Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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sexta-feira, março 29, 2013

OITO FLUXOS DISSOLUTOS



(ou, Exercícios de Fonossemântica)


Ouvindo Debussy  - La Fille aux Cheveux de Lin




"De la musique avant toute chose..." 
 (" A música antes de mais nada...") 
 Paul Verlaine (simbolista francês)



APRESENTAÇÃO



Os 8 poemas da série que abaixo vos apresento têm a musicalidade por essência.
Mais que poemas, são objetos estéticos, fabricados sobre fonemas,
cujas faces ritmadas ressoam nas assonâncias, nas aliterações, elisões e... alusões.
Verdadeiros artefatos verbais, estruturas fonéticas
que sugerem, mas, não nomeiam os seres nem as coisas;
em vez disso, apenas roçam, poeticamente, a realidade.

Em verdade, nem os considero poemas,
mas, fluxos fonossemânticos, modulados aleatoriamente.
Melodias dissolutas, que transcendem a letra e cujo espírito sopra onde quer.

Essa série argumenta a possibilidade de extrair das palavras,
não o nexo da sua estrutura, mas a poesia arraigada em seus sons.
E a poesia não está presa à lógica do sentido, está na intuição, na fantasia, na imaginação...



Metapoema de Abertura - PEQUENOS NADAS

Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.

.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html




Poema nº 1 - ALFENINS


Imagem: Luísa Carneiro






















Enfileirem-se uns flácidos fonemas,
formando feixes deles,
em fornada fluente
:
Frases em flocos,
fluídas, de rar(o)efeito.

Lufadas de ar/tifícios,
forjados em foles.

Hiatos,
feito fluxos pífaros,
de oxítonos flautins;

Fabriquem-se, assim,
sobre melífluos morfemas,
fonoestéticos enfeites,
[esses]
movediços semantemas
:
Suspiros,
sussurross,
rebuçadosss,
filhoses, algodoados
e ôcas formas afins,
* * * * * * * * * *
que se esfarelem na fala,
ao feitio de alfenins.



Fonte da imagem:
http://i.olhares.com/data/big/137/1370591.jpg



Poema nº2 - CLARAS EM NEVE




























"Devemos ser suaves, suaves, suaves uns com os outros, porque somos muito frágeis..."

............................................................................Petra Maré, in Abrigo de Ventos

Dissolve-se um fonema,
em excipiente átono,
quase inaudível fluxo, in abstrato,
claras em neve,
i-lógico hiato...
de ilusória elisão.

Leva-se a lenir, vogal aberta,
u'a  flatus vocis,
em leve vozear, ao rés do vento,
dulcíssima alusão...

Servir, translúcida,
em céu algodoado.




Eurico
em reengenharia de nuvens...rs



Fonte da imagem (e da epígrafe):

Algodão em flor.



Poema nº 3 - BALÕES DE NADA





Atentai hoje
na ars poetica da bolha breve
que escapa leve de um tubo fino
com que um menino sopra a ilusão
Balão brilhante soprado a esmo que nada afirma
além do brilho pois que em si mesmo a nada alude
diversamente das que de gude lidam em lúdica competição
Só brilham estes casulos ocos vazios nulos e entrementes desvãos desvios
vácuos inócuos comas hiatos bulbos de ar fruta gorada e vã lenição
mero à esquerda hora perdida tiques e lapsos sons tautológicos
versos autistas frases recurvas sem dicção
balões de nada coisa fadada à
d i s s o l u ç ã o.





Fonte da imagem:
Abrigo de Ventos




Poema nº 4 - FLORADA






















Não olvideis, no entanto,
desses nichos vocálicos, minúsculos,
que, a um canto, oclusos,
roem o instante...

Eis que eles brotam dos sais,
monossilábicos ais
e alçam, em inesperados tons,
suas asas, brevíssimas, bilabiais.
Pululam, palpáveis sons,
mantras zen, interjeições...

Olhai os insetos do céu...

E não olvideis desse mel,
mimético mel, volátil,
tão metonímico mel.

Volvei as vistas ao léu:

borboleteiam abelhas,
com favos novos, verbais,
zumbidos consonantais,
arbitrárias uruçus,
em aglutinantes colméias
melífluas onomatopéias,
in/significantes zunzuns.



Fonte da imagem:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNlrlrpro9JGvn3USMdia_JZ7Eyv0h4gk1saWmJ0anFgGfpwa1Fff8xJuT5eMPGKMPuDq2U1jm4UqHK_D1B3gXPwR91WMrtZDUFTj0GfKAZkMUt9g4MaH9lIYOLUvX9df9eXIR4Q/s1600/abelhas-e-favos-f6b46.jpg


Poema nº 5 - JARRA DE LUZ




























Dum jarro jorram jáculos
de lázuli sem mácula.
Vernáculos.
Cristais azuis em jactos,
aquáticos,
de luz coagulada.

Finíssimos filetes,
tentáculos,
de caules florescentes,
quais báculos,
em que rebentam brotos,
re/natos e trans/lúcidos,
da bela e inculta flor
do Lácio.




Fonte da imagem:
http://br.olhares.com/flor_azul_foto1973596.html



Poema nº 6 - IMPROVISO À CLARINETA






sié
çarua
sié
çarua
fossimin-
nha

eumã
dava
eumã
davamo-
dularrr
co'notinhas
co'notinhasdissonantes
parumeuparumeuamormalhar

sié
çalua
sié
çalua
fossiminha
eumãdava
eumãdava
eh
lah
brilharrr
comluzinhasmiluzinhasdissonantes
pareleh
pareleh
fantespassar

serpentinasciciantes
silhuetasdecetim
rodopiammilinfantes
piruetasdeguri

obrincanterodopia
quatrocantosdeolinda
braçossoltosmãomolenga
passotortopernafina
cabriolaabailarina
melodiafescenina
clarinetasbombardinas
vaievémnamultidão


rammramm
rammramm
ramram

rammram!
taaa-taritari-tatá!




Eurico,
em dias de brincantes...rsrsrs

Fonte da imagem:
http://coretojs.blogspot.com/2009_11_01_archive.html




Poema nº 7 - FLUSS


















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.



fonte da img:

 rosácea












u’a (p)Rosa

*  * *medra
*  *  *do prado


outra brota (pétrea)
*   *   *do átrio

est’outra
medra da madre
*    *    *de pedra
(poliedro*de*esquadro)
*   *   *   *no adro
*   *   *   *o bruto fruto
*   *   *   *da (p)Rosa
*   *   *   *(b)rota
*   *   *   *de pé/
*   *   *   *dra.






Imagem Google

















terça-feira, setembro 18, 2012

ESTUDO Nº 1 (poesia incidental)

FOLHAS - E. B. Brito
























Poderia ser Debussy,
se as folhas, pequeninas asas,
voluteassem sobre nós.

Poderia ser Debussy,
e a fauna acataria o fauno
sob os raios meridianos.
Decerto, nessas copas frondosas
Surgiriam generosas, as alas, em dó sustenido maior.

Se fosse Debussy
haveria condão de nuvens
e rajadas altissonantes
pelos cabelos em desalinho
de uma menina, em diáfano trampolim.

As árvores, naturalmente majestosas, alçariam vôo...

Assim,
Seríamos novas manhãs,
Novas sonoridades,
e não mais esses gritos estonados sob um tropel.


 
Releiam,  ouvindo um cristalino piano em Arabesque nº 1, do eterno Achile-Claude Debussy:



****************************************

quinta-feira, janeiro 05, 2012

DA VOZ (notas para uma fisiologia do sentido)



Tudo o que sai do corpo é corpo
e se faz verbo,
O gesto, a febre, o sopro, o suor, o pranto
o canto, a fala,
tudo isso é corpo e busca o ausente, o outro, um nexo
mesmo na escória, flor inglória e sem abrigo,
o corpo exala algo que é signo.

A voz..., volátil e aérea..., a voz
ainda é corpo em influxo ondulante, oco e vibrátil,
e mesmo assim, matéria
a ressoar dos vãos, dos antros
escuros e pleurais,
das grotas guturais até a boca.
A voz assim, fluída,
flatus vocis, vaporosa,
ainda é corpo.
:
É corpo esse sussurro,
e o último suspiro, o derradeiro e mesmo o urro,
o espirro, o berro pelo ar
que vaza nas vogais, das úvulas,
dos mantras que dimanam das fossas nasais,
dos lábios, entreabertos véus, dos céus da boca,
de hiatos entre dentes, estridentes atos, palatos
hálitos pulsantes, em consonantes
tubos, curvos, peristálticos,
em valvas que destravam valvas, dia-
fragmas elásticos,
redomas dissonantes, em labirintos, dobras
de bronquíolos, anelados bulbos,
tudo isso, esse ruído amorfo,
ainda é corpo.

A voz é carne, en/carnação,
é corpo em invisível esforço
de arfar
de fôlego
e de soar sentido,
em direção do outro
(mesmo que um proto
-sentido)
um cio
um balbucio,
um uivo, em fluxos acústicos
em ululo,
em guinchos de orifícios,
em sons da glote, engulhos
toda sorte de pruridos viscerais
em sons roufenhos
arrotos,
gritos
ronronares flácidos
rascantes regougos.

Vazou da carne é corpo.
A voz de tudo é corpo.
Corpo sem órgãos, ausente, ambíguo,
dúbio, mas, corpo.
Tudo que sai do corpo é corpo,
Mesmo o signo.



Estudos para o tema em:
Três Noturnos - Debussy, com audição especial para o coral feminino, Sereias, ao final:
Fonte do áudio:
The Daily Beethoven

quinta-feira, dezembro 29, 2011

NADIR (ou, zoom de areia)





 









 






e esse formigamento nos olhos
e esses pequeníssimos e inumeráveis ciscos
e esses mil diminutos pontos graníticos,
e esse nadir: o avesso de milhares de miúdas estrelas,
ora esse quartzo que lateja,
ora esses prismas em mica,
e esses quase- animálculos, minúsculos
e esses esporos, áporos, inanimados,
e esses poros na pele de tudo
e essas miríades de formas no caminho
e esses fragmentos rútilos à magma
e essas retinas afadigadas
e essa sensação quase imperceptível
de rocha desagregada em sal, no solo,
nos solados ....................................................




Claude Debussy - Crepúsculo:



Fonte da imagem:
 Salinas de Uyuni

quarta-feira, dezembro 28, 2011

JAZZ EM KALDERASH

Imagem Google




















Os povos ágrafos instalam-se na sala
e criam os novos tons da nova fala.
Não mais verbetes, mas, balbucios em torvelinho
pois todo o léxico se esvaiu sobre um desvio...
No vão,
um velho-
mundo desfilia-se.
Nasce a contra/dicção;
Instaura-se uma nova i-lógica.
Cada sentido,
todo o sentido, percebe-se por música,
síncope, calafrio.
Exato agora é o tufão.

Os zíngaros sopram pífaros
e os romanis em circos
inventam novo chão
de lona,
provisório, movediço
e cada passo é falso
é mais um precipício, um início, um indício.

A aurora invade a tela.
É a primavera!
:
beduininhos, crianças gipsy, infantas dançarinas lusas, pivetes roms, childrens sioux, apaches, manuches, romanichéis, curumins tapuias, fulniôs, calons, ciganinhos judeus, negrinhos bantus, bororos, bambinas zíngaras, neo-moicanos, pastorinhas celtas, niñas bailarinas de Córdoba, de Granada, filhos de candangos, caipirinhas das Gerais, matutinhos paus-de-arara, os nordestinos... os meninos palestinos, todos dançando em círculos. É a primavera!

Eterno-ritornelo
eis o renovo,
o drão contra o dragão
o que se insurge e faz
da morta-natureza, a viva,
a que se salva, essa que jazz
e muda e se con/trai,
e vibra em bela língua,
candente, rediviva, aqui, ali, alhures,
essa língua que vlax, que não-vlax
que vive onde se esvai...



Nota do blogueiro:
(vaticínio em vísceras de galos sírios)rsrsrs

Dedicado ao poeta-amigo-irmão Waldomiro Ribeiro,
que de ribeiro só tem o sobrenome,
pois o que Miro nele é um imenso e caudaloso rio,
com cachoeiras e correntezas, com nascentes e estuários...
Abraço fraterno, Waldomiro!

Spanish Guitar - Flamenco - Al di Meola, Paco de Lucia, John McLaughlin - Jazz Latin Instrumental:


terça-feira, dezembro 27, 2011

NÚPCIAS em MERKWELT



















...o cheiro doce desse verdazul
flores do sul...
amor de aroma, imenso pomo, soma
favos e nuvem
sabor antigo, frutose e trigo
patas d’orquídea - caules de vespa

tons e afetos
a desbotada cor da sebe à sombra
o instante, o circunstante
o mundo circundante
biopoiético

delícia em eco:
um mundo-uexküll

o mel ...um nexo.






Fonte da imagem:
Nomadologia


Claude Debussy (piano) - Arabesque No.1:





Nota a esta écloga:
(agenciamento lírico em Deleuze-Uexküll) rsrsrs

domingo, agosto 07, 2011

CRISTALINOS (poemeto-escorço)

Imagem daqui

"A poesia: tão bom que me grudasse na córnea pra sempre."
                                  Tania Regina Contreiras



Alçar voo, com asas de ver:
Flamboyants, guris, abelhas...
(Sei que é parco o pão na mesa)
Mas se há crianças: beleza.

Ruflar pálpebras, ao sol:
(Ontem foi um dia duro.
Mas, foi ontem. Já passou.)
E essa brisa ajuda os olhos,
Revoando... são crianças.

Roçar nuvens com as pupilas,
Esses olhos, essas asas...
(Nada como estar em casa,
Onde há leveza... e crianças)

Não consigo perder a esperança.



Debussy - Children's Corner - Jimbo's Lullaby:


Mais sobre poema-escorço, aqui

sexta-feira, agosto 05, 2011

ROSÁCEA (escorço-linguodental)

 rosácea












u’a (p)Rosa

*  * *medra
*  *  *do prado


outra brota (pétrea)
*   *   *do átrio

est’outra
medra da madre
*    *    *de pedra
(poliedro*de*esquadro)
*   *   *   *no adro
*   *   *   *o bruto fruto
*   *   *   *da (p)Rosa
*   *   *   *(b)rota
*   *   *   *de pé/
*   *   *   *dra.






Imagem Google













  Coro de Monges de Santo Domingo de Silos :





Faz o que tu queres pois é tudo da lei...




quarta-feira, agosto 03, 2011

AGOSTO (poema-escorço)



















Alça-se do nada o nada

Coisa efêmera
de alma leve
E arrastada por rajadas rarefeitas.


Pluma suave, livre, breve
coisa de seda com listras.
E empina-se
linha zero em losango de taliscas,


Rodopios, nuvens brancas
as lufadas, céu de anil.


Sopra a brisa na enseada.
Dá saudade.
Ainda espero...
(quero-quero)





Fonte da imagem:
céu azul

Sounds of Nature - Chinese Bamboo Flute Music

Comentário do processo criativo, aqui

BROA - (escorço em ragtimes)



















...trazia a fome dos náufragos na mente,
e, de repente,
o gesto atávico invade o trivial:

alçou até a boca um biscoito,
subitamente antiqüíssimo,
num automatismo quase ritual...




...emerge
em mim, remoto, um mot
:
broa
brote

brood
broot

(O gato dorme no convés...)

Talvez um déjà vu;
Um insight?

A brisa sobre o yacht.
Saudade...

Eu lanço um boat.






************************


 Charlie Parker & Chet Baker - Summertime


Comentário do processo criativo, aqui

quinta-feira, julho 28, 2011

VÁRZEA (do Rio Capibaribe)

Oleiro


 













A argila aguarda uma gama de possíveis atos
Vasos aves flores cajus potes
Alimárias estranhas
Inúteis totens
Mil entes dúbios e esse brilho baço
Na voz das formas vis, vitrificadas.


Haja vista
Que essa chã de saibro é plástica
E emersa duma inexata massa aquática,
Quem haveria de saber
Que o barro-massapê
Tem a multiface hermética
E que da lama desse rio
Vazava uma poética?






Oficina Brennand














Aos artistas da Várzea do Capibaribe - Recife - PE


Um rio flui e tudo flui, com Llewellyn - The Secret Waterfall:

quinta-feira, julho 21, 2011

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 2




















DELÍRIO EM AZUL (poema nº 2)


Quando Ela nos alcança, cadavérica e terrível,
De nada adiantam as especulações ontológicas,
A teleologia
ou
a incognoscível redução fenomenológica;


Nada nos salva,
nem mesmo a transubstanciação eucarística.


Ela chega destruindo toda ciência,
toda consciência.
Ela ressoa no cerne mesmo
daquilo que os saciados chamam alma.


Aos poucos Ela invade o núcleo das células,
que se vão devorando umas às outras,
fugindo da inanição.
As sístoles e as diástoles se atropelam.
A Razão fraqueja.


E o Ser começa a delirar na cor azul.


Porém, quando Ela nos alcança,
o sentido profundo da vida se revela,
em imperiosa e urgente concretude,
pois Ela não falseia a realidade.
Ela é a coisa mais pura e verdadeira:


A fome, quando chega, não ilude.








 Fonte da imagem: FOME EM ÁFRICA




Para carpir, (ou penitenciar-se, se preferes): Lacrimosa, de Mozart

terça-feira, julho 19, 2011

ODE TRIVIAL









Talheres, s.d.

84 talheres de metais diversos e 2 caixas de papelão Hércules contendo 7 colheres cada uma; madeira, papelão, plástico, pregos, fita de tecido e fórmica
137 x 47 x 9,5 cm
Museu Bispo do Rosario (Rio de Janeiro, RJ)














As coisas.
Nuas
em sua crua mesmidade.


As coisas.
Rasas
vazam dos olhos
vozes ab-surdas
coisas miúdas
feixes de chistes
pendulares
cachos de coisas
falhas de estanho
estranhos kits


Esses retalhos
de atos falhos
de coisas ôcas
e outras poucas
coisas em pencas
vãs e diretas
retas, ovais
as coisas tôscas
gastas, iguais


As coisas.
Mudas
em elas mesmas
puras, desnudas
e nada mais.













Canecas, s.d.

32 canecas de alumínio, madeira, papelão e fios de arame
110 x 48 x 10 cm
Museu Bispo do Rosario (Rio de Janeiro, RJ)











Fonte das imagens:
MUSEU BISPO DO ROSÁRIO

sábado, julho 09, 2011

DUAS VERSÕES D'A CRISTALEIRA










Para Manuel, Victorine e Claude Debussy,
que sobreviveram entre porcelanas...
(in memorian)












A Cristaleira
(1ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo quieta e aflita
Equilibrando em prateleiras vítreas
finíssimos cristais...

Por trás
De olhos cristalinos
Trago o t(r)emor astigmático,
A tentação dos estilhaços
E a sensação de (ha)ver um gato

( O que traz um gato a este tema?)

Um sobressalto:
O espanto, o grito!
Um gato.

Cacos de vidro.

Súbito, um gato!
Pênsil, pingente, pendular
Feito o lustre no teto
Da sala, a aresta
estala
pela lente dos meus óculos,
Um salto ( ou a ilusão de um salto )

O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.

O impacto,
Trinca-se-me o fotocromático, ante os meus olhos fitos, mil pedaços
Ou a ilusão dos estilhaços...



Eurico, 13.12.2000.


A Cristaleira
(2ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo, quieta e aflita,
Equilibrando, em prateleiras vítreas,
finíssimos cristais...


Por trás
Dos olhos cristalinos
Trato,
retrato,
um remoto
t(r)emor astigmático,
a tentação dos estilhaços
e a sensação de (ha)ver um gato
(O que traz um gato a este tema?)


Um sobressalto:
O espanto, o grito.
Um gato.


Biscouits de vidro.
Bijuterias.
Súbito, um gato!
De porcelana,
pênsil no teto,
lustre pingente.
Na aresta
da sala de estar,
a cristaleira
estala inteira
à lente dos meus óculos.
No impacto:
trinca-se-me o fotocromático,
ante os meus olhos fitos, mil pedaços.


Um salto ( ou a ilusão de um salto )


O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.


Ou a ilusão nos estilhaços...

Eurico, 13.12.2000

Ouçam o cristalino piano do Arabesque nº 1, do eterno menino Achile-Claude Debussy:


Nota:
Às vezes, no processo criativo, dá-se a angústia da escolha.
Deixo, pois, as duas versões, para apreciação do Mestre Diógenes,
conhecedor da Língua e da fragilidade dos cristais...
após conversa sobre nosso estranho ofício, essa brincadeira linguística:
aliterativa, sinestésica, metonímica,

e sei lá mais o quê.


Obs.: para o Prof. Diógenes,
e para meus dois ou três leitores fiéis. rsrsrs


Abs fraternos.
Eurico - 17/09/06

segunda-feira, julho 04, 2011

PEQUENOS NADAS

Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.
.
.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html

Retome a teia, curtindo CLAUDE DEBUSSY - La Fille aux Cheveux de Lin

sexta-feira, abril 01, 2011

EIRA DE URZES (metapoética em quase-prosa)






















Lavra-se u'a idéia,
como a qualquer outra eira,
arando e revolvendo os conceitos,
até se obter uma textura granulosa e fértil.

A semeadura dá-se
durante as horas d'ócio,
solitariamente,
quando eclodem
os brotos  iólipos.

Esses linossignos
surgirão aos molhos,
morfemas copiosos, como os dos cegos de feira;
Então deve-se usar um esboiceiro ou boiceira,
de modo a separar deles a baganha ou bagulho,
pelo modo com que se retira do linho a linhaça.

Assim, segregado, metapoéticamente,
o molho de morfemas será colocada num cesto
e deixado ao sol durante dias,
por forma a aloirar bastante
e estar pronto para entrar na tessitura.
Depois disso, há de ser guardado
num canto aquecido, protegido por pedras,
durante cerca de três dias consecutivos,
até quebrar a casca,
feito um pintainho de quelônio.

Retirado da gruta, ,
grandioso ou sem graça,
é deixá-lo correr num relvado,
divertindo-se ao sol
para curar imperfeições congênitas.

Nos dias seguintes,
será gramado na grama,
malhado com a malha,
esmagado,
tasquinhado
e, duramente, ripançado no ripanço,
para que assim, entremeadas pelos brotos comuns,
se possam urzir raridades,
que, por sua vez, devem ser
fervidas com água e cinza
dobadas em dobadoiras,
para escoimar impurezas;

Leva-se, então, ao bem fundo d'alma,
para tentar re/alçar...

Colher-se-ão, enfim, as impalpáveis luzes,
essas que, improváveis em pedras,
surgem,
algo de espanto,
lumes estranhos, nisso
que fulge.
Ó, bardo, em que, afinal, tu urdes?





Imagem:
Urzes na gruta



Fonte da idéia::
O Que é Nosso

segunda-feira, março 28, 2011

ANDAIMES (ou Babel de Vidro)


equívoco vitruviano



"O mundo poderá ser salvo
se o homem desfizer a distância
que o separa da sua infância."

Cassiano Ricardo



Essa urbe vítrea funda-se em um equívoco deliqüescente
um desvio nos desvãos das mentes
ruas sintáticas,
lineares, sem graça e sem crianças;
carentes dos trapézios líricos
e da possibilidade do vôo..


Permanece  vitrúvio no vítreo,
esse dessonho retilíneo,
em inútil plano desonírico?


Toda construção em cânones é um equívoco,
um anti-Sphairos,
mesmo que côncava,
e ainda que convexa,
Isso que eles chamam nexo
é uma dislexia do oco sem eco.
Quando entenderão os arquitetos
que o unívoco e eterno é um Ser Esférico?






Fachada de vidro

sábado, março 26, 2011

ALVENARIA (exercício de seleção e combinação)

Protopoesia?





 
Poética pragmática beleza rara de ara de objeto engastado em pedra dura sem lavra sem cantaria ou argamassa xisto pedra sabão quartzito  calcário pedra de rio e granito coisa litúrgica rito de pedra em pedra uma coisa túpida e não úmida mas unida em solidária alvenaria de junção em pétrea combinação


[Protopoesia?]




     




Eurico,

combinando e selecionando pa/lavras,
sob o comando do mestre de obras
Paul Valèry...rsrs




Fonte da imagem:
http://www.mardevinho.com.br/colunas/suica-2



       

sábado, março 19, 2011

UAUÁ (linossignos oscilantes)

Pirilampos (in Firefly Flashing)



























Chegaríamos na noite,

noite profunda,
noite ignara e hermética,
depois duma escuridão de léguas...


O sereno, no entanto,
molhava as c'roas e as palmas
e nos breus, de instante a instante
flutuavam
dois fonemas oscilantes


Uauá


lume aceso que se apaga,
que outra vez lucila e apaga,
lume que vaga, e não vaga
pelas barrancas do arroio


Uauá
(borbulhar luminescente...)


E eu que tinha algo a dizer,
Calei-me.
Na noite densa,
gelada, feito a orla do deserto,
deu-me um calafrio de tragédia.
Naquela chã, ainda ecoa o genocídio
:

As estrelas eram os olhinhos
das menininhas tapuias que as gentes viam na noite.
Apagaram-se as estrelas.
As indiazinhas, também.
Restaram os vagalumes, soluços de luz,
Uauás (so)lucilantes.


Rio-abaixo,
mais adiante
era Canudos, Bello Monte,
à jusante
do velho Vaza-barris...
Era Canudos, num é mais.
Nosso Senhor assim quis...


Lá, meus irmãos, no entanto,
já não brilham pirilampos, como brilham por aqui
:
Furaram os olhos dos santos
e inundaram a Matriz...






Eurico
"em viagem, metonímica e sinestésica, pelos sertões"

Fonte da imagem:
Pirilampos