Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, março 08, 2019

Poeta
















Exerço suavemente o meu ofício. 
Não é difícil: 
Eu faço bolhas de sabão.  

Sopro num tubo, 
esses fonemas 
leves poemas
De voo breve... 

Para entender meu métier, 
Devo estar só. 
Viver a bolha, a brisa, o Sol… 
Ao léu, à toa, feito uma folha, 
U'a frágil bolha. 
Sumiu... 
Fui eu. 
Passei. 
Adeus!

sexta-feira, maio 11, 2018

D'US NA CAATINGA (a chama)

































“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV, da Ética de Spinoza,)

Faz três noites que relampeia...
Ribombam trovões na caatinga.

Estou sem mim.
Vaga pela noite o que eu julgava ser.
Olhos nômades, intumescidos de esperança.
Clarões no horizonte.
A noite rasgada por luzes.
Fluxos coruscantes.

Apalpo-me.
Não tenho em que me tocar.
Sou relâmpagos.
Fui.
Sou ainda.
Isso persevera em mim e em mim se ama.
Sou esse arbusto em chamas.

Quando desabar a chuvarada,
jatos de fogo e água, de ar e terra,
Serei manhã.
Serei saúde.
Serei a vontade de ser que já sou.
Encharcado de D'us, que nem Baruch...

quinta-feira, março 30, 2017

EIRA DE URZES (linossignos em quase-prosa)

Cio da Terra - E. B. Brito



Lavra-se u'a idéia, 
como a qualquer outra eira, 
arando e revolvendo os conceitos,
até se obter uma textura granulosa e fértil. 

A semeadura dá-se 
durante as horas d'ócio, 
solitariamente, 
quando eclodem 
os brotos  iólipos.

Esses linossignos 
surgirão aos molhos, 
morfemas copiosos, como os dos cegos de feira; 
Então deve-se usar um esboiceiro ou boiceira, 
de modo a separar deles a baganha ou bagulho, 
pelo modo com que se retira do linho a linhaça. 

Assim, segregado, metapoéticamente, 
o molho de morfemas será colocada num cesto 
e deixado ao sol durante dias, 
por forma a aloirar bastante 
e estar pronto para entrar na tessitura.
Depois disso, há de ser guardado
num canto aquecido, protegido por pedras, 
durante cerca de três dias consecutivos,
até quebrar a casca, 
feito um pintainho de quelônio. 

Retirado da gruta, , 
grandioso ou sem graça,
é deixá-lo correr num relvado, 
divertindo-se ao sol 
para curar imperfeições congênitas. 

Nos dias seguintes, 
será gramado na grama, 
malhado com a malha, 
esmagado, 
tasquinhado 
e, duramente, ripançado no ripanço, 
para que assim, entremeadas pelos brotos comuns,
se possam urzir raridades, 
que, por sua vez, devem ser
fervidas com água e cinza 
dobadas em dobadoiras, 
para escoimar impurezas; 

Leva-se, então, ao bem fundo d'alma,
para tentar re/alçar...

Colher-se-ão, enfim, as impalpáveis luzes, 
essas que, improváveis em pedras,
surgem,
algo de espanto,
lumes estranhos, nisso 
que fulge.
Ó, bardo, em que, afinal, tu urdes?





Imagem:
Cio da Terra

quarta-feira, março 29, 2017

O Jardim (mitopoese)

Ramos - E. B. Brito


 Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não estiver ligado à videira. João 15:4


Deus nem faz,
Nem realiza.
Deus não cria,
Apenas É!

Deus é uma abundância ôntica
que transborda em nascimentos.

Pedras, rios, mar e homens,
as estrelas mais distantes
e as coisas mais triviais,
não são fortuitas,
mas frutas
desse ramo original,
ligado ao jardim arcaico
daquele mundo auroral.

Ser é Seu único verbo
de tal forma conjugado
que sopra os mitos fundantes
do que é substantivado.

Homens, mar, rios e pedras,
inacessíveis estrelas
e a rosa humilde que medra
de ontofânicas folhagens
são realidades nascidas
da excessiva presença
daquele Ser auroral...



ÁPTERIX


APTERIX - ave imaginária - E. B. Brito

 
 
E eu, aqui, in/significante,
fresta do acaso, entre voláteis vazadouros,
agarro-me ao nexo do estar.

Se é alado o céu e a ventania vai aonde quer,
por que pousar?

Tudo o que é vida passa, tudo é lábil
e a flor bela é fr
ágil 
... e breve...
Viver é instante e espanto,
imprevisível notação numa ária dodecafônica.

Chuva fugaz, lugar nenhum.

Todas as instâncias se acotovelam em janelas irreais:
Há lócus de mim, não eu.
Não sou, 

mas evidências instáveis resistem sem mim.

Creio no solo sob os pés.
Ando movediço...

Ave tardia não voa.
Áptera.
E só.



Eurico
(poema sem data, sem hora, sem lugar...)

Fonte da imagem:
AbARCA