Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, abril 24, 2009

Ilha-sem-Deus (releitura em Josué de Castro)























(Mais um da série poemas da maré,
dedicado agora a Josué de Castro.
Se os generais que o exilaram
tivessem de pagar pelas mortes dos famintos
nas favelas e palafitas,
nem mil anos de pena seriam suficientes.)





Aquecer a frágil'alma
Ao calor desses destroços
Esses retraços que ardem
Em um ser baldio e sem crença

Esfregar mãos engelhadas
Ao fogo desse monturo
Prender a morte num engulho
Sem desistir da existência

Buscar sentido no caos
E fé na lenta agonia:
Esses barracos imundos.
Essas entranhas vazias.

Trapos, lama, palafitas
Sem Deus na ilha esquecida
E a vida?
A vida é também retraço
No pó das desconstruções.
Essa inútil empreitada.
Um traço desesperado
Que nós riscamos no Nada...



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Eurico
16.01.2003
In: Ser tão Profundo/Mangue Interior


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Fonte da imagem:
acertodecontas.blog.br/.../2008/08/palafitas.jpg


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11 comentários:

Dauri Batisti disse...

Tudo tão bem feito, tudo tão bem colocado, tudo tão bem acabado. Ah, dou-te os meus parabéns.

Um abraço.

Eurico disse...

Grato, amigo-irmão.
Essa ferramenta pode ser usada contra o fluxo da maré de onde ela emana. O capital volátil e globalizado deve se humanizar. Não sei como, mas vai ser antes que destrua a nossa civilização.
Daqui eu tb grito, grito meio inútil. Mas só posso fazer isso. Então eu grito inutilmente.

E essa ferramenta pode amplificar esse grito.

Abraço fraterno.

Canto da Boca disse...

Posso gritar junto?

Vim contar da experiência de caminhar pelas águas do mediterrâneo e sua fria temperatura; e a dureza das pedras do velho mundo... E encontro mais que um poema, mas um tratado de solidariedade e de denúncia; no mais profundo do ser (porque és) humano. E emociono-me tão inesperadamente neste sábado de alto temperatura, que necessito respirar mais fundo.

E a memória retorna ao Geografia da Fome, aos homens caranguejos, aos homens lama, da lama.
"No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama"
Da fome oculta, da fome escancarada, da fome de não ter fome...
"A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capiberibe, nos bairros miseráveis do Recife - Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo.

São seres anfibios - habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo - este leite de lama -, se faziam irmãos de leite dos caranguejos..."

Já está dito, e há muito tempo, apenas os surdos não escutam.

Bom final de semana e aplaudo-te pelo texto, a escolha não poderia ser mais perfeita!

Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver.

Eurico disse...

Oi, menina. E as pedras do mediterrâneo? Secas como as cabras do Cabral?
Dei um salto aqui. Do sertão de cabras que tudo comem, pro mangue dos uçás, também onívoros, e, pior, coprofágicos. Eis o ciclo vital, o homem come, expele, o expelido alimenta o uçá que alimenta o homem.
Vai um abraçamigo, vizinha dos mesmos manguezais, dos homens-gabirus e dos uçás que saem da lama pro asfalto.
Viva o Chico Science! Chico vive!
E o Josué, profeta da desnutrição no mundo. Salve!

Dora disse...

Eurico! Um recorte da vida que parece estagnada, sem porvir, sem opções, sem alento...Não é a miséria em si, mas o apequenamento de vivências, de gestos, de movimentos. "A vida é um retraço", em meio à restrita linha de horizonte.
Há viventes que sobrevivem assim, por impossível que pareça. É um quadro "dantesco", quase.
Se você quis "inquietar", conseguiu. Ou "bouleverser", o melhor termo que encontro, quando alguma realidade transtorna muito o coração e a mente.
Beijos!!
Dora

Eurico disse...

Dora,
Esses lugares, infelizmente, existem. Esse tema "dantesco" é tb o motivo de um romance que tento escrever, mas a angústia vai me fazendo sempre deixá-lo na gaveta mais funda de mim.

Abraço fraterno.

paula barros disse...

Oi, Eurico

Ao ler seu poema e olhar a foto, percebo e me dou conta do quanto tenho fugido dessa realidade cruel, tenho me protegido da dor.

Não é o certo, mas foi o certo para mim.

abraços

Eurico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eurico disse...

Paulinha,
Não estamos certos nem errados, estamos dentro do ventre da baleia, e, não podemos deixar de nos contaminar por suas vísceras. Nínive nos espera ansiosa.
Levemos até ela a nossa mensagem e a nossa fraternidade!

Abraçamigo!

Éverton Vidal disse...

Interessante essa temática. Há um ponto em que filosofia, teologia e poesia se encontram buscando organizar o caos da existência e da sociedade. nem sei como é o nome técnico dessas coisas, só sei que às vezes encontro eco em poemas daquilo que estou lendo em outros ramos/saberes.

Estou gostando desses poemas em tom crítico. Engasgando a gente com a realidade, mas plantando uma vontade de mudar.

A gente precisa sempre ler coisas assim, pra não perder a fé. Não se omitir, não deixar de sonhar.

Os parabéns. "Abraçamigo"!

Eurico disse...

Isso. Apesar da boca suja, esses textos tem uma pureza d'alma, a necessária ingenuidade para se ter ainda esperança. Pois, se não nos tornarmos "como um desses pequeninos"...

Bem, temia que me achassem ateu. O Eu-lírico desse poema é quase ateu.

Abraçamigo e fraterno.