Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, maio 02, 2015

A JAQUEIRA DA ABOLIÇÃO




 



O casario que hoje chamamos de Arruado faz parte da Rua João Francisco Lisboa, a antiga rua do Bom Gosto. Começava ali, na esquina do que hoje é a Reitoria da UFPE, mais ou menos, e seguia pelo casario dos trabalhadores do velho engenho (Arruado), passando pelos fundos da Matriz da Várzea, cruzando a rua da Levada (atual Mário Campelo) indo findar nas terras dos Brennand, bem na esquina da atual Rua Barão da Muribeca (a rua da Escola de Artes).

Pois bem, conta-nos o escritor varzeano, Marcos Ferreira da Silva Sobrinho, às páginas 7-13, de seu interessante livro, "VÁRZEA - lembranças de um tempo que se foi", que, ao cair da tarde de 14 de maio de 1888, estava sentada comendo uma saborosa jaca, a negra liberta Feliciana, casada com o engenheiro francês Júlio Adurand, quando adentrou o seu quintal, a galope, um escravo, vindo do centro do Recife, e anunciou:

Sá Feliciana, já não existem escravos no Brasil. No Recife, não se fala em outra coisa! Assinaram uma tal de Lei Áurea!

Sá Feliciana, emocionada, pegou o caroço da jaca que estava comendo, levantou-se, deu alguns passos e o semeou no solo varzeano.

Eis a foto da árvore, mais que centenária, que ainda resiste, na esquina da rua da Levada, com a rua João Francisco Lisboa, a rua que vai dar no Arruado.

 No início do século XXI, a construtora Romarco comprou o terreno, demoliu a velha casa dos Adurand e ergueu o Edf. Morada Verde. Porém, contraditoriamente, começou a derrubar o que de verde existia no antigo quintal de Sá Feliciana. Quase que derrubava a histórica jaqueira. Ainda cortou o seu tronco, em alguns pontos. Mas, a professora Antonieta Ferreira, irmã do autor do livro citado, que desde criança ouvia de seus pais e avós a história da jaqueira famosa, evitou a derrubada, ameaçando os construtores com denúncia aos órgãos competentes. Estava salva a jaqueira da abolição! É para isso que precisamos conhecer a nossa história. Para nos empoderarmos e evitarmos que a sanha imobiliária e capitalista destrua o que ainda há de ancestral na nossa cidade, seja uma árvore, um pátio ferroviário, como o do Estelita, ou um arruado de moradores de engenho.

 Viva Sá Feliciana e vida longa à sua frondosa jaqueira!

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

SALVE, O ENTRUDO VARZEANO!





Nessa pequena porção de terra, banhada pelo rio Capibaribe, havia 16 banguês e uma pequena povoação, com sítios, chácaras, quintas e sobrados. Uma população que vivia entre o urbano e o rural, com seu labor agrícola, com sua pequena criação, com suas procissões, com suas festas. Nós somos os herdeiros dessa Várzea rurbana e cult/rural. E, agora, pelo entrudo, (entrudo, sim, nosso carnaval é mais próximo do entrudo que do Carnaval de Veneza, lá do Recife Antigo)... Pois bem, pelo entrudo nos vestimos de cores, de luz, e deixamos fluir a alegria do efêmero, desse instante transitório que é a existência humana, com a maneira telúrica do povo, com os saberes e fazeres da gente simples do povo! Evoé, brincante varzeano! O tempo passa, mas no teu semblante estão as marcas vivas dessa Várzea quatrocentona! Evoé, Sori Galtama, que conta essa história com maestria, em tua máquina de guardar sonhos! Evoé!

segunda-feira, novembro 17, 2014

Poeta ou publicitário?

Lembro que, a certa altura do interessante filme Febre do Rato (Cláudio Assis), a personagem Eneida (Nanda Costa) joga na cara do poeta Zizo (Irandhir Santos) uma frase que o deixará encafifado, durante todas as próximas e belíssimas cenas em preto e branco, da fotografia de Walter Carvalho. A frase surge de supetão, quando o poeta pergunta o que sua musa acha de um poema feito pra ela: “Como poeta tu és um bom publicitário!” diz Eneida, divertida. Saída da boca de uma colegial meio sem juízo, que convive com aquele grupo “cabeça”, inspirado nos poetas marginais das décadas de 80/90, essa frase parece deslocada. Dá a impressão de que a personagem é apenas uma boneca de ventríloquo do bom roteirista Hilton Lacerda, que, aliás, assina os belos poemas do filme. Essa frase deslocada, que passará despercebida, posto que escondida na fala de uma jovem maluquinha, mais parece uma crítica velada e sutil, aos poetas da cena recifense, tão escrachadamente pintada nas cenas de um realismo chocante de Febre do Rato. Quem já viu o filme, veja de novo, e atente para essa frase curta da bela e venenosa Eneida. Não é à toa que o poeta Zizo ficará desnorteado até o fim do filme. Eneida acerta na veia dos poetas que confundem engenhosidade e trocadilhos com poesia. Que, a despeito de pouco conhecer a sintaxe, vivem de arremedar os bigodes do Leminski, numa copiosa multiplicação de slogans poéticos, que mais parcerem as costumeiras loas que são ditas antes da lapada de cachaça, aqui no nordeste. Mordaz, a crítica da personagem, apesar de improvável, naquele universo de farras e de sexo livre. Apesar disso, a frase nos leva à uma necessária reflexão sobre a poesia contemporânea do Recife e, só por isso, parece ser o mais interessante momento, desse contestador Febre do Rato. Afinal, o filme trata, fundamentalmente, da poesia e dos poetas. Sem olvidar que há poetas e poetas. Há um Recife de Alberto da Cunha Melo, de Audálio Alves, de Celina Holanda, sem falar de Carlos Pena Filho, Mauro Mota, João Cabral e tantos outros, que não são publicitários, nem nada. São poetas!

sábado, julho 12, 2014

Engenho Velho ( uma loa ao MRP - Arruado)














"Matias de Albuquerque punha sentinelas nas elevações de Olinda, 
para anunciar os mastros inimigos. Mas quem vê as forças que hoje nos invadem?" 
(Osman Lins, in A Rainha dos Cárceres da Grécia) 



Não mais moendas de bronze,
nem chaminés, nem sobrados,
mas inda um povo resiste,
e insiste em ser Arruado.


O tempo é outro, decerto,
a luta é outra, pois não,
mas os que hoje nos invadem
Não têm face, não têm corpo,
se escondem na escuridão.

Mais fácil expulsar batavo,
resistir no Arraial Novo;
a luta era em campo aberto,
e o combate, corpo a corpo.
Hoje estão no anonimato
os inimigos do povo.
Um deles é o mercado,
um outro é o consumismo,
a invasão cultural, o individualismo,
e a alienação geral,
que nega a nossa memória
faz pouco caso da história
que narra o nosso heroísmo.

Não mais moendas de bronze,
nem chaminés, nem sobrados,
mas inda um povo resiste,
e insiste em ser Arruado.

A cana quando moída
em troca dá o açúcar.
Um povo, quando oprimido,
se revolta e sai à luta.

sexta-feira, abril 11, 2014

TRÍBIO (poemeto varzeano)

















I
Buscando mitologemas, 
algum vestígio e sinal,
mitemas desse arrabalde 
arcaico e cult/rural...
Entanto, buscando, nele,
o que é tríbio e tropical,
o passado que é presente,
o outrora/hoje, a intra-história,
a sépia que adorna o Agora:
essa Várzea atemporal...

II
Um objeto mestiço?
Um indício,
um mito ancestral?
Um totum, um totem,
um resquício de algum rito inaugural
um uso ainda vigente,
algum costume avoengo
algo antigo, inda inerente
ao dia a dia das gentes
dessa Várzea atemporal...


( Lula Eurico )

sábado, fevereiro 22, 2014

VÁRZEA CULT/RURAL (ou, por que não somos manguebeats?)

A oeste do estuário do rio das Capivaras, quase duas léguas à montante das ilhas que se formariam no lugar chamado de Arrecifes dos Navios, as águas mornas e lentas do rio foram deixando grãos de terra, de barro, do húmus da mata ciliar, dando origem a um solo de aluvião, argiloso e escuro: o massapê. 

Nessas férteis vargens, o rio ainda potável encontraria outros afluentes e mananciais que desciam dos morros do Camaragibe, regando os pomares nativos, em que o aborígene encontraria as condições favoráveis para a vida tribal. Águas doces, peixes em abundância, antas, pacas e outras caças miúdas. Essa fartura propiciaria o crescimento natural da população de silvícolas.

Essa seria a situação encontrada, ainda no século XVI, pelos lusos invasores, que, levariam a madeira do pau-brasil e deixariam a monocultura da cana de açúcar e pequenos cultivos de mandioca e feijão. Depois viriam os batavos, com sua crença e cobiça, buscando aquele precioso açúcar dos canaviais. Eles se foram e logo os banguês se multiplicaram, viraram engenhos, depois usinas e foi crescendo um próspero arrabalde de senhores escravocratas.

Várzea do Capibaribe, eis o nome da freguesia nascente, nesse encontro paradisíaco do rio perene com a viçosa mata atlântica, situada bem antes daquela curva à jusante, na encruzilhada dos caminhos dos Caetés (Apipucos).

 Ali, pela distância e pela altitude, não chegaria a salinidade das águas do mar, que, contidas pela muralha de pedras da barra, espraiavam-se no estuário, formando várias ilhas, na faixa litorânea. Por isso, nessas terras, o rio das Capivaras era o mesmo que saíra do interior, caudaloso e cristalino.

A Várzea, então, já era uma povoação bastante conhecida pelas águas límpidas de seu rio, pelos banhos medicinais, pelas casas de veraneio, os passeios na mata, os sítios e quintais de cercas vivas. Uma povoação que oscilava entre o rural e o urbano; entre as copas altaneiras das árvores frondosas e as chaminés das grandes olarias; ora, nas trilhas de barro massapê, abertas nos canaviais, ora sobre os trilhos dos trenzinhos de carga, importados da Europa pra tombar as generosas safras do melhor açúcar do Brasil.
Logo, logo, chegariam os bondes e as maxambombas, com as novidades e o progresso dos comerciantes da planície do Recife.
Aquela gente sossegada, a mesma gente que um dia havia sepultado os heróis dos Guararapes, que descansam seu sono eterno no piso da sua Igreja Matriz, um dia também veria o nascimento e o ocaso das usinas, o fausto e a decadência dos barões do açúcar, aqueles sobrinhos e netos do famoso Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista. 
Veria ainda mais:
veria o sumiço das pequenas casas de farinha, dos velhos e pachorrentos carros de boi, e, mais recentemente, a criação e a extinção da tecelagem e a venda, aos estrangeiros, da poderosa fábrica de vidros dos Brennand.

Por falar em Brennand, a chegada das fábricas e a construção das vilas de operários  anunciavam a mudança de velhos costumes rurais. Era a revolução industrial chegando e mudando a paisagem. A partir daí, pouco restaria daquele antigo arrabalde, hoje bairro. De pé, ficaria apenas o pequeno arruado do Engenho do Meio, espremido entre os prédios da UFPE, a centenária Matriz de Nossa Senhora do Rosário, reformada em meados de 1970 e a lendária jaqueira de Sá Feliciana, citada no interessante livro, Várzea, Lembrança de um Tempo que se foi, escrito por um de seus filhos ilustres, o médico, Marcos Ferreira Sobrinho, varzeano da gema. (Em tempo: a jaqueira centenária foi salva do machado pela professora Maria Antonieta Ferreira, já agora nos anos 2000, que, junto com seus alunos, esclareceu aos construtores do Conjunto Residencial Morada Nova, sobre o crime ambiental e histórico que seria derrubar aquela vetusta árvore varzeana, ameaçando-os com os rigores da lei. A professora Antonieta é irmã mais nova do escritor, Dr. Marcos Ferreira.)

 Ah, os varzeanos... Os herdeiros legítimos do antigo povoado. Gente cheia de orgulho de seu bairro quatrocentão. Famílias inteiras de netos, bisnetos e tetranetos daqueles habitantes mais antigos. Povo festeiro, bairrista, (como de resto é todo o povo recifense), culto, religioso, com costumes singulares, que ficam entre o rural e o urbano.

Mas, a modernidade chegaria, como de fato chegou, ao velho subúrbio açucareiro. E com ela muito daquele paraíso escondido a oeste do Recife, se perdeu. O rio assoreado e poluído, continua em seu curso milenar. Mas já não serve pra banhos, e beber da sua água, nem pensar! Já não há escravos, nem moendas, nem a nobreza escravocrata, mas agora há outros senhores mais sutis, que se apoderam dos desejos e sonhos de uma sociedade que se rendeu ao consumismo, ao individualismo, ao capitalismo sedutor, desses tempos modernos.

No entanto, mais uma árvore frondosa e bela seria plantada em suas terras, naquilo que foi o Engenho do Meio da Várzea, uma árvore cheia de sabedoria: a Universidade Federal de Pernambuco. A Várzea rural via nascer em suas terras uma outra Várzea, inovadora e intelectual.
Desse encontro dos saberes populares arraigados nessa gente ribeirinha e inteligente, com o saber acadêmico da nova vizinha, surgiriam novos olhares, novos costumes, novas formas de convivência. O arrabalde centenário agora seria um moderno bairro universitário, com repúblicas de estudantes em trânsito, vindos de todas as partes do Brasil e até, do mundo. Muitos deles logo iriam fixando morada e trazendo as famílias. Assim, a face desse subúrbio começaria a mudar muito rapidamente. Enquanto isso, os próprios jovens nativos também ingressariam nos cursos superiores, e a troca dessas experiencias e desses saberes seria outro tipo de húmus, outra seiva a irrigar de novas e boas energias o bairro da Várzea, que ainda guardava o aspecto meio rural, meio urbano.
Aquele jeitão sossegado de vila do interior, ganharia outras conotações, com chegada dos estudantes com suas ideias políticas, com as artes cênicas de vanguarda, com os festivais de musica estudantil. Daí então, mesmo sem deixar de ser aquela gente provinciana, a população varzeana seria de vez contaminada pelo vírus do saber acadêmico. 

A Várzea deixaria de ser apenas mais um bairro tradicional do Recife, com velhos casarões coloniais, como Casa Forte, ou Poço da Panela, ou outros bairros ribeirinhos. Tampouco seria a velha Várzea dos brincantes e folguedos populares, sempre à sombra benfazeja da paróquia do Rosário. Aquela Várzea campesina, operária, sub/urbana e semi/rural, desde os anos 60, iria se tornando culta, letrada, rebelde e engajada. 

Essa marca, esse diferencial, esse traço peculiar da convivência acadêmica é tão forte quanto a vizinhança com o rio, com a mata, com os Brennand...
Desse convívio de estudantes universitários com o espaço meio provinciano, eu diria que nasceria uma Várzea "cult/rural", com todas as prováveis conotações que permite um neologismo. Creio eu, que, ao correr das décadas de 1960 a 1990, essa cultura varzeana, entre popular e erudita, findaria por fazer dos varzeanos, um grupo mais próximo do pensamento dos círculos acadêmicos do que das novidades que estavam acontecendo lá embaixo, na planície do Recife, com repercussões nos outeiros das Olindas. A UFPE era uma espécie de barreira de recifes que dificultaria a chegada do ecos dos tambores manguebeats, dos coruscantes insights de Fred Zero Quatro e Chico Science. 

Cá na boca da mata, e longe dos manguezais,  estávamos mais próximos de Tonheta, brincante armorial, mais próximos das cordas do Sagrama, talvez dos sons do Quarteto Romançal. Se essas produções dos armoriais rolavam na Proext e no CAC, aqui bem pertinho, a Várzea estava até fisicamente mais perto do Ariano que do Science.

Pode ser essa uma pista das razões de a Várzea ter sido até mais psicodélica e tropicalista, nos anos 1970, do que manguebeat, em nossos dias. Além disso, os hippies e tropicalistas estavam bem mais perto do bucolismo varzeano. Por sua vez, os armoriais buscavam as raízes da cultura popular nordestina, tão evidenciadas, na Várzea de então.
Enquanto isso, os manguebeats tomaram um caminho diferente e optaram pelas idéias pop, massificadas pela grande mídia.

A Várzea, portanto, afinou-se mais com acordes melódicos do rock da Ave Sangria e com o som elaborado do Quinteto Armorial, nos anos 70, do que com as alfaias da Nação Zumbi, em meados de 1990.
Seria esse um dos motivos de não sermos manguebits? Sinceramente? Sei lá!

No entanto, que tal seguirmos o modus operandi do Chico e do Zero Quatro e intentarmos uma fusão, um mix dessas correntes tão distintas? 
Que tal uma coisa manguearmorial? 
Romances de cordel em whatsapp? 
Parabólicas no cume da palmeira imperial? 
Guitarras distorcidas na ciranda? 
Um côco que roda no astral? 
Sambadas de uma “jurema quantica"? 
Um cortejo de brincantes surreal? 
Um bonde com asas-delta, meio pop? 
Os muros grafitados com cajus brennandianos?
Enfim, uma Várzea ao mesmo tempo urbana e rural, 
uma Várzea pop, 
uma Várzeatown?
Uma Várzea cult/rural?


 Lula Eurico
 22/02/2014 

quinta-feira, janeiro 23, 2014

CARNAVAL DO RECIFE - a Dança, a Música, a Língua (2)

Tapeçarias de D. João de Castro. Lisboa - século XV:
"Último pano do Cortejo Triunfal: Folias, Danças e Folgazões".
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Museu Nacional de Arte Antiga, 1995): 
Principal detalhe para fins de análise cultural e de sentido. As figuras sobremontadas e carregadas por nativos são conhecidas da tradição ibérica e do populário católico transplantado para o Novo Mundo.  


Nota inicial (sobre a figura acima): 

Quem conhece o carnaval de Olinda, há de lembrar do calunga chamado de Homem da Meia-noite, um quase-totem ambulante, que é carregado nos ombros pelas ruas da cidade alta, na madrugada do sábado para o domingo de carnaval. Percebam, pois, pela tapeçaria acima, o que há de Ibéria em nossa carnavália. 

Pois bem:
Eu dizia, na postagem anterior, que o Recife é uma cidade profundamente ibérica. Pode isso parecer ululantemente óbvio, sabendo-se que todo o país já foi um dia Reino de Portugal e Algarves. No entanto, comparando a nossa capital com outras grandes cidades do Brasil, por suas manifestações culturais, ficará evidente o quão mais portuguesa do que as outras é a nossa Arrecifes dos Navios.

Há poucos anos, movido de compaixão pelos menores de rua, um desembargador humanista e comprometido com a nossa cidade, resolveu fazer um resgate dessas crianças abandonadas, através da música. Lembrem que na Bahia, já faz algum tempo, os timbaleiros, os percussionistas, já tinham feito o mesmo com o projeto Olodum, tendo alcançado excelentes resultados na assistência aos pequeninos "capitães da areia". No Rio de Janeiro, de há muito se ouve o samba dos Meninos da Mangueira, inclusão social e divertimento ao mesmo tempo. Portanto, duas importantes expressões de cultura negra, uma baiana e outra carioca, ambas atuando em prol da inserção dos menores na vida social.

Bem, mas o que fez o nobre magistrado recifense para resgatar os infantes de nossas ruas?



Fundou a mais bela e virtuosa banda sinfônica infantil já vista em nossa cidade: a Orquestra Criança Cidadã, dos meninos e meninas do Coque. O Coque é uma antiga comunidade de carvoeiros, hoje favela urbana, com população carente e alvo de muita violência. Lá foi criada uma maravilhosa orquestra de pequenos virtuoses.

E aqui faço um alargamento da minha frase inicial: o Recife é bem mais do que ibérica, é profundamente européia.
Os meninos do Recife não batem em latas, em surdos, nem em timbales. Os violinos e cellos da Orquestra da Criança Cidadã enchem nossa alma de melancólica ternura. Isso é o Recife. Querem algo mais europeu? Os resultados são tão bons quanto os da Bahia e do Rio, diga-se de passagem. Mas, a forma de estruturar a ação é solene, racional e erudita: um desembargador e um maestro da sinfônica, juntos, lideram a excelente empreitada pelas crianças, nesse Recife europeu.

Maracatu


Agora, volvamos os olhos para a nossa maior expressão de cultura afro: o maracatu. Embora o ritmo das suas alfaias faça ecoar pelas nossas esquinas o mais visceral elemento negro, o que vemos nas ruas? Um majestoso cortejo, reis, rainhas, duques, duquesas, damas do paço e bonecas de cera, trajando a luxuosa indumentária das cortes européias. Eu sei, eu sei. Era a forma de resistência dos agrupamentos negros, que tinham no sincretismo religioso uma válvula de escape para sua própria concepção do sagrado.

Também, sei: O maracatu veio das Irmandades do Rosário dos Pretos e da festa do Rei do Congo. Mas, por que tão forte no Recife? Não seria a nossa alma ibérica envolvendo o corpo africano? Sei lá!



E mais, tem mais, tem o frevo, o frevo, o nosso frevo veio dos dobrados militares europeus, que, ao ter o andamento acelerado, e deu nessa gostosa e anárquica folia. Chego a sugerir que o passo já estava, embrionário, nos ditos saltos reais, executados por Diogo Dias, como consta na Carta de Caminha. Não lembra o passo (a dança) o saltitar do vira português, em ritmo apressado? Não lembra o passo um saltitar de bailarinos zíngaros?E o jogar de pernas da dança dos cossacos já era o passo?


E as fantasias multicores: dominós, pierrots, colombinas, arlequins, bufões, palhaços. Eis aqui toda a comédia dell'arte. Não é por acaso que o Recife é chamada de a Veneza Brasileira!




Finalmente, chego onde todos sabem que eu queria chegar. Nos maviosos blocos líricos do carnaval pernambucano.
No Rio de Janeiro, a velha guarda é do samba, na Bahia, do afoxé Filhos de Gandhi. Duas expressões puramente africanas.

Em Pernambuco,
a velha guarda é dos blocos carnavalescos líricos:

Ouçam trinar as requintas,
e florear os flautins.
Banjos, violões, bandolins,
em harpejos e dedilhados.
E um coro de vozes álacres,
senhoritas e senhoras a cantarolar modinhas,
feito cantigas de roda,
rondós, marchinhas,
cirandas.


Há algo mais europeu?
Recife tem esse nicho de poesia,
que se mantém muito vivo.
Não aquele Recife dos Mascates,
dos ideais libertários,
mas, o Recife do bom Sebastião, de Capiba.
Recife, de Manuel Bandeira.
Recife, ibérico, europeu.
Recife dos blocos líricos...
Recife, meu.
Recife, eu...


Fonte da imagem da tapeçaria:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm

Outras imagens:
recolhidas do Google.

CARNAVAL DO RECIFE - a Dança, a Música, a Língua (1)


Título: "Último pano do Cortejo Triunfal: Folias, Danças e Folgazões". 
Tapeçarias de D. João de Castro. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Museu Nacional de Arte Antiga, 1995. Agradecimentos à Dra. Ana Balmori, que primeiramente estudou os motivos musicais dessa fonte e que possibilitou a sua consideração nas sessões de Lagos e Coimbra.

 
O modo português de festejar está bem descrito em antiga crônica de João de Barros, ao tratar da espetacular partida da frota de Pedro Álvares Cabral, em 1500:

"A qual despedida, geralmente a todos, foi de grande contemplação, porque a maior parte do povo de Lisboa, por ser dia de festa e mais tão celebrada por El-rei, cobria aquelas praias e campos de Belém, e muitos em bateis, que rodeavam as naus, levando uns, trazendo outros, assim serviam todos com suas librés e bandeiras de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores, com a frol daquela mancebia juvenil que embarcava. E o que mais levantava o espírito destas coisas, eram as trombetas, atabaques, sestros, tambores, flautas, pandeiros, e até gaitas, cuja ventura foi andar em os campos no apascentar dos gados, naquele dia tomaram posse de ir sobre as águas salgadas do mar, nesta e outras armadas, que depois a seguiram, porque, para viagem de tanto tempo, tudo os homens buscavam para tirar a tristeza do mar."
(João de Barros, apud HOMO LUDENS NA ÉPOCA DAS DESCOBERTAS, Profa. Dra. Maria Augusta Alves Barbosa, Conferência em Coimbra, 1995)

Sem embargo da violenta cobiça que motivava as “grandes navegações”, as novas colônias conquistadas logo iriam conhecer o lado festeiro desse povo, que, para afugentar o tédio daquelas longas viagens, portavam instrumentos musicais, do mesmo modo pelo qual, nos dias atuais, trazemos, por exemplo, um DVD portátil, em nossas viagens cotidianas. Foi assim que esses navegantes nos trouxeram sua dança e sua música, em folguedos que até hoje costumam alegrar os nossos tristes tropiques.
Prova de que esses instrumentos pastoris cruzaram o Atlântico está na Carta de Pero Vaz de Caminha, pela qual se descreve a D. Manuel, o "descobrimento" do Brasil. Relata o famoso escrivão que, depois da missa de Páscoa, tendo em vista os costumeiros folguedos da época, um gracioso marinheiro executa saltos reais ao som de uma gaita e participa das danças dos aborígenes. Esse encontro musical, segundo Caminha, foi motivo de muita alegria:

"(...) passou-se então além do rio Diogo Dias, que veio de Sacavém e que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo hum gaiteiro nosso com uma gaita e meteu-se com eles a dançar tomando-os pelas mãos e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez-lhes ali andando no chão muitas voltas ligeiras e salto real de que se espantavam e riam e folgavam muito."
(Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel)

Diogo Dias, pois, era o nome de nosso primeiro brincante. Na nova terra, desde a primeira páscoa, já se dançava a nossa ciranda-de-praia. Nos dias de hoje, quem viajar pelo Brasil encontrará, de norte a sul, essa herança musical e coreográfica dos lusos: haja marujada, folia de reis, pastoris, serenatas e... o entrudo...
Ah, o entrudo! Esse milenar folguedo é o que mais me encanta. Mormente, na merencória folia dos seresteiros de pau e corda, os chamados blocos carnavalescos líricos.
Esses harmoniosos blocos líricos, bastiões do carnaval do Recife, evocam e preservam não só o modo português de festejar, seus folguedos e danças de celebração, mas guardam as profundas nuanças líricas, entranhadas na alma dessa Língua que também veio com as caravelas.

Revisitando, (como sempre faço, nesses dias que antecedem a folia), as composições de antigos blocos recifenses, reencontro essas canções dolentes, perpassadas de uma triste alegria, de uma saudade calcada em algo não-vivido, e que, além disso, primam por letras vazadas em bom vernáculo, de onde vem o puro olor, o cheiro bom, o aroma dessa última flor neolatina, em poesias pejadas do lirismo e da ternura da velha e boa língua-mátria.

Sobre isso, vale a pena citar Gilberto de Mello Kujawski, in "Fernando Pessoa, O Outro", quando afirma que "o dizer português é sempre vizinho da efusão lírica, pronto a vibrar em toda a escala de íntimas lamentações e exultações, de secretos cuidados e enternecimentos próprios às fundas confidências."

Todavia, não é só esse aspecto que deve ser revisitado nos blocos líricos.
Atentem bem para a semelhança desses brincantes recifenses com as danças pastoris, com os cortejos órficos das festas quase-pagãs que aconteciam nas afastadas vilas campesinas da Luzitânia, e até mesmo nos átrios engalanados, nos velhos paços da corte portuguesa, essas danças profanas que estão implícitas na citação de João de Barros, transcrita acima. O Recife é uma cidade profundamente ibérica. E nossas danças, músicas e folguedos guardam a semelhança daqueles costumes lusos.

Regressemos, agora, a esse longínquo pretérito, acompanhando as palavras de um dançar dionisíaco, que nos chegaram através do léxico arcaico de outro cronista-narrador: Fernão Lopes.
Deitem os vossos olhos sobre esses vetustos vocábulos que abaixo vos apresento; soprem-lhes os fonemas e deixem emergir do inconsciente os albores do efusivo lirismo dessa Língua Portuguesa, em essa prosódia, “alongada e ondulante; com ondulações que se perdem ao longe" e, decerto, encontrarão as origens avoengas dos cortejos musicais de nossos blocos carnavalíricos:

Viinha elRei em batees Dalmada pera Lixboa, e saiam-no a reçeber os cidadãaos e todollos dos mesteres com danças e trebelhos, segumdo estomçe husavom; e el saia dos batees, e metiasse na dança com elles, e assi hia ataa o paaço. Paraae mentes se foi boom sabor: jazia elRei em Lixboa huuma noite na cama, e non lhe viinha sono pera dormir e fez levamtar os moços e quamtos dormiam no paaço, e mandou chamar Joham Mateus, e Lourenço Pallos que trouvesem as trombas de prata, e fez açemder tochas, e meteosse pela villa em damça com os outros; as gentes que dormiam, sahiam aas janelas, veer que festa era aquella, ou porque se fazia; e quando virom daquella guisa elRei tomarom prazer de o ver assi ledo; e amdou elRei assi gram parte da noite, e tornousse ao paaço em damça; e pedio vinho e fruita, e lançouse a dormir. (Crónica de D. Pedro I, Barcelos - 1932, pp 42-43, apud FERNANDO PESSOA, O Outro, G. M. Kujawski, pp. 25,26)





Evoé, Flores do Capibaribe!
Carnaval chegou!






















Eurico
blogador e folião. **********************************************************************
Ilustração e algumas citações:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm

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Frevo de Saudade - Aldemar Paiva - (Coral do Bloco da Saudade)

Obs.:
Como é difícil encontrar a genuína música pernambucana na internet!
Carecemos pintar nossa aldeia, se quisermos ser universais, como aconselhava Leon Tolstoi.

Achei mais uma:
Último Regresso - Getúlio Cavalcanti - (Coral do Bloco da Saudade)



E mais essa:
Sabe lá o que é isso, de João Santiago.
(Hino dos Batutas de São José e dos casais enamorados)

sexta-feira, janeiro 17, 2014

VIRA-LATAS DO CARNAVAL - Marcelo D2 abre o carnaval do Recife


Ir à Lisboa, sem ouvir um bom fado? Visitar os hermanos em Buenos Aires, sem ouvir e ver dançar o velho tango argentino? Madri, sem as touradas? (essas eu até dispensaria...) Quem atravessaria o oceano pra ouvir o que já se escuta todo dia por aqui? Quem vai ver o que é que a Bahia tem, abrindo mão de ouvir os timbales, os afoxés e até o axé music. Claro que ninguém vai a Salvador buscando ouvir o techno-brega do norte, nem o carimbó, do Pará, ou o reggae do Maranhão! Para ouvir Pinduca iremos mesmo pro Norte, ora essa! 
Pois é... 
Mas, no Recife, uns burrocratas da prefeitura, querem mudar o curso das coisas e dizem que o frevo está ultrapassado, que os blocos líricos são saudosistas e outras asneiras do tipo. Ninguém aguenta mais isso! Senhores, o fado em Portugal vem de tempos imemoriais, ai mouraria... E é pensando em ouvir um fado, seja da Amália Rodrigues ou da Mariza, que o turista vai a Lisboa. Digam aos fadistas que eles estão ultrapassados... Ora bolas! Senhores gestores, na velha Olinda, o que lota as ruas, as hospedarias, os hotéis e as casas de aluguel é o frevo da Ceroulas, o "pampampampam - pam pam pam" das pequenas orquestras de rua, os eternos bonecos gigantes, que sempre estão lá, ladeira acima, ladeira abaixo, e jamais irão deixar de estar. 
Burros ou com escusos interesses, os gestores do carnaval recifense? Nada contra Marcelo D2, mas por que não Silvério Pessoa, Gerlane Lops, Almir Rouche e outros bons artistas da terra? Entra Prefeito e sai Prefeito e isso não muda! Até quando vamos reclamar desse descalabro! Queremos no Recife, a cultura do recifense, como há o samba no Rio, e o Boi Bumbá, no Amazonas. O que é que há, senhores gestores. Complexo de vira-latas? Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia... 

sábado, dezembro 14, 2013

A ARANHA (poemeto chinês)

 

A aranha urde a teia
porque vive
A aranha urde a teia pra viver
Urdir a teia é ser aranha
e o ser da aranha é o tecer...



Eurico
04/04/1994
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