Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, dezembro 13, 2010

CHAPADA DO ARARIPE (de volta à superfície)




Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(Como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.

Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...

Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!

Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...

Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...

Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?

Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.

Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)

Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:

Nada... nada... nada...





Fonte da imagem:
Sertão de Pernambuco

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