Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

Mostrando postagens com marcador frátria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador frátria. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, abril 13, 2009

Pedido, de certo modo inocente, aos Homens de Boa Vontade



























Hoje andei procurando por você.
Sim, você mesmo!

Você
que é incapaz de engaiolar um passarinho
e de escorraçar um cão.

Você
que devolve o excedente do troco
ao caixa do mercado.

Você
que quando leva uma topada,
olha pros lados antes de dizer o palavrão.

Você
que não disputa uma bola dividida deslealmente.
Que aplaude o time adversário, quando faz um bom jogo.

Você
que trata a todos com cortesia
mesmo quando o trânsito está totalmente engarrafado.

Você que não discute religião.
Que prefere orar em oculto pra não ferir suscetibilidades
e que não deixa a mão esquerda saber da esmola dada pela direita.

Você que se emociona com tudo:
Um por do sol, um recém-nascido,
Uma canção de amor.

Você
que seria incapaz de molestar uma criança.
De abandonar um filho.
De trair o primeiro amor.

Hoje andei procurando
com meu controle remoto
e não encontrei você.

Hoje folheei jornais,
(há muito que não o fazia)
E, infelizmente, não achei você.

Prezado Senhor Homem de Boa vontade,
cumpra o mandamento divino:
Cresça e multiplique-se!
Domine a densidade demográfica!
Invada o mass media!
Tome de assalto os noticiários
E as capas de revista!

A paz na Terra necessita, urgentemente,
de que você se torne uma multidão inumerável.

********************************


Eurico

"quem não se tornar como um desses pequeninos
não verá o Meu reino..."
.................................Jesus (in: algum dos evangelhos)

********************************

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Por uma cultura de paz!

Não acumulem mais ódios. A espiral da violência, ensinava Dom Hélder Câmara, é interminável. Só os gestos e iniciativas de reconciliação e paz podem interrompê-la.
*******************************
Pelas crianças, pela população civil, pelos velhos, pelas grávidas e pelos enfermos,
pedimos o imediato cessar-fogo bilateral em Gaza!

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Rumo à Frátria: Babel versus Pentecostes


Não sou religioso, gente. Posso até dizer que sou arreligioso. Mas não desdenho dos textos sagrados das religiões institucionais. Neles habita a sabedoria milenar dos povos. E, por que não dizer, de Deus. Pois bem: essa postagem aparentemente religiosa surgiu de uma saudação de ano novo, que me fez a amiga do blogue Canto da Boca, na minha postagem Canção do Mar: um déjà vu. Leiam o comentário abaixo e, logo em seguida dois curiosos e antagonicos fragmentos bíblicos:



Texto 1 - Anti-babel: comentário da Boca

"Que felicidade! Como somos o que sentimos e verbalizamos, Eu-ri-líri-co, forever! Li-te, senti-te e emocionei-me... O que sentes é tao tangível que de um modo muito meu, senti teus sentimentos. Semana passada em Lisboa, e passando por meus olhos, alma e coraçao tantos desses sentires, a Lisboa moura, da silabaçao encadeada, a Lisboa velha, a Lisboa nova, ou caminhando pelo Chiado e deslumbrando-me com a vida que também por lá caminha, a estátua de Pessoa, tao viva, tao vivo a contemplar mundos... E o sotaque luso, tão luso, tão difuso do meu, mas tão em confluência, tão em abrangência... Dilatado, dilatando...
...E na passagem de ano (que chamáramos de ONU, uma analogia às diversas nacionalidades presentes), ontem, todos estrangeiros, longes de suas gentes, mas com todas dentro-em-nós, apesar da multinacionalidade, falávamos a mesma língua: do amor, da fraternidade, da solidariedade (caboverdianos, chilenos, congoleses, brasileiros, mexicanos, peruanos, portugueses), mas em harmonia, celebrando a vida, o ano que ia, e cheios de esperanças, desse que acaba de chegar.

E vibro, e vivo, meu amigo Tãolírico todas as possibilidades que construo e as que me escaparam pelas maos... E o que te desejar? O mínimo que mereces: saúde, paz, amor, felicidade, amizade, harmonia, tranquilidade, junto com a sua família, e dinheiro para pagar as contas, mas para todos os dias.
Um 2009 iluminado e iluminante!
Abraço imenso e um beijo estalado na testa."
Canto da Boca

Texto 2 - Babel

"E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala.
E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
Então desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
Assim o SENHOR os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade." Gênesis, cap. 11

Texto 3 - Pentecostes

"E quando se completaram os dias de Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar; e veio de repente do céu um estrondo, como de vento que assoprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e o fogo repousou sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
"Estavam então habitando em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. E logo que correu esta voz, acudiu muita gente, e ficou pasmada, porque cada um ouvia falar os discípulos na sua própria língua. Estavam pois todos espantados e se admiravam, dizendo: Por ventura não se está vendo que todos estes que falam são galileus? E como os ouvimos nós falar cada um a nossa língua em que nascemos?
"Partos, medos, elamitas e os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frigia, a Panfilia, o Egito, e as partes da Líbia que confina com Cirene e os vindos de Roma, também judeus, e prosélitos, cretenses e árabes, os temos ouvido falar em nossas línguas as maravilhas de Deus. Pasmavam pois todos e se admiravam dizendo uns para os outros: O que é que isso pode ser? Outros porém, escarnecendo, diziam: É porque estes estão cheios de mosto". Atos, cap. 2


**********************************************************


Leram? Então perceberam os grifos que fiz na descrição emocionada da amiga Boca, e o paralelo com os versículos grifados.
Pois bem:
Babel versus Pentecostes é a minha forma de dizer o que idealizo numa Frátria. Sei que sou utópico, mas utópico por opção profunda. Utópico engajado, compromissado, rsrsrs, se lá isso existe! Mas creio nessa possibiidade, apesar da dispersão babélica dos povos. Não prego um Esperanto, coisa que não foi possível realizar, apesar do idealismo do Zamenhof; a Frátria, como imagino, não é uma língua universal, mas uma cultura de comunhão, ou seja, um feixe de possibilidades de: convivencia fraternal, não-violencia, pluralismo e respeito pelas diferenças, solidariedade e cooperação entre os povos. A Frátria é Pentecostes e não Babel. Babel é a segregação: a confusão das línguas remete a uma confusão das almas, das mentalidades.

Pentecostes, pelo contrário, reunia um caudal de povos e de culturas, que testemunhou a xenoglossia dos apóstolos.
Mas, xenoglossia pra que?
Respondo:
Para difundir o Amor.
Para pregar a fraternidade.
Essa a razão do milagre das línguas no Pentecostes.

Então, por que uma frátria apenas lusófona?
Por que devemos começar pelos mais próximos, pelos falantes de nossa cultura, de nossa mátria.

Portanto, rumo à frátria, sou M.I.L. (Movimento Internacional Lusófono)
Querem participar? Cliquem no logotipo do início da postagem.
***************************************
Post-scriptum: O Eu-lírico anda muito prosa e pouca poesia.
É que estou na baixa estação poética, poeta bissexto que sou.
Ando na maré vazante da poíesis.
Mas, os ciclos da maré são o segredo do viço no manguezal.
***************************************

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Canção do Mar - um déjà vu?

















Canção do Mar
na voz de Dulce Pontes

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo
Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo


***********************************

Anda reverberando em minh'alma essa prosódia, esse sotaque , essa silabação encadeada, entre linguodental e bilabial, da fadista Dulce Pontes,
em que oiço, ao longe, feito em déjà vu, canções mediterrâneas.
Ruas de alfamas, vielas da mouraria: um espi/olhar arqueológico (em velhos álbuns),
ou mesmo um curiosear deambulatório à Fidelino de Figueiredo:
O que tens minh'alma que buscas povoações celtíberas,
campanários góticos, balcões moçárabes?

O que ecoa ao norte de mim mesmo, o surdo ribombar das legiões romanas sobre a Ibéria?
O que oiço em lembranças do não-vivido?
O hinos sacros do Eurik, que de seu presbitério, vislumbra o alarido de Tárique, acometendo sobre um Ruderik enfraquecido:
Allah hu acbar!

Tudo isso e a algaravia do miscigenado vozear dessas culturas que permeiam essa, subitamente antiquissima (al moiraria...), Canção do Mar,
com que retorno à língua mátria,
rumo à frátria...
Não à frátria ateniense, belicosa e armada contra o Outro,
mas à fraternidade tribal e irmã.
Rememoro aqui, outrora e agora ,
aquela arcaica voz, serena e lusitana,
de, quem sabe, um Quinto Império, lusófono e espiritual.

***************************************************
Para ouvir de a Canção do Mar com Dulce Pontes clique em:


***************************************************