Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

O LIRISMO DAS FLORES DO CAPIBARIBE

Flamboyants sobre a Rua da Aurora - Recife
(imagem recolhida do google)



 Não é por acaso que o nosso bloco discorda da denominação “bloco carnavalesco misto”. O fato é que essa palavra, ‘misto’, aponta para um tempo em que as mulheres mal saíam às ruas e nem podiam trabalhar fora, estudar ou votar. Carnaval de rua, nem pensar!
Esse tempo passou. Nosso bloco foi criado por mulheres modernas, cultas, trabalhadoras, mulheres do século 21. O tempo de um bloco se chamar de misto, pelo fato de ter mulheres e homens em seu cortejo, está obsoleto, como tantas outras excrescências do carnaval (machista) de um tempo que passou.
E falo em nome de um Bloco Lírico que se entende como um bloco “do presente, sem esquecer dos valores do passado”.

Porém, o que não está ultrapassado é o lirismo dos blocos.

Não falo do lirismo dos gregos, que cantavam a poesia ao som da lira. (Embora os blocos, por serem musicais, tragam algo desse jeito grego de fazer arte). Nem tampouco me refiro ao lirismo do canto ou da poesia lírica, enquanto gênero musical ou literário. Falo do lirismo atemporal. Do lirismo enquanto expressão artística de qualquer humano. Do lirismo de quem assobia, distraidamente, enquanto caminha, ou de qualquer um que, amorosamente, canta para embalar o filhinho insone. O lirismo que não é apenas do poeta, do bardo, mas o lirismo de qualquer, do homem e da mulher, da criança e do adulto. O lirismo entranhado na vida cotidiana do povo.

Importa então definir lirismo enquanto uma das formas de apreensão da natureza e das coisas em derredor. Eu diria ainda que a primeira impressão que temos do mundo é lírica. Quando a criança diz aos pais: vejam que lindo cachorrinho! Ou quando um de nós passa de ônibus à beira mar e espicha os olhos e a alma até a linha do horizonte... é lírico, esse eu que se enternece, que vê o belo, que apreende as nuanças da vida em torno: um rosto, uma praça, um sorriso de criança, os cabelos grisalhos de um saudoso avô. Por isso, é que o lirismo está na categoria do atemporal. Enquanto houver um ser humano que se enterneça, que se ocupe subjetivamente da emoção com o belo das coisas em derredor, aí estará o lirismo. E quando falo das coisas em derredor, não trato apenas das visíveis, mas das que não se podem ver, com os olhos da face. O que me dizem da emoção com a bondade, com a fraternidade, com o bem? Não é lírica a emoção de ver a união entre as pessoas, a solidária convivência entre os que se amam com desinteressado amor?. Dentre as coisas em derredor, o lirismo também alcança as invisíveis, as essenciais, as que ficam para sempre. É esse lirismo que ostenta o nosso lindo flabelo:

“Bloco Lírico Flores do Capibaribe”

Um bloco lírico: essa foi a melhor denominação que poderia ter sido dada a esse grupo das Flores do bairro da Várzea do Capibaribe. Pois o lirismo é coisa eternamente jovem. O lirismo é um "valor do presente". E a preservação do lirismo é também a preservação da emoção humana voltada para o belo, para o bom e para o bem.

Guardem isso na alma, queridas Flores do Capibaribe. E, nesse momento em que a juventude começa a se achegar ao grupo, não deixemos de refletir que somos líricos, sentimentais, mas não somos um bloco de passadistas. Flores existem, desde o começo das eras. Todavia, elas não representam o passado, e, sim, simbolizam a renovação, a primavera, o recomeço dos ciclos sazonais. Que sejam bem-vindos os jovens com suas idéias e com sua energia. E longa vida ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe.

Cito aqui, para concluir essa postagem, um trecho do frevo-de-bloco que dediquei às Flores da Várzea, em 2009:

“Por isso, as Flores do Capibaribe
vieram às ruas cantar com emoção,
louvando a resistência da nova geração
que gosta do lirismo
que há nas canções desses blocos antigos.”


Beijos e e/ternas flores!

Lula Eurico
(componente da ala dos compositores do Bloco Lírico Flores do Capibaribe, com muita honra!)


Fonte do texto original:
Sítio d'Olinda
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