Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens

domingo, março 03, 2013

domingo, janeiro 22, 2012

O RECIFE (CARNAVALÍRICO) DE CLARICE

Da esquerda para a direita: Tania, Elisa e Clarice


No conto “Restos do Carnaval”, publicado pela primeira vez em 1971, Clarice Lispector , bem ao seu estilo, nos apresenta um Recife misterioso e lúdico,  introjetado, oblíquamente,  nas suas retinas de menina "gauche na vida". Esse Recife será, vez por outra, revisitado pela escritora, ao longo de sua obra. É para esse Recife, lírico e profundamente humano, que me volto nesses dias que antecedem a folia. O Recife dos Blocos de Pau e Corda, dos confetes e serpentinas, dos mascarados. Um Recife boêmio e um tanto ingênuo, apesar dos tempos, apesar do mundo, um Recife do entrudo, um Recifelírico.  (Eurico)


RESTOS DE CARNAVAL

Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.

E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça — eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável — e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga — talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel — resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas — à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha — mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge — minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa — mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil — fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns d0ze anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de oito anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.


Clarice Lispector
1971


O conto Restos de Carnaval faz parte do livro Felicidade Clandestina, (1ª edição Editora Sabiá, Rio de Janeiro, 1971; edição mais recente Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1998.

Fonte do conto:

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tema-livre/restos-do-carnaval-por-clarice-lispector/


Fonte da imagem:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1016151-relato-biografico-resgata-elisa-a-irma-mais-velha-de-clarice-lispector.shtml

Ouvindo uma relíquia: Capiba, por Claudionor Germano, a voz dos frevos da minha infância:


sexta-feira, março 11, 2011

A FUNÇÃO DIONISÍACA DAS RUAS (Carnaval, Clarice Lispector e Chico Buarque)

Rua do Sol e Av. Guararapes, em dia do Galo
(imagem Google) 


Retomo aqui, de impressionado que fiquei, a mesma epígrafe de Clarice:


“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu".

 Clarice Lispector



A função dionisíaca das ruas: essa foi a descoberta de Clarice Lispector. Nem Lúcio Costa, o arquiteto da cidade sem esquinas, tampouco o nosso Joaquim Cardoso, engenheiro e poeta, alcançaram essa iluminada antevisão. Mas só a menina Clarice, a mulher além do seu tempo, o ser humano perto do coração selvagem, só ela poderia perceber, liricamente, ou seja, com a abertura da emoção, a que se destinam as ruas de uma cidade.

Conheço bem essa agitação interior que antecede as festas de rua. E conheço isso, enquanto menino suburbano: De manhã, as senhoras recortavam bandeirolas e as iam esticando em cordões finíssimos, primeiro pelo chão, depois esticados nos postes, pelas varandas, em um colorido ziguezague. A rua ficava numa feliz agitação. Meu coração de menino disparava no peito. Era a festa chegando! Era dionisos!
Mas eu nunca saberia colocar palavras nessa alegria, sem ler Clarice. Sem ler o mundo-Lispector.

Hoje eu sei que o mundo se abre em botão, em alegre vermelhidão, em grande rosa escarlate. Nada há de mais lírica do que essa apreensão da realidade. E essa realidade, em que se agitava Clarice, era a festa: o carnaval.
Era a passagem dos cortejos animados, com o ruge-ruge dos anônimos foliões, nesse autêntico e ancestral entrudo, que o Recife preservou. E era nessa órgica cantata popular, que as ruas revelavam “a capacidade de prazer”, que em tantas mulheres era secreta, naquele começo de século XX.

E essa é mesmo a função das ruas: abrir passagem ao que está contido. Deixar fluir o povo, com suas emoções desabridas, flor sem redoma; o povo-fluxo, em dionisíacas pulsões. Uma função lírica, dionisíaca.

Salve, pois, a menina Clarice, que exsurge das reminiscências da Clarice adulta, para nos revelar o lirismo do carnaval, mesmo que o lirismo mais cru, mais selvagem e pagão.
Aliás, como conter essa torrente das ruas, como conter isso que, vida, flui?
Já dizia o poeta, nos versos da verdadeira catarse, que é o samba, Apesar de Você:



(...) Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar
Água nova brotando e a gente se amando sem parar
(...)
Você vai ter que ver a manhã renascer a esbanjar poesia
Como vai se explicar, vendo o céu clarear de repente, impunemente?
Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente?(...)


 
Fonte do samba: http://letras.azmusica.com.br/Q/letras_quarteto_em_cy_35213/letras_otras_23823/letra_apesar_de_voce_1307465.html


Eurico, lírico, rsrsrs

Que se proibam os galos de cantar,
e o povo de frevar!!! rsrsrs