Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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sexta-feira, agosto 12, 2011

BÓSTRIX N'ÁGUA ( capítulo VIII)





















ILHA-SEM-DEUS



Aquecer a frágil’alma

Ao calor desses destroços
Esses retraços que ardem
Em um ser baldio e sem crença


Esfregar mãos engelhadas
Ao fogo desse monturo
Prender a morte num engulho
Sem desistir da existência


Buscar sentido no caos
E fé na lenta agonia:
Esses barracos imundos.
Essas entranhas vazias.


Trapos, lama, palafitas
Sem Deus na ilha esquecida
E a vida?


A vida é também retraço
No pó das desconstruções.
Essa inútil empreitada.
Um traço desesperado
Que nós riscamos no Nada...






Jorge Dantas 
poema publicado no capítulo VIII, do Bóstrix.




Nota do zineblogueiro:

Estarei por uns dias às voltas com meu Bóstrix n'água,
e convido os leitores para uma visita às obras de montagem,
ora retomadas, a todo vapor, mormente com a ajuda
dos engenhosos William Burroughs (nos cut-ups)
e  Alfred Döblin ( na técnica de montagem),
sem esquecer do meu mestre-de-obras, Julio Cortázar, a quem agradeço
pela idéia de urdir um guia dos nexos, se nexo há no que fabrico. rsrsrs

segunda-feira, março 14, 2011

POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA

Assis Freitas

Poeta e escritor, idealizador do blog 1001 poemas.
Feira de Santana, Bahia, Brasil











Com um meta-Poema deste Poeta com P maiúsculo,
o Eu-lírico celebra o Dia da Poesia (com deleitoso espanto):



4 - poema de circunstância


o poema não nasce torto
são as palavras que se
desconfiam unidas amiúde
e não satisfeitas
querem se fundir em espanto


poema postado por Assis Freitas às 08:45
sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quarta-feira, março 09, 2011

MOMO, NOEL, SACIS E CRIANÇAS...




Partindo da falsa premissa de que Momo, um deus pagão, é quem arrasta as multidões no carnaval, muitos religiosos declaram o apocalipse, o armagedom e outras escatológicas hecatombes universais, como punição aos festejos que hoje findam. (Findam mesmo?)


Para os que brincam, como eu, de forma lúdica, pueril, sem dor de consciência, sem maldade ou violência; para os que levam suas crianças, cheias de encantadora alegria, para os pólos infantis; para os foliões de alma pura e serena, eu lhes confirmo o óbvio: Momo é pura fantasia.


Brinquei e creio ser essa a mais saudável forma de viver essa festa: brincar. Tenho pena dos superegões empedernidos, que ficam a tentar nos tolher, nos castrar, acenando com a ira divina. São eles os mesmos que endeusam o Papai Noel em plena festa dedicada ao Menino Jesus. E eu vos digo que Momo nem chega perto do Santa Claus, em matéria de ibope. Noel sim, é uma doideira. Uma carnavalização da festa cristã, baseada numa lenda que rouba toda a atenção que deveria ser do aniversariante.


Essa postagem vai endereçada aos que vivem de mau-humor, aos que não sabem mais brincar como crianças, ou que talvez nunca tenham brincado na vida. Vai mesmo para os muitos desavisados que acreditam que Momo é mesmo um deus e que existe ou existiu. Façam-me o favor. Momo é tão real quanto o Curupira ou o Saci-pererê. E tão inofensivo quanto as fadas e gnomos ou outros da espécie. Zeus, Hércules, Afrodite, e todo o panteão das “divindades” gregas, não passam de produtos da imaginação fértil ou das crendices e superstições daqueles povos.


Se alguns não podem brincar, por determinação médica, religiosa ou de outra natureza qualquer, guardem seus temores em seu próprio coração.


Não por acaso, um filósofo que questionava os pilares de nossa cultura ocidental, fez uma analogia interessante, entre o dever do camelo, o querer do leão e a inocência da criança. Grosso modo, ele anunciava o advento da criança como a condição para a transvaloração dos valores da nossa civilização. Lembra um pouco aquele “quem não se tornar como uma destas crianças não entrará no reino dos céus”, não é mesmo? A criança livre de todas as nossas ridículas crendices e lendas. A criança pura e plena. Sem medo do armagedom e sem pecado original. A criança e só.


Pois bem, brincar, brincar e brincar, com a ingenuidade das crianças. Eis a questão. Pular frevo, dançar samba e maracatu. E sem nenhuma crise de consciência. Afinal, Momo e Papai Noel são primos-irmãos de Hamlet, do Quixote e da Cuca, são filhos da louca da casa, fantasmagorias, criações da imaginação rsrsrs







Fonte da imagem:
http://afraniosoares.blogspot.com/

Fonte do texto:
Cultura Solidária

domingo, março 06, 2011

O incêndio na sede do Pirilampos de Tejipió

Imagem PE360graus - 10/08/2010




Os bombeiros combateram um incêndio no bairro da Boa Vista, área central do Recife, na madrugada desta terça-feira (10). O fogo atingiu a garagem de uma casa, que fica na rua Padre João Ribeiro. Fantasias e adereços do bloco Pirilampos de Tejipió foram destruídos.

O presidente do bloco, José Dias dos Santos, mora no primeiro andar da casa, que não foi atingido pelo incêndio. Em poucos minutos, o fogo destruiu o carro da família e tudo o que estava na garagem, inclusive as fantasias e os adereços do bloco.
Fonte da notícia:
http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/acidente/2010/08/10/NWS,518515,4,94,NOTICIAS,766-INCENDIO-DESTROI-FANTASIAS-ADERECOS-BLOCO-PIRILAMPOS-TEJIPIO.aspx



No carnaval do ano passado, eu vi Pirilampos de Tejipió. Fiquei muito desolado com aquela cena tão triste. Aquele bloco afamado, evocado por Edgard Morais, em seu frevo "Valores do Passado", passou sem brilho pela Praça da Várzea. Nós, do bloco Flores do Capibaribe, que estávamos ali só pra vê-lo passar, quase entramos na passarela para ajudar os Pirilampos. Foi uma consternação geral.  Era o Pirilampos resistindo ao incêndio em sua sede, e vindo às ruas do jeito que deu. Valeu pela resistência!


Pra quem não sabe, Pirilampos foi criado pelo mesmo organizador do Apois Fum, o jornalista, Guilherme de Araújo. E, dos dois blocos antigos, por ele criados, Pirilampos é o único que resiste até hoje. Sua sede já não é no distante subúrbio de Tejipió, mas no centro da cidade, no Bairro da Boa-Vista, onde se deu o incêndio, ano passado.
É preciso que se faça um movimento político-cultural para cuidar dos blocos centenários dessa cidade. Batutas de São José enfrenta uma difícil crise, com questões trabalhistas de gestões passadas atravancando sua vida. Inocentes e Madeira, ambos do Rosarinho, ninguém mais viu?
Por isso, a comunidadade dos amantes dos blocos líricos precisa fazer pressão junto aos órgãos públicos da cultura. Providências urgentes devem ser tomadas, em prol da preservação dessas agremiações, que fazem o que há de mais poético (e pacífico) no carnaval em Pernambuco.


O Governo do Estado tem ajudado os times de futebol, com o Programa Todos com a Nota. Por que uma fatia dessa verba não é destinada ao carnaval das pequenas troças, maracatus, bois-bumbás, laursas e blocos líricos, principalmente aos mais antigos e tradicionais, que sobrevivem da ajuda de uns poucos abnegados?


Deixo o meu apelo por essas humildes agremiações populares, que fazem o verdadeiro carnaval de rua de Pernambuco. São elas que trazem a diversidade de ritmos e de cores, de cultura, que fizeram a Prefeitura do Recife, em lance de marketing, denominar o nosso carnaval de multicultural. Multiculturais sempre foram todas as manifestações da gente pernambucana. Da música aos folguedos. Da fé ao carnaval. 
Sem essa diversidade de grupos populares morreriam os brincantes, morreriam as tradições e nos restariam apenas o ribombar dos trios elétricos, que hoje invadem a cidade, com música ruim e sem as autênticas raízes pernambucanas.
Salvemos os genuínos blocos líricos e as nossas troças e clubes de carnaval, expressões ancestrais de nossa cultura e de nossa identidade!



Fonte da postagem:
Cultura Solidária

terça-feira, março 01, 2011

O FUNDADOR DO APOIS FUM - por Eustórgio Wanderley

Pierrots mirins


Não se extingüiram, de todo, os ecos do carnaval, quando eu focalizei o tipo popular de Osvaldo de Almeida, o criador do neologismo "frevo" no carnaval pernambucano.

Agora cabe a vez de um não menos popular tipo, como o primeiro, repórter, e carnavalesco, figura que ficou inesquecida, pois, ainda hoje, é recordada com saudade pelos colegas de imprensa e pelos que com ele privaram, quer nos meios carnavalescos dos clubes pedestres e "blocos", quer nos meios forenses, pois ele era também uma espécie de rábula, procurador em diversas causas.

Trata-se de Guilherme Araújo. Muito inteligente e empreendedor, desenvolvia grande atividade, embora seu cultivo intelectual fosse bem reduzido, não passando de um ligeiro curso primário.

Sua sagacidade, entretanto, supria quaisquer outras falhas, sendo maneiroso, delicado, sabendo tirar partido das situações em que se encontrava, não deixando – a quem não o conhecesse bem – aquilatar o seu preparo mental.


No Jornal Pequeno

Por muitos anos trabalhou no Jornal Pequeno, onde fazia a reportagem marítima e a da polícia, mostrando-se competente pela longa prática do metier como dizem os cronistas mundanos.

Dando notícia das partidas dos navios do nosso porto, simpatizou ele com o verbo zarpar com que iniciava os períodos assim:

"Zarpou ontem para a Europa o navio tal..."

"Zarpa hoje para o Rio"...

O diretor do jornal reparou naquela chapa e, certa vez, lhe disse:

- Ó, seu Guilherme! Você não conhece outro verbo sem ser zarpar com que noticia a partida dos navios?

- Conheço, sim, senhor!

- Pois trate de empregá-lo porque, do contrário, quem acaba zarpando daqui é você. Está entendendo?

- Estou, sim, senhor!

E o Guilherme ficou a pensar em outro verbo... Dois dias depois partia um navio para o Norte e ele, pensando haver resolvido o problema, escrevia:

"Amanhã zarpará para o Pará, o vapor Pará..."

O Dr. Tomé Gibson, ao ler aquela séria cacofônica de paras e parás não pôde se zangar, porque desandou a rir... sem parar também.


Jornalzinho carnavalesco

Certa vez lembrou-se o Guilherme de editar um jornalzinho carnavalesco de propaganda comercial. Como era muito estimado no comércio, não lhe foi difícil angariar anunciantes que, não só custeavam a impressão do jornal, como ainda lhe proporcionaram razoável lucro.

Intercalava, nos anúncios historietas, anedotas, versos, epigramas etc. Durante vários anos publicou seu jornalzinho com êxito crescente.


O Apois Fum

Havia naquele tempo um gazeteiro, (o que no sul chamam jornaleiro, vendedor de jornais) apelidado Fon-fon, não porque vendesse a revista carioca de igual nome, e sim, porque tinha o lábio superior e o véu palatino fendidos, a que chamam lábio de lobo, o que o impedia de pronunciar bem certas sílabas, dando, a quase todas as consoantes o som de F. Quando se lhe dizia qualquer coisa de que ele duvidasse o Fon-fon tinha o costume de replicar:

- Apois fum! Quando o que ele pretendia dizer era: - Pois sim...

O Guilherme de Araújo aproveitou o dito, que se tornou popular, e organizou um bloco carnavalesco de muito sucesso no Recife, não somente pelo grande número de moças e de rapazes de que se compunha, como também por exibir um sugestivo carro alegórico, o que era uma inovação entre os blocos de carnaval na época.


Quem não cheirou levante o dedo!...

Na estação do Brum, da antiga Great Western, era visto um vendedor ambulante de perfumes que, enquanto o comboio estava parado, aguardando a hora da partida, percorria os carros com um vidro dos seus perfumes, desarrolhado na mão, dirigindo-se, delicadamente, aos passageiros:

- O cavalheiro dá licença?...

E, antes que a licença fosse dada, ele passava, de leve, no dorso da mão do passageiro, a rolha do vidro umedecida no perfume, solicitando:

- Por obséquio, queira cheirar e depois me diga se não é puro Houbigant de Paris.

Assim, percorria toda composição e, ao regressar, pelo mesmo caminho, entre os bancos dos vagões, ia procurando vender seu produto, ao mesmo tempo que indagava:

- Quem não cheirou levante o dedo!...

O dito pegou, ficando como pilhéria carnavalesca: O Guilherme se aproveitou do caso e me pediu que escrevesse a letra e a música de uma pequena marcha carnavalesca para ser cantada pelos componentes do Bloco Apois-fum, o que fiz com grande prazer para o seu irrequieto diretor.


Seu tipo físico

O Guilherme era de pequena estatura, mais ou menos gordo, com o ventre saliente. Moreno, de lábios carnudos e roxos, os cabelos muito crespos e castanhos claros, partidos ao meio. Olhos verdes e bigodes à kaiser, como estava na moda. Era ele o que se costuma chamar de alaranjado. Fumava vastos charutos. Sempre elegantemente vestido, ostentando altos colarinhos duros, mirabolantes gravatas e não menos estupefacientes coletes, o Guilherme calçava botinas de polimento, abotoadas ao lado, tendo a gáspea cinzenta ou marron clara.

Um grande emotivo, amava a família com desvelo, procurando cercá-la do maior conforto, para o que adquirira no Barro, subúrbio do Recife, uma aprazível vivenda.


O coração o matou

Uma tarde, no quarto onde havia um oratório com imagens de santos, uma vela acesa, caindo sobre a toalha que forrava o altar, incendiou-o. Ao divisarem o clarão do incêndio, gritaram:

- Fogo! Fogo!... A casa está se incendiando!...

O Guilherme corre para extingüir as chamas que ameaçavam, se propagar por todo o prédio. Depois de grande luta foi dominado o perigo. O esforço, porém, que ele fez foi sobre-humano para o seu coração já afetado de miocardite.

Dias depois, sentindo-se mal, declarou:

- Cheguei ao fim!...

Serenamente fechou os olhos e adormeceu. Adormeceu para não mais despertar, como o fazia cedo, diariamente, para ir à sua labuta no Jornal Pequeno e na Polícia Marítima, noticiando os passageiros que chegavam e os navios que zarpavam...

Pobre Guilherme de Araújo! Foi um lutador e um bom!


(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

Fonte da postagem
http://www.jangadabrasil.com.br/marco19/pa19030b.htm

SOBRE EUSTÓRGIO WANDERLEY


Eustórgio Wanderley nasceu no dia 5 de setembro de 1882, na cidade do Recife, PE, onde estudou e morou durante quase toda sua vida. Adulto, dedicou-se ao jornalismo, atuando no Diário da Manhã e no Jornal do Recife.

Dando vazão aos seus pendores musicais, foi parceiro de Nelson Ferreira em diversas valsas e canções, sendo um dos primeiros pernambucanos a participar, pelo selo da RCA – Victor, da discografia brasileira, através de suas cançonetas que fizeram muito sucesso, como A pianista, O almofadinha e A melindrosa.

Durante o tempo que morou no Rio escreveu no Correio da Manhã, em A Noite Ilustrada, no Jornal do Brasil e em O Malho.


Em 1909 compôs a versão mais e picante e maliciosa da polca No bico da chaleira (a primeira versão foi escrita por Juca Storoni também no mesmo ano), gravada na Casa Edison pelos Os Geraldos.


Poeta, teatrólogo, foi membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco.


Quando residia no Recife, publicou em dois volumes, Tipos Populares do Recife Antigo (1953/54).


Faleceu no dia 31 de maio de 1962, no Rio de Janeiro.

Fonte da mini-biografia:

http://cifrantiga2.blogspot.com/2008/02/eustrgio-wanderley.html


Postagem transcrita do Sítio d'Olinda

O BLOCO LÍRICO APÔIS FUM - por João Montarroyos



BLOCO APÔIS FUM: O LIRISMO E A OUSADIA DE MOMO*

João Montarroyos**
Professor, escritor e pesquisador



Até a década de 1920, os carnavais do Recife aconteciam ao sabor das evoluções dos clubes pedestres, os quais geralmente representavam algumas profissões durante o período de momo. Entre os principais, pode-se citar o Vassourinhas, o Empalhadores, o Toureiros e o Batutas de São José, o Caiadores, o Clube das Pás, que até hoje povoam os nossos corações de paixão e saudosismo.

A partir daquela década, contudo, o carnaval recifense irá se abrilhantar de emoção e cores que somente os blocos carnavalescos, aos quais chamamos “blocos líricos”, puderam proporcionar ao folião. Surgidas a partir dos cordões de isolamento onde podiam desfilar as senhoras e senhoritas da época, tais agremiações vingaram graças ao sentimentalismo já impresso pelos presépios, onde as mulheres cantavam e os homens tocavam somente seus instrumentos de pau-e-corda, como sejam os bandolins, violões, pandeiros, etc., admitindo, quando muito, além disso, uma gaita de sopro. Os Irmãos Valença (João e Raul) tiveram fundamental importância em tal processo, pois era muito famoso o presépio que mantinham no Casarão da Madalena, no sítio dos Valença, uma tradição herdada de seus avós.

Assim, como não aprazia às senhorinhas frequentarem o carnaval dos clubes pedestres, tais grupos cantantes acabaram fundando os blocos de rua, uma extensão de seus elegantes saraus.

Os versos da marcha Último Regresso, de Getúlio Cavalcanti, nos dão bem uma dimensão desta verdade (grifo do autor):

É lindo ver
O dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil,
Dizendo bem
Que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil!

Vários foram os blocos daquela década áurea do carnaval pernambucano: o Bloco das Flores (o primeiro a se formar), Flor da Lira, Andaluzas, Pirilampos, Crisântemos, destacando-se especialmente, entre eles, o bloco Apôis Fum, uma vez que sua estréia realmente viria a mudar os rumos dos carnavais de então. Aquele primeiro já se chamara, dois anos antes, Bloco das Flores Brancas. Com sede na Praça Sérgio Loreto, à Rua Imperial, na residência do capitão Pedro Salgado, tinha por maestro o Príncipe Raul Morais, compositor e regente de sua marcha regresso.

Contrariando o que normalmente cita a maioria dos pesquisadores do gênero, o bloco Apôis Fum, originário da Torre, foi efetivamente fundado em 1923, e não em 1925 (chegando-se ainda a afirmar, absurdamente, o ano de 1929), conforme se pode depreender da edição do Jornal Pequeno, de 2 de fevereiro de 1923: “APÔIS FUM – No próximo domingo, a Torre estará pelo avesso, segundo profetizou o Raymundo da Elite. É o dia do ensaio batuta do batuta mestre Felinto com os seus meninos da orquestra Apôis Fum, que vai constituir a nota carnavalesca [...]”. Em número do Jornal do Commercio, de 4 de março de 1924, o Apôis Fum é citado, para não restar mais nenhuma dúvida quanto ao ano de sua fundação, como associação que se exibia naquele carnaval “com igual denominação desde o ano passado”, referindo-se ao carnaval do ano anterior, portanto o de 1923.

Os torreanos, aliás, sempre souberam dignificar a folia, dali saindo grandes agremiações, como foi o Um Dia Só, fundado pelo Prof. José Severino Calazans, regente dos coros das Igrejas Batistas da Torre e de Iputinga. Também fundou uma escola de primeiras letras na Rua Belarmino Carneiro. É de sua autoria a marcha de saudação aos grandes blocos da época, entre eles o Apôis Fum:

Em saudação sincera, o Bloco Um Dia Só,
A estes blocos tão apreciados,
Saúda todos com ouro em pó.
A todos desejamos, prazer e simpatia,
Vitória inconteste, que o povo ateste com alegria.


Um dia Só ainda chegou a ser Campeão da Cidade, mas, depois de dois anos de existência, desfez-se, por dissensões, surgindo daí um novo bloco, o Bobos em Folia, que logo teve por rival o sapeca Sabido Não Grita.

Infelizmente, é na Torre que ainda lembramos d’ A Dor de Uma Saudade, marcha composta por Edgar Morais em homenagem ao seu mano Raul, que viria a falecer em 8 de setembro de 1937, na Rua do Cailigeiro, hoje denominada R.Dom Manuel da Costa, no mesmo bairro.

Mas Edgar Morais também compôs marchinhas bem alegres, embora sem nunca abandonar o espírito saudosista, como se percebe em sua marchinhaValores do Passado:

Blocos das Flores, Andaluzas, Cartomantes,
Camponesa, Apôis Fum e o Bloco Um Dia Só.
Os Corações Futuristas, Bobos em Folia,
Pirilampos de Tejipió.
A Flor da Magnólia,
Lira do Charmion, Sem Rival,
Jacarandá, Madeira da Sé,
Crisântemos, Se Tem Bote e Um Dia
De Carnaval [...].

O Apôis Fum formava um bloco de notáveis, tendo em suas fileiras títulos de honraria militar que conferiam distinção social, adquiridos à Guarda Nacional, como ocorria com o capitão Fenelon Albuquerque e o coronel Francisco de Sá Leitão, seu presidente de honra. À frente das finanças, o então respeitado comerciante da praça, Raymundo Silva, proprietário do Salão Elite, o que lhe valeu o apelido de Raymundo da Elite. O seu principal representante, contudo, viria a ser o carnavalesco Felinto de Morais (um dos maiores violonistas da época), todos homenageados na composição do saudoso maestro Nelson Ferreira, Evocação nº.1 (1957):

“Felinto/ Pedro Salgado/ Guilherme/ Fenelon/ cadê seus blocos famosos: Bloco das Flores/ Andaluzas/ Pirilampos/ Apôis Fum/ dos carnavais saudosos! [...]”. (grifos do autor)

Embora nascidos em bairros distintos, era comum a muitos clubes possuírem sua sede em locais centrais, mais privilegiados em relação à freqüência popular. Foi assim, também, com o Apôis Fum: no ano de sua fundação, em fevereiro de 1923, o bloco instalara-se, “desde o sábado gordo até a 4ª feira, no confortável prédio, nº.39, à Rua da Imperatriz, tendo este firmado contrato com a Mme. Baldi, que ali mantém um salão de danças.” Também já se instalou na Rua Nova, sobre a famosa Confeitaria Crystal, ponto de grandes eventos da cidade e onde seis anos depois seria assassinado o então governador do estado da Paraíba, João Pessoa de Albuquerque, deflagrando-se a partir daí a famosa Revolução de 1930.

Seus ensaios, contudo, eram sempre realizados na Rua José Bonifácio (antiga Rua do Rio), no bairro da Torre, na residência do ilustre Sá Leitão – em local hoje correspondente ao prédio confronte ao SESI do mesmo bairro – de onde a famosa agremiação saía em préstito para saudar os seus concorrentes e o público em geral, notadamente a imprensa. Antes de qualquer apresentação, porém, o bloco subia a rua até as margens do imponente Capibaribe – em cujo leito iam rebolando suas águas, ao som da alegre fanfarra –, dali retornando para ganhar as ruas principais do bairro. Muitas vezes reencontravam-se, o bloco e o rio, em confraternização no centro do Recife, de onde as águas retomavam o rebolado da farra, para depois quedarem-se, exaustas, nos braços do mar.

Tais seções eram sempre muito apreciadas pelo público do bairro, que para ali acorriam em êxtase, como vemos por ocasião de seu primeiro ensaio, no dia 4 de fevereiro de 1923, um domingo de prévias carnavalescas: “Foi um sucesso o ensaio, ontem, da pesada orquestra Apôis Fum, bloco composto por famílias, senhoritas e rapazes da Torre. A casa do Sá Leitão foi invadida por uma onda polvorosa, onde todos faziam o passo do cavalo-do-cão não é aeroplano.” A prévia durou dez horas, iniciando-se o ensaio ao meio dia daquele festivo domingo, encerrando-se somente às 22 horas do mesmo dia. Ali já se marcara novo ensaio para a quarta-feira seguinte, acertando-se a quinta-feira para uma apresentação à imprensa, na Praça da Independência, às oito da noite, em frente ao Salão Elite, do tesoureiro Raymundo.

A apresentação à imprensa foi fantástica, como fantástico já se mostrava aquela danação do Apôis Fum, um bloco que viera para marcar, definitivamente, os carnavais recifenses. Às oito e meia, o povo já se exasperava no frevo, logo servido de farta mesa de bolinhos e “sandwichs, regalados à cerveja Antarctica e Teotonia”. Depois de muitos discursos, saudações e “mil vira-voltas”, o bloco voltou ao Elite, e lá permaneceu até a hora do regresso, que se deu às onze da noite.

No domingo de carnaval daquele ano, o Apôis Fum conquistava, de uma vez por todas, as ruas do carnaval recifense; trazia como destaque um carro alegórico que representava um bloco de neve, onde se postava sua porta-estandarte, uma bela jovem. Sua saída se deu às 15h, deixando a sede da Imperatriz para percorrer os principais pontos da cidade, visitando a ponte da Boa Vista, Rua da Concórdia, Campina do Bode (atual Cinco Pontas, no bairro de São José), Av. Lima Castro (atual R. Imperial), Praça da Independência, oPalácio do Governo, para depois retornar a sua sede, à Rua da Imperatriz. A sua inolvidável orquestra era composta de 24 violões, 6 cavaquinhos, 3 trombones de vara, 2 flautas, e reco-recos, 2 ganzás, 2 bombardinos, 2 bombardões, 1 saxofone, 2 surdos, 1 flautim, 3 pandeiros, 2 clarins, à frente o boêmio Felinto de Morais. Comandando os instrumentos de cordas, tanto quanto os de sopro, o Prof. José Lourenço da Silva, o Zuzinha, regente da Banda de Música da PMPE.

O carnaval seguinte, no ano de 1924, representou a verdadeira apoteose do bloco Apôis Fum. Nesse ano, a imprensa, pelo Jornal do Commercio, promovia um concurso para premiar os destaques do carnaval. O Jornal do Commercio inaugurava sua Seção Carnavalesca, atraindo várias casas comerciais para a doação de prêmios a serem conferidos aos melhores daquele período momesco. Os agentes da Ford, aqui no Recife, por exemplo, premiariam os dois automóveis que melhor se apresentassem no corso, desde que tivessem a marca Ford e pneus Goodyear.

Aquele fora um dos mais concorridos carnavais da cidade, impregnado de alegres clubes, tais como Dragões de Momo (S. José), Jacarandá (idem, fundado por Raul Morais), SeTem...Bote (Torre), Pyrilampos (Tejipió), Lobos de Afogados (Afogados), Philocríticos de Campo Grande (Campo Grande), Os Inocentes (Paulista), Andarilhos do Feitosa (Feitosa, atual Hipódromo), Apronta a Coisa que Eu já Chego (idem), Chora para Mamar (Av.Lima Castro, atual R. Imperial), Brinca Quem Pode (Casa Amarela – Av.Norte), e muitos outros alegres bandos recém-fundados. Num lapso de discriminação, os negros também se misturavam a tais empreendimentos, apresentando igualmente suas luxuosas fantasias, de ricos bordados e farto simbolismo.

A elite procurava os salões do Clube Internacional (à época ainda localizado na R. da Aurora) – cujos estatutos foram aprovadas em Assembléia Geral de 6 de outubro de 1895 – ou o Club Allemão, que teve nesse ano a sua sede improvisada em um navio – o DEKAPE – ancorado junto à ponte da Torre, ali realizando, a 10 de fevereiro, o seu “brilhante festival”.

Nada estancava a farra. Fartamente anunciada pelos jornais, a previsão de muita chuva, ao contrário do temor de repetição das recentes enchentes – como o Capibaribe a saltar de seu leito para misturar-se aos brincantes – provocou até um concurso de glosas, de onde podemos extrair a seguinte:

[...]
Momo de capa, galocha
E guarda-chuva? Não vai!
Como acender suas tochas,
Se a chuva abundante cai?
Como o frevo à rua sai?
[...]

Festa depreciada pela Igreja, nem os padres escaparam da língua ferina dos foliões:

Até os frades do convento
Na cela se sentem mal...
Eu digo, juro e sustento:
Eles, só por fingimento,
Não gostam do carnaval.

O grande poeta pernambucano Austro Costa também não deixava escapar uma alfinetada e disparava, mexendo nos dois institutos que mais apaixonam o povo pernambucano:

Não sei se devo ou não devo
Dizer, mas, digo, afinal:
Se até Roma fosse o frevo
Teria bênção papal.

Considerado um dos mais finos da cidade, o bloco Apôis Fum tinha a sua coreografia e decoração a cargo do mestre Eustórgio Wanderley, professor de Artes da Escola Normal do Estado. Seu quadro de maestros, compositores e coro destacava-se pelas figuras relevantes do velho Raul Morais, grande compositor de marchas para blocos, hoje um imortal da música carnavalesca;Augusto Calheiros – o Patativa do Norte - ; José Lourenço da Silva, o Zuzinha, regente da Banda de Música da Polícia Militar de Pernambuco, além dos irmãos Luperce e Romualdo Miranda, que depois viriam a compor o conjunto Turunas da Mauricéia, juntamente com Augusto Calheiros (voz), João Frazão (diretor e violão), o cego Manuel de Lima (violão), e o irmão João Miranda (violão), fazendo grande sucesso suas apresentações no Rio de Janeiro.

Outro famoso maestro daquela década, Miguel Barkokebas, também compôs parte do repertório do bloco, como a marchinha Esse Bloco é Meu, embora assinasse com o pseudônimo João Sem Nome, talvez devido às estreitas relações com a Paróquia de Nª.Srª.do Rosário, da Torre, para quem compunha os hinos religiosos apresentados todos os domingos na missa das 9h. Viria a falecer em 14 de agosto de 1978, mas deixaria o registro de seu encanto pelo Apôis Fum:

[...]
Olhem bem o nosso bloco,
Que é o rei do frevo e o rei do passo.
Nem Pierrô, nem Colombina,
Nem Arlequim e nem Palhaço.
Preto e branco se irmanam
Esquecem tudo, dão-se o braço,
Nesse entrudo do Recife
O rico e o pobre estão no no passo.


Finalmente, em 26 de fevereiro, o Jornal Pequeno registrava a saída do bloco, “da Torre para o Recife, em bondes especiais, para apanhar o seu estandarte de honra (flabelo) em casa de um sócio de destaque, na Av. Conde da Boa Vista, sendo homenageado depois por moradores da Rua dos Pires, dali seguindo para a Praça da Independência”, onde participou de animada festa com queima de morteiros de fabrico alemão. Bastante apreciado, o bloco logo conquistara as graças do povo pela simpatia de seus adereços e a vibração de seus componentes. Ganhou o primeiro lugar entre os Clubes de Críticas, recebendo a TAÇA JORNAL DO COMMERCIO, oferecida pela empresa J. L. Krause & Cia.

O Bloco das Flores, grande campeão em 1923 e principal concorrente do Apôis Fum, mereceu apenas menção honrosa, cabendo-lhe uma minoria de votos entre os membros da comissão julgadora. Pedro Salgado, seu presidente,esperneou, mas não levou, indignado por manter o novo campeão “particularidades formuladas como incompatíveis ao característico do bloco.” Referia-se, principalmente, à sua orquestra de metais, justamente o que mais impressionara a multidão de momo. Esbravejou: “Eu tenho um bloco e não um clube de carnaval...”, e retirou-se do carnaval.

Daí por diante, o Recife viveu carnavais como nunca antes se apresentara, diante do espírito de concorrência que se criara entre as agremiações.
O Apôis Fum imortalizara-se sempre se destacando como principal agremiação e levando aos foliões alegria que só nos seus acordes encontrava o melhor dos blocos líricos, tradição que hoje se renova pelas velhas ruas dos carnavais saudosos.


Recife, 6 de fevereiro de 2009.


FONTES CONSULTADAS:
AMORIM, Leny. Música e Músicos de Pernambuco. Recife: Ed. do Autor, 2006.
Diario de Pernambuco, Recife, 14 abr. 1993. [Fundaj/Fonoteca]
Diario de Pernambuco, Recife, n. 66, 1916. [APEJE, R.do Imperador]
ESTATUTOS do Clube Internacional do Recife, 1895. [BEP]
Jornal do Commercio, Recife, 4 mar. 1924. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal do Commercio, Recife, 5 fev. 1924. [Fundaj/Microfilmagem].
Jornal do Commercio, Recife, fev. 1925. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal Pequeno, Recife, 2 fev. 1923. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal Pequeno, Recife, edições fev./mar. 1924. [Fundaj/Microfilmagem]
LIMA, Cláudia. Evoé. História do Carnaval: das tradições mitológicas ao trio elétrico. Recife: Ed. Raízes Brasileiras, 2001.
MAIOR, Mário Souto; SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Recife: Fundaj, Ed.Massangana, Recife, 1991.
MÁRIO FILHO. O teu cabelo não nega. A história carnavalesca dos grandes poetas João e Raul Valença. Recife: Rádio Capibaribe do Recife, 1992. [Fundaj/Fonoteca]
OLIVEIRA, Waldemar de. Frevo, capoeira e passo. Recife: CEPE, [19--?]. p. 15.
REAL, Katarina. O Folclore no Carnaval do Recife. Rio de Janeiro: Min. Educ. e Cult., 1967.
SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Raul Moraes. Repértório variado. Recife: Ed.Massangana, 2003.
SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Um sonho de folião. Recife: Ed.Bagaço, 1996.



FONTES ORAIS:
MAESTRO Edgar Morais. Entrevista à TV Universitária do Recife, 8 ago. 1973. [Fundaj/Fonoteca].
DEPOIMENTOS de Toinho Valença, filho de João Valença; Baltazar Valença, filho de Raul Valença. Sítio dos Valença, Madalena, mar. 2006.




COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: Montarroyos, João. Bloco Apôis Fum: o lirismo e a ousadia de momo. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.


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* Texto inédito em publicações sobre o bloco Apôis Fum e faz parte do livro Uma Década de Ouro no Carnaval do Recife, do mesmo autor, a ser lançado em AGO/2009. Direitos autorais reservados.
** Professor de História, escritor e pesquisador de História Social de Pernambuco. Premiações: Bloch Editores / CEF - Monografia Érico Veríssimo (1978); Menção Honrosa FJN (1980); ALEPE – Monografia Pereira da Costa (2001). Desenvolve ao longo dos últimos cinco anos projeto particular de Educação Patrimonial, levando o discente a descobrir e conhecer o conjunto histórico material e cultural do Estado.


Fonte desta postagem:
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=472&Itemid=181

Fonte da imagem:
http://www.lainsignia.org/2008/febrero/cul_002.htm

P.S.:
Miguel Barkokebas, ao ler seu nome nesse artigo bateu saudade. Era o meu velho professor de canto orfeônico, naquele centro de excelência em ensino público, que era o meu querido Ginásio Pernambucano, nos idos de 1968.
Saudades, Mestre.
Devo-lhe parte de minha formação musical e artística.
Obrigado.

(Eurico - 01/03/2011)

Transcrição de postagem do Sítio d'Olinda

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

O LIRISMO DAS FLORES DO CAPIBARIBE

Flamboyants sobre a Rua da Aurora - Recife
(imagem recolhida do google)



 Não é por acaso que o nosso bloco discorda da denominação “bloco carnavalesco misto”. O fato é que essa palavra, ‘misto’, aponta para um tempo em que as mulheres mal saíam às ruas e nem podiam trabalhar fora, estudar ou votar. Carnaval de rua, nem pensar!
Esse tempo passou. Nosso bloco foi criado por mulheres modernas, cultas, trabalhadoras, mulheres do século 21. O tempo de um bloco se chamar de misto, pelo fato de ter mulheres e homens em seu cortejo, está obsoleto, como tantas outras excrescências do carnaval (machista) de um tempo que passou.
E falo em nome de um Bloco Lírico que se entende como um bloco “do presente, sem esquecer dos valores do passado”.

Porém, o que não está ultrapassado é o lirismo dos blocos.

Não falo do lirismo dos gregos, que cantavam a poesia ao som da lira. (Embora os blocos, por serem musicais, tragam algo desse jeito grego de fazer arte). Nem tampouco me refiro ao lirismo do canto ou da poesia lírica, enquanto gênero musical ou literário. Falo do lirismo atemporal. Do lirismo enquanto expressão artística de qualquer humano. Do lirismo de quem assobia, distraidamente, enquanto caminha, ou de qualquer um que, amorosamente, canta para embalar o filhinho insone. O lirismo que não é apenas do poeta, do bardo, mas o lirismo de qualquer, do homem e da mulher, da criança e do adulto. O lirismo entranhado na vida cotidiana do povo.

Importa então definir lirismo enquanto uma das formas de apreensão da natureza e das coisas em derredor. Eu diria ainda que a primeira impressão que temos do mundo é lírica. Quando a criança diz aos pais: vejam que lindo cachorrinho! Ou quando um de nós passa de ônibus à beira mar e espicha os olhos e a alma até a linha do horizonte... é lírico, esse eu que se enternece, que vê o belo, que apreende as nuanças da vida em torno: um rosto, uma praça, um sorriso de criança, os cabelos grisalhos de um saudoso avô. Por isso, é que o lirismo está na categoria do atemporal. Enquanto houver um ser humano que se enterneça, que se ocupe subjetivamente da emoção com o belo das coisas em derredor, aí estará o lirismo. E quando falo das coisas em derredor, não trato apenas das visíveis, mas das que não se podem ver, com os olhos da face. O que me dizem da emoção com a bondade, com a fraternidade, com o bem? Não é lírica a emoção de ver a união entre as pessoas, a solidária convivência entre os que se amam com desinteressado amor?. Dentre as coisas em derredor, o lirismo também alcança as invisíveis, as essenciais, as que ficam para sempre. É esse lirismo que ostenta o nosso lindo flabelo:

“Bloco Lírico Flores do Capibaribe”

Um bloco lírico: essa foi a melhor denominação que poderia ter sido dada a esse grupo das Flores do bairro da Várzea do Capibaribe. Pois o lirismo é coisa eternamente jovem. O lirismo é um "valor do presente". E a preservação do lirismo é também a preservação da emoção humana voltada para o belo, para o bom e para o bem.

Guardem isso na alma, queridas Flores do Capibaribe. E, nesse momento em que a juventude começa a se achegar ao grupo, não deixemos de refletir que somos líricos, sentimentais, mas não somos um bloco de passadistas. Flores existem, desde o começo das eras. Todavia, elas não representam o passado, e, sim, simbolizam a renovação, a primavera, o recomeço dos ciclos sazonais. Que sejam bem-vindos os jovens com suas idéias e com sua energia. E longa vida ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe.

Cito aqui, para concluir essa postagem, um trecho do frevo-de-bloco que dediquei às Flores da Várzea, em 2009:

“Por isso, as Flores do Capibaribe
vieram às ruas cantar com emoção,
louvando a resistência da nova geração
que gosta do lirismo
que há nas canções desses blocos antigos.”


Beijos e e/ternas flores!

Lula Eurico
(componente da ala dos compositores do Bloco Lírico Flores do Capibaribe, com muita honra!)


Fonte do texto original:
Sítio d'Olinda

segunda-feira, agosto 23, 2010

A Espantosa Realidade das Cousas...




















A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Alberto Caeiro


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"Eu nem sequer sou poeta: vejo."
(grifo meu, para posteriores ilações, rs)

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Fonte:
Revista Agulha

Fonte da imagem:
Pedra do Navio - Bom Jardim - PE

sábado, agosto 21, 2010

AMÉRICA - Carlos Drummond de Andrade






















Sou apenas um homem.
Um homem pequeno à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo.
Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.
Vi que amanheceu porque os galos cantaram.
Como poderia compreender-te, América?
É muito difícil.
Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto, e não sabe contar!
A boca também não sabe.
Os olhos sabem - e calam-se.
Ai, América, só suspirando.
Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não me acompanham.
Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples tempo
dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios do interior,
por trás de cordilheiras ou dentro do mar.
Eles me ajudariam, América, neste momento
de tímida conversa de amor.

Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!
Sou tão pequeno (sou apenas um homem)
e verdadeiramente só conheço minha terra natal,
dois ou três bois, o caminho da roça,
alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.
Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,
ignoro profundamente a natureza humana
e acho que não devia falar nessas coisas.

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.
Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.
Passa também uma escola - o mapa -, o mundo de todas as cores.
Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis.
A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se
em amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da infância.
América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.
Sempre me perdia, não era fácil voltar.
O navio estava na sala.
Como rodava!


As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro.
Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra.
Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.
Seus passos urgentes ressoam na pedra,
ressoam em mim.
Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?
Sou apenas uma rua
numa cidadezinha de Minas
humilde caminho da América.

Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio,
certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu.

Canto uma canção,
de viola ou banjo,
dentes cerrados,
alma entreaberta,
decanta a memória,
do tempo mais fundo
quando não havia
nem casa nem rês
e tudo era rio,
era cobra e onça,
não havia lanterna
e nem diamante,
não havia nada.
Só o primeiro cão,
em frente do homem
cheirando o futuro.
Os dois se reparam,
se julgam, se pesam,
e o carinho mudo
corta a solidão.
Canta uma canção
no ermo continente,
baixo, não te exaltes.
Olha ao pé do fogo
homens agachados
esperando comida.
Como a barba cresce,
como as mãos são duras,
negras de cansaço.
Canta a estela maia,
reza ao deus do milho,
mergulha no sonho
anterior às artes,
quando a forma hesita
em consubstanciar-se
Canta os elementos
em busca de forma.
Entretanto a vida
elege semblante.
Olha: uma cidade.
Quem a viu nascer?
O sono dos homens
após tanto esforço
tem frio de morte.
Não vás acordá-los,
se é que estão dormindo.

Tantas cidades no mapa...Nenhuma, porém, tem mil anos.
E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.
Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?
Nunca se sabe, as cidades crescem,
mergulham no campo, tornam a aparecer.
O ouro as forma e dissolve, restam navetas de ouro.
Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados
(que vão esmagar a última revolução)
o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes;
a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...
Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.
A criação espantada
não sabe juntá-los.

Contaram-me que também há desertos,
E plantas tristes, animais confusos, ainda não completamente determinados.
Certos homens vão de país em país procurando um metal raro
ou distribuindo palavras.
Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é impossível
não comer-lhe os retratos e não proclamá-las demônios.

Há vozes no rádio e no interior das árvores,
cabogramas, vitrolas e tiros.
Que barulho na noite,
que solidão!
Esta solidão da América... Ermo e cidade grande se espreitando.
Vozes do tempo colonial irrompem nas modernas canções,
e o barranqueiro do Rio São Francisco
- esse homem silencioso, na última luz da tarde,
junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado
contempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da Broadway.
O sentimento da mata e da ilha
perdura em meus filhos que não amanheceram de todo
e têm medo da noite, do espaço e da morte.
Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.
Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,
procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,
carta posta no correio, sono que custa a chegar
porque na cadeira elétrica um homem (que não conhecemos) morreu.

Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento.
Portanto, solidão é palavra de amor.
Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas.
Ela fixa no tempo a memória
ou o pressentimento ou a ânsia
de outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco,
percorrem teus caminhos, América.
Estes homens estão silenciosos mas sorriem de tanto sofrimento dominado.
Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Mais sobre Carlos Drummond de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade
retratos


Fonte do txt:
http://leaoramos.blogspot.com/2010/06/tanto-dizer-america-mas-drummond.html

Fonte da img:
http://farm3.static.flickr.com/2254/1516069989_5308871313.jpg

quinta-feira, agosto 19, 2010

Águas de março


Nota do blogueiro:
(flashes de apreensão lírica; partes e todo, em ondas de interação; natureza, poesia, maravilhamento - eis o maestro-poeta Antonio Carlos Jobim. Nada mais lírico):

ao lado a árvore "dele", no Jardim Botânico, do Rio de Janeiro.



















É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, é o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo
é o queira ou não queira
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira
é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira

Uma ave no céu, uma ave no chão
é um regato, é uma fonte
é um pedaço de pão
é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego
é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando
é uma conta, é um conto
é um peixe, é um gesto
é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é uma cobra, é um pau, é João, é José
é um espinho na mão, é um corte no pé
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho
resto de toco, pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho,
resto de toco, pouco sozinho

Tom Jobim
Coleção
Disco de Bolso:
O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco
(1972)

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Sobre o autor


Chega dezembro e com ele vêm o natal, o reveillon, as férias, depois o carnaval... Na verdade, o ano seguinte só se inicia mesmo depois de encerradas as folias populares. Nada melhor que uma boa enxurrada para varrer as cinzas do ano anterior e então começar vida nova. Nada melhor que as refrescantes águas de março, que esfriam nossa cabeça para enfrentar mais um ano de luta... É verdade que, em cidades como São Paulo, com problemas tão graves como os de saneamento básico, essas águas são muitas vezes sinônimo de enchente, caos e até mesmo de morte. Mas isso não é culpa da natureza: cabe à cultura (no caso, aos administradores públicos, urbanistas e engenheiros) proteger os homens.
Certamente não eram as chuvas paulistas que Tom Jobim tinha em mente quando compôs "Águas de março".

"É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, é o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira..."

O que temos aqui? Eu diria que um conjunto de elementos que lembram uma paisagem não urbana propriamente: pau, pedra, toco, a solidão, peroba, nó de madeira etc. São elementos de um contexto mais natural, onde quase não se sente a ação do homem. O "quase" que eu disse vai por conta dos seguintes objetos: caco de vidro, elemento que implica fabrico, tecnologia; candeia, objeto rústico para iluminação, a indicar, no entanto, que esse lugar tomado pelas águas de março não tem luz elétrica; e anzol, que, apesar de artefato humano, tem a ver com uma forma primitiva de relação com a natureza, ou seja, a pesca, favorecida decerto em tempos mais chuvosos, em que os rios ficam cheios. Índices de uma cultura mais ligada à natureza são ainda a referência a caingás, bem como pela referência ao matita pereira. Como vocês podem percerber, estamos a léguas dos centros urbanos, num espaço onde ainda vigoram lendas, personagens folclóricas, populações pré-modernas, como os índios, e onde são enfatizados os ciclos naturais, vida e morte, sol e noite:

"é um caco de vidro, é a vida, é o sol,
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol."

A letra de Tom Jobim é basicamente descritiva, repertoriando uma série de elementos que visam construir a atmosfera desencadeada pelas chuvas num ambiente mais rural. Sendo descritiva, não conta com uma progressão dramática, um desfecho. Essa estrutura descritiva é enfatizada pela reiteração intensa do verbo "ser", um verbo que serve, entre outras coisas, para dar atributo, qualidade a algo. Mas talvez esse verbo tenha um sentido algo ambíguo aqui. A letra já se inicia sem mencionar o sujeito a que se liga o verbo.

"É pau, é pedra, é o fim do caminho", e assim até o fim, com variação dos predicativos. Imaginamos que o que é pau, o que é pedra "é" as águas de março. Ou seja, "águas de março" significa pau, pedra, peroba do campo e tudo mais. Como dissemos, trata-se de representar a atmosfera úmida de março. Chegamos quase a sentir o cheiro da madeira molhada, a imaginar o corpo se refrescando (é o fim da canseira, como diz a letra). Mas, se é assim, por que o verbo "ser" não está no plural, para concordar com "águas", no plural? Podemos cogitar alguns motivos: convenhamos que repetir "são" a todo o instante ficaria um pouco exaustivo. Seria são pra lá, são pra cá, são acolá. A forma "é" está muito mais na ponta da língua, o que dá bem mais agilidade à música; além disso, o sujeito, "águas de março", é mais lógico do que sintático. Ele figura no título da canção, mas não na letra, pelo menos até quase o fim. "Águas de março" é o pressuposto do texto, mas não está estruturado nele sintaticamente. O título serve aqui para indicar o objeto de que se está falando. Por tudo isso, a concordância no singular é mais do que legítima. Tanto é assim que Tom Jobim, que não era bobo, coloca bonitinho o verbo "ser" no plural quando a expressão "águas de março" vem, no finzinho da canção, literalmente reproduzida no corpo do texto, passando de idéia de fundo a elemento de estrutura sintática, ou seja, passando de sujeito lógico a sujeito sintático:

"são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração. "

A concordância no plural tem o efeito de um resumo: todos os elementos relacionados nesse texto são, formam as águas de março. Note-se, no entanto, que o verbo no singular retorna: "é a promessa de vida". É como se se quisesse dar mais peso agora à "promessa de vida" do que às águas de março. O que importa mais agora é a promessa de vida. Mas você pode perguntar: isso também não se aplica ao resto da letra? Não poderíamos dizer que a letra quis mais enfatizar os elementos, os aspectos vitais ligados às águas de março, daí ter usado o verbo no singular? É possível. Há em toda a composição de Tom Jobim um apego a elementos variados, há mesmo uma espécie de desejo de fazer o inventário de um mundo já meio fantástico para nós, homens urbanos, para quem saci e índio têm algo em comum: a inexistência, o serem coisas do passado. Esse estilo de inventário acaba como que dando relevo ao detalhe, mas sem prejuízo de dar conta do conjunto. Tudo isso é banhado pelas águas de março, que fecham o verão. Notemos ainda que os elementos ligados à ação do homem vão aumentando ao longo da canção:

"É um estrepe, é um prego,
é uma conta, é um conto
...
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama."

Ora, a palavra "projeto" é bastante ligada ao plano da cultura. A natureza é o lugar do espontâneo, do acaso, que são o oposto do projeto, do cálculo. Já estamos num território não tão primitivo, o que é marcado pelo "carro enguiçado" na lama. Trata-se de um mundo entre a natureza e a cultura. Natural o bastante para que não tenha calçamento e fazer veículos atolarem e culturalmente modificado com a presença de carros e casas. É um mundo intermediário, de lama e de projeto, e onde a chuva cai como uma bênção. O projeto, no entanto, respeita o ciclo natural: só é possível começar de fato a construção da casa ("é o tijolo chegando") quando cessarem as chuvas. Com a terra seca e o outono, então uma nova vida pode lançar as bases. Mas infelizmente nós, paulistas, temos de rezar para que as águas de março não sejam promessa de morte e de desapropriação.


Antonio Carlos Jobim

Maestro, compositor refinado e letrista, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é autor de inúmeras canções, como "Wave" (1969), "Águas de março" (1972), "Passarim"(1985), "Sabiá" (1968), esta última feita em parceria com Chico Buarque. Um de seus primeiros trabalhos foi na gravadora Continental, onde reproduzia na pauta as melodias de compositores que não conheciam teoria musical. Em 1952, passa a fazer arranjos para as gravações. Nesse mesmo ano, sua carreira é impulsionada com a divulgação do samba "Faz uma semana", composto com João Stockler e interpretado por Ernani Filho. De 1953 data a gravação de suas primeiras músicas, entre elas "Teresa da praia" (com Billy Blanco), interpretada por Dick Farney e Lúcio Alves. O LP Canção do amor demais, de Elisete Cardoso (1958), considerado um marco na música brasileira, trazia várias composições de Tom e Vinícius de Morais e antecipava a bossa nova em vários aspectos. A música "Samba de uma nota só" (com Newton Mendonça) torna-se internacionalmente conhecida na interpretação de cantores como Ella Fitzgerald e Frank Sinatra. Tendo como parceiro Vinícius de Morais, ele escreveu um dos maiores sucessos de sua carreira, "Garota de Ipanema" (1962). Compõe para cinema, TV e lança vários álbuns. Falece em 8 de dezembro de 1994 de parada cardíaca.


Fonte do texto:
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/tomjobim_aguasdemarco.htm

Fonte da imagem:
http://orientacaopsi.blogspot.com/2007/11/rvore-do-tom-e-as-outras-rvores.html

quinta-feira, setembro 17, 2009

Quadros Verdes
















Quadros Verdes

Michel Quoist


E a escola é moderna.
O diretor, muito ufano, vai-me apontando todas as
comodidades. De todas as coisas a mais bela,
Senhor, é o quadro verde. Os sábios
estudaram longamente, fizeram experiências.
Agora já sabemos que a cor verde é a cor
ideal, não cansa a vista, pacifica, relaxa os
nervos.

Pensei, então, Senhor, que não
tinhas esperado tanto tempo para pintar de
verde as campinas e o arvoredo. Tuas salas
de aula funcionaram muito bem e para não
nos cansar aperfeiçoaste uma porção de
matizes para Teus prados modernos. Assim
os “achados” dos homens consistem em
descobrir o que pensaste desde toda a
Eternidade.


Obrigado, Senhor, por seres o
bom pai de família que deixa a seus filhinhos
a alegria de descobrirem eles próprios os
tesouros de Tua inteligência e Teu amor.

Mas livra-nos de pensar que fomos
nós que os inventamos sozinhos.



Fonte do txt.:
JESUS, RICARDO, ROBERTO, Português Interpretação,
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2º vol., 5ª Ed., 1971, p. 24.
Obs.: um de meus livros de Língua Portuguesa, do curso ginasial, que ainda guardo com carinho.)




Fonte da img.:
www.marceloclemente.com/Olinda.jpg



(MICHEL QUOIST nasceu em Havre (França) em 1921 e faleceu em 1997. Foi ordenado sacerdote em 1947. Era doutor em Ciências Sociais pelo Instituto Católico de Paris. Escreveu inúmeras obras, traduzidas em várias línguas e regularmente reeditadas, das quais algumas ultrapassam um milhão de exemplares).


segunda-feira, julho 13, 2009

José Saramago, por Soares Feitosa
























Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!

.........................Arranjo de Soares Feitosa



Vem aqui, Tomé,
vem comigo até a borda da água,
vem ver-me fazer uns pássaros
com esta lama que colho...

Repara como é tão fácil,
formo e modelo o corpo
e as asas;
afeiçôo a forma da cabeça
e do bico; engasto estas pedrinhas
que são os olhos;
ajeito as penas compridas
da cauda;
equilibro-lhes as pernas e os dedos
e tendo feito
este, faço mais onze;
aqui os tens, um dois, três
quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez, onze, doze pássaros
de lama...

Imagina, até, se quiseres,
dar-lhes nomes: este é Simão,
este é Tiago, este é André, este é João, e este,
se não te importas, chamar-se-á
Tomé.

Quanto aos outros vamos esperar
que os nomes apareçam;
os nomes, muitas vezes, atrasam-se
no caminho, chegam
mais tarde...

E agora vê como faço — lanço esta rede
por cima das avezinhas
para que elas não possam fugir, os pássaros..., se
não temos cuidado.

Queres dizer-me que se esta rede
for levantada os pássaros fogem?
Esta é a prova com que querias
convencer-me?

Sim e não!

Como, sim e não?

A melhor prova, mas essa
não é de mim que depende, seria
não levantares tu a rede e acreditares
que os pássaros fugiriam se a levantasses.

São de barro, não podem fugir.

Experimenta! Também Adão,
nosso primeiro pai, foi de barro e tu
descendes dele.

A Adão deu-lhe vida Deus!

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou
o Filho de Deus.

Assim o quiseste, assim o terás,
estes pássaros não voarão!

Com um movimento
rápido, Tomé levantou
a rede, e os pássaros,
livres, levantaram vôo, chilreando,
duas voltas
sobre a multidão maravilhada
e desapareceram no espaço.

Disse Jesus:
Olha, Tomé, o teu pássaro
foi-se embora.

E Tomé respondeu:
Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,
sou eu.


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Nota de Soares Feitosa, no Jornal de Poesia (sítio de origem):

"Versificação", a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma "viagem", como se, entre os olhos e o ouvido médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas "cesuras" por vírgulas e nada mais.
Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, a mesma coisa? Sim e não, aliás, sim... desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível "metrificar" Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente "prosa" em... Álvaro de Campos. É só tentar... desde quê.

Soares Feitosa
Fortaleza, CE, noite alta, 5.5.2003

Fonte do texto:
Jornal de Poesia

Fonte da imagem:

Caravaggio - Incredulidade de São Tomé


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quinta-feira, junho 25, 2009

Beleza é fundamental, mas o que é a Beleza?

Procurava uma midi voice do Dominguinhos no Google, quando me deparei com essa postagem do Viver é Afinar o Instrumento, da Fátima Maria, Historiadora de Itabira, que copiei por achar muito oportuna. Como meu blogue se interessa pelos mitos, e a publicidade cria muitos, pra bem ou pra mal, eis aqui uma oportunidade de desmistificar uma mensagem publicitária da Runner, no mínimo equivocada, se não, preconceituosa e maldosa. É por essas e outras que temos jovens e adultos depressivos e/ou anoréxicos. Temos filhos e filhas e precisamos mudar essa mentalidade. Essa forma de tratar a publicidade é fruta do desamor que reina na pós-modernidade. Leiam o que disse a Fátima, e depois leiam o texto integral lá no Viver é Afinar o Instrumento:.





"Ontem vi um outdoor da Runner, com a foto de uma moça escultural de biquíni e a frase:

"Neste verão, você quer ser sereia ou baleia"

RESPONDO:

AS BALEIAS

Baleias sempre estão cercadas de amigos.
Baleias têm vida sexual ativa, engravidam e têm filhotinhos fofos.
Baleias amamentam.
Baleias nadam por aí, cortando os mares e conhecendo lugares legais como as banquisas de gelo da Antártida e os recifes de coral da Polinésia.
Baleias têm amigos golfinhos.
Baleias comem camarão à beça.
Baleias esguicham água e brincam muito.
Baleias cantam muito bem e têm até CDs gravados.
Baleias são enormes e quase não têm predadores naturais.
Baleias são bem resolvidas, lindas e amadas.


AS SEREIAS

Sereias não existem.
Se existissem viveriam em crise existencial:"- Sou um peixe ou um ser humano?
"Não têm filhos, pois matam os homens que se encantam com sua beleza...
São lindas... mas tristes e sempre solitárias...

Runner, querida, prefiro ser baleia!"

...........................Fatima Maria é Historiadora em Itabira-MG.

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Pós-escrito: (em 26/06/09)
Deixo no ar a indagação do título desta postagem,
para que ela cumpra, em cada um de nós, a função de trazer à luz o que milênios de beleza, sob cânones gregos, têm feito com nossa cabeça.
Essa é a única beleza possível? E não falo aqui de beleza interior. Refiro-me à beleza do corpo das pessoas comuns e fora dos cânones helênicos.
Beleza é fundamental, disse o Vinícius, mas de que beleza ele falava? Ou seja, afinal, o que é a Beleza?

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Para ler a postagem original na íntegra, eis a fonte de onde copiei os poemas:

http://vivereafinaroinstrumento.blogspot.com/2009_04_01_archive.html

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