Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, março 29, 2017

TRÍBIO (um olhar intra-histórico)




I


Buscando mitologemas, 
algum vestígio e sinal,
mitemas desse arrabalde 
arcaico e cult/rural...
Entanto, buscando, nele,
o passado que é presente,
o outrora/hoje, a intra-história,
a sépia que adorna o Agora:
...esse arruado atemporal...

II

Um objeto mestiço?
Um indício,
um mito ancestral?
Um totum, um totem,
um resquício de algum rito inaugural;
um uso ainda vigente,
algum costume avoengo,
algo antigo, inda inerente
ao dia a dia das gentes,
nesse pequeno arrabal...


***



Nota:

Nesses últimos anos tenho me dedicado
a observar os habitantes de um lugar,
situado à margem do caminho antigo da Várzea,
o Arruado do Engenho do Meio ou Engenho Velho.
Esse poema é uma espécie de epígrafe ao memorial
que escrevo sobre essas observações.

( Lula Eurico )

terça-feira, março 28, 2017

FLUSS


















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.




quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Lirismo e Libertação




















Mas o que é mesmo lirismo?
Lirismo é uma maneira de ver e acercar-se das coisas, da realidade. Lirismo é pois, perspectiva, interpretação, ambas fundadas na emoção. Mas numa emoção vital, consciente da radical importância da vida na Terra. Vida dos homens, dos animais, das plantas. Vida.
Fundado nessa perspectiva, o lirismo  já é, em si, uma atitude política diante do mundo.
Portanto, o lirismo não é apolítico. Pode e quer o lirismo interferir nos rumos da pólis. Esse lirismo sonha atuar na sociedade, propondo um salto civilizatório. Um movimento pela qualidade da vida humana, dentro de uma visão ecossocialista, pacifista e libertária. Mas nossa política não é a dos grandes líderes messiânicos, nem a política partidária, (essa em que os fins justificam os meios), e sim, a política do cotidiano, feita por anônimos, que querem fundar uma sociedade da gentileza e da cortesia, tanto nas pequenas quanto nas grandes cousas.
Mas, como propor uma política da ternura, em um mundo em que parece imperar a indiferença, o desamor? Parece frágil, essa postura. Mas não é. Resiliente, talvez, frágil, jamais. Essa busca do lirismo e da ternura, diante de um mundo que fraqueja ante a lei da força, do poder pelo poder e da violência gratuita, é, sim, a atitude dos fortes, dos que ousam resistir e sonhar.
Quem se ocupa da musicalidade e da harmonia das cores, das palavras e dos sons, se incumbe também de ocupar um espaço (político) para a poesia, para o poético, para a beleza.
Esse lirismo interfere na pólis, ou seja, faz política, ocupando-se do belo, do bom e do bem, com a inocência e a ingenuidade da criança... nietzscheana. E isso não é utopia. É necessidade vital. A preservação da vida na Terra carece de uma tomada de atitude em defesa desse salto civilizatório. Essa atitude é radicalmente lírica e política.
Não existe, pois, um lirismo comedido. Todo lirismo já é, em si, libertação.

Eurico
10/07/2011

FONTE DA IMAGEM:
http://semeadoresdeestrelas.blogspot.com/2011/05/curando-com-o-reino-animal-como-nos.html

sábado, setembro 10, 2016

Ecos do Eco - lirismo reflexivo




Ecos do Eco ou A Borboleta
comentário do Carlinhos do Amparo


Em seu Pós Escrito ao Nome da Rosa, Umberto Eco,
com requintado bom humor, sentencia que
o autor deveria morrer ao concluir a sua obra,
só para que não pudesse comentá-la,
tampouco, interferir nas interpretações dos seus leitores.
Por isso, creio eu, não deve o artista intentar
fazer a crítica de sua própria obra, por temerária e inútil.

No entanto, nessa mesma obra, diz Eco,
que não há óbice em explicar como e por que se escreveu.
Acerca do processo criativo se pode tratar sem receios.
Pois é exatamente isso que faz Eco no pós-escrito da sua obra magistral:
Interessante o trecho sobre A Filosofia da Composição,
em que descreve como e por que Edgar Allan Poe
arquitetou a estrutura de O Corvo.
Relata, inclusive, como Poe enfrentou aquela luta mais vã, drummondiana,
para alcançar as palavras com as quais, finalmente,
chegaria ao que denominou como sendo o efeito poético da escritura.

E o que seria esse efeito poético do Edgar Allan Poe?

Bem, o efeito poético, segundo Eco, no mesmo pós-escrito,
pode ser definido como:
“A capacidade que tem um texto
de gerar leituras diversas,
sem nunca esgotar-se completamente”.

Quem escreve, diz Eco, quem pinta, quem compõe uma sinfonia,
sabe que deve desenvolver algo do imaginário.
A obra pode emergir de elementos iniciais obscuros, pulsionais, obsessivos;
às vezes, não mais que de uma vontade ou de uma lembrança.
O artista, então, mergulha na matéria com a qual trabalha,
(matéria que tem suas próprias leis naturais,
incluindo a lembrança da cultura em que está embebida,
o eco da intertextualidade
),
para moldar sua obra, isto é, capturar, com palavras, tintas, sonoridades,
o efeito poético, e assim plasmar um insólito objeto de gerar interpretações.

Gilberto Freyre , em ensaio de 1968, intitulado
observa que, Cervantes, ao produzir o Dom Quixote,
trabalhava à revelia de quase todas as convenções literárias da época,
juntando um pouco de velhas crônicas, de façanhas heróicas,
muito de pitoresco, e até de vulgar ou chulo,
colhido diretamente da boca do povo, para
“intensificá-los com efeitos sociologicamente simbólicos
e psicologicamente representativos(...)
numa intensificação de que só são capazes os poetas,
que, ao contato direto com a vida, juntam o poder,
ao mesmo tempo analítico e lírico, de compreendê-la,
de dramatizá-la e de interpretá-la”.

Essa intensificação freyreana dos efeitos simbólicos e representativos
e o efeito poético que Umberto Eco tomou emprestado a Poe,
lembram-me algo do que diz G. M. Kujawski,
em seu artigo Lirismo e Análise da Natureza, datado de 1979:

“Adotamos aqui o lirismo como sendo
um método fenomenológico, e rigorosamente
descritivo, de abordar a natureza”.

Descreve Kujawski a experiência de lirismo como sendo
“um súbito acréscimo de receptividade”,
sentimento que parece nos dominar ao vermos, por exemplo,
uma rosa florindo solitária,
sua rubra coloração,
sua carnação aveludada,
a delicadeza do seu desenho;
ou mesmo quando o mar,
revolto ou em calmaria,
nos toma de assalto, e
invade nossas pupilas,
“em toda a sua pureza fenomenológica”.

Pois bem, o efeito poético, que deve habitar uma obra de arte,
se aproxima desse maravilhamento/estranhamento,
dessa surpresa do ser diante da rosa,
dessa quase hipnose diante da coisa viva.

Assim, um poema, obra de arte plurissignificativa,
deve trazer, engastada em si, essa estesia,
fluindo como algo quase musical.
O fulgor dessa presença lírica deve provocar em nós certa inquietação,
certo choque com a patência da coisa escrita,
ou seja, a perplexidade em face da evidência de que
o poema existe, coisa única,
que o poema está-aí, quando poderia não-estar...
Como acontece com esse A Borboleta,
do poeta e compadre Eurico, que abaixo lanço sob vossos olhos:

******************************************

Patência nº 1: A Borboleta

Borboleta!...
Ó Borboleta!...
Tu também foste tecida
com milhares de partículas indivisíveis como eu?
E de onde vem essa tua multicolorida atomicidade?

Somos ambos filhos da larva e da morte...
Mas eu, absolutamente, não te sou.
E tu, verdadeiramente, não me és.

Tento palpar com as pupilas
o teu saltitar amarelado, flor em flor,
mas apenas esvoaço em ti, amareladamente.

Surpreende-me o subitâneo choque com o patente.
Isso, assombroso.
Isso, apodítico.

É evidente:
Nós somos!

Inexoravelmente:
Nós somos!

Nós somos, alada amiga!

EuricoPina, 22/10/1992


Nota: O poema é antigo, mas o comentário é novíssimo,
pois o meu compadre Carlinhos do Amparo
veio ao blog só para homenagear, com esse texto,
às minhas amigas Euza, Dora, Jacinta, Ilaine e Dira.
E também para reverenciar
a Dom Luís Eustáquio Soares, nosso mestre e amigo.

Luiz Eurico de Melo Neto
Recife/Olinda

Abril/2008

sábado, maio 02, 2015

A JAQUEIRA DA ABOLIÇÃO




 



O casario que hoje chamamos de Arruado faz parte da Rua João Francisco Lisboa, a antiga rua do Bom Gosto. Começava ali, na esquina do que hoje é a Reitoria da UFPE, mais ou menos, e seguia pelo casario dos trabalhadores do velho engenho (Arruado), passando pelos fundos da Matriz da Várzea, cruzando a rua da Levada (atual Mário Campelo) indo findar nas terras dos Brennand, bem na esquina da atual Rua Barão da Muribeca (a rua da Escola de Artes).

Pois bem, conta-nos o escritor varzeano, Marcos Ferreira da Silva Sobrinho, às páginas 7-13, de seu interessante livro, "VÁRZEA - lembranças de um tempo que se foi", que, ao cair da tarde de 14 de maio de 1888, estava sentada comendo uma saborosa jaca, a negra liberta Feliciana, casada com o engenheiro francês Júlio Adurand, quando adentrou o seu quintal, a galope, um escravo, vindo do centro do Recife, e anunciou:

Sá Feliciana, já não existem escravos no Brasil. No Recife, não se fala em outra coisa! Assinaram uma tal de Lei Áurea!

Sá Feliciana, emocionada, pegou o caroço da jaca que estava comendo, levantou-se, deu alguns passos e o semeou no solo varzeano.

Eis a foto da árvore, mais que centenária, que ainda resiste, na esquina da rua da Levada, com a rua João Francisco Lisboa, a rua que vai dar no Arruado.

 No início do século XXI, a construtora Romarco comprou o terreno, demoliu a velha casa dos Adurand e ergueu o Edf. Morada Verde. Porém, contraditoriamente, começou a derrubar o que de verde existia no antigo quintal de Sá Feliciana. Quase que derrubava a histórica jaqueira. Ainda cortou o seu tronco, em alguns pontos. Mas, a professora Antonieta Ferreira, irmã do autor do livro citado, que desde criança ouvia de seus pais e avós a história da jaqueira famosa, evitou a derrubada, ameaçando os construtores com denúncia aos órgãos competentes. Estava salva a jaqueira da abolição! É para isso que precisamos conhecer a nossa história. Para nos empoderarmos e evitarmos que a sanha imobiliária e capitalista destrua o que ainda há de ancestral na nossa cidade, seja uma árvore, um pátio ferroviário, como o do Estelita, ou um arruado de moradores de engenho.

 Viva Sá Feliciana e vida longa à sua frondosa jaqueira!

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

SALVE, O ENTRUDO VARZEANO!





Nessa pequena porção de terra, banhada pelo rio Capibaribe, havia 16 banguês e uma pequena povoação, com sítios, chácaras, quintas e sobrados. Uma população que vivia entre o urbano e o rural, com seu labor agrícola, com sua pequena criação, com suas procissões, com suas festas. Nós somos os herdeiros dessa Várzea rurbana e cult/rural. E, agora, pelo entrudo, (entrudo, sim, nosso carnaval é mais próximo do entrudo que do Carnaval de Veneza, lá do Recife Antigo)... Pois bem, pelo entrudo nos vestimos de cores, de luz, e deixamos fluir a alegria do efêmero, desse instante transitório que é a existência humana, com a maneira telúrica do povo, com os saberes e fazeres da gente simples do povo! Evoé, brincante varzeano! O tempo passa, mas no teu semblante estão as marcas vivas dessa Várzea quatrocentona! Evoé, Sori Galtama, que conta essa história com maestria, em tua máquina de guardar sonhos! Evoé!

segunda-feira, novembro 17, 2014

Poeta ou publicitário?

Lembro que, a certa altura do interessante filme Febre do Rato (Cláudio Assis), a personagem Eneida (Nanda Costa) joga na cara do poeta Zizo (Irandhir Santos) uma frase que o deixará encafifado, durante todas as próximas e belíssimas cenas em preto e branco, da fotografia de Walter Carvalho. A frase surge de supetão, quando o poeta pergunta o que sua musa acha de um poema feito pra ela: “Como poeta tu és um bom publicitário!” diz Eneida, divertida. Saída da boca de uma colegial meio sem juízo, que convive com aquele grupo “cabeça”, inspirado nos poetas marginais das décadas de 80/90, essa frase parece deslocada. Dá a impressão de que a personagem é apenas uma boneca de ventríloquo do bom roteirista Hilton Lacerda, que, aliás, assina os belos poemas do filme. Essa frase deslocada, que passará despercebida, posto que escondida na fala de uma jovem maluquinha, mais parece uma crítica velada e sutil, aos poetas da cena recifense, tão escrachadamente pintada nas cenas de um realismo chocante de Febre do Rato. Quem já viu o filme, veja de novo, e atente para essa frase curta da bela e venenosa Eneida. Não é à toa que o poeta Zizo ficará desnorteado até o fim do filme. Eneida acerta na veia dos poetas que confundem engenhosidade e trocadilhos com poesia. Que, a despeito de pouco conhecer a sintaxe, vivem de arremedar os bigodes do Leminski, numa copiosa multiplicação de slogans poéticos, que mais parcerem as costumeiras loas que são ditas antes da lapada de cachaça, aqui no nordeste. Mordaz, a crítica da personagem, apesar de improvável, naquele universo de farras e de sexo livre. Apesar disso, a frase nos leva à uma necessária reflexão sobre a poesia contemporânea do Recife e, só por isso, parece ser o mais interessante momento, desse contestador Febre do Rato. Afinal, o filme trata, fundamentalmente, da poesia e dos poetas. Sem olvidar que há poetas e poetas. Há um Recife de Alberto da Cunha Melo, de Audálio Alves, de Celina Holanda, sem falar de Carlos Pena Filho, Mauro Mota, João Cabral e tantos outros, que não são publicitários, nem nada. São poetas!

sábado, julho 12, 2014

Engenho Velho ( uma loa ao MRP - Arruado)














"Matias de Albuquerque punha sentinelas nas elevações de Olinda, 
para anunciar os mastros inimigos. Mas quem vê as forças que hoje nos invadem?" 
(Osman Lins, in A Rainha dos Cárceres da Grécia) 



Não mais moendas de bronze,
nem chaminés, nem sobrados,
mas inda um povo resiste,
e insiste em ser Arruado.


O tempo é outro, decerto,
a luta é outra, pois não,
mas os que hoje nos invadem
Não têm face, não têm corpo,
se escondem na escuridão.

Mais fácil expulsar batavo,
resistir no Arraial Novo;
a luta era em campo aberto,
e o combate, corpo a corpo.
Hoje estão no anonimato
os inimigos do povo.
Um deles é o mercado,
um outro é o consumismo,
a invasão cultural, o individualismo,
e a alienação geral,
que nega a nossa memória
faz pouco caso da história
que narra o nosso heroísmo.

Não mais moendas de bronze,
nem chaminés, nem sobrados,
mas inda um povo resiste,
e insiste em ser Arruado.

A cana quando moída
em troca dá o açúcar.
Um povo, quando oprimido,
se revolta e sai à luta.

sexta-feira, abril 11, 2014

TRÍBIO (um olhar intra-histórico)

















I
Buscando mitologemas, 
algum vestígio e sinal,
mitemas desse arrabalde 
arcaico e cult/rural...
Entanto, buscando, nele,
o passado que é presente,
o outrora/hoje, a intra-história,
a sépia que adorna o Agora:
esse arruado atemporal...

II
Um objeto mestiço?
Um indício,
um mito ancestral?
Um totum, um totem,
um resquício de algum rito inaugural
um uso ainda vigente,
algum costume avoengo
algo antigo, inda inerente
ao dia a dia das gentes
desse pequeno arrabal...


( Lula Eurico )

sábado, fevereiro 22, 2014

VÁRZEA CULT/RURAL (ou, por que não somos manguebeats?)

A oeste do estuário do rio das Capivaras, quase duas léguas à montante das ilhas que se formariam no lugar chamado de Arrecifes dos Navios, as águas mornas e lentas do rio foram deixando grãos de terra, de barro, do húmus da mata ciliar, dando origem a um solo de aluvião, argiloso e escuro: o massapê. 

Nessas férteis vargens, o rio ainda potável encontraria outros afluentes e mananciais que desciam dos morros do Camaragibe, regando os pomares nativos, em que o aborígene encontraria as condições favoráveis para a vida tribal. Águas doces, peixes em abundância, antas, pacas e outras caças miúdas. Essa fartura propiciaria o crescimento natural da população de silvícolas.

Essa seria a situação encontrada, ainda no século XVI, pelos lusos invasores, que, levariam a madeira do pau-brasil e deixariam a monocultura da cana de açúcar e pequenos cultivos de mandioca e feijão. Depois viriam os batavos, com sua crença e cobiça, buscando aquele precioso açúcar dos canaviais. Eles se foram e logo os banguês se multiplicaram, viraram engenhos, depois usinas e foi crescendo um próspero arrabalde de senhores escravocratas.

Várzea do Capibaribe, eis o nome da freguesia nascente, nesse encontro paradisíaco do rio perene com a viçosa mata atlântica, situada bem antes daquela curva à jusante, na encruzilhada dos caminhos dos Caetés (Apipucos).

 Ali, pela distância e pela altitude, não chegaria a salinidade das águas do mar, que, contidas pela muralha de pedras da barra, espraiavam-se no estuário, formando várias ilhas, na faixa litorânea. Por isso, nessas terras, o rio das Capivaras era o mesmo que saíra do interior, caudaloso e cristalino.

A Várzea, então, já era uma povoação bastante conhecida pelas águas límpidas de seu rio, pelos banhos medicinais, pelas casas de veraneio, os passeios na mata, os sítios e quintais de cercas vivas. Uma povoação que oscilava entre o rural e o urbano; entre as copas altaneiras das árvores frondosas e as chaminés das grandes olarias; ora, nas trilhas de barro massapê, abertas nos canaviais, ora sobre os trilhos dos trenzinhos de carga, importados da Europa pra tombar as generosas safras do melhor açúcar do Brasil.
Logo, logo, chegariam os bondes e as maxambombas, com as novidades e o progresso dos comerciantes da planície do Recife.
Aquela gente sossegada, a mesma gente que um dia havia sepultado os heróis dos Guararapes, que descansam seu sono eterno no piso da sua Igreja Matriz, um dia também veria o nascimento e o ocaso das usinas, o fausto e a decadência dos barões do açúcar, aqueles sobrinhos e netos do famoso Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista. 
Veria ainda mais:
veria o sumiço das pequenas casas de farinha, dos velhos e pachorrentos carros de boi, e, mais recentemente, a criação e a extinção da tecelagem e a venda, aos estrangeiros, da poderosa fábrica de vidros dos Brennand.

Por falar em Brennand, a chegada das fábricas e a construção das vilas de operários  anunciavam a mudança de velhos costumes rurais. Era a revolução industrial chegando e mudando a paisagem. A partir daí, pouco restaria daquele antigo arrabalde, hoje bairro. De pé, ficaria apenas o pequeno arruado do Engenho do Meio, espremido entre os prédios da UFPE, a centenária Matriz de Nossa Senhora do Rosário, reformada em meados de 1970 e a lendária jaqueira de Sá Feliciana, citada no interessante livro, Várzea, Lembrança de um Tempo que se foi, escrito por um de seus filhos ilustres, o médico, Marcos Ferreira Sobrinho, varzeano da gema. (Em tempo: a jaqueira centenária foi salva do machado pela professora Maria Antonieta Ferreira, já agora nos anos 2000, que, junto com seus alunos, esclareceu aos construtores do Conjunto Residencial Morada Nova, sobre o crime ambiental e histórico que seria derrubar aquela vetusta árvore varzeana, ameaçando-os com os rigores da lei. A professora Antonieta é irmã mais nova do escritor, Dr. Marcos Ferreira.)

 Ah, os varzeanos... Os herdeiros legítimos do antigo povoado. Gente cheia de orgulho de seu bairro quatrocentão. Famílias inteiras de netos, bisnetos e tetranetos daqueles habitantes mais antigos. Povo festeiro, bairrista, (como de resto é todo o povo recifense), culto, religioso, com costumes singulares, que ficam entre o rural e o urbano.

Mas, a modernidade chegaria, como de fato chegou, ao velho subúrbio açucareiro. E com ela muito daquele paraíso escondido a oeste do Recife, se perdeu. O rio assoreado e poluído, continua em seu curso milenar. Mas já não serve pra banhos, e beber da sua água, nem pensar! Já não há escravos, nem moendas, nem a nobreza escravocrata, mas agora há outros senhores mais sutis, que se apoderam dos desejos e sonhos de uma sociedade que se rendeu ao consumismo, ao individualismo, ao capitalismo sedutor, desses tempos modernos.

No entanto, mais uma árvore frondosa e bela seria plantada em suas terras, naquilo que foi o Engenho do Meio da Várzea, uma árvore cheia de sabedoria: a Universidade Federal de Pernambuco. A Várzea rural via nascer em suas terras uma outra Várzea, inovadora e intelectual.
Desse encontro dos saberes populares arraigados nessa gente ribeirinha e inteligente, com o saber acadêmico da nova vizinha, surgiriam novos olhares, novos costumes, novas formas de convivência. O arrabalde centenário agora seria um moderno bairro universitário, com repúblicas de estudantes em trânsito, vindos de todas as partes do Brasil e até, do mundo. Muitos deles logo iriam fixando morada e trazendo as famílias. Assim, a face desse subúrbio começaria a mudar muito rapidamente. Enquanto isso, os próprios jovens nativos também ingressariam nos cursos superiores, e a troca dessas experiencias e desses saberes seria outro tipo de húmus, outra seiva a irrigar de novas e boas energias o bairro da Várzea, que ainda guardava o aspecto meio rural, meio urbano.
Aquele jeitão sossegado de vila do interior, ganharia outras conotações, com chegada dos estudantes com suas ideias políticas, com as artes cênicas de vanguarda, com os festivais de musica estudantil. Daí então, mesmo sem deixar de ser aquela gente provinciana, a população varzeana seria de vez contaminada pelo vírus do saber acadêmico. 

A Várzea deixaria de ser apenas mais um bairro tradicional do Recife, com velhos casarões coloniais, como Casa Forte, ou Poço da Panela, ou outros bairros ribeirinhos. Tampouco seria a velha Várzea dos brincantes e folguedos populares, sempre à sombra benfazeja da paróquia do Rosário. Aquela Várzea campesina, operária, sub/urbana e semi/rural, desde os anos 60, iria se tornando culta, letrada, rebelde e engajada. 

Essa marca, esse diferencial, esse traço peculiar da convivência acadêmica é tão forte quanto a vizinhança com o rio, com a mata, com os Brennand...
Desse convívio de estudantes universitários com o espaço meio provinciano, eu diria que nasceria uma Várzea "cult/rural", com todas as prováveis conotações que permite um neologismo. Creio eu, que, ao correr das décadas de 1960 a 1990, essa cultura varzeana, entre popular e erudita, findaria por fazer dos varzeanos, um grupo mais próximo do pensamento dos círculos acadêmicos do que das novidades que estavam acontecendo lá embaixo, na planície do Recife, com repercussões nos outeiros das Olindas. A UFPE era uma espécie de barreira de recifes que dificultaria a chegada do ecos dos tambores manguebeats, dos coruscantes insights de Fred Zero Quatro e Chico Science. 

Cá na boca da mata, e longe dos manguezais,  estávamos mais próximos de Tonheta, brincante armorial, mais próximos das cordas do Sagrama, talvez dos sons do Quarteto Romançal. Se essas produções dos armoriais rolavam na Proext e no CAC, aqui bem pertinho, a Várzea estava até fisicamente mais perto do Ariano que do Science.

Pode ser essa uma pista das razões de a Várzea ter sido até mais psicodélica e tropicalista, nos anos 1970, do que manguebeat, em nossos dias. Além disso, os hippies e tropicalistas estavam bem mais perto do bucolismo varzeano. Por sua vez, os armoriais buscavam as raízes da cultura popular nordestina, tão evidenciadas, na Várzea de então.
Enquanto isso, os manguebeats tomaram um caminho diferente e optaram pelas idéias pop, massificadas pela grande mídia.

A Várzea, portanto, afinou-se mais com acordes melódicos do rock da Ave Sangria e com o som elaborado do Quinteto Armorial, nos anos 70, do que com as alfaias da Nação Zumbi, em meados de 1990.
Seria esse um dos motivos de não sermos manguebits? Sinceramente? Sei lá!

No entanto, que tal seguirmos o modus operandi do Chico e do Zero Quatro e intentarmos uma fusão, um mix dessas correntes tão distintas? 
Que tal uma coisa manguearmorial? 
Romances de cordel em whatsapp? 
Parabólicas no cume da palmeira imperial? 
Guitarras distorcidas na ciranda? 
Um côco que roda no astral? 
Sambadas de uma “jurema quantica"? 
Um cortejo de brincantes surreal? 
Um bonde com asas-delta, meio pop? 
Os muros grafitados com cajus brennandianos?
Enfim, uma Várzea ao mesmo tempo urbana e rural, 
uma Várzea pop, 
uma Várzeatown?
Uma Várzea cult/rural?


 Lula Eurico
 22/02/2014