manequins,
o semáforo da esquina me abre três luzes celestes.
E as rosas da florista estão apaixonadas por mim, juro,
vem, vem, vamos passear.
E assim meio dançando, quase voando eu
te ofereço uma bandeirinha e te digo:


Já sei que já não sou, passei, passou.
A lua nos espera nessa rua é só tentar.
E um coro de astronautas, de anjos e crianças
bailando ao meu redor, te chama:
vem voar.

Já sei que já não sou, passei, passou.
Eu venho das calçadas que o tempo não guardou.
E vendo-te tão triste, te pergunto: O que te falta?
...talvez chegar ao sol, pois eu te levarei.
Ah! Ah! Ah! Ah!

Louco, louco, louco! Foi o que me disseram
quando disse que te amei.
Mas naveguei as águas puras dos teus olhos
e com versos tão antigos, eu quebrei teu coração.
Ah! Ah! Ah! Ah!

Louco, louco, louco, louco, louco!
Como um acrobata demente saltarei
dentro do abismo do teu beijo até sentir
que enlouqueci teu coração, e de tão livre, chorarei.


Vem voar comigo querida minha,
entra na minha ilusão super-esporte,
vamos correr pelos telhados com uma andorinha no motor.
Ah! Ah! Ah!

Do Vietnã nos aplaudem:
Viva! viva os loucos que inventaram o amor!
E um anjo, o soldado e uma criança repetem a ciranda
que eu já esqueci...
Vem, eu te ofereço a multidão, rostos brilhando, sorrisos brincando.
Que sou eu? sei lá, um... um tonto, um santo, ou um canto a meia voz.


Já sei que já não sou, nem sei quem sou.
Abraça essa ternura de louco que há em mim.
Derrete com teu beijo a pena de viver.
Angústias, nunca mais!!! Voar, enfim, voaaaarrr!!!

Ama-me como eu sou, passei, passou.
Sepulta os teus amores vamos fugir, buscar,
numa corrida louca o instante que passou,
em busca do que foi, voar, enfim, voaaaarrr!!!
Ah! Ah! Ah! Ah!...

Viva! viva os loucos!!!
Viva! viva os loucos que inventaram o amor!
Viva! viva! viva!



Composição: Astor Piazzolla / Horacio Ferrer
Versão - Moacyr Franco

sexta-feira, setembro 02, 2011

FLOR DO NADA (ou, physis pra Mirze)


As coisas todas brotam de outras coisas...

As rosas,
surgem das rosas
Idéias
nascem de idéias.
Azaléias, flores simples,
surgem dentro de azaléias.
Tudo isso que nós vemos
vem à luz como aletéia,
desde que em seu ventre haja
um fundo idêntico a si mesmo...

Mas, um verso, flor de nada,
emerge espontaneamente,
disso oco e sem sentido
que existe dentro da gente.
Sua forma, (isso que lemos,
esse agora, esse presente),
é o fundo igual que aflora,
é o ser passando a ente.




Fonte da imagem:
http://bloguidonoleari.blogspot.com/2009_01_01_archive.html

quarta-feira, agosto 31, 2011

POEMA QUASE NU



Caminhar nada mais é
do que um pé alçado
e outro no chão.
O movimento é meramente o ritmo
de alternar os pés.
Andar, portanto, não carece de metáfora
nem de alusão.



Assim é este poema
Umas parcas linhas escritas
e outras não.
Alternam-se, ora as entrelinhas,
ora os signos.
Nada no poema move-se
para além do caminho que persigo.

Passos perdidos...

Eis a ilusão:

O adjetivo.






Fonte da imagem:
Passos

terça-feira, agosto 30, 2011

POEMA QUASE NOIR




















Não levarás mistério às coisas que fenecem.
Um por do sol é apenas o sol a se por.

Se houver um branco níveo nos cabelos,
abdica do espelho
ou da lembrança.

Faz quase escuro...
e a hera já entretece todo o muro.







Fonte da imagem:
Recanto de jardim

Abanca-te, a ouvir Sogno, por Andrea Bocceli:

domingo, julho 24, 2011

TODOS OS SENTIDOS

Estranha coisa, a poesia do que nos é familiar.



Fonte da imagem:
escolhas que podemos fazer



Bom domingo,
em todos os sentidos,
com a franco-argelina Amel Brahim-Djelloul,
en/cantando a ária Cantilena ( das Bachianas, nº 5, do Villa-Lobos).

quarta-feira, julho 20, 2011

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) - Nº 1





















Dobrada à René Descartes (poema nº 1)


Um boi fugiu.

Guardo a lembrança de eu-menino,
o tom aflito

dos mugidos (uivos, gritos?)

Dá-me um simpatético arrepio.


Um boi fugiu

dos seus algozes:
A fila, o banho, o abate, o choque.
Um boi fugiu.


Mais tarde,
distraídos (e atrozes),
digeríamos o fato.
Os fatos.








Fonte da imagem:
Abate com Pistola Pneumática



Leia também:
O BOI, em Planeta Lua










Que tal ouvir Karajan, em Tuba Mirum, de Mozart? Dá um arrepio!

sábado, julho 02, 2011

BEACH SOCCER LÍRICO (o fenômeno: futebol em poesia)

















Claude Debussy - Suíte Children's Corner: Jimbo's Lullaby




Quando o mar arrebenta nos recifes
do litoral da minha terra,
as ondas tentam articular uma palavra
(percebo isso, nitidamente,
num súbito acréscimo de receptividade)
:
Sempre...
Balbucia a arrebentação.

Caminho por essas praias há muito tempo.
Costumo palpar os grãos de areia com as pupilas.

Estranho fenômeno.

Sinto o fulgor da presença das coisas.
E isso assusta a minha frágil individualidade.

Estou no fenômeno.

Tocar as coisas com as palavras. Impossível.
Tocar as coisas é fazer filosofia.
Mas sou profundamente lírico.
Fenomenologicamente lírico.
Não há lirismo em epoché.
Minha consciência, irredutível,
abraça-se às coisas, liricamente:

Eu sou o fenômeno.

Os infantes jogam a péla secular,
Chutes de viés cruzam o horizonte.
E eu apreendo algo de musical,
nas variadas combinações dessa opereta de praia.
Danço com eles, volições entre parênteses,
eu-inteiro driblo, chuto e agarro-me à pelota.
Impossível suspender o juízo que faço de mim e das coisas:
Sou o próprio juiz que joga o jogo.

Sou a irrevogável consciência-das-minhas-circunstâncias.

As sensações são esses pequeninos crustáceos marinhos.
Ora afloram, ora escondem-se em mim.
Certas vezes empalideço de emoção, com a arte de um lance .
Mas choro mesmo, ao ver essas crianças tão raquíticas;
Me arreto, quando as ondas arrastam essa bola.

A bola rola e o planeta.
Passam-se as horas.

Agora a tarde cai sobre meus ombros
E sei que estou me despedindo das paisagens daqui.
(Sou o que vejo.)

Sinto-me um preso
Rumo ao degredo.
As ondas, ou algo indefinível,
Tentam iludir-me, ainda,
sussurrando essa palavra.

Sempre...


***


Fonte da imagem:
http://www.flickr.com/photos/namourfilho/2208612063/


Nota do blogueiro:
Sobre o verbête "péla" (bola), acentuado, leiamos o interessante sítio abaixo:
Etimologia da Pelada (por Mário Eduardo Viaro)

quinta-feira, junho 23, 2011

ESTRADA VELHA DO CURADO, 2011


Antiga casa de meus pais,  em um dia de  des/arrumação






















Que é, mesmo, estar em um lugar?
Hic.
Illic.
Ubique.
Repousar no espaço
a se ver passar no tempo?

Aqui,
ali
e em toda parte,
estar é ser, se estiver todo.


Estar é essa presença plena
de onde em quando
o ser palpita, aquilo
que se con/sente vivo:

Do alpendre, a cerca viva,
a ubaia, ácida e cíclica,
e o vento ainda a empoar a estrada antiga...

Eu sou esse lugar que passa, a poeira, a casa reformada...
Sou esse estar...
E só há lugar nisso em que me entrego.
Se inteiro não me estou, não há lugar.


Imagem da casa de meus pais:
http://sitiodolinda.blogspot.com/2008/04/o-que-o-stio-dolinda.html