Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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quinta-feira, dezembro 08, 2011

LINHA DE FUGA (ou, notas para uma poética não-anquilosante)

“As nossas convicções mais arraigadas, mais indubitáveis, são as mais suspeitas.
Constituem o nosso limite, os nossos confins, a nossa prisão.
Pouca coisa será a vida
se nela não arfar um esforço formidável
de alargamento das suas fronteiras.
Vivemos na proporção em que ansiamos por viver mais.
Toda a obstinação que procura manter-nos
no interior do nosso horizonte habitual
significa debilidade, decadência das energias vitais.
O horizonte é uma linha biológica, um órgão vivo do nosso ser;
enquanto gozamos de plenitude,
o horizonte emigra, dilata-se, ondula, elástico,
quase ao compasso da nossa respiração.
Em contrapartida, quando o horizonte se fixa,
é porque se anquilosou e nós entramos na velhice.”


...................................................Ortega y Gasset











quarta-feira, julho 28, 2010

Ranhuras no ventre da baleia



“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão,
modelando vasos fechados e cortando lanças circulares,
não mais portadoras de aguilhão.
Uma besta espantosa, de índole recurva,
nasceu do cansaço universal e impera entre nós:
come voraz a cauda e engole a própria garganta.
Criações e atos perecem: sua respiração, interna, letal.”
********************** (Osman Lins, in AVALOVARA)


Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um inútil objeto estético. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre duma baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz roufenha e gutural de Chico Science: "...do caos à lama/da lama ao caos...". Pela janela, vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa alimária espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:

“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”

Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a
ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Poeta, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman ou Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que, desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Nesse tempo, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse anfíbio. Creio ser esta a única atitude possível a quem navega nessa bizarra embarcação.

***



Fonte da img.:
Jonas chega a Nínive


***

N. do A.:
o texto acima é fragmento de meu romance Bóstrix n'água.

terça-feira, abril 22, 2008

Ainda o efeito poético



e pra que este blog não tenha fixação no umbigo do autor...
eis um exemplo de lirismo, ou de súbito acréscimo de receptividade:




Terra
Caetano Veloso


Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens
Terra, Terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu
Fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba
Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo do elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem, jamais, te esqueceria?
Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem, jamais, te esqueceria?
De onde num tempo num espaço
Que a força mande coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas ao nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem, jamais, te esqueceria?
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do imperador
Tudo tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
Terra, Terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem, jamais, te esqueceria?
Terra...






Fonte do texto:
http://www.revista.agulha.nom.br/velo.html#terra

quarta-feira, abril 16, 2008

Lirismo reflexivo: Ecos do Eco



Ecos do Eco ou A Borboleta
comentário do Carlinhos do Amparo


Em seu Pós Escrito ao Nome da Rosa, Umberto Eco,
com requintado bom humor, sentencia que
o autor deveria morrer ao concluir a sua obra,
só para que não pudesse comentá-la,
tampouco, interferir nas interpretações dos seus leitores.
Por isso, creio eu, não deve o artista intentar
fazer a crítica de sua própria obra, por temerária e inútil.

No entanto, nessa mesma obra, diz Eco,
que não há óbice em explicar como e por que se escreveu.
Acerca do processo criativo se pode tratar sem receios.
Pois é exatamente isso que faz Eco no pós-escrito da sua obra magistral:
Interessante o trecho sobre A Filosofia da Composição,
em que descreve como e por que Edgar Allan Poe
arquitetou a estrutura de O Corvo.
Relata, inclusive, como Poe enfrentou aquela luta mais vã, drummondiana,
para alcançar as palavras com as quais, finalmente,
chegaria ao que denominou como sendo o efeito poético da escritura.

E o que seria esse efeito poético do Edgar Allan Poe?

Bem, o efeito poético, segundo Eco, no mesmo pós-escrito,
pode ser definido como:
“A capacidade que tem um texto
de gerar leituras diversas,
sem nunca esgotar-se completamente”.


Quem escreve, diz Eco, quem pinta, quem compõe uma sinfonia,
sabe que deve desenvolver algo do imaginário.
A obra pode emergir de elementos iniciais obscuros, pulsionais, obsessivos;
às vezes, não mais que de uma vontade ou de uma lembrança.
O artista, então, mergulha na matéria com a qual trabalha,
(matéria que tem suas próprias leis naturais,
incluindo a lembrança da cultura em que está embebida,
o eco da intertextualidade
),
para moldar sua obra, isto é, capturar, com palavras, tintas, sonoridades,
o efeito poético, e assim plasmar um insólito objeto de gerar interpretações.

Gilberto Freyre , em ensaio de 1968, intitulado
observa que, Cervantes, ao produzir o Dom Quixote,
trabalhava à revelia de quase todas as convenções literárias da época,
juntando um pouco de velhas crônicas, de façanhas heróicas,
muito de pitoresco, e até de vulgar ou chulo,
colhido diretamente da boca do povo, para
“intensificá-los com efeitos sociologicamente simbólicos
e psicologicamente representativos(...)
numa intensificação de que só são capazes os poetas,
que, ao contato direto com a vida, juntam o poder,
ao mesmo tempo analítico e lírico, de compreendê-la,
de dramatizá-la e de interpretá-la”.

Essa intensificação freyreana dos efeitos simbólicos e representativos
e o efeito poético que Umberto Eco tomou emprestado a Poe,
lembram-me algo do que diz G. M. Kujawski,
em seu artigo Lirismo e Análise da Natureza, datado de 1979:

“Adotamos aqui o lirismo como sendo
um método fenomenológico, e rigorosamente
descritivo, de abordar a natureza”.


Descreve Kujawski a experiência de lirismo como sendo
“um súbito acréscimo de receptividade”,
sentimento que parece nos dominar ao vermos, por exemplo,
uma rosa florindo solitária,
sua rubra coloração,
sua carnação aveludada,
a delicadeza do seu desenho;
ou mesmo quando o mar,
revolto ou em calmaria,
nos toma de assalto, e
invade nossas pupilas,
“em toda a sua pureza fenomenológica”.

Pois bem, o efeito poético, que deve habitar uma obra de arte,
se aproxima desse maravilhamento/estranhamento,
dessa surpresa do ser diante da rosa,
dessa quase hipnose diante da coisa viva.

Assim, um poema, obra de arte plurissignificativa,
deve trazer, engastada em si, essa estesia,
fluindo como algo quase musical.
O fulgor dessa presença lírica deve provocar em nós certa inquietação,
certo choque com a patência da coisa escrita,
ou seja, a perplexidade em face da evidência de que
o poema existe, coisa única,
que o poema está-aí, quando poderia não-estar...
Como acontece com esse A Borboleta,
do poeta e compadre Eurico, que abaixo lanço sob vossos olhos:

******************************************

Patência nº 1: A Borboleta

Borboleta!...
Ó Borboleta!...
Tu também foste tecida
com milhares de partículas indivisíveis como eu?
E de onde vem essa tua multicolorida atomicidade?

Somos ambos filhos da larva e da morte...
Mas eu, absolutamente, não te sou.
E tu, verdadeiramente, não me és.

Tento palpar com as pupilas
o teu saltitar amarelado, flor em flor,
mas apenas esvoaço em ti, amareladamente.

Surpreende-me o subitâneo choque com o patente.
Isso, assombroso.
Isso, apodítico.

É evidente:
Nós somos!

Inexoravelmente:
Nós somos!

Nós somos, alada amiga!

Eurico
Pina, 22/10/1992



Nota: O poema é antigo, mas o comentário é novíssimo,
pois o meu compadre Carlinhos do Amparo
veio ao blog só para homenagear, com esse texto,
às minhas amigas Euza, Dora, Jacinta, Ilaine e Dira.
E também para reverenciar
a Dom Luís Eustáquio Soares, nosso mestre e amigo.

Luiz Eurico de Melo Neto
Recife/Olinda

Abril/2008

terça-feira, outubro 02, 2007

Por que Eu-lírico?






Transcrevo aqui um brevíssimo comentário do Carlinhos do Amparo, extraído do zine Eu-lírico, nº 6:


Lirismo, sim. Mas não lirismo comedido: pura contemplação da natureza ou catártica expressão das emoções.
Lirismo, sim. Porém centrado em uma analítica da existência, se isso lá é possível. Algo como o que nos fala G. M. Kujawski:
“Adotamos aqui o lirismo como método fenomenológico, rigorosamente descritivo, para aprofundar nosso conhecimento da natureza”. (Perspectivas Filosóficas, 1983).
O poeta tropeça com o estar-aí da coisa. Qualquer coisa: um pássaro, uma pedra (como no célebre poema drummondiano), um recorte qualquer da realidade. E esse choque com a patência da coisa exige a mediação lírica, o assombro, o maravilhamento, a subitânea iluminação do ser. Nesse instante, a Palavra se torna instrumento de reaproximação com o derredor, a circum-stantia, a realidade tal com a encontramos.
Uma atitude irrevogável e consciente presentifica-se no eu enunciador do poema, o eu-lírico: a atitude de auscultador, não de estrelas, como em Bilac, mas auscultador da Existência.
O poema não responde à pergunta: por que o pássaro está aí em vez de não estar?
O poema é o pássaro, vôo repentino, é a coisa no fulgor de sua presença, é o impacto como o essencial. Mas o poema é, antes, o fascínio órfico, o lírico palpitar do real...

***

Transcrevo também o meu poemeto (nem tão rigorosamente descritivo, tampouco fenomenológico, rsrsrs) que originou o comentário acima, naquela edição de 12 anos atrás, do zine Eu-lírico:



Um pássaro de seis asas...
Embora o rugir mecânico das coisas,
Um pássaro de seis...
E a urbe e o orbe
E o universo se desdobre,
Um pássaro...
Atávicos urros na estação metroviária neolítica,
Um passarinho...
(dilata-se o real)


Eurico
Jun/1995
************

quinta-feira, agosto 09, 2007

Processo criativo em Rilke


"Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo.Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons.Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos(a esses, temos cedo demais) - são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. É preciso poder recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados,e despedidas que há muito sentíamos chegar - dias da infância, ainda não explicados os pais que tínhamos de magoar quando nos davam alguma alegria e não entendíamos(era uma alegria pra outra pessoa), doenças de crianças que começavam de modo tão singular, com tantas e tão profundas transformações, dias em quartos silenciosos e isolados, e manhãs no mar, o mar sobretudo, mares, noites de viagem rumorejando no alto e voando com todas as estrelas - e poder pensar em tudo isso ainda não é suficiente. É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, nenhuma semelhante à outra, gritos de mulheres dando à luz, leves e alvas parturientes adormecidas que se tornavam a fechar. E também é preciso ter estado com moribundos, sentar-se juntos aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes.E também não basta ter recordações.É preciso saber esquecê-las quando são muitas , e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara se erga do meios delas a primeira palavra de um poema."


Rainer Maria Rilke, Os cadernos de Malte Laurids Brigge,
Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1979, p. 14e 15


(Isabel, grato pelo email com o texto acima).


Eurico
09/08/07

terça-feira, novembro 21, 2006

Protopoesia?


(fragmento de meu romance BÓSTRIX N'ÁGUA)




capítulo XXVIII

A PROTOPOESIA
(falação etílica e inflamada de Jöhan Linz, em certo Congresso de Poetas)



Senhores Poetas,



Estava, decerto, movido e comovido pela grandeza majestática da árida paisagem sertaneja, o escritor Euclides da Cunha, quando pontuava que “a geografia prefigura a história”. Enxergava, quem sabe, através das lentes transfiguradoras da emoção. Diante dele descortinavam-se os sertões bravios, inóspitos, em sua imensa perspectiva. Daquele relevo deveria surgir, com certeza, um povo forte como as pedras e renitente como a caatinga.
No entanto, essa perspectiva, como toda perspectiva que se preze, era apenas uma parte da verdade, compreendendo-se que a verdade está na soma de todas as perspectivas. Hegel já postulava que, “a verdade completa inclui todas as perspectivas”. Por sua vez, Ortega y Gasset pontuava que “a perspectiva se aperfeiçoa pela multiplicação de seus termos”. Soma, inclusão, multiplicação de perspectivas. A verdade é total e geométrica: a nosso ver, Srs. Poetas, a verdade é esférica. E disso falaremos em lugar oportuno. Dilatemos, por enquanto, o pensamento, tomando a frase euclidiana sob outros olhares. Senão, vejamos:
Marx, grosso modo, enxergava as condições econômicas como a base de todo o processo histórico.
Já Schelling via, no mito, o alvorecer da história. Ainda no mito, nos arquétipos, Carl C. Jung buscava a compreensão da alma humana.
Cada um desses sábios observadores, com peculiares lentes de aumento, mirava o homem e sua trajetória, sob um particularíssimo prisma. No entanto, devemos atentar para o provérbio árabe, que, com líquida e cristalina sabedoria, aconselha cautela diante das certezas humanas, pois “a água toma a cor de seu recipiente”, como dizia um certo Ibn Sina, também chamado entre nós, Avicena. Por isso, ao situar e adjetivar esses tão graves substantivos, deveríamos fazer-lhes uma singela pergunta:
— Geografia, Mito, Economia, História, de quem e para quem?
A resposta deve surgir quase que unanimemente:
— Do homem e para o homem. Para o agente da história, o sujeito, o ser pensante.
São, portanto, circunstâncias da vida humana. Circum-stantia! Realidades abstratas ou concretas, que forçosamente se radicam na vida de um homem. Vetores de sua instalação no mundo. De modo que se situam em campos vetoriais contíguos, mas distintos: de um lado, a geografia e o mito. De outro, a economia e a história. Os primeiros, denominaremos vetores aórgicos, e os segundos, por oposição, de vetores órgicos.
Para a compreensão adequada dos primeiros, voltemos no tempo. Regressemos ao dia inaugural da criação:
Quando nada havia no Éden, dizem as Escrituras Hebraicas, (só para citarmos aquela que nos fala mais de perto), que o Espírito de Deus, Elohim, “pairava sobre a face das águas”. Depreende-se dessa descrição genesíaca, que, nesse instante eterno e remoto, já estava a Geografia, tomada aqui pelo elemento Acqua, H²O. Havia também o Mito, narrado pelo escritor, divinamente inspirado, como sendo Javé, o criador de todas as coisas. Estavam lá, Geografia e Mito, segundo a Torah, bem antes da criação do primeiro ser pensante, daquele que daria nome às coisas: o Adão.
Lá estava, naquele sítio pré-adamico, no mundo das coisas inominadas, o Mito Primordial.
Em sua obra maior, Mensagem, Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa, vaticinava: “o mito é o nada que é tudo”. Deus é esse Tudo, o Aórgico Absoluto, Aquele que sempre esteve lá, no Antes, no Nada Original, no Indizível, no Mistério Inicial. Estava lá também a Acqua, nossa primeira geografia, mãe de todas as outras geografias e dos seres viventes. Mãe da espécie humana, pois é a mãe do barro e dos elementos químicos. Desses elementos, o Mito ergueria o Vir, o primeiro patriarca, e sua mulher, Eva. A geografia é pois o aórgico primacial, ou seja, aquilo que derivou Daquele que “por não ter vindo foi vindo e nos criou”.
Os outros vetores, economia e história, vivem irremediavelmente ligados, em franco contubérnio. A economia, aqui entendida à flor da sua superfície, enquanto fator da busca humana pela solução de seus básicos e primevos problemas: alimentação, utensílios, habitação, ferramentas, armas e túmulos; só viria a existir imbricada com a ação do homem, ou seja, com sua biografia individual e conseqüentemente, com sua história coletiva. Consideraremos, então, a economia e a história, como vetores siameses e órgicos.
Cabe agora, uma pequena digressão sobre o pensamento que fundamenta essas minhas proposições. Decorrem, essas pobres especulações, da releitura que venho fazendo da verdadeira revelação filosófica, que é a obra desse desconhecido filósofo brasileiro, Vicente Ferreira da Silva, aqui denominado o Anunciador do Aórgico.
“O aórgico – dizia Ferreira da Silva- é o não posto pelo homem, é o que não se apresenta como resultado da produtividade artístico-criadora do sujeito”.
Ora, direis, — e eu ratifico o que estareis a pensar —, que só não havia sujeito artístico-criador, ou ser pensante, (excetuado o próprio Criador), como acima afirmamos, nas regiões edênicas e pré-adamicas, na eternidade que antecedeu a aparição do primeiro homem. Portanto, aórgicos, creio serem a geografia e o mito, essas testemunhas do dia inaugural, e aspectos dionisíacos da divindade.
Vale ressaltar, e já concluo esse delírico discurso, que, como anunciava Ferreira da Silva “o Mito é, em substância, Poesia”. Poesia transumana, poesia-em-si. Não a poesia escrita, sujeita à elaboração individual, mas poesia com vida transcendente, poesia enquanto potência divina. É Ferreira quem nos revela essa, ubérrima e singular, Protopoesia. Essa fabulação mitológica, que deve ser o fundo último das teogonias dos vários povos do globo. Deve-se pois buscar nessa poíesis, nessa poesia das matrizes míticas, as puras possibilidades do que na História é realizado.
Nessa oracular filosofia ferreiriana, cujo fulcro é a idéia da protopoesia, evidencia-se a reinterpretação da mitologia como ‘poesia em si’ e matriz inexaurível da realidade.
A partir disso, pode-se agora entender aquela emoção euclidiana com a geografia da região de Canudos, como um mergulho no aórgico. Ou seja, a vertigem de um escritor urbano, atingido pela força daquela paisagem desértica, altaneira, e jamais tocada pela ação despótica do homem. Seria também da mesma intensidade a comoção dionisíaca que sentiu o autor de Os Sertões, em outra de suas viagens pelo Brasil, ao deparar-se com a imensa floresta amazônica: um estremecimento diante da imagem fascinante do aórgico, do não posto pela ação humana. Sua obra magistral seria, por esse prisma, fruta dessa reinterpretação do telúrico e aórgico rincão nordestino, pelo que nele há de mitológico e fundador da realidade.
O mesmo se pode dizer da obra de Ariano Suassuna que versa sobre a Pedra do Reino: uma reinterpretação sertaneja e armorial do messianismo ibérico, com a vertiginosa fundação de um universo mítico. Dessa obra citarei um dístico de certo Carlos Dias Fernandes, citado por Quaderna, que afirma que “os livros são condensações psíquicas das nacionalidades a que pertencem”. Caberia aqui só um reparo à citação daquele aventuroso personagem: Não é qualquer livro que é capaz dessa condensação psíquica. Somente as grandes obras. Além dos dois, citados acima, só obras da envergadura de um Dom Quixote, de Cervantes; de um Grande Sertão – Veredas, do Rosa; do Avalovara, do mago Osman Lins; ou ainda, da sublime e majestosa Mensagem, do poeta-mor da última flor do Lácio. Bilac? Ora, diríeis. E eu vos respondo: Sem embargo do valor da obra do grande parnasiano, não é de Olavo que vos falo, e, sim, do gênio português, o Sr. Fernando Pessoa.
Para concluir essa peroração, que já se alonga por demais, indico-vos pois, jovens escritores dessa cidade-das-pedras-que-seguram-o-mar, o caminho embriagador da Protopoesia, da entrega amorosa às forças oníricas, à ondulação da vida, da geografia enquanto epifania numinosa dos deuses. Se quiserem escrever sobre essa urbe fluvial, enveredem pelas suas matrizes míticas, pelo que nela há de aórgico e de ancestral. Busquem uma Mitopoese antes de uma História. Lá nascerá o homem, o herói angustiado e só, entre temores e tremores. Subam aos arrecifes nas noites das grandes ressacas de agosto. Deixem-se arrastar pela força das enxurradas, nas enchentes das várzeas do Beberibe e do Capiberibe. E durmam ao relento numa baiteira em noite de tempestades sobre o manguezal. Corram nus, pelas margens enlameadas, sob o ribombar dos trovões, como caranguejos de andada. Sintam medo, sintam pavor, mijem-se e caguem-se ao fulgir dos raios e relâmpagos que derribam os altos coqueiros nas praias deserta da Ilha das Cabras. Ali também estarão os elohins, os odins, os vulcanos, os oguns, tupãs e todos os elementais, pois os deuses são também brasileiros e habitam, ab origine, o delta de nossos rios. Ave! Shalom! Saravá! Alah-Hu-Acbar! Viva Deus, que pequeno sou eu!

(seguem-se aplausos e assobios da jovem platéia!)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Demarcação da Poesia nº 2



Meu canto espumeja e baba, como os detritos na lama,
palavras-lixo que enfeiam a orla do manguezal.
Meu versejar, fugidio, repente breve e assustado,
parece um uçá de andada, sob o troar dos trovões.
Canto com meus olhos baços, nessa paisagem restrita,
zanzando entre os mocambos, pelas ruelas estreitas.
Só os pardais sobre o mangue sabem a linguagem da brisa
que soprava na caatinga de onde vim retirante...
Vou cantando e navegando nessa baiteira raquítica,
bichinho instável e manhoso,
feito a alimária cansada que deixei pelos caminhos.
Meu canto veio fugido e encalhou nessas ilhas,
minh’alma presa às raízes, molhando
a crosta de abrolhos de meu chão interior.
Dessa lama pardacenta, surgem palavras aquáticas,
salôbras e insalubres, ligeiras feito os crustáceos,
encovando-se em meu ser.
A alma da maré vazante é um ôco em minhas lembranças,
a angústia de não ser nada nessa cidade de escombros,
mocambos que não produzem palavras pra se cantar.
(Ah...que saudade de lá, de tanger gado moroso e à tardinha aboiar...)


Eurico
In: Ser Tão Profundo/Mangue Interior

quinta-feira, setembro 14, 2006

Demarcação da Poesia nº 1



Meu canto é que nem um filete d’água
minando a pulso de um lajeiro.
É assim, arrastado, gutural,
canto monossilábico, melopéia pungente,
arrancada da pedra que sangra no reino de meu peito.
Canto esse meu canto agoniado, esse relincho, esse mugir,
essa infralinguagem,como a linguagem dos bichos
que tanjo em meu sertão profundo..
Vou cantando e tangendo esse gado invisível,
por entre espinharas sibilantes e seixos esbraseados.
Meu canto germina feito um cardeiro em minha alma de abrolhos,
na solidão e no silêncio,
durante as léguas tiranas dessa caatinga interior.
Dessa terra rachada e sem húmus, exsurge um léxico raquítico,
vocábulos mínimos que se alongam, tristes aboios, mugidos,
na minha garganta rouca e ressecada.
Com a morte em minhas lembranças e a dor em minhas andanças,
canto uma agonia fechada, solitária,
universo parco de cabras e pedras,
quase sem palavras com que se cantar.


Eurico
in: Ser Tão Profundo/Mangue Interior

domingo, setembro 10, 2006

Resenha Livre Nº 1


Uma flor do pântano



O que se vê por um olho nem sempre é o que se vê pelo outro. Esse ditado popular, cheio de sabedoria, servirá de mote inicial para a leitura que faço do livro Memórias de Minhas Putas Tristes, do escritor Gabriel Garcia Marquez.
Um homem, no dia em que completa noventa anos, decide ter uma noite de prazer com uma ninfeta virgem. Para isso contrata, a peso de ouro, com a ajuda de uma cafetina, da qual era freguês antigo, uma menina que estava sendo iniciada no ofício da prostituição.
Esse é o tema principal. Esses, os poucos protagonistas.

O que se vê por um olho:

Perpetra-se um crime nefando: alicia-se uma criança para os prazeres abjetos de um velho decrépito. Tudo no tema cheira a podridão.
Vê bem, o olho políticamente correto.

Mas, o outro olho, o do artista, vê mais longe:

Eis a magia do escritor genial. Como do pântano mais fétido nasce a flor de lótus, consegue Garcia Marquez fazer brotar desse lamentável enredo, a beleza e a ternura. O amor aos noventa anos, paternal e derradeiro, vai surgir das páginas dessa novela exemplar. Surgirá, também, por outras vias, o amor virginal da menina; embora esse desgraçado amor tenha como nascedouro a extrema miséria, a vida sem afetos e sem carinho, sem brinquedos e, quem sabe, sem pai.
Por certo trata-se de uma relação quase incestuosa, se é que também havemos de chamar de incesto à relação amorosa entre avô e neta.
O que resta do romance, ao final, é a história de um ignominioso crime que foi ultrapassado pelo amor. E o livro de Garcia Marquez nos revigora, nos abre o entendimento de que o homem é capaz de purificar-se dentro da imundície, de criar jardins no deserto e de, como se fosse Deus, escrever em linhas tortas uma história do bem. Quem tem ouvidos, ouça; e, quem tem olhos de ver, veja! A arte vê a flor no pântano!
Salve a Literatura! Salve a Vida Humana! Apesar de todas as crueldades, salve!



Eurico – agosto 2006
Aos estagiários do Arquivo Geral do TJPE

sábado, setembro 09, 2006

MANUAL DE LITEROGRAFIA SEM MESTRE


















sub-título: Exercícios de mergulho
Editora do Autor
Recife
05/08/2004


Uma epígrafe

O ato de escrever é um ato de apreensão da realidade;(...) a escrita viabiliza
o conhecimento de si e do mundo(...)
escrever é uma epifania, um ato de criação

*************************************Affonso Romano de Sant’Anna



Programa Introdutório


I - Esse estranho ofício: a literografia

II - Onça que lambe as feridas, ou Cobra que morde o próprio rabo

III - Alguns mergulhos osmanianos



I - Esse estranho ofício: a literografia

O escritor pernambucano Osman Lins(1924-1978), em seu Marinheiro de Primeira Viagem, narra um curioso diálogo que travou com um funcionário do guichê em que se que autorizavam os passaportes para a Europa. Esse incidente, por ilustrativo e pitoresco, servirá de pórtico a esse despretensioso curso de literografia sem mestre:

UM BUROCRATA

- Profissão?
- Escritor.
- Não pode ser. Não é isto que consta dos documentos do Imposto de Renda.
- Naturalmente. Não se paga imposto de renda como jornalista ou escritor.
- Tenho de por “bancário”. O senhor não trabalha em Banco?
- Trabalho.
- Quer dizer que é escritor-amador.
- Existe rádio-amador, mas não escritor-amador. Ou se é escritor, ou não se é.
- Mas se o senhor trabalha em Banco, tenho de por “bancário”.
- Não é como bancário, e sim como escritor, que viajo. A maioria de meus possíveis contatos, na Europa, será de natureza artística e literária. Só vou entrar em Banco para trocar dólares. Como cliente. Não quero que o senhor ponha “bancário”. Pode prejudicar-me. Já perdi uma bolsa de estudos porque, nos documentos, constava que trabalho em Banco.
- Pois eu só posso por “escritor”, se o senhor provar que é escritor.
- Trago-lhe os livros.
- Ah, não servem.
- Como é que não servem?
- É preciso trazer um documento, assinado por duas pessoas, atestando que o senhor é escritor.
- Selado?
- Perfeitamente. Com firma reconhecida.
- Então os livros não servem?
- Claro que não, meu senhor. Livro não é documento”
(LINS, 1980: p. 42)

Tenho um grande amigo osmaniano, chamado Carlinhos do Amparo. O osmaniano, aqui, é parecido com os apelidos que se dão aos seguidores deste ou daquele filósofo ou cientista famoso. Há os freyreanos, os heideggerianos e outros fulanos. O Carlos Pequeno do Espírito Santo, morador do Amparo, Olinda, é estudioso do Osman Lins, como ele próprio diz, por necessidade visceral. Ou estudava ou se danava. Carlos, auto-didata, é o cão chupando mangas, ou seja, um inventor de tudo quanto não presta. Poeta, ficionista, tocador de violão, amante e defensor das meretrizes das ladeiras carcomidas das Olindas, como ele costuma chamar a cidade-patrimônio. Dentre outras coisas, ele é o criador do termo literógrafo, que considera como o mais adequado para designar a profissão de ficcionista ou de poeta, que é a dele desde a mais tenra idade. Tudo começou quando, aos trinta e poucos anos, ou seja, uns vinte de escrevinhador, resolveu fazer vestibular de Letras, para uma pequena Faculdade aqui da Mauricéia-mais-que-desvairada. Sua intenção: formar-se escritor. Ficou apenas na intenção. Além das farras homéricas (aliás, por que as farras são homéricas? alguém sabe?) nos bares das vizinhanças da Faculdade, pouco conseguiu aprender. A Faculdade de Filosofia do Recife ficava ali na Avenida Conde da Boa Vista, paraíso dos barzinhos, como o Mustang, histórico bar dos subversivos de todas as tendências, nos anos 70, hoje, 2004, tendendo mais para bar GLS, do que de serões etílico-politizados. Nela, na Fafire, pouco aprendeu. Além das discussões etílicas, teve algumas noções enfadonhas de sintaxe e de latim, teorias literárias abúlicas, tudo em aulas sonolentas, excetuadas as de Filosofia, com um certo prof. Aderval, também poeta e dos bons. Com um agravante: à época: (isso foi lá pelos idos de 1989-90) nada de Osman Lins, nada de Carrero, nem de Antonio Torres ou Raduan Nassar, para não ficar só nos nossos. Eu era seu colega de turma e, a bem da verdade, citaria uma gaúcha, que lecionava Brasileira, e a mineira, se não me engano, de Linguística, como boas mestras. Fora disso, aquilo lá era apenas um cursinho de formação de professores de gramática e literatura, e nada mais: palavras do Carlos. Faltava vida, faltava criação, faltou-nos o ar...demos no pé.
E é para o Carlinhos do Amparo, para os escritores e poetas dessa cidade, marginalizados nos becos da fome, nos guetos litero-alcoólicos da cidade maurícia; é para nós que começo a erigir esse Curso de Formação de Literógrafos, que, segundo o Carlinhos, são as pessoas que grafam letrinhas, isso, lendo-se ao pé das mesmas. Mas, verticalizando a leitura, literógrafos são os que fazem literatura, de qualquer forma, em qualquer suporte, em qualquer lugar: nos muros, na fachada dos prédios, tatuando no próprio corpo, na própria alma. São literógrafos, até mesmo, os nautas, os novos nautas da “net”, teclando e digitando, notívagos, sua poesia, sua paixão, suas dores e angústias, sua perplexidade. Se bons ou maus literógrafos, cabe aos leitores o julgamento. Sem esquecer que também há bons e maus leitores. Bem, deixemos isso pra lá, pois pretendemos também dar um Curso de Leitura em Águas Profundas. Breve, nesta praça virtual.

Segundo o meu amigo Carlinhos, aquele burocrata que atendeu o nosso Osman Lins (vide texto acima) ainda vive, ou vegeta, como queiram os meus parcos leitores. E vive porque nossos mestres jamais pensaram diferente dele. É que, mesmo nas Universidades, o Escritor não tem existencia como profissão. Pode-se ser Licenciado em Letras, Bacharelado em Línguas Neo-latinas e outros títulos equívocos e pomposos, mas, Escritor, jamais.
Pois será , meu amigo Carlos, à margem dessas FMS, Fortalezas Medievais do Saber, isto é, as universidades brasileiras, que surgirá o primeiro curso de formação de escritores, verdadeiramente: O Curso de Literografia, esse estranho e silencioso ofício, que nem remunera, nem traz prestígio social à maioria de seus adeptos. Poucos são os Amados e Coelhos dessa lida! Mas, nos conformemos, senhores, pois, mesmo na Grécia, não eram Eurípides ou Sófocles, os famosos da pólis, tampouco Sócrates ou Platão eram as estrelas-pop das cidades-estado. Os stadium gregos, como os maracas de hoje, é que abrigavam os ídolos da época. Os pelés e os “fenômenos” dos tempos clássicos eram os maratonistas, os discóbolos e outros atletas helênicos. Não há, pois, razão para desistirmos da luta mais vã drummondiana. Por isso, lutemos, mal rompa a manhã!
Salve, poeta Carlinhos do Amparo! Salve, salve poeta Getsemani de La Cruz! E tantos outros literógrafos dessa cidade das pedras que seguram o mar. Co-autores e partícipes desse I Curso de Formação de Literógrafos, sem Mestre.
Sem mestre?
Isso será assunto a ser discutido mais tarde.

O Autor
Recife, 05 de agosto de 2004.



II - Onça que lambe as próprias feridas
(ou Cobra que morde o próprio rabo)



A Sagrada Congregação Acadêmica para o Estudo das Letras deverá considerar um pecado esses nossos considerandos. Contudo, queremos cometer mais do que um simples pecadilho. Queremos ser uma abominação! Heresiarcas, queremos o anátema! Queremos a informalidade, a linguagem prosaica e coloquial, o livre pensar e teorizar, pois cada obra literária, -- alguém já disse isso --, instaura a sua própria teoria. Amaldiçoados que somos, trataremos do processo criativo, o fazer literário, coisa singular, subjetiva, que escapa às teorizações, aos cânones academicos e à metodologia científica. Procuraremos estudar isso de duas maneiras práticas, pois é de uma prática que tratamos nesse curso:
Inicialmente, por fruição e observação, lendo diretamente da obra dos próprios autores;
E, em seguida, numa abordagem indireta, esmiuçando depoimentos, cartas, entrevistas, autobiografias, sem esquecer de explorar, aqueles textos metalinguísticos, isto é, aquelas obras em que os autores se debruçam sobre seu ofício, como faz Umberto Eco em seu Pós-escrito ao Nome da Rosa, ou, de forma semelhante, o próprio Osman Lins, em Guerra sem Testemunhas, livro de ensaios em que trata do próprio ofício do escritor, ou seja, do literógrafo; livro fecundo e incisivo, que atinge os problemas mais cruciais de nosso mister, como a cobra que morde o próprio o rabo. O Carlinhos sopra-me ao ouvido e me sugere, por mais adequada à obra de Osman, por nordestina, a imagem, quase armorial, da onça que lambe as próprias feridas, que deixo aqui registrada.



III - Alguns mergulhos osmanianos


Antes de iniciarmos este III, que já nos introduz diretamente no curso, é prudente aprofundarmos uma tese deste trabalho. Mais uma vez recorro ao amigo Carlinhos do Amparo, que tem tiradas geniais para explicar coisas complexas, iluminando-as e facilitando a compreensão do troço complicado. Em síntese: quero explicar o método deste cursinho de literografia. Não é nada difícil, mas apelemos ao Carlinhos:
Certo dia, em uma saborosa discussão etílica no bar da Algaroba, Carlinhos me sai com uma de suas sacadas. Todos ali sabíamos que ele era um auto-didata, ledor voraz de tudo que é obra impressa que passasse em sua frente, quando ele então nos diz num rompante.
-- Fiz meu bacharelado em Ciências Gerais. Minha orientadora foi dona Vilma, minha professorinha primária. Graduei-me, com ela, no curso de Leitura Silenciosa. Minha universidade foi ali, no Grupo Escolar Aníbal Falcão, quando aprendi a ler, profunda e pausadamente, discernindo quem fala, de quem e do que se fala, para quem fala e como fala. Li poesia, cronica, gibi e filosofia. Li de tudo. Sei esmiuçar qualquer texto. Sou doutorado em leitura em águas profundas. Esse é o meu segredo. Tudo o que sei vem da minha habilidade com os parágrafos, com a sintaxe, com a prosódia. Portanto, sou formado em Ciências Gerais. E não me chamem de auto-didata, termo impossível e improvável. O que sou é bibliodidata. Os livros me ensinaram o pouco que sei. Eu não ensinei a mim mesmo. Sou apenas um ledor, um ledor voraz!
Ficamos pasmos, assim como você deve estar agora, leitor. Mas, hoje, diante dessa difícil tarefa de formar literógrafos, compreendo bem o que disse o Carlinhos. Nosso método, como o de sua professora primária, é o do mergulho literário em águas abissais. Nosso ferramental teórico é simples, mas pelágico: a leitura. Ao mergulhar, verdadeiramente, em um texto, você vai ter uma visão oceânica, águas claríssimas, correntes subterrâneas, peixes insólitos e imprevistos e miríades de formas de vida. Ler é mergulhar. Em vista disso, a nossa primeira lição submersa será em mares nordestinos, em algum lugar próximo à faixa litorânea dos arrecifes calcários. Pois começaremos mergulhando na obra de Osman Lins:


Exercício inicial

Leia-se o romance O Fiel e a Pedra


E, em seguida o texto Confissão, do Marinheiro de Primeira Viagem, abaixo transcrito:


Confissão

“Entregue, desde ontem, à revisão de O Fiel e a Pedra, essa tentativa de transposição, para o Nordeste de 1936, da Eneida. Não propriamente uma transposição, uma vez que muitos dos personagens e fatos apresentados têm origem na minha experiência. Mas a verdade é que o romance, já iniciado, foi replanejado tendo em vista o poema de Virgílio.*
Daí o tom algumas vezes descritivo do livro. Mas duas outras razões, talvez mais importantes, respondem pelo que há de exterior na obra. Uma, intelectual, é a reação contra certa literatura “despojada”, contra a qual se insurge Gilberto Freyre. Outra, é de natureza passional. Ascânio angustia-se com o desaparecimento de seus mitos. Ele vê, em todas as coisas amáveis, uma garra escondida, um dente a corroê-las. Embora não possa dizer, desse personagem, que seja autobiográfico, a verdade é que, em certa época, perturbava-me esse fugir das coisas entre minhas mãos. Principalmente o fim irremediável de tudo o que constituiu o mundo da minha infância, que absolutamente não foi risonha, nem festiva, antes solitária e cinzenta, mas onde conheci a ilusão do eterno.
Ora, O Fiel e a Pedra foi uma tentativa de reconstitui-la, de refazer o meu reino devastado, tarefa que só através do romance poderia tentar. Pois eu também tivera destruída a minha Tróia, cujos muros pareciam-me inexpugnáveis. As alusões, no romance, a cheiros, a rumores, árvores e bichos, decorrem quase sempre daquela ânsia de prender a vida, que era o traço mais intenso de Ascânio; e à necessidade de fixar, ou de recuperar, uma vida que já não existe, necessidade hoje ultrapassada, porém que se tornou, na época em que concebi e elaborei este romance, irresistível. Eu queria reerguer, com amor e lucidez, o tempo da minha eternidade e, nele, tentar mover meus mitos, os heróis da minha infância, minha mitologia.”


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1 - O salto no tempo

Um texto confessional. É o que se apresenta nessa nota de viagem. Nós somos os confessores. Trata-se de uma confissão pública. Quem se confessa? Um escritor.
Vamos encontrá-lo em pleno ofício, no meio de uma viagem ao Velho Mundo. O que faz?
“ Entregue, desde ontem, à revisão de O Fiel e a Pedra.”
Disciplinado, o escritor cumpre metódicamente seu mister. Revisar seu próprio texto faz parte da rotina, às vezes tediosa do literógrafo. Com isso já se põe por terra algo dessa visão romântica do escritor famoso. Cachimbo na boca, suéter e lareira, só em filmes americanos.
O texto revisado: um romance em que tenta uma transposição da Eneida, de Virgílio, para o Nordeste de 1936. Nada como ler um depoimento direto do construtor da obra. Essa Confissão osmaniana vai nos levar aos espaços instersticiais, (como sói dizer o Getsemani de La Cruz), da obra em estudo.
Tentativa de transposição, é o que nos revela O L.: “uma vez que muitos dos personagens e fatos têm origem na minha experiência.”
O romance possui um plano e pode ser replanejado a qualquer momento:
“Mas a verdade é que o romance, já iniciado, foi replanejado tendo em vista o poema de Virgílio.”
Uma consequência do replanejamento em Virgílio: “Daí o tom algumas vezes descritivo do livro.”
Osman empreende uma revisita. Mais: propõe um salto no tempo! E nos traz Vírgilio pro aconchego palpável do sertão nordestino.
Ave, Osman, o mago da Vitória de Santo Antão!

*Leia-se também, por oportuna, a Eneida de Virgílio.

BIBLIOGRAFIA


LINS, Osman, Marinheiro de Primeira Viagem, 2. ed. - São Paulo: Summus Editorial, 1980. p. 42, 43.
LINS, Osman, O Fiel e a Pedra, 6. ed. - São Paulo: Summus Editorial, 1979, 291 p.



Fim (da parte introdutora)
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Aguardem novos mergulhos!!! rsrsrs