Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, dezembro 03, 2010

ÊXODO (uma pré-história dos morros e favelas)



















Ali não havia mais viv'alma.
Parcos eram os dados censitários
na arquivália da antiga cidade.
Os moços fugiram.
Fugiram do estio, como fogem a araponga e a ribaçã.
Seguiram, no rastro empoado das carretas.

Na solidão de léguas ecoa apenas o zumbido da cigarra.

Ficou um imenso sertão na alma de cada saudoso ancião.
Ficaram os que esperavam uma invernada...

...Os moços todos sonham com o Cristo Redentor,
com a paisagem insólita do morro Dois Irmãos.
Todos anelam pela partida.
Sonham com a liberdade da avenida Automóvel Club,
margeando o casario do Engenho da Rainha, onde já residem muitos parentes...


Em breve, ocupariam todas as penhas escarpadas da cidade de São Sebastião...
Pobres,
frágeis e pingentes,
e com um imenso e vazio sertão em suas almas saudosas.

Muitos deles,

os que depositaram seus sonhos nessas ilusórias vertentes,

despencariam numa avalanche de lixo.

Esses não suportariam uma severa invernada...






Fonte da imagem:

Conceição do Coité - Bahia
Praça 8 de Dezembro – Centro.
Foto publicada no livro “Conceição do Coité, A Capital do Sisal”, 2ª Edição, ano de 2001, de autoria de Vanilson Oliveira. – Ano de 1951.
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