Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, maio 11, 2013

A primeira povoação da Ilha do Leite





Nova entrevista com Tia Enilda Rosa de Melo
Data: 10/05/13
Digitada, de memória, em 11/05/13
Detalhes e floreios são meus...rs


Disse-me tia Enilda que..

... a noroeste do banco de areia que deu início à atual Ilha do Leite, ficavam as casas de meu Tio-bisavô João Alexandrino e sua esposa Dona Gertrudes e a dos seus vizinhos Antonio de Souza e Dona Xandu. Mais ao norte, moravam Manoel Rosa e Dona Amara. Essas três eram casas grandes e as únicas de alvenaria, sendo a maior, a do Tio João, funcionário público e de boas condições.

   Que minha Tia-bisavó Gertrudes, ou Tudinha (apelidada pelos netos de "Vó Torta", posto que era mãe de criação de nosso avô,  Luiz de Melo), foi uma costureira afamada, de paletós e roupas finas para senhoras. Chamava-se Gertrudes Albertina da Hora, e, a ver pelo sobrenome, não casou no papel com o Tio-bisavô, João Alexandrino. Era muito “genista” e implicava com o vizinho Manoel Rosa, pelo fato de ele viver cavando buracos e fazendo montes de lama preta que sujavam a ruela toda.  É que seu Manoel construía viveiros com diques, pois, além de carteiro, também vivia da pesca na maré. Por trás da casa desse Manoel Rosa ficava um caminho, que ele mesmo aterrara, que ia dar numa longa ponte de madeira, bem ao norte do banco de areia, ligando a Ilha à Rua Visconde de Goiana, na Boa-vista. Era ainda nesse caminho, que ia dar na tal ponte, que ficavam os banhos de água encanada de Antonio Cirilo, coisa rara na época. Pagava-se certa quantia por um banho, em quartinhos feitos de palha.

Lavadeira em casebre ribeirinho, no Recife
(imagem google)


Disse-me ainda que a leste moravam Manoel Teodoro e Dona Antonia, (pais de Ana Carmelita, que seria depois a dama do paço do Almirante do Forte); mais à frente morava Tia-bisavó Nana (chamava-se Ana Rosa de Melo e era irmã do Tio João e mãe de Bibi (talvez fosse Beatriz, não recorda o nome, que por sua vez era mãe de Américo, vulgo Memé).

Além desses moradores, havia, por trás da capela, a casa de Dona Sila e Zé Guido, pais de Aldenice e de Lourdes, mãe de Jorge. Lourdes, que até um dias desses nos visitava em Tejipió...
Disse também que Dona Sila morreu cedo e Vovó Joana amamentou a caçula, Lourdes, que se dizia irmã de leite da Tia Enilda. Essa Lourdes chamava nossa avó de Mãe Joaninha, por conta disso. A família de Dona Sila foi morar na Vila das Cozinheiras. Lembro ainda que morava ali perto, Dona Bia, lavadeira, que foi morar em Areias, por meio da Liga Social contra o Mocambo, na vila destinada às pessoas de seu ofício.


A nordeste da Ilha ficavam os mocambos, propriamente ditos, casas cobertas de palha ou zinco, erguidas, em sua maioria com a taipa acinzentada, da lama da maré. Era um pequeno povoado de pescadores, carvoeiros, carregadores e biscaiteiros, além das lavadeiras, cozinheiras, costureiras e outras atividades daquela comunidade que servia às famílias da Boa Vista. Lá tinha até uma vendinha, de modo que havia certa autonomia na vida social desse humilde casario
.



P. S.:
Tia Enilda não soube me responder sobre os pais biológicos de meu avô Luiz de Melo, e pai dela. Sabe apenas que era um africano e que casou com uma portuguesa de olhos claros, nossa bisavó Luiza. Não sabe os sobrenomes, e acha que morreram antes de a família chegar à Ilha do Leite. Acha que o meu Tio-avô Pedro Alexandrino de Melo morava na rua de São João, onde também morou Vovô Luiz de Melo, antes de casar, o que me faz supor que antes de vir para a Ilha do Leite, todos moravam no bairro de São José,   área mais urbana do Recife, naqueles tempos. Alguma coisa os fez mudar para a pantanosa Ilha do Leite. Quem sabe o crescimento da população, as questões higienistas do início do século XX... quem sabe...

***

Bem, aqui findam mais uns registros orais da história da Família Melo, que, por sinal, fez o caminho de volta e está, quase toda ela, na Ilha do Felipe, também chamada de Jardim Beira-rio, no Pina, onde hoje se ergue um famoso centro de compras.

No próximo capítulo, talvez, teremos notícias de um certo africano, por nome de Américo, grande paixão da portuguesa Luzia. Não vai ser fácil achar esses dois nos registros do século passado. Mas, tentarei. Pois, desse amor, os Melo herdaram parte de sua genética...

Crianças negras, brancas, mestiças brincam na maré
Recife-1936

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