Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, junho 18, 2009

Três poemas de Walt Whitman








Edição comemorativa dos 150 anos de Leaves of Grass(Iluminuras - 2005)


A postagem anterior traz a lembrança de que, neste ano de 2009, comemoram-se os 154 anos da publicação da primeira edição do livro Folhas de Relva (Leaves of Grass), de Walt Whitman.
Livro tão longevo, porém, de uma atualidade impressionante. Um lirismo revolucionário e transgressor, que anteciparia em quase dois séculos, questões postas em nossa contemporaneidade: discriminação, sexualidade, e liberdade. Pugnava o jovem poeta pela convivência harmoniosa entre as pessoas de todos os credos, cores e opiniões. Questões da vida moderna, já antecipadas pela temática libertadora desse vate, iluminado e universal.




Vida

Sempre a desencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

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Esta é a Forma Fêmea

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
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Canção de mim mesmo


"Walt Whitman, americano, um bronco, um kosmos,
Agitado corpulento e sensual....comendo e bebendo e procriando,
Nada sentimental....alguém que não se põe acima dos outros homens e mulheres
Nem deles se afasta....nem modesto nem imodesto.
Arranquem os trincos das portas!
Arranquem as próprias portas dos batentes!
Quem degrada uma pessoa me degrada....e tudo que se diz ou se faz no fim volta pra mim,
E o que eu faça ou diga volta pra mim,
A inspiração surgindo e surgindo de mim....por mim a corrente e o índice.
Pronuncio a senha primeva....dou o sinal da democracia;
Por Deus! Não aceito nada que não possa devolver aos demais nos mesmos termos.
Por mim passam muitas vozes mudas há tanto tempo,
Vozes das intermináveis gerações de escravos,
Vozes das prostitutas e pessoas deformadas,
Vozes dos doentes e desesperados e dos ladrões e anões, (...)
Por mim passam vozes proibidas,
Vozes dos sexos e luxúrias....vozes veladas, e eu removo o véu,
Vozes indecentes, esclarecidas e transformadas por mim.
Não cruzo os dedos sobre a boca,
Cuido bem dos meus intestinos tanto quanto da cabeça ou do coração,
A cópula não é mais indecente do que a morte.
Acredito na carne e nos apetites,
Ver e ouvir e sentir são milagres, como é milagre cada parte e migalha de mim."




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Poemas do livro Folhas de Relva
Fonte:
http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Walt_Whitman&op=7&author=256

9 comentários:

Jens disse...

Bela e oportuna lembrança, Eurico. A poesia de Whitman é um estímulo para o intelecto e a sensibilidade.
Um abraço.

Mai disse...

És muito e tens estado perfeito.
Nada falta menos ainda as minhas insabidas palavras.
Mas meus olhos estão diamantes e eu, água pura.

Beijos, amigo d'infância.
Carinho e uma admiração que transborda.

Ilaine disse...

Esta é a forma fêmea... Que beleza de poema. Whitman externiza a pessoa sensível e humana que era. Gosto muito disso também:

"Sou contraditório, sou imenso, existem multidões dentro de mim."

Beijo, meu amigo!

Mateus Araujo disse...

Este blog é muito bom!
Vou te seguir agora mesmo.
Parabéns pelas postagens
Abraçoo
XD

Eurico disse...

Deixem-me abraçar fraternalmente o jovem Mateus. Fico feliz com tua visita e grato por tuas palavras. Mas o que mais me gratifica é conviver, ainda que virtualmente, com jovens como vc. Parabéns pela tua página. Fui conferir e percebi a tua sensibilidade à flor da pele e a força que tens diante do novo.


Abraço fraterno.

Eurico disse...

Às meninas, Mai e Ilaine, deixo meu beijo de bom dia.

Ao bagual, (nem sei o que isso quer dizer), mas, ao colorado gente fina, Jens, um abraço fraterno, já meu irmão de fé.

Claudinha ੴ disse...

Olá Eurico!
É incrível como existem pessoas que estão além de seu tempo. O visão, a atitude dele, são coisas incomuns para a época.
Bela escolha, beijo.

Eurico disse...

Isso, Claudinha. Há sempre iluminados e visonários que antecipam épocas. Talvez nem todos percebessem isso naquele tempo. Talvez, não. Ele foi atacado, injuriado, por uma crítica mordaz e preconceituosa. Hoje vemos nas ruas pessoas defendendo as suas idéias de liberdade, de amor, de respeito pelas diferenças.

Ele estava além de seu tempo.

Abraçamigo e fraterno.

Anônimo disse...

Contradigo a mim mesmo
porque sou vasto
Walt Whitman


[estas inquietaçoes fascinam - me]

Abraço