Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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segunda-feira, novembro 25, 2013

SALMO SERTÂNICO ( de cabras e de nuvens)


SAGRADO
E. B. Brito



















Cruzo esses mundos sertânicos
que me habitam o âmago,
a escalar pedras e montes,
pisando a vegetação rasteira e outras palavras miúdas...

Nas costas, um matulão de incertezas,
de inquirições agnósticas,
perguntas tantas vezes repetidas,
sob o Sol desses desertos...

Carrego a minha Dúvida,
mas não, meu ateísmo.

Saibam todos que Deus, nessas léguas perdidas,
é uma necessidade vital.
É como o ar fresco e úmido, que leva as cabras
sempre mais alto, nesses montes desertos.
Deus está nas nuvens mais densas
e umedece o nariz dos caprinos...
Nesses sertões,
busca-se Deus, com olhos de cabra sedenta.
Os olhos dos viajores bramam por Deus.
Assim são os olhos da alma.
Alma?
Sim, isso, que nos faz ter gana de viver.
Isso, em que flui, instintiva, a lei natural da sobrevivência.
Esse vapor d'água,
que brilha nos olhos dos rebanhos assustados;

Essa nuvem cor de chumbo sobre a caatinga, está prenhe de Deus,
O mesmo Deus de Baruch Spinoza, encobre os céus dos sertões.
O Deus que de repente desabará, pluvial, sobre essa Dúvida
e encharcará a chã sequiosa dessa caminhada.

Deus, nessas léguas sertânicas, é essa necessidade radical,
no âmago estremecido da vida.

Subo este monte, carregando a minha sede,
e alço meus olhos aos céus cinzentos.

Sopra, invisível, um vento umedecido.
Sinto o sagrado em minhas narinas...


Eurico, sertânico
(bramando, "como o cervo, pelas correntes das águas...")

Com humilde dedicatória a Elomar, imenso criador de cabras, palavras e canções.

Fonte da imagem:
Cabras sertanejas

terça-feira, maio 14, 2013

ESPERANÇA


Esperança
E. B. Brito





















Nenhuma realidade é estática,
feito uma fera empalhada na vitrine:

Essa que vemos sempre nos enlaça.
Mesmo que seja assim, umbrátil e baça,
E que algo, nela, pouco se define.

Poderá o incauto ser flaneur na vida
E deambular por sua circunstância
Como quem nada sente e nada vê...

Mas a realidade é onça e avança sobre a gente
Com dores e prazeres, e, de boamente,
Abocanha-nos o ser

Se houver Seca, então, bem dentro d’alma...

(e o estio é mais feroz que u'a mera onça,
é a melancólica sombra que ronda
sobre quem passa, no ermo em que vivemos,
e a tudo abrasa),

...vai ser preciso se prover de palma
e de cantis, se esse deserto avança.
Plantar um inverno, e, se possível, calma.
Sonhar um açude e untar-se de esperança...





Eurico

14/05/2013


Imagem:
AbARCA,
de Emanuel Bezerra de Brito
Natal - RN



domingo, abril 14, 2013

KINO-GLAZ ÁRIDO (ou, meu cine-olho lírico)


















a Dziga Vertov



Pra beber água?
Imita o gado.
É coisa simples:
Basta colar a boca na beira do barreiro
E sorver de vez o líquido quente, assim;
Com os dentes prender
os grãos de areia e
deixar descer pela goela a água tépida
a decantar-se em argila na traquéia.

Se como ratos?
Lagartixas?
Gafanhotos, feito São João Batista?

Por esse sol que me alumia, já comi, sim,
faz tempo...
e, sem ser profeta..

**************************************

E essa máquina que filma minha neta,
Assim franzina
(sai, menina!)
brincando nessa terra ressecada,
(sai, Dolores!)
zanzando ainda, comigo pelo mundo, Deus é pai!
Grave um recado pros homens que governam essa terra...
Ah, nojentos!
Insetos no solado da alpercata!
Diga a eles que de fome se morre,
Mas que de fome se mata!
Que as gentes não têm sangue de barata!


************************************



O Eu-lírico mergulha no semi-árido.
(fugindo da zona de conforto;
em que se discutem as aberrações apocalípticas de certo pastor)


Fonte da imagem:
Fatos e Fotos da Caatinga



segunda-feira, dezembro 24, 2012

PRESÉPIO NO INTERIOR

Os Magos Perdidos
 E. B. Brito



















É quase Natal.
Vou fugindo por essa estrada sertaneja, feito rês desgarrada.
As alpercatas ressecadas pisam pedregulhos,
os santos pedregulhos desse ser tão profundo.

Mas e o Oriente?
Pra que lado fica?

Sei que nada é assim tão fácil de crer...
Haverá um centro de convergência dos sentidos,
das significações dessa existência?
Isso que Adélia Prado chama de Deus.
Isso: essa experiencia poético-pensante do Ser.
Isso me entusiasma.
Logo, o que não me entusiasma, não é Deus...

Num radinho de pilhas, um homem
anuncia, com voz bela e empostada
:
"As vendas devem aumentar de 12 a 13%,
em relação ao ano passado.
A economia cresceu e o povo está feliz."

Eu não estou feliz.
Nem sei porque.
Minhas emoções estão impermeabilizadas.
Nenhum desses produtos me agrada.
Sou o 0% do consumo.
Sou o nada.

E por isso mesmo tomei o rumo dessa estrada interior.
Busco algo instintivo, algo sagrado em mim,
um religare introjetado em um gene qualquer.
O tal grão de mostarda.
A fé.

Mesmo que seja a fanática fé dos habitantes do arraial de Canudos,
ou dos que davam suas crianças em sacrifício, na Pedra Bonita.
A Fé.
Deve habitar em algum lugar psíquico.
Mas, sem essas luzes piscando.
Sem essa saturação de cores.
Sem esses monótonos clichês.

Fechar os olhos.
Retornar à estrada empoeirada.
Quem sabe pousar numa estrebaria.
Deitar entre a forragem de palmas, de mandacarus.
E achar ali um místico presépio,
um centro de irradiação de Deus.
Um delírio. Um desdobramento.
Algo menos ridículo que os feéricos presépios , nos centros de compras.

Por quem morreu o beato Antonio Vicente?
Por quem sangraram as mãos de Francisco Bernadoni?
Pela fé, pela loucura, por nada?
Há um centro de convergência das significações do ser,
disse Adélia Prado.
Dolorido, difícil de achar, mas, verdadeiro.

Guardo-o aqui,
em meu ser tão profundo,
num aboio distante,
na noite que cai,
no zurrar de um jumento,
e no chocalho dos bois.

Tenho aqui uma manjedoura verdadeira,
onde comem as cabritas e as ovelhas,
e em que acredito,
vejo e apalpo, como o bom Tomé.
Ouço-as até ruminar e balir.

Seria esse meu centro de sentido?
O meu nervo do divino?

Estaria aqui, também escondido, o Menino-deus,
com pavor dos fogos de artifício
e fugindo daquele obeso senhor de agasalho vermelho,
que sempre lhe rouba o dia natalício?

Não sei.
Sei que eu estou fugindo.
E aqui já é quase Natal...
Silencioso natal das solidões ancestrais.
Nos sertões, nas estepes, nos desertos há noites de paz...




Fonte da imagem:
ABARCA

terça-feira, dezembro 18, 2012

VIDA SECA

Ser tão triste
E. B. Brito



















 

Não há muito por dizer 
e as palavras que restaram estão gastas. 

Errar, légua após légua, 
assim por dentro, um ermo. 

Errar pelo deserto
à busca de mim mesmo. 

Toda essa luz na estrada e a boca seca.
Só me resta essa demasiada sede de viver.



Fonte da img.:
AbARCA

sexta-feira, agosto 03, 2012

DEMARCAÇÃO DA POESIA Nº 1


Ao meu mestre e amigo Emanuel Bezerra de Brito


Meu canto é que nem um filete d’água
minando a pulso de um lajeiro.
É assim, arrastado, gutural,
canto monossilábico, melopéia pungente,
arrancada da pedra que sangra no reino de meu peito.

Canto esse meu canto agoniado, esse relincho, esse mugir,
essa infralinguagem,como a linguagem dos bichos
que tanjo em meu sertão profundo..
Vou cantando e tangendo esse gado invisível,
por entre espinharas sibilantes e seixos esbraseados.

Meu canto germina,
 feito um cardeiro em minha alma de abrolhos,
na solidão e no silêncio,
durante as léguas tiranas dessa caatinga interior.
Dessa terra rachada e sem húmus,
exsurge um léxico raquítico,
vocábulos mínimos
 que se alongam, tristes aboios, mugidos,
na minha garganta rouca e ressecada.

Com a morte em minhas lembranças
e a dor em minhas andanças,
canto uma agonia fechada, solitária,
universo parco de cabras e pedras,
quase sem palavras com que se cantar.


Eurico
in: Ser Tão Profundo/Mangue Interior


Fonte da imagem:

segunda-feira, julho 30, 2012

CHAPADA DO ARARIPE




Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.

Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...

Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!

Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...

Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...

Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?

Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.

Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)

Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:

Nada... nada... nada...





Fonte da imagem:
Sertão de Pernambuco

quarta-feira, março 23, 2011

TAIPA


















Minh'alma
uma velha casa de taipa encardida
num perdido rincão
esses sertões...
a minha alma deserta e milenária.


Paredes rubras, a minh’alma,
barro curtindo ao sol
e uns oleiros ébrios à sombra do poente...


Ó minha alma, soçobro!
O balido dos rebanhos de cabras nos terreiros
e eu, ainda sóbrio.
A minh’alma sedenta, sem Deus.


E te ausculto, minh'alma
E te oiço, minh'alma
de alhures, te miro
na pátina de nossas construções exteriores...
os dedos demiurgos na lama avermelhada
essa argila descorada,
a minh’alma de taipa

Um oleiro ébrio brinda ainda,
nos debruns da tarde,
a casa erguida com as próprias mãos: 
A Deus!

Há Deus?
Minh'alma esboroa-se...
Frágil e deserta.
Adeus.



Fonte da imagem:
http://fatosefotosdacaatinga.blogspot.com/2010/08/seca-e-os-animais-na-caatinga_08.html

terça-feira, março 22, 2011

CARCARÁ (linossignos onomatopaicos)






















O Carcará
(volataria rés-do-chão, ou um close-up cabralino)



O carcará é o eco do eco,
Do eco seco,
Onomatopaico eco.

Falcão modesto
E sem estirpe
Que, não se apresta, de resto,
Aos exercícios fidalgos
Da caça em volataria.
Voa rés-do-chão, rasante,
Vôo sem nada elegante
Aqui mesmo, nas barrancas
À jusante ou à montante,
do leito seco do rio.


Tem um pouco de caprino (cabra alada?)
Quando escava o chão infértil
No vão das palmas de espinhos,
caçando o rato-preá
que se esconde entre as raízes.


Um pouco de cabra ou de ema,
Outra ave de pouco senso,
Pois não escolhe alimento.
Come tudo. Rato, lagarto e cobra.
E por que haveria de escolher
entre as pedras da escassez?

Vai reto e certeiro, ao ponto.
Bicho do mato, agreste e rude,
Não faz o arrodeio e o rito
Funéreo, assim como o abutre
Que espera a morte matar.

A fome, que dá sentido
Ao seu jeito de caçar,
Não lhe permite a espera.
E nem se diz que ele caça,
Pois caça é arte mui nobre,
Pra um bicho pobre e sem raça
Pra um bicho sem sobrenome.

O carcará vai bem reto
Guiado por sua fome
Não metaforiza a lida,
Não tem pena, não vacila,
Que nenhum dó lhe consome.
Pega e arrasta a lagartixa
Abre-lhe o ventre
E, ali, come.

Lições de vida
Pros homens,
Crias da caatinga braba,
Ventres e bocas aflitas,
São os carcarás e as cabras,
Emas, ratos, lagartixas;


Lições de vida
E de morte.
De fado, de sina e sorte,
Homem e bicho
Bicho e homem.
Fauna em flora estiolada.
Juntos na mesma desdita.

***********************************


Eurico,
reeditando signos cíclicos...rsrs


***********************************

Ao poeta, músico e cuidador de almas viventes,
Éverton Vidal.

sábado, março 19, 2011

UAUÁ (linossignos oscilantes)

Pirilampos (in Firefly Flashing)



























Chegaríamos na noite,

noite profunda,
noite ignara e hermética,
depois duma escuridão de léguas...


O sereno, no entanto,
molhava as c'roas e as palmas
e nos breus, de instante a instante
flutuavam
dois fonemas oscilantes


Uauá


lume aceso que se apaga,
que outra vez lucila e apaga,
lume que vaga, e não vaga
pelas barrancas do arroio


Uauá
(borbulhar luminescente...)


E eu que tinha algo a dizer,
Calei-me.
Na noite densa,
gelada, feito a orla do deserto,
deu-me um calafrio de tragédia.
Naquela chã, ainda ecoa o genocídio
:

As estrelas eram os olhinhos
das menininhas tapuias que as gentes viam na noite.
Apagaram-se as estrelas.
As indiazinhas, também.
Restaram os vagalumes, soluços de luz,
Uauás (so)lucilantes.


Rio-abaixo,
mais adiante
era Canudos, Bello Monte,
à jusante
do velho Vaza-barris...
Era Canudos, num é mais.
Nosso Senhor assim quis...


Lá, meus irmãos, no entanto,
já não brilham pirilampos, como brilham por aqui
:
Furaram os olhos dos santos
e inundaram a Matriz...






Eurico
"em viagem, metonímica e sinestésica, pelos sertões"

Fonte da imagem:
Pirilampos

quinta-feira, dezembro 23, 2010

D'US NA CAATINGA (invernada e conação)






















“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV, da Ética de Spinoza,)




Faz três noites que relampeia...
Ribombam trovões na caatinga.


Estou sem mim.
Vaga pela noite o que eu julgava ser.
Olhos nômades, intumescidos de esperança.
Clarões no horizonte.
A noite rasgada por luzes.
Fluxos coruscantes.


Apalpo-me.
Não tenho em que me tocar.
Sou relâmpagos.
Fui.
Sou ainda.
Isso persevera em mim e em mim se ama.
Sou esse arbusto em chamas.


Quando desabar a chuvarada,
jatos de fogo e água, de ar e terra,
Serei manhã.
Serei saúde.
Serei a vontade de ser que já sou.
Encharcado de D'us, que nem Baruch...







Fonte da imagem:
Raios no sertão

sábado, dezembro 18, 2010

NATIVIDADE (um orquidófilo)


















1
A mais bela flor de plástico,
por mais artifícios miméticos,
que lhe sustentem a estética,
em sua forma fabril,
não alcançará o belo,
que emergiu da semente,
aquilo que só se sente
na beleza da flor viva.

O bom é ser orquidófilo
dos que se embrenham no mato,
arrostando pedra e espinhos,
descendo em sombrias grutas,
só para olhar in natura
uma flor viva e inculta...


2
Isso que vejo nas lojas é apenas superfície.
Imagens otimizadas com um bom computador.
Esses sorrisos felizes, essas pessoas sem rugas.
Essas orquídeas de plástico...
Quando entraremos de fato
na intimidade das coisas,
naquele sítio fecundo,
de onde emergem as dores,
os humores, os amores?

3
Isso porque necessito
desnudar todo o aparente.
Palpar a palavra crua, a debater-se, com alma,
qual peixe vivo numa rede.

Não que eu descreia dos magos,
Borges, Osman,
Rosa e Saramago.
Não só creio, como vejo revoando, aves de barro.
Muitas aves de seis asas.
E um nome: Diadorim.
Creio piamente em parábolas.
Como essas, que saem de mim.
Essas de orquídeas que medram
na umidade das pedras.


4
Eis a razão de embrenhar-me
neste ser-tão orquidário...
Fugindo da superfície,
esse jardim de crendices,
que sustentam o imaginário.

Quero verdades profundas,
luzes, mas, nas consciências,
como na casa esquecida,
em que um menino nasceu,
trazendo as luzes à vida.

No mais fundo dos sertões,
na escuridão, sem neons,
só com os luzeiros da noite
eis que um menino nasceu;
(pra meu prazer de orquidófilo)
como uma raríssima orquídea.




Eurico,
rendendo-se ao natal, digo, à natividade.

SALMO SERTÂNICO (de cabras e de nuvens)





















Cruzo esses mundos sertânicos
que me habitam o âmago,
a escalar pedras e montes,
pisando a vegetação rasteira e outras palavras miúdas...

Nas costas, um matulão de incertezas,
de inquirições agnósticas,
perguntas tantas vezes repetidas,
sob o Sol desses desertos...

Carrego a minha Dúvida,
mas não, meu ateísmo.

Saibam todos que Deus, nessas léguas perdidas,
é uma necessidade vital.
É como o ar fresco e úmido, que leva as cabras
sempre mais alto, nesses montes desertos.
Deus está nas nuvens mais densas
e umedece o nariz dos caprinos...
Nesses sertões,
busca-se Deus, com olhos de cabra sedenta.
Os olhos dos viajores bramam por Deus.
Assim são os olhos da alma.
Alma?
Sim, isso, que nos faz ter gana de viver.
Isso, em que flui, instintiva, a lei natural da sobrevivência.
Esse vapor d'água,
que brilha nos olhos dos rebanhos assustados;

Essa nuvem cor de chumbo sobre a caatinga, está prenhe de Deus,
O mesmo Deus de Baruch Spinoza, encobre os céus dos sertões.
O Deus que de repente desabará, pluvial, sobre essa Dúvida
e encharcará a chã sequiosa dessa caminhada.

Deus, nessas léguas sertânicas, é essa necessidade radical,
no âmago estremecido da vida.

Subo este monte, carregando a minha sede,
e alço meus olhos aos céus cinzentos.

Sopra, invisível, um vento umedecido.
Sinto o sagrado em minhas narinas...


Eurico, sertânico
(bramando, "como o cervo, pelas correntes das águas...")

Com humilde dedicatória a Elomar, imenso criador de cabras, palavras e canções.

Fonte da imagem:
Cabras sertanejas

quinta-feira, dezembro 16, 2010

NA VELHA ESTRADA DE IBIMIRIM (cismas no ocaso)




















Era estreita e sinuosa
a antiga estrada de Ibimirim.
Os pequenos aclives nos tiravam a visão.
Num fim da tarde, uma boiada
surgiu no horizonte, vagarosamente.
Ágil e presto, o motorista, em ziguezagues,
nos salvou do choque.
Seguimos ilesos, bois e passageiros.
Nunca me esquecerei dos grandes olhos daquele boi manso,
em minhas retinas tão fatigadas.

A viagem seguiu serena.

Somos pequeninos e frágeis sobre rodas.
Somos pequeninos e frágeis, sempre.

A parte disso, temos tantas certezas,
tantas fortalezas,
confiamos em nosso absoluto domínio
sobre as coisas em derredor.
Quando voamos na autoestrada,
rimos, confiantes, feito as formigas sobre a mesa,
antes de lhes
darmos um piparote.

É...
o mundo não anda nada poético...
Tento entender o que diz um telejornal.
Explico-me:
tento tirar algo mais do que dados economicos,
estatísticas de mortes no trânsito,
performance das vendas do Natal;
quanto há ali de profundamente humano,
quanto há de esforço pela compreensão da vida humana...
Queria ouvir falar de valores, não os da bolsa.
Aliás, valor é uma palavra dúbia,
e sob certo sentido, obsoleta.
Não se adequaria num telejornal.
Como encaixar valor, neste cenário pós-moderno?
Eis que estou a tresvariar.

A boiada... os olhos do boi manso pelo retrovisor...
O susto.

Sob o impacto de certas emoções,
fica difícil dizer algo coerente.
Muito mais dificil fica a poesia...

Sabe, aquele ágil motorista, o que nos salvou a vida
na velha estrada de Ibimirim, soube dele dia desses...
a bebida...
a tristeza...
a velhice... as perdas,

Essas coisas que não ficam muito claras nos telejornais...
Esse sentido da vida... se há nela algum sentido.
A necessidade de ser veloz, de fugir de si mesmo...
Os ziguezagues da estrada...
As perdas no meio do caminho.
Essa enorme e abstrata pedra...

...que a viagem dele tenha sido serena...




Fonte da imagem:
Uma velha estrada

segunda-feira, dezembro 13, 2010

CHAPADA DO ARARIPE (de volta à superfície)




Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(Como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.

Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...

Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!

Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...

Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...

Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?

Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.

Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)

Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:

Nada... nada... nada...





Fonte da imagem:
Sertão de Pernambuco

domingo, dezembro 12, 2010

NOITES DE PAZ (presépio interior)




















É quase Natal.
Vou fugindo por essa estrada sertaneja, feito rês desgarrada.
As alpercatas ressecadas
pisam pedregulhos,
os santos pedregulhos desse sertão profundo.
Mas e o Oriente?
Pra que lado fica?

Sei que nada é assim tão fácil de crer...
Há um centro de convergência dos sentidos,
das significações dessa existencia.
Isso que Adélia Prado chama de Deus.
Isso: essa experiencia poético-pensante do Ser.
Isso me entusiasma.
Logo, o que não me entusiasma, não é Deus...

Num radinho de pilhas, um homem
anuncia, com voz bela e empostada
:
"As vendas devem aumentar de 12 a 13%,
em relação ao ano passado.
A economia cresceu e o povo está feliz."

Eu não estou feliz.
Nem sei porque.
Minhas emoções estão impermeabilizadas.
Nenhum desses produtos me agrada.
Sou o 0% do consumo.
Sou o nada.

E por isso mesmo tomei o rumo dessa estrada interior.
Busco algo instintivo, algo sagrado em mim,
um religare introjetado em um gene qualquer.
O tal grão de mostarda.
A fé.

Mesmo que seja a fanática fé dos habitantes do arraial de Canudos,
ou dos que davam suas crianças em sacrifício, na Pedra Bonita.
A Fé.
Deve habitar em algum lugar psíquico.
Mas, sem essas luzes piscando.
Sem essa saturação de cores.
Sem esses monótonos clichês.

Fechar os olhos.
Retornar à estrada empoeirada.
Quem sabe pousar numa estrebaria.
Deitar entre a forragem de palmas, de mandacarus.
E achar ali um místico presépio,
um centro de irradiação de Deus.
Um delírio. Um desdobramento.
Algo menos ridículo que os feéricos presépios , nos centros de compras.

Por quem morreu o beato Antonio Vicente?
Por quem sangraram as mãos de Francisco Bernadoni?
Pela fé, pela loucura, por nada?
Há um centro de convergencia das significações do ser,
disse Adélia Prado.
Dolorido, difícil de achar, mas, verdadeiro.

Guardo-o aqui,
em meu ser tão profundo,
num aboio distante,
na noite que cai,
no zurrar de um jumento,
e no chocalho dos bois.

Tenho aqui uma manjedoura verdadeira,
onde comem as cabritas e as ovelhas,
e em que acredito,
vejo e apalpo como o bom Tomé.
Ouço-as até ruminar e balir.

Seria esse meu centro de sentido?
O meu nervo do divino?

Estaria aqui, também escondido, o Menino-deus,
com pavor dos fogos de artifício
e fugindo daquele obeso senhor de agasalho vermelho,
que sempre lhe rouba o dia natalício?

Não sei.
Sei que eu estou fugindo.
E aqui já é quase Natal...
Silencioso natal das solidões ancestrais.
Nos sertões, nas estepes, nos desertos há noites de paz...




Fonte da imagem:
Magos e Estrela

sábado, dezembro 11, 2010

UAUÁ (linossignos oscilantes)

























Chegaríamos na noite,

noite profunda,
noite ignara e hermética,
depois duma escuridão de léguas...


O sereno, no entanto,
molhava as c'roas e as palmas
e nos breus, de instante a instante
flutuavam
dois fonemas oscilantes


Uauá


lume aceso que se apaga,
que outra vez lucila e apaga,
lume que vaga, e não vaga
pelas barrancas do arroio


Uauá
(borbulhar luminescente...)


E eu que tinha algo a dizer,
Calei-me.
Na noite densa,
gelada, feito a orla do deserto,
deu-me um calafrio de tragédia.
Naquela chã, ainda ecoa o genocídio
:

As estrelas eram os olhinhos
das menininhas tapuias que as gentes viam na noite.
Apagaram-se as estrelas.
As indiazinhas, tambem.
Restaram os vagalumes, Uauás lucilantes.


Rio-abaixo,
mais adiante
era Canudos, Bello Monte,
à jusante
do velho Vaza-barris...
Era Canudos, num é mais.
Nosso Senhor assim quis...


Lá, meus irmãos, no entanto,
já não brilham pirilampos, como brilham por aqui
:
Furaram os olhos dos santos
e inundaram a Matriz...






Eurico
"em viagem interior ao sertão de Canudos"

Fonte da imagem:
Pirilampos

sexta-feira, dezembro 10, 2010

MEDITAÇÕES EM VAZA-BARRIS (predição de wikileaks?)






1
Busco a nascente inundada do Vaza-barris e medito.
Quanta sabedoria a dos profetas,
a dos videntes,
a dos utópicos e a dos beatos dementes...
Quanta presciência...

2
Mediam-nos os crânios decapitados
e nos expunham em praça pública,
os detentores duma pseudo-ciência.

Que tipo de saber lhes coube, lhes cabe?
O que aprenderam em nossos crânios, não sei.
Mas percebo seus efeitos
na civilização (entrópica) de que se ufanam.

(Ajunto numa pequena cuia de pedinte em Bello Monte,
toda a pretensa teoria desses Lombrosos e Comtes.)

E não mais me estendo nessa prosa,
posto que é prosa isso que ledes,
prosa p(r)o(f)ética:

"Há de chegar o tempo em que todas as perfídias ocultas
virão ter à luz do Sol..."



Sobre Wikileaks:
"No inglês, a palavra leak remete ao germânico lechzen ("ressecar", "produzir sede"). O sentido de "tornar conhecido algo sigiloso" data do início do século XIX." Gabriel Perissé


Leia mais sobre em... Massacre de Canudos

Cantiga da Flor de Cacto




Há um logos da caatinga
que me circunda e sou eu.
Nessa flora estiolada,
palpita um nervo de D'us...

Fiz inúteis cavalgadas
a procurar quintessências.
Regressei de mãos vazias.
Minha alma então cansada
de deambular por chapadas,
cruzando o sertão bravio,
voltou-se pras minudências,
e desvendou, ad-mirada,
na flor que enfrenta o estio,
o mistério da existência.
Quase palpei com as pupilas
a miúda flor de cacto,
essa líquida ironia,
que umedeceu minha alma.
E a divindade, buscada
por inacessíveis plagas,
brotou ao alcance da palma
de minha mão estendida,
na flor da beira da estrada.

Há um logos da caatinga
e o que me circunda sou eu.
Na vegetação rasteira,
palpita um nervo de D'us...
***
N. do A.: cantiga dedicada aos poetas blogueiros,
cuja clareza textual me faz buscar a simplicidade,
que julgo não alcançar, mesmo nessa espécie de xote.

***
fonte da img.:
.

Alcácer-quibir revisitada



















Uma monocromia armorial
dedicada a Dom Ariano Villar Suassuna



Vermelhidões no poente,
céu sangüíneo, incandescente.
Da porfia oiço o alarido:

Rezas,
.......rajadas,
...............rugidos.

sonho um sonho mal dormido:
de morte, em luta renhida,
foi Dom Sebastião malferido?

Feito de sonho é o que vejo:
estranhos carros de fogo
cruzam os céus sertanejos.
Ungem de luz a caatinga
Essas flamejantes bigas.
Vermelhidões no poente:
Seriam sarças ardentes?

Nos sertões os céus tão rubros:
sangue na chã de Canudos?

Ao longe oiço estampidos:
raios,
......trovões
............. e gemidos...

Vermelhidões no poente
rumores de gado e gente
clamor do sangue inocente:
hereges sangrando os crentes?

sonho um sonho mal dormido:
de morte,( ouço o rugido)
foi o Prinspe atingido?...

Vermelhidões no poente:
crepúsculo enceguecente,
E, em estranho disco de fogo,
vejo Dom Sebastião soerguido...


Eurico

Fonte do texto:
meu inédito, Ser/tão profundo - Mangue interior,


Fonte imagem:
Batalha de Alcácer-quibir