Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, dezembro 14, 2013

A ARANHA (poemeto chinês)

 

A aranha urde a teia
porque vive
A aranha urde a teia pra viver
Urdir a teia é ser aranha
e o ser da aranha é o tecer...



Eurico
04/04/1994
*********************



 

 

segunda-feira, dezembro 02, 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA

(Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

 Paris, 17 de fevereiro de 1903

 Prezadíssimo Senhor,

 Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera. Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir. Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la. Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke

 Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas. Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard. Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo. Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça). Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América. Texto extraído do livro "Cartas a um jovem poeta", tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.

domingo, dezembro 01, 2013

MERCADO DE SÃO JOSÉ



(um itinerário impressionista, com Debussy)


Flores, flores, flores!
Buquês de flores,
Róseas, lácteas,
rubras, violáceas.
Baldes com flores,
ramalhetes empilhados,
laços de fita e as mãos hábeis
da florista, embalando uma corbeille.

Rua Estreita do Rosário,
Direita e do Livramento,
apinhadas de feirantes.
Mais em frente,
eis o Mercado
do bairro de São José,
com sua armação de ferro,
trazida pelos ingleses,
e a multidão de barracas,
nesses becos labirínticos,
barracas, gente, barracas,
panelas dependuradas, pencas delas!
Cachos brilhantes de garfos, de colheres,
caçarolas, frigideiras, caldeirões.
Um leão vermelho e azul
ruge, com o dorso colado
na bacia de alumínio.
Pingentes, penduricalhos,
que quase nos batem à testa:
grelhas de pão, abridores
de lata, tábuas de carne,
pilões de bater cominho.
Caminho entre os tabuleiros,
quiosques de calças jeans,
chinelos, brim, alpercatas,
sombrinhas, chapéus, coleiras
cordas, correntes pra cães,
ferragens, fumo de rolo;
De repente, explode um mundo
de cores em degradê
amarelo, nos meus olhos:
melões, cajás, mexericas,
cajus, bananas, pitombas.
O marrom dos sapotis;
Umbus e verdes caquis,
até pêra encontro aqui.
O vermelhão das maçãs.
Às vezes, até romãs.
E o branco das tapiocas
da preta velha sentada,
sob o arco do mercado.
É essa a loja! Encontrei!
BANHOS-OFERENDAS-ERVAS,
Um bazar religioso.
Estatuetas dos santos,
dos caboclos, dos eguns.
Seres de um mundo impalpável.
Empório de elementais,
farmacopéia esotérica,
de uma medicina mágica:

Tem semicúpio aromático?
Semi-o-quê?
Tem não, dotô!
Banho-de-ervas, dá no mesmo.
Ah, isso eu tenho!

Sinhá Nana crê nessas coisas.
Não descreio totalmente.
Como não crer, se nas ruas
desse Recife volátil
cruzam comigo ciganas,
yabás-malabaristas,
balconistas-iorubás,
pretos-velhos-motoristas,
garçonetes-pomba-gira,
donas-de-casa-bantus.

Salve a sincrética fé:
malungo, nagô, malê,
rastafari, quilombolas.
filhos do Congo e d’Angola.

Vendedores de sapatos?
Camelôs?
É muito pouco!

Nós somos é a realeza.
Reis e rainhas da coorte
de um imenso maracatu.
Canta a nação Pernambuco,
por trás de pentes ,agulhas
retrós-de-linha, bonés.


Alarga-se esse cenário.
Tem fendas o imaginário,
no lado escuro da mente
Sinhá Nana crê, piamente,
na mente. A força da mente
que fez um dia um carrasco
de cor negra, homem de brios,
negar-se ao enforcamento
do heróico Frei Joaquim
do Amor Divino Caneca.
Havia uma força telúrica
na mente daquele algoz.
Um gesto, um rápido gesto
de mão e ele passaria
anônimo. Nem estaria
nesses versos. E só seria
um carrasco, apenas isso.
Mas esse negro era o povo.
E tinha os medos do povo.
Fez a vontade do povo,
(quem se atreve a matar padre,
a não ser a ditadura?)
o algoz, e mesmo sem nome,
ficou na história do povo,
Povo mascate que vende,
nas ruas, quinquilharias.
Que canta com pandeirinhos
ciganos, no pastoril;
Que dança as danças de África
e o toque dos caboclinhos.
Sinhá Nana, é dama do paaço
na sexta-feira encantada.
Os garis são da embaixada
da Irmandade de Homens Pretos.
Pipoqueiros são ogãs,
e vêm tocar no Rosário.
E eu, sustentando o pálio,
sou serviçal da cabeça
daquela preta agachada,
sob o arco do mercado.
De dia, ela faz tapiocas,
de noite é a bela rainha
de um Recife imaginário.

Eis nossa mãe!
Bença, mãe!


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Para ouvir Mouvement, de Debussy, enquanto lê, clique:
                                       

Com os meus agradecimentos a Rejane, regente de realejos
e guardiã de pérolas, do blog REJANEANDO,   pelos links de Debussy.


Fonte da imagem:


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segunda-feira, novembro 25, 2013

SALMO SERTÂNICO ( de cabras e de nuvens)


SAGRADO
E. B. Brito



















Cruzo esses mundos sertânicos
que me habitam o âmago,
a escalar pedras e montes,
pisando a vegetação rasteira e outras palavras miúdas...

Nas costas, um matulão de incertezas,
de inquirições agnósticas,
perguntas tantas vezes repetidas,
sob o Sol desses desertos...

Carrego a minha Dúvida,
mas não, meu ateísmo.

Saibam todos que Deus, nessas léguas perdidas,
é uma necessidade vital.
É como o ar fresco e úmido, que leva as cabras
sempre mais alto, nesses montes desertos.
Deus está nas nuvens mais densas
e umedece o nariz dos caprinos...
Nesses sertões,
busca-se Deus, com olhos de cabra sedenta.
Os olhos dos viajores bramam por Deus.
Assim são os olhos da alma.
Alma?
Sim, isso, que nos faz ter gana de viver.
Isso, em que flui, instintiva, a lei natural da sobrevivência.
Esse vapor d'água,
que brilha nos olhos dos rebanhos assustados;

Essa nuvem cor de chumbo sobre a caatinga, está prenhe de Deus,
O mesmo Deus de Baruch Spinoza, encobre os céus dos sertões.
O Deus que de repente desabará, pluvial, sobre essa Dúvida
e encharcará a chã sequiosa dessa caminhada.

Deus, nessas léguas sertânicas, é essa necessidade radical,
no âmago estremecido da vida.

Subo este monte, carregando a minha sede,
e alço meus olhos aos céus cinzentos.

Sopra, invisível, um vento umedecido.
Sinto o sagrado em minhas narinas...


Eurico, sertânico
(bramando, "como o cervo, pelas correntes das águas...")

Com humilde dedicatória a Elomar, imenso criador de cabras, palavras e canções.

Fonte da imagem:
Cabras sertanejas

Poemeto para Allana



Olhas sem medo, pequenina,
pra essa porta do futuro,
por mais que o tempo esteja escuro
Olhas sem medo...

Sou adulto e o medo me domina,
pois não pude evitar os teus apuros;
e se me olhares, assim, menina,
verás que choro e te procuro...

De Eurico
(um tio preocupado)
***
para Dayse e Allana
(duas meninas perdidas)
*********
A foto é de Paulinha Barros
feita durante o Baile do Menino Deus,
Recife Antigo - Dez/2008
Que o Menino Santo proteja as minhas meninas,
lá pelas bandas de Olinda!

domingo, outubro 20, 2013

VÁRZEATOWN

Oficina de Francisco Brennand
Várzea-Recife-PE


Várzeabeat.
 Várzeacult.
 Várzeatown.
Várzea hippie.
 Várzea nerd.
Várzea geek.
Várzea soundcloud.
Várzea Krishna.
Várzea Cristo.
Várzea atéia.
Várzea à-toa.
Várzea transcendental.
Várzea yuppie.
Várzea rap.
Várzea hip hop.
Várzea reggae.
Várzea trash;
Várzea heavy metal
Várzea choro.
 Várzea samba.
Várzea blues e jazz.
Várzea lírica.
Várzea sub/urbana.
Várzea rural.
Várzea afoxé.
Várzea côco.
Várzea ciranda.
Várzea maracatu rural.
Várzea candomblé.
Várzea gospel.
Várzea umbanda.
Várzea pop.
Várzea engenho.
 Várzea usina. 
Várzea tropical. 
Várzea movie. 
Várzea groovie. 
Várzea underground.
Várzea gente em movimento. 
 Várzea cult/rural.
Várzea volks. 
Várzea umwelt. 
Várzea fusca. 
Várzea popular.
Várzea tudo. 
Várzea totens. 
Várzea total.


Lula Eurico
20/10/2013

sexta-feira, outubro 11, 2013

Pequena Fauna Poética



-->

Quando eu-menino ouvia
os lobos da ventania
soprando ovelhas nas nuvens.
Meu coração disparava
(me dava um medo esquisito,
seria isso um meu mito?)
e eu me abraçava, eu-menino,
a um vira-latas mofino,
que nem eu era, também,
franzino e desamparado.
E eu lhe dizia ao ouvido:
(não tenha medo, Bandit,
mamãe foi ali, na feira,
papai já vem do trabalho).

*
Quando eu estava inquieto
me acalmavam lebristas
que nadavam em garrafas
translúcidas, ornamentais.
Ornamentais, os meus saltos
de pontes imaginárias,
a mergulhar nesse rio,
heraclitiano rio,
que não parava, e não pára...

*
Por esse tempo ainda
me andava a alma contrita
com as sensações de meu corpo:
um tio meu criava porcos
e eu os via javalis;
Minha avó bordava rendas.
Trago os bilros dentro em mim,
e costuro pelo avesso
isso que ledes aqui.
Meu avô me dava livros:
Lobato, Andersen, Grimm.
Onde os trago?
E eu lá sei!

*
Mas emoções são perigos:
um dia quase me mato,
(se não fosse a borboleta,
a cochilar no casulo,
que me chamou a atenção...)
quase que, pássaro, pulo,
em queda livre e ligeira
do alto da pitombeira.
Mas não sabia voar.
Dançar? Dançar eu sabia,
essa dança ligeirinha
(umbigadas/rock and roll)
dos bodes nas cabritinhas,
bicho-do-mato que sou.

*
Vou lhes contar um segredo
há muito tempo guardado:
as emoções são crianças,
aprendem fácil a brincar
e gestam lendas e mitos
(que lhes sopram anjos bonitos)
de lobos, nuvens, cabritos.
Esses ditos viram escritos
que gente velha e sisuda
vai seu mistério estudar...

Se isso é poesia?
E eu sei lá!
*


Eurico

poema sem data

*A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo

segunda-feira, setembro 30, 2013

TAMBORES


CRONOS
Emanuel Brito






















Dançar nas ruas
E celebrar as horas,
A par da própria fragilidade.
Dançar,
Afrontando, airosamente, o Inelutável.

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dançar com alegria, em fado incerto.

Assim, dançar nas ruas, impunemente,
Sem nenhuma inocência ou temor.
Acaso estaríamos protegidos da fugacidade,
Dentro de nossas cascas,
Com as nossas cabeças cobertas por véus?

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dancemos, com alegria, ao fado incerto.




Fonte da imagem:






Ainda sob o efeito salutar das alfaias, dos pandeiros e de todos os sons da cultura varzeana, que, nesses últimos dias, envolvida com as festas da paróquia, enchem as nossas noites de alegria!

quinta-feira, agosto 22, 2013

DOS BRINCANTES (notas para uma analítica da folia)

Boi Teimoso da Várzea






















Quem há de botar rédeas
ao coração que trota numa primeira emoção?
Quem há de lhe proibir esse júbilo,
mesmo que ilusório?

Os petizes guardam luzes
que brincam nos olhos;
E, nos ouvidos, levam a voz
do que é passageiro e provisório;

A alegria é o trotar duma alimária tosca
Que, lúdica, balouça
no entorno de nós.
Que tem cor, brilho, ruídos
Que traz guizos, cincerros, sinetes.
Feita disso
que enfeita os sentidos;
e, por isso, ó ginetes, 
quem há de botar rédeas à emoção infantil?




Eurico,
reedição de postagem, por ocasião do aniversário da UFPE,
com participação do movimento de cultura varzeano.









quinta-feira, maio 30, 2013

OFICINA (lirismo fold-in, em semantema retrátil)





















Assim, o artífice anima ao ourives,
e o que alisa com o martelo,
ao que bate na bigorna,
dizendo da soldadura: Está bem feita.
Então, com pregos fixa o ídolo para que não oscile.

Is. 41:7




O pequenino
o pequenino gesto
O pequenino gesto repetido
o pequenino e mesmo gesto repetido
e repetindo-se
move o anelo
no mesmo elo
elo por elo
move o martelo
faz do martelo flor desse gesto
fruto da gesta
abstraído de uma floresta,
flor desses gestos, abstraídos,
da martelagem
no peso o apenso
penso e pondero
pênsil pingente
pondero e penso
a peça rara
du’a ourivesaria
sob incensos

nas muitas dobras
e mais redobras
e mil batidas como em aldabras
tão repetidas essas palavras
pedras em salvas
ouro das lavras
de um tempo intenso
de tempo imenso
de um temp(l)o antigo
um santuário para o Infinito.

ouvir seus g/ritos
distinguir ritos,
haurir seus gritos
um ourives aos gritos,
hiero-gritos:

- Datemi un martello!
- Che cosa ne vuoi fare?

- Moldar os mitos.

Com hieroglifos
florões e grifos
oraiseescritos
roots e ritos
:
Assim, dá alento
ao lento
ourives,
e ao que modela os elos
os velos de oiro
sob o martelo
cravando os pontos
de filigranas
soldas precisas
e derretidas
sob as batidas
leves batidas
de modelagem numa bigorna...
(wayüHazzëq Häräš ´et-cörëp maHálîq Pa††îš ´et-hôlem Pä`am).

E o que modela com o martelete,
forja a cutelos, cravo e cut-up
“batte le métal en plaques”
fold-in, em dobraduras da joiaria,
pinos e pinças,
brincos e broches
“breitgehämmerte Bleche”
molde e persona,
mote e martelo,
elo por elo ,
dobra-se a alma
na oficina
bate um martelo
bate o martelo
bate martelo...

...e um temp(l)o oscila.

Eurico,
em dobraduras experimentais...rs
Meu Deus! Oscilo?


Fontes dos cut-up e fold-in:
http://www.ouviroevento.pro.br/publicados/Firmamentum.pdfhttp://ourivesariahavila.blogspot.com/2007/10/histria-da-ourivesaria.html

http://letras.terra.com.br/rita-pavone/64293/traducao.html

Imagem:

sexta-feira, maio 24, 2013

DANÇA SEM CORPOS





















Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos
e devolvido sua verdadeira liberdade.
Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas,
como no delírio dos bailes populares e esse avesso será, seu verdadeiro lugar. (Antonin Artaud)



Convoquem-se os doutorandos pra dançar,
enquanto é dia...
Cantem-se os cânticos aurorais.
Dancem-se as danças circulares...
Que falem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade, aqui, ali, à claridade,
enquanto se pode achá-la!

Dias virão em que fugiremos pros montes
com pavor de nossos filhos e filhas.
Eles já não nos ouvem e falam um dialeto de autistas,
um poderoso discurso para iniciados.
Salvem-se os jovens dessa seita academicista,
em que se untam de poder e de verdades.

Quando criança eu falava com as gramíneas,
com as formigas, com os insetos do quintal.
Estávamos entrelaçados, minhas raízes e eu.
Meus pais riam disso.
Doidices de crianças, diziam.

Loucura e poíesis, digo eu.

As crianças dessa nova era
estão tomadas por estranha terminologia,
e já não brincam como dantes.
Antes, fabricam-se modos de ver, de pensar, de existir.
O imaginário foi engarrafado.
Envasadas as enunciações poéticas
e as artes, em um discurso de infalíveis.

Urge que se convoquem os jovens doutorandos pra dançar,
sem corpos e sem órgãos,
Dançar deliricamente...
Em transe, com gritos primais.

Urge que cantem as crianças, os doidos e os poetas,
num intraduzível canto sem métrica,
à claridade,
Aqui, à claridade,
enquanto se pode achá-la!




Imagem:
Pieter Bruegel - Dança de Maio

sexta-feira, maio 17, 2013

Augúrios (evocações de um Recife Antigo, Nº 7)












"Auspiciis hanc urbem conditam esse,  auspiciis bello ac pace domi militiaeque omnia geri, quis est qui ignoret?"
— Lívio, VI.41


                                   





A senha

I
Paira algo sobre a pólis tropicana,
ouvem-se verbos em um médium volátil;
Sibilos,
balbucios,
falas al(i)teradas.

II

A voz velada de um áugure
vaza a cidade, como a um túnel um trem.

Não é delíquio, tampouco paranormalidade.
Mas, aqui, in/augura-se a poesia enquanto fenômeno extraliterário.
O evocado:
Souzândrade,
de cujus, tectônico e tríbio,
saudoso amigo de um futuro antigo


III
Permitidos estão todos anacolutos, incluídos os de semântica!
As colagens em um mosaico (ele)mental!
As frases de alusão, com elisões incidentais!
Liberdade para as todas as anacronias
e superposições (intra)históricas!


***


AUGÚRIOS (derradeira evocação)


Os velhos arcos da cidade antiga
desdobram-se em novas artérias exangues,
essas avenidas esdrúxulas,
que arrastam os palafitas e soterram os mangues,
e abrem o flanco dessa urbe, aflita,
a demolir seus claustros e igrejas.

Os arcos... os arcanos.
Salvou-se a Cruz do Patrão,
registro de assombração
dos náufragos que buscam abrigo.
Talvez, porque está escrito:
Não removas os marcos antigos.

Um rio invade as tumbas de Santo Amaro das Salinas
e pranteia seus mortos.
Seus milhares de peixes mortos.
Um outro lava os batentes do Palácio da Justiça
e reclama a posse de suas margens urbanizadas.
Juntos, os rios transbordam no pátio de manobras do porto.
O mar, ameaçador, aguarda a maré alta e os ventos da ressaca...
É Agosto.

Ausculto o coração dessa urbe assustadiça.
E oiço vozes.
Palavras arcaicas.
Motes desusados.
Um vozerio no marco-zero da cidade.
Evocações sem nexo aparente.
Meras repetições do passado.
Herméticas e litúrgicas frases desconexas.
Monges entoando merencórios cânticos gregorianos...

Os fantasmas do velho casario colonial assombram
os novos locatários.
A brisa maurícia sopra os aventais dos pedreiros-livres.
E eu os oiço, creiam-me, oiço-lhes os ritos,
vozes vindas de uma sobre/loja,
a oriente de mim, num pardieiro
:
"Erguemos túmulos às margens dos rios
e os batizamos:
Cidades."







Fonte da ilustração:
Loja Maçônica em Recife (por trás do Edf. Tabira)


"Quem não sabe que esta cidade foi fundada 
somente após consultar as divindades, 
que toda guerra e paz, no país e no estrangeiro,
foi feita somente após consultar as divindades? "


— Lívio, VI.41

terça-feira, maio 14, 2013

ESPERANÇA


Esperança
E. B. Brito





















Nenhuma realidade é estática,
feito uma fera empalhada na vitrine:

Essa que vemos sempre nos enlaça.
Mesmo que seja assim, umbrátil e baça,
E que algo, nela, pouco se define.

Poderá o incauto ser flaneur na vida
E deambular por sua circunstância
Como quem nada sente e nada vê...

Mas a realidade é onça e avança sobre a gente
Com dores e prazeres, e, de boamente,
Abocanha-nos o ser

Se houver Seca, então, bem dentro d’alma...

(e o estio é mais feroz que u'a mera onça,
é a melancólica sombra que ronda
sobre quem passa, no ermo em que vivemos,
e a tudo abrasa),

...vai ser preciso se prover de palma
e de cantis, se esse deserto avança.
Plantar um inverno, e, se possível, calma.
Sonhar um açude e untar-se de esperança...





Eurico

14/05/2013


Imagem:
AbARCA,
de Emanuel Bezerra de Brito
Natal - RN



sábado, maio 11, 2013

A primeira povoação da Ilha do Leite





Nova entrevista com Tia Enilda Rosa de Melo
Data: 10/05/13
Digitada, de memória, em 11/05/13
Detalhes e floreios são meus...rs


Disse-me tia Enilda que..

... a noroeste do banco de areia que deu início à atual Ilha do Leite, ficavam as casas de meu Tio-bisavô João Alexandrino e sua esposa Dona Gertrudes e a dos seus vizinhos Antonio de Souza e Dona Xandu. Mais ao norte, moravam Manoel Rosa e Dona Amara. Essas três eram casas grandes e as únicas de alvenaria, sendo a maior, a do Tio João, funcionário público e de boas condições.

   Que minha Tia-bisavó Gertrudes, ou Tudinha (apelidada pelos netos de "Vó Torta", posto que era mãe de criação de nosso avô,  Luiz de Melo), foi uma costureira afamada, de paletós e roupas finas para senhoras. Chamava-se Gertrudes Albertina da Hora, e, a ver pelo sobrenome, não casou no papel com o Tio-bisavô, João Alexandrino. Era muito “genista” e implicava com o vizinho Manoel Rosa, pelo fato de ele viver cavando buracos e fazendo montes de lama preta que sujavam a ruela toda.  É que seu Manoel construía viveiros com diques, pois, além de carteiro, também vivia da pesca na maré. Por trás da casa desse Manoel Rosa ficava um caminho, que ele mesmo aterrara, que ia dar numa longa ponte de madeira, bem ao norte do banco de areia, ligando a Ilha à Rua Visconde de Goiana, na Boa-vista. Era ainda nesse caminho, que ia dar na tal ponte, que ficavam os banhos de água encanada de Antonio Cirilo, coisa rara na época. Pagava-se certa quantia por um banho, em quartinhos feitos de palha.

Lavadeira em casebre ribeirinho, no Recife
(imagem google)


Disse-me ainda que a leste moravam Manoel Teodoro e Dona Antonia, (pais de Ana Carmelita, que seria depois a dama do paço do Almirante do Forte); mais à frente morava Tia-bisavó Nana (chamava-se Ana Rosa de Melo e era irmã do Tio João e mãe de Bibi (talvez fosse Beatriz, não recorda o nome, que por sua vez era mãe de Américo, vulgo Memé).

Além desses moradores, havia, por trás da capela, a casa de Dona Sila e Zé Guido, pais de Aldenice e de Lourdes, mãe de Jorge. Lourdes, que até um dias desses nos visitava em Tejipió...
Disse também que Dona Sila morreu cedo e Vovó Joana amamentou a caçula, Lourdes, que se dizia irmã de leite da Tia Enilda. Essa Lourdes chamava nossa avó de Mãe Joaninha, por conta disso. A família de Dona Sila foi morar na Vila das Cozinheiras. Lembro ainda que morava ali perto, Dona Bia, lavadeira, que foi morar em Areias, por meio da Liga Social contra o Mocambo, na vila destinada às pessoas de seu ofício.


A nordeste da Ilha ficavam os mocambos, propriamente ditos, casas cobertas de palha ou zinco, erguidas, em sua maioria com a taipa acinzentada, da lama da maré. Era um pequeno povoado de pescadores, carvoeiros, carregadores e biscaiteiros, além das lavadeiras, cozinheiras, costureiras e outras atividades daquela comunidade que servia às famílias da Boa Vista. Lá tinha até uma vendinha, de modo que havia certa autonomia na vida social desse humilde casario
.



P. S.:
Tia Enilda não soube me responder sobre os pais biológicos de meu avô Luiz de Melo, e pai dela. Sabe apenas que era um africano e que casou com uma portuguesa de olhos claros, nossa bisavó Luiza. Não sabe os sobrenomes, e acha que morreram antes de a família chegar à Ilha do Leite. Acha que o meu Tio-avô Pedro Alexandrino de Melo morava na rua de São João, onde também morou Vovô Luiz de Melo, antes de casar, o que me faz supor que antes de vir para a Ilha do Leite, todos moravam no bairro de São José,   área mais urbana do Recife, naqueles tempos. Alguma coisa os fez mudar para a pantanosa Ilha do Leite. Quem sabe o crescimento da população, as questões higienistas do início do século XX... quem sabe...

***

Bem, aqui findam mais uns registros orais da história da Família Melo, que, por sinal, fez o caminho de volta e está, quase toda ela, na Ilha do Felipe, também chamada de Jardim Beira-rio, no Pina, onde hoje se ergue um famoso centro de compras.

No próximo capítulo, talvez, teremos notícias de um certo africano, por nome de Américo, grande paixão da portuguesa Luzia. Não vai ser fácil achar esses dois nos registros do século passado. Mas, tentarei. Pois, desse amor, os Melo herdaram parte de sua genética...

Crianças negras, brancas, mestiças brincam na maré
Recife-1936

terça-feira, abril 30, 2013

RECIFE, CIDADE LENDÁRIA (Capiba na voz de Chico)




Eu ando pelo recife, noites sem fim
Percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, luanda, onde está?
É alma de preto a penar
Recife, cidade lendária
De pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados, compridos, escuros
Faz gosto se ver
Recife teus lindos jardins
Recebem a brisa que vem do alto mar
Recife teu céu tão bonito
Tem noites de lua pra gente cantar
Recife de cantadores
Vivendo da glória, em pleno terreiro
Recife dos maracatus
Dos tempos distantes de pedro primeiro
Responde ao que eu vou perguntar:
Que é feito dos teus lampiões,
Onde outrora os boêmios cantavam
Suas lindas canções?



domingo, abril 28, 2013

DON'ANA DO ALMIRANTE, ou, os pioneiros da Ilha do Leite

Viveiro de Peixes - Percy Lau

Quem conta a história de fontes orais, como é o meu caso, tem de admitir lapsos, imperfeições, permitidas a quem não tem formação acadêmica para analisar as entrevistas e as situações que as envolvem. Sendo este também o meu caso. Meu afã, no entanto, é registrar tudo o que me contam os meus parentes, todos acima dos oitenta anos, sobre os albores do século XX, principalmente, da Ilha do Leite, no Recife.


 Pois bem, nessa sexta, 26/04/2013, em conversa com minha Tia Enilda Rosa de Melo, octogenária, moradora do Pina e que também conviveu com Dona Ana, na Ilha do Leite, descobri pequenos pontos divergentes entre o seu relato e o do meu pai Elias Eurico de Melo, falecido há dois anos. Quase todos, na descrição dos cenários do primeiro parágrafo da postagem anterior. Claro que as duas versões merecem registro, sendo meu pai bem mais velho do que minha tia...
João Alexandrino de Melo
(pioneiro na Ilha do Leite)

 Segundo Tia Enilda,em suas lembranças da Ilha do Leite, os proprietários das casas de alvenaria não eram os que citei, mas, os Srs. Manoel Rosa, Antonio de Souza e o meu tio-bisavô João Alexandrino de Melo. Este último, dono da maior casa da Ilha, detentor de uma situação financeira melhor, em relação aos outros moradores, pois, à época, era o Chefe da Manutenção da Companhia de Águas e Esgotos, prédio que existe até hoje, no lugar chamado Cabanga, ali, ao pé da Ponte do Pina. Diz que o Tio João permaneceu na Ilha, apesar das cheias frequentes e da ameaça da Liga Social contra o Mocambo. Além das 3 casas de alvenaria, havia ainda a casa do Manuel Teodoro, pai da Dona Ana, e a casa em que morava o meu avô Luiz de Melo, litógrafo e desenhista, sobrinho e filho de criação do Tio João. Falou-me das querelas de Dona Gertrudes, Tudinha, nossa tia-bisavó, esposa do Tio João, que era fã do clube das Pás de Carvão (hoje Pás Douradas), nascido ali, nas cercanias. O caso é que a mulher do vizinho, Antonio de Souza, (uma galega dos olhos azuis,num lugar de maioria negra) era fã do Lenhadores da Boa Vista (hoje da Mustardinha), rival nº 1 do Clube das Pás. Pelo carnaval a ilha era visitada pelas duas agremiações e as vizinhas se esmeravam na festa de acolhida, a ver quem fazia mais bonito na ocasião. Tia Gertrudes, mais abastada, sempre vencia a disputa. Contou-me também que lá surgiram famosas troças e clubes, tais como o Cachorro do Homem do Miúdo, de 1910, entre outros. Bons tempos...

 Minha tia Enilda me corrige, defensora ainda hoje das ações do Agamenon Magalhães e da sua Liga Social contra o Mocambo, dizendo que o meu avô saiu da Ilha pro Pacheco, por conta própria e bem antes das demolições. E que, da mesma forma fez o Manuel Teodoro, que levou a filha Dona Ana pra um dos morros do bairro de Cavaleiro, o que bate com certas teses de que o Estado Novo facilitaria a favelização dos morros do entorno do Recife, desde que os mocambeiros fossem viver de “Macacos pra lá”.
Neste mapa de 1908, pode-se localizar o banco de areia
em que moravam os pioneiros. Fica entre a Ilha do Suassuna e
o Hospital D. Pedro II, no centro da imagem.

Tia Enilda descreve ainda o lugar, como tendo um só ligação com o centro do Recife através de uma ponte de madeira muito longa, que ligava a Ilha até a Rua dos Prazeres. Disse que de onde moravam viam apenas o extenso braço de maré, “a maré grande”, a leste, o imponente prédio do Hospital Pedro II e, ao sul, o Coque, antigo povoado de carvoeiros, que resiste até hoje.

 Sobre dona Ana, ela lembra que havia um grande pé de cajá, com muita sombra, com banco rústico, feito de um tronco. Diz que Manuel Teodoro ali se sentava e, vez por outra chamava pela filha:
“Calimita, ó Calimita, me traga um pote d'água”.

 Disse ainda que o Sr. Manoel Rosa construía viveiros de peixes e crustáceos, fazendo diques com a lama da maré baixa. E era da pescaria que muitos dos moradores sobreviviam. Contou-me que, havia um campo de futebol , que ficava no areial, por trás da Igrejinha da Saúde, distante uns 200 metros desta. Creio que esse campo ficava, mais ou menos, no lugar onde hoje está a Clínica ITORK, do afamado ortopedista Romeu Krause, irmão do ex-ministro Gustavo Krause.
E, por falar no ITORK, anos atrás, estando minha esposa em tratamento nessa clínica, lá conheci um senhor bem apessoado, negro elegante, longilíneo, carapinha branca. Chamava-se Nivaldo, 78 anos, e era o porteiro do ITORK. Todos os dias eu estacionava o carro e enquanto esperava a esposa em tratamento, ficava conversando com aquele senhor bom de prosa. Certo dia eu disse que meu pai havia morado por ali, há muitas décadas. E, qual não foi o meu espanto, quando ele disse que foi menino na Ilha. E foi logo
Armando
(jogador do Bahia da Ilha do Leite)
confirmando o nome dos meus parentes todos. Lembrou do Campo do Bahia, de um primo meu distante que jogava bem o futebol, o Américo, por alcunha Memé. Lembrou de meu pai, de vovô Luiz. E eu então perguntei de quem ele era filho. E ele disse: do Manoel Rosa. Confirmando esse ponto da história que me passaram os meus parentes. Falou-me ainda, que do outro lado morava um carteiro, ali, dizia com os beiços, ali onde está aquele grande hospital. Ali era a casa do carteiro...
Infelizmente, Seu Nivaldo, já octogenário, filho caçula do Manoel Rosa, faleceu há pouco mais de um ano.

 Bem, são essas as correções e as novas informações que queria registrar da breve história de Dona Ana, que se mistura com a do meu povo, herdeiro que sou da Mucambópolis (rsrs), nome dado pela pesquisadora Zélia Gominho, ao Recife invisível, dos habitantes das margens dos Rios Capibaribe, Jiquiá, Tejipió e Jordão, expulsos pela política higienista do Estado Novo, e que foram fundar os grandes aglomerados dos morros da zona oeste da cidade.


P. S.:
Meu pai, tricolor de quatro costados, dizia-me que, ali perto, na Boa Vista, foi fundado o Santa Cruz, (quem sabe uma dissidência do Bahia, da ilha do Leite?). O Santinha, clube inicialmente alvinegro, é o xodó de boa parte da Família Melo. Eu, respeitosamente, sou uma ovelha negra, ou rubro-negra, já que sou torcedor do glorioso clube de outra Ilha, a do Retiro, ali pertinho. Clube mais antigo, pois é de 1905, e cujo fundador trouxe o esporte bretão para essa terra maurícia, para, bem depois, ensinar aos outros. O Náutico só aderiu ao futebol em 1909. O Santa só surgiria em 1914. Perdoem-me, os Melo, da Ilha do Leite, mas sou do Sport Club do Recife!

quinta-feira, abril 25, 2013

DONA ANA CARMELITA (dama do paço da Corte do ALMIRANTE do FORTE)

Pólo Médico da Ilha do Leite
Recife-PE

Quem vê as torres do pólo médico da Ilha do Leite, nem imagina como eram aquelas terras, há algumas décadas. Terras? Ali quase não havia terra. No início do século XX, só se viam pequenos bancos de areia, três pequenas casas de alvenaria e alguns palafitas. Uma dessas casas era do Vovô Luiz. Outra, do meu Tio-avô João, e a terceira de Seu Manuel Teodoro.
No meio dessa pequena povoação de mocambos (mocambo era o nome que na época se dava aos casebres ribeirinhos do Recife), erguia-se a pequena capela de Nossa Senhora da Saúde, que até hoje está lá, resistindo entre os espigões da Praça Miguel de Cervantes. Pois é, o antigo banco de areia hoje é uma grande praça e no seu entorno já não se vê o antigo manguezal. Grandes hospitais invadiram a margem do Rio Capibaribe e a cidade avançou sobre o antigo lugarejo de pescadores, carvoeiros, lavadeiras e outros ofícios da população ribeirinha, de maioria negra. 

Pça Miguel de Cervantes
(com igrejinha da Saúde)

Ali nasceu a nossa Carmelita Deodoro da Silva, nome de batismo, pois, na verdade, ela usava Ana Carmelita Teodoro. O seu pai, Manuel Teodoro, a chamava carinhosamente de “Calimita”...
Nós a conhecemos por Sinhá Nana, em casa de meus avós, quando ali ficou agregada, nos idos de 1960. Recentemente, o povo do Maracatu a conhecia por Don'Ana.


Capela de N. Sra da Saúde
Ilha do Leite - Recife-PE


Logo a família de Don'Ana, a de meus avós e todos os outros moradores seriam expulsos da Ilha do Leite, deslocando-se para a periferia da cidade. Tempos sombrios, em que a política do Estado Novo demolia os mocambos e a chamada Cidade Nova crescia, sob a política higienista da Liga Social contra o Mocambo, sufocando os mais pobres. Esse filme, infelizmente, a gente ainda vê hoje em dia...
Vovô Luiz e vovó Joaninha
(amigos de Don'Ana, desde a Ilha do Leite)
Álbum Família Melo
Don'Ana foi viver com meus avós, (que eram seus vizinhos desde a infância na Ilha), no bairro humilde do Pacheco, zona oeste do Recife. Lembro-me dela em sua azáfama diária: lavava e engomava os paletós de meu avô assoprando as brasas de um pesado ferro de passar. Era uma gigante para trabalhar. Não descansava. E além disso, cuidava com desvelo das crianças da casa. Vez por outra, nos levava ao Grupo Escolar, e apertava bem a nossa mãozinha, com medo de nos perder nas ruas. Era uma cuidadora amorosa e fiel.

Sinhá Nana (com balde na mão)
Álbum Família Melo
(3ª Trav. Estrada do Curado, Tejipió -  Década 1970)

Mas, quando se aproximava o carnaval, Don'Ana sumia. É o maracatu, dizia minha avó. Ela some nos dias que antecedem a festa e só volta na quarta- feira de cinzas. Eu, menino curioso, ficava intrigado com aquilo. Para onde ia a nossa Sinhá Nana?
Menininha
(calunga do Almirante)

Hoje eu sei porque ela sumia. É que ela era uma dama do paço, ou do “paaço”, em português arcaico. Paço, quer dizer, palácio. Lugar onde vive a realeza. E Don'Ana era a dama do paço da corte de um maracatu. Era a dama que dança com a calunga, uma boneca que representa a parte mística dos maracatus. E desde sempre foi dama, exclusivamente, do Maracatu Almirante do Forte. Jamais abandonou essa nação, que ela amava com toda a pureza d'alma. E como era puro o coração de Sinhá Nana!

Essa pureza, junto com os severos costumes da época, fez com que ela, ao engravidar do filho único, decidisse sair da casa de meus avós, que, por essa época, já tinham mudado para a casa de Tejipió. Don'Ana, grávida, foi acolhida em casa do fundador do Almirante, Mestre Antonio José da Silva, o pai do nosso Mestre Teté, e nunca mais saiu do convívio dessa família, que a tinha como uma segunda mãe. Casando, o filho único, tentaria morar em casa da nora, ali mesmo, nas cercanias. Mas o seu lar seria, definitivamente, a sede do Almirante do Forte, atual residencia do Mestre Teté, na Estrada do Bongi, 1319.
O tempo passou. Meus avós faleceram. E por décadas não mais tivemos notícias da nossa Tia Nana.
Sede do Maracatu Almirante do Forte
(durante a reforma em 2009)









Reencontrei Dona Ana em meados de 2008, por ocasião em que o Mestre Teté nos convidou para participar do Projeto do Ponto de Cultura Almirante do Forte. Dona Ana, senhora mais que centenária, já não desfilava com o cortejo. Mas estava sempre presente nos ensaios do grupo percussivo. Afinal, ela morava ali mesmo, na sede do Almirante. Quem não há de lembrar daquela sorridente velhinha, olhinhos apertados, a dançar, miudinho, num recanto da sala principal?

O maracatu era o destino de Don'Ana. Não tinha mais notícias do filho, que fora morar no interior, e nunca mais veio visitá-la. Sem outros parentes, a sua família era a nação Almirante. E ali viveu cercada de carinho e de cuidados, por quase 60 anos.
Mestre Teté, ladeado por Dona Ana (de lenço azul)
e Dona Josefa, sua genitora, na sede do Almirante



Hoje, na pátria espiritual, sei que Don'Ana, com aquela simplicidade, contempla o seu povo, a sua nação, uma das nações mais tradicionais de Pernambuco, com a certeza que a sua gente vai segurar no leme com fé e fazer o Maracatu Nação Almirante do Forte navegar para muitas vitórias, nesse oceano bravio, que é a nossa cultura popular.




Até um dia, Sinhá Nana!
Que a tua energia esteja sempre com nossa Nação!


Ana Carmelita Teodoro
24/05/1906 - 23/04/2013