Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, dezembro 18, 2010

NATIVIDADE (um orquidófilo)


















1
A mais bela flor de plástico,
por mais artifícios miméticos,
que lhe sustentem a estética,
em sua forma fabril,
não alcançará o belo,
que emergiu da semente,
aquilo que só se sente
na beleza da flor viva.

O bom é ser orquidófilo
dos que se embrenham no mato,
arrostando pedra e espinhos,
descendo em sombrias grutas,
só para olhar in natura
uma flor viva e inculta...


2
Isso que vejo nas lojas é apenas superfície.
Imagens otimizadas com um bom computador.
Esses sorrisos felizes, essas pessoas sem rugas.
Essas orquídeas de plástico...
Quando entraremos de fato
na intimidade das coisas,
naquele sítio fecundo,
de onde emergem as dores,
os humores, os amores?

3
Isso porque necessito
desnudar todo o aparente.
Palpar a palavra crua, a debater-se, com alma,
qual peixe vivo numa rede.

Não que eu descreia dos magos,
Borges, Osman,
Rosa e Saramago.
Não só creio, como vejo revoando, aves de barro.
Muitas aves de seis asas.
E um nome: Diadorim.
Creio piamente em parábolas.
Como essas, que saem de mim.
Essas de orquídeas que medram
na umidade das pedras.


4
Eis a razão de embrenhar-me
neste ser-tão orquidário...
Fugindo da superfície,
esse jardim de crendices,
que sustentam o imaginário.

Quero verdades profundas,
luzes, mas, nas consciências,
como na casa esquecida,
em que um menino nasceu,
trazendo as luzes à vida.

No mais fundo dos sertões,
na escuridão, sem neons,
só com os luzeiros da noite
eis que um menino nasceu;
(pra meu prazer de orquidófilo)
como uma raríssima orquídea.




Eurico,
rendendo-se ao natal, digo, à natividade.
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