Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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segunda-feira, dezembro 02, 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA

(Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

 Paris, 17 de fevereiro de 1903

 Prezadíssimo Senhor,

 Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera. Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir. Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la. Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke

 Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas. Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard. Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo. Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça). Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América. Texto extraído do livro "Cartas a um jovem poeta", tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.

terça-feira, outubro 16, 2012

TIJOLINHO (em memória de meu pai)




















I
Desci a ponte apressado,
perdi o bonde das cinco.
Volto pávido pra casa.
Mas não perdi a esperança.

II
Sei que os gatunos já espreitam,
na Estreita do Rosário,
Os bêbados
Os operários
que jogam com palitinhos.
Aqui se dorme cedinho.

III
Conheci um motorneiro
cujo nome, Tijolinho,
sempre me cai na cabeça.
Meu pai dizia: não desça,
antes de Tejipió.
Primeira vez, eu, no bonde,
andei só.

IV
O bonde aberto do lado.
Eu fora, dependurado,
com o guarda-chuva na mão.
Eu, de volta.
Eu, cansado.
Eu, eus, múltiplo, multiplicado.
Mil rostos,
mil e um pecados.

V
Eu, do Recife,
eu, do umbigo do mundo.
Eu, tão ambíguo, no mundo.
Vrrrummm! no bonde, um giramundos!

VI
Fui consultar u'a vidente.
Queria ver meu passado.
Meus trilhos. A ubiquidade;
Eu, tríbio.
Eu, sem idade.

VII
Num bonde andei.
Mas brincava sobre uma placa flutuante.
Um bonde é, antes, brincante;

f(l)ui, passageiro,
Eu passei...



Viagem poética, criada a partir de uma viagem real,
que fez o meu pai, Elias Eurico de Melo.
Meu velho, 86 aninhos, me contava seus causos d'infância,
naqueles dias frios do inverno de 2010 em que, juntos, cuidávamos
dos nossos corpos (e almas), alquebrados, mas serenos.
Eu convalescia de um câncer, que superei,
ele, de um Parkinson, que não o pouparia.


Fonte da Imagem:

Bonde de Tejipió
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1112501


Notas do blogueiro:

1- A reedição dessa postagem é em memória
do Sr.Elias Eurico de Melo  (31/08/1924 - 17/10/2011),
meu querido paizinho, que, há um ano, nos deixou saudosos.

2- Poema da série Evocações de um Recife Antigo (ago/2010).



Ao fundo, Taiguara - O Velho e o Novo:


Deixa o velho em paz
Com as suas histórias de um tempo bom
Quanto bem lhe faz
Murmurar memórias num mesmo tom


A sua cantiga, revive a vida
Que já se esvai
Uma velha amiga, outra velha intriga
E um dia a mais


Vão nascendo as rugas
Morrendo as fugas a as ilusões
Tateando as pregas
Se deixa entregue às recordações


Em seu dorso farto
Carrega o fardo de caracol
Mas espera atento
Que o céu cinzento lhe traga o sol


Ele sabe o mundo
O saber profundo de quem se vai
O que não faria
Pudesse um dia voltar atrás


Range o velho barco
Lamento amargo do que não fez
E o futuro espelha
Esse mesmo velho que são vocês



quarta-feira, novembro 30, 2011

PROF. BARKOKEBAS, UM ANTÍSTITE


Ginásio Pernambucano, um monumento às margens do Capibaribe.



















O maestro Miguel Barkokebas era um mestre exigente, como de resto eram todos os do Ginásio Pernambucano. Confesso que não estava na lista dos que eu mais me lembrava, dentre tantos professores "catedráticos" daquele centro de excelência em educação. As estrelas eram Hilton Sette, José Brasileiro Vilanova, Cláudio Estelita, entre outros. Mas, dia desses, pesquisando sobre antigas agremiações carnavalescas do Recife, encontrei uma paixão que nos aproxima. O nosso querido mestre, como eu, também era um aficcionado dos blocos líricos. Compositor de hinos sacros para a Igreja do Rosário, no Bairro da Torre, ele não resistiu ao lirismo do Bloco Apois Fum, e dedicou-lhe a marcha "Esse Bloco é Meu". (vide João Montarroyos,  Bloco Apois Fum: O lirismo e a ousadia de Momo).

Mas, o que tem a ver essa reflexão com poesia, que é o motivo principal deste blogue?
Tem tudo. Tudo a ver com a poesia e com as palavras.

Durante as animadas aulas de canto orfeonico, o prof. Barkokebas nos ensinava, como era de praxe naqueles anos de chumbo, todos os hinos pátrios, com aqueles versos solenes, quase sempre com sujeito posposto e recheados de palavras arcaicas. É claro que entremeava aos hinos cívicos, as suas modinhas e canções, sendo a que mais gostávamos, o dobrado Pindorama , com uma sequência em tons graves demais para nossas vozinhas infantis:

"Sou Tabajara nessa terra de Tupã
que tem arara, papagaio, maracanã
Eu tenho o céu, tenho os pássaros do céu
que mos deu foi Tupã,  foi Tupã, foi Tupã..."


Sem esquecer da sua obra prima, o belíssimo hino dedicado ao Ginásio Pernambucano. Era na letra desse hino que estava, muito bem encaixada, apesar de proparoxítona e no fim de um fraseado musical, cheio de fusas e semifusas, a palavra antístite. Cantávamos de cor, o Hino do GP, num coral de fedelhos na faixa dos 12 ou 13 anos. Alguns se entreolhavam, com algum pasmo, ao solfejarmos aquela frase de difícil dicção, que dizia, mutatis mutandis:

"Ginásio Pernambucano (...)
por ti passaram Presidentes e Antístites"


Antístite: essa palavrinha misteriosa me acompanha até hoje, perfeitamente acoplada à sua frase musical. O mestre, que nos fazia repetir a melodia até a exaustão, também está em mim e na minha poesia. Ao engastar aquela proparoxítona, incomum e arcaica, no hino do colégio, ele sutilmente me ensinava a compor. Ritmo, sílabas tonicas, síncopes frasais, melodia... tudo estava inserido nessa frase musical que hoje emerge do fundo do meu subconsciente, ou, como diz o Caetano, do fundo dessa "força estranha que me leva a cantar" e que me fez compositor e letrista, desde os 16 anos, e, de lambuja, também me despertou a Poesia. Eis a força de um educador!

Salve o mestre Miguel Barkokebas, um verdadeiro antístite! Grato pelos duros carões que nos passava, quando errávamos a pronúncia daquela célebre frase do Hino do Ginásio Pernambucano. Serei teu eterno aprendiz!
Evoé, Mestre!























Miguel Barkokebas, pianista, mestre de música do Ginásio Pernambucano, Colégio Salesiano e outros educandários do Recife.
Nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1902, sendo filho de turcos, Ali e Rosa Barkokebas.
Radicado desde a juventude no Recife, fez toda sua vida no magistério nesta cidade, onde deixou uma família de doze filhos, 54 netos e três bisnetos, quando seu falecimento, em 14 de agosto de 1978, no bairro da Torre, onde sempre morou.
Compôs para canto coral e, muito especialmente, para um repertório de música religiosa, que ele todos os domingos apresentava na missa das 9 horas na igreja de Nossa Senhora do Rosário da Torre.
É autor de verdadeiras jóias da música sacra - Achei Jesus; Bendito seja o santuário; É todo meu -, mas não resistiu ao apelo do Bloco Apôis Fum e, sob o pseudônimo de João sem nome, compôs Esse bloco é meu, além  de outras composições no mesmo gênero.


Fonte : História Social dos Blocos Carnavalescos do Recife, Leonardo Dantas Silva, 1998.


Fonte da imagem:
http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Miguel+Barkokebas<r=m&id_perso=1930

Imagem do Ginásio Pernambucano (atual):
http://sp5.fotolog.com/photo/37/3/50/recife/1207975454_f.jpg


Etimologia:
Antístite: do latim Antistes, "chefe, o principal"; ou, ainda, do latim Antius, "o que está na vanguarda.
OBS.: no trecho do Hino do Ginásio, acima citado, significa  chefe eclesiástico, pontífice.
Fonte: Revista eletronica PUCRS

sábado, agosto 13, 2011

LULA CÔRTES (direto dos anos 70)



Perdoem-me, os de ouvidos mais sensíveis,
mas um dia eu tive 16 anos,
e eram os anos 70.
E eram os anos 70...


Essa não é uma apenas homenagem póstuma ao xará Lula Côrtes.
Essa homenagem faço a todos os poetas, vivos ou mortos, dessa cidade das pedras que seguram o mar.


E tem mais do Lula, no Programa Toda Música:
(bem, ele diz uns palavrões, e tal, e umas bobeiras sobre baseados, quem tiver ouvidos de ouvir, filtre o que quiser e ouça o poeta):


Uma dica: usem a tela inteira. O Lula era uma poeta integral. Inteiro.

sábado, julho 09, 2011

DUAS VERSÕES D'A CRISTALEIRA










Para Manuel, Victorine e Claude Debussy,
que sobreviveram entre porcelanas...
(in memorian)












A Cristaleira
(1ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo quieta e aflita
Equilibrando em prateleiras vítreas
finíssimos cristais...

Por trás
De olhos cristalinos
Trago o t(r)emor astigmático,
A tentação dos estilhaços
E a sensação de (ha)ver um gato

( O que traz um gato a este tema?)

Um sobressalto:
O espanto, o grito!
Um gato.

Cacos de vidro.

Súbito, um gato!
Pênsil, pingente, pendular
Feito o lustre no teto
Da sala, a aresta
estala
pela lente dos meus óculos,
Um salto ( ou a ilusão de um salto )

O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.

O impacto,
Trinca-se-me o fotocromático, ante os meus olhos fitos, mil pedaços
Ou a ilusão dos estilhaços...



Eurico, 13.12.2000.


A Cristaleira
(2ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo, quieta e aflita,
Equilibrando, em prateleiras vítreas,
finíssimos cristais...


Por trás
Dos olhos cristalinos
Trato,
retrato,
um remoto
t(r)emor astigmático,
a tentação dos estilhaços
e a sensação de (ha)ver um gato
(O que traz um gato a este tema?)


Um sobressalto:
O espanto, o grito.
Um gato.


Biscouits de vidro.
Bijuterias.
Súbito, um gato!
De porcelana,
pênsil no teto,
lustre pingente.
Na aresta
da sala de estar,
a cristaleira
estala inteira
à lente dos meus óculos.
No impacto:
trinca-se-me o fotocromático,
ante os meus olhos fitos, mil pedaços.


Um salto ( ou a ilusão de um salto )


O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.


Ou a ilusão nos estilhaços...

Eurico, 13.12.2000

Ouçam o cristalino piano do Arabesque nº 1, do eterno menino Achile-Claude Debussy:


Nota:
Às vezes, no processo criativo, dá-se a angústia da escolha.
Deixo, pois, as duas versões, para apreciação do Mestre Diógenes,
conhecedor da Língua e da fragilidade dos cristais...
após conversa sobre nosso estranho ofício, essa brincadeira linguística:
aliterativa, sinestésica, metonímica,

e sei lá mais o quê.


Obs.: para o Prof. Diógenes,
e para meus dois ou três leitores fiéis. rsrsrs


Abs fraternos.
Eurico - 17/09/06

terça-feira, março 08, 2011

UM VIOLÃO SE CALOU...









Hoje não fui ver o meu querido bloco Batutas de São José, que desfilou sua alegria quase centenária, pela praça da Várzea, sob a batuta do meu amigo, o maestro Ceará. Também não pude dedicar um tempo às devidas felicitações pelo Dia da Mulher, para as florinhas do Capibaribe.
O motivo:
Ontem, pelo fim da tarde, calou-se um violão recifense. Calou-se um seresteiro e folião. Refiro-me ao senhor José Gonçalves dos Santos Filho, 69 anos, genitor de nossa amiga Érika Wiviane e da cantora Lila.
Deixo aqui uma homenagem ao velho violonista que partiu, cujo corpo físico semeamos em Santo Amaro das Salinas.
Que sua alegria volte, em breve, ao seio da família Gonçalves.
Que os acordes de seu instrumento ecoem na afinada voz de contralto de Lila, a caçula das mulheres.
Que os céus se alegrem com boa música, nesse último dia de carnaval, para recebê-lo na confraria dos amigos seresteiros, que por lá, decerto, já o aguardavam.


Fonte da imagem:
http://maitheboggo.blogspot.com

segunda-feira, outubro 25, 2010

MATA-MOSQUITOS: essa palavra me calou fundo.





Corria o ano de 2002, quando eu encontrei, por acaso, o amigo cineasta Pedro Aarão,que, como sempre, pedalava sua bike pelas ladeiras do sítio histórico de Olinda. Ao me ver, deu aquela paradinha pra dois dedos de prosa. Entre uma e outra conversa sobre arte, poesia e cinema, perguntou-me sobre uma canção que eu fizera em parceria com o violinista Ariston Trajano, cuja letra homenageava um antigo documentário de sua autoria. Meu Deus, disse-lhe eu. Só quem tem essa letra é o Ariston. Vou tentar localizá-lo. Parece que está coordenando um Centro Social Urbano, lá pros lados do bairro de Casa Amarela.
O cineasta Pedro Aarão insistiu pra que o localizasse, pois que uma doutoranda argentina trabalhava em uma tese sobre seu filme, e a canção se encaixaria bem, naquele momento.
Dia seguinte, folheei a lista telefônica e logo encontrei o número do Centro Social. Mas ao ligar pro Trajano, recebi a terrível notícia, dada por um vigilante (era um domingo e não havia expediente):

-- Senhor, sinto muito lhe dizer, mas o nosso querido Trajano, nosso protetor e amigo dos mais humildes cá do Centro Social, faleceu há uns 3 meses, vitimado por seqüelas de uma dengue hemorrágica...

Por essa época, o Serra andava demitindo os mata-mosquitos do Rio de Janeiro, e em virtude disso, muitos jovens também estavam morrendo de dengue, naquele Estado; a doença estava se alastrando por todo o Brasil. Só o Serra não via isso!
Eu sinto no fundo da alma a dor daqueles que perderam os seus entes queridos, em virtude dessa doença terrível. E não posso esquecer que o cara de pau do Serra, Ministro da Saúde à época, lançou-se também candidato a Presidente, disputando com o nosso Lula, naquele ano de 2002.
Votei e elegi o Lula com muito orgulho. E com muita raiva do Serra.
Agora, quando escuto os rumores da revolta dos mata-mosquitos, abre-se-me no peito a mesma dor de 2002 e me solidarizo com a luta daqueles valorosos trabalhadores fluminenses. Aquela bolinha de papel representa a mais sincera rejeição por uma figura tão sinistra e abjeta. A ele devemos a perda de milhares de jovens, crianças e adultos, causada pela sua irresponsável política de saúde.

Abaixo transcrevo, trecho dos anais da Assembléia Legislativa, que homenageou o querido Ariston, vítima da incúria do atual candidato José Serra:


ANAIS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE PERNAMBUCO
Requerimento Nº 3729/2002


Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e
cumpridas as formalidades regimentais,
que seja enviado um Profundo Voto de
Pesar pelo falecimento do Sr. ARISTON
TRAJANO DO NASCIMENTO - TRAJANO
DO BRASIL.
Da decisão desta Casa, e do inteiro teor
desta proposição, dê-se conhecimento e
Esposa Betânia Vítor do Nascimento, ao
Filho Emanuel Nascimento; à Mãe
Teresinha de Jesus do Nascimento, com
endereço na rua professor José Amarino
dos Reis, 2367 - Bomba do Hemetério,
Recife/PE; ao Ilmo. Sr. Pressente da
FEMEB, Amaro da Silva, com endereço
rua Natividade Saldanha, 410 - Torreão -
Recife - PE; ao Ilmo. Sr. Ronaldo
Agostinho de Silva, com endereço na Rua
Santa Izabel, 880 - Alto Santa Isabel -
Casa Amarela - Recife - PE - CEP: 52070-
240, ao Ilmo. Sr. José Maria Martins de
Silva, com endereço na Av. Norte, 5969 -
Apt. 11 - Bl. A - 1º andar - Casa Amarela -
Recife - PE; ao Ilmo. Sr. João Cavalcanti
das Neves, com endereço na Rua Três de
Maio, 58 - Várzea - Recife - PE - CEP:
50731-020; ao Ilmo. Sr. Antônio da Silva
Machado, com endereço na Rua Velha,
122 - Boa vista - Recife - PE - CEP: 50060-
270; ao Ilmo. Sr. Antônio José de Melo
Filho, com endereço na Rua Araripe
Júnior, 39 - Córrego do Genipapo - Recife -
PE - CEP: 52091-021 e ao Ilmo. Sr. Wilson
Sabino, com endereço na Rua Caburaí,
230 - UR-7 - Várzea - Recife - PE - CEP:
50860-220.
Justificativa
O Sr. Ariston Trajano do nascimento, que
tantos amigos tinha no nosso Estado,
faleceu, vítima de deficiência respiratória,
no dia 16 de fevereiro de 2002, aos 37
anos, deixando esposa e filho e um legado
insubstituível de integridade e coragem.
Trajano do Brasil como era chamado por
seus entes queridos e colegas de trabalho,
deixa uma lacuna que jamais será
preenchida por qualquer outro.
A sua partida entristeceu a todos, mas
deixa a imagem da sabedoria do um
homem que soube valorizar o amor ao
próximo antes de todas as coisas.
Portanto, nada mais justo do que esta
Casa Legislativa apresentar votos de
profundo pesar pela perda repentina do Sr.
ARISTON TRAJANO DO NASCIMENTO -
TRAJANO DO BRASIL.
Ante o exposto, solicito dos meus ilustres
pares aprovação para este Requerimento.
Sala das Reuniões, em 16 de abril de
2002.
Augusto Coutinho
Deputado




Ao amigo e parceiro Ariston, minha saudade e minha homenagem.

P. S.: perdoem-me os senões deste texto. Passei dias engasgado com essa dor e só hoje tive ânimo para lembrar desse fato. Vai assim mesmo, meio arrastada do fundo do peito, com um nó na garganta e com muita náusea de ver pela TV, a cínica face desse Sr. Serra, representante da hipocrisia e da farsa política no Brasil.