Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, fevereiro 27, 2011

Reflexões sobre um certo Bloco Lírico







É o notável pesquisador João Montarroyos , em seu artigo "O Bloco Apôis Fum: O Lirismo e a Ousadia de Momo", quem melhor retrata o regresso dos blocos líricos, depois de cada noitada de carnaval. Diz ele, descrevendo o regresso do Apôis Fum, naqueles idos de 1923 :


"A apresentação à imprensa foi fantástica, como fantástico já se mostrava aquela danação do Apôis Fum, um bloco que viera para marcar, definitivamente, os carnavais recifenses. Às oito e meia, o povo já se exasperava no frevo, logo servido de farta mesa de bolinhos e “sandwichs, regalados à cerveja Antarctica e Teotonia”. Depois de muitos discursos, saudações e “mil vira-voltas”, o bloco voltou ao Elite, e lá permaneceu até a hora do regresso, que se deu às onze da noite."


Pois é essa mesma emoção e esse mesmo sentimento que sinto nesse 2011, ao rever essas imagens acima. Tenho a sensação de que o nosso bloco, em dois aninhos, já viveu intensamente toda essa descrição. Um bloco que encantou todos os grandes compositores da cidade, que recebeu elogios dos maestros mais atuantes em orquestras de bloco, veio para marcar, definitivamente, os carnavais recifenses. 

Teríamos, nesse 2011, consolidado a renovação dos blocos líricos, iniciada na década de 1970, pelo maravilhoso Bloco da Saudade?
Creio que sim. E já disse a alguns componentes daquela agremiação que somos o resultado da feliz iniciativa de resgate do lirismo dos antigos carnavais, empreendida por eles, sob os auspícios do saudoso maestro Edgard Morais.
E mais:
Ao abdicarmos, consciente e criticamente, do uso de penas e plumas, por serem ecologicamente incorretas; ao prescindirmos do excessivo brilho dos paetês e lantejoulas, optando pela simplicidade da chita vermelha; ao submetermos toda a possibilidade de nosso sucesso apenas à qualidade das vozes de nosso coral feminino; e ao levarmos ao palco somente músicas inéditas e surgidas no seio da nossa comunidade, quebramos , sim, com a mesmice que se ia cristalizando nos velhos grupos de frevo-de-bloco.
Ao mesmo tempo em que retomamos a tradição dos "blocos das famílias de um bairro", trouxemos de volta o entusiasmo e a alegria, que fez um dia um cronista denominar aquelas antigas agremiações como sendo os alegres bandos.

Agora, ao rever as fotos do regresso do nosso Bloco Lírico Flores do Capibaribe, depois daquela magistral apresentação no Aurora dos Carnavais, sinto o renascer da telúrica força criadora de nossa gente. E fico mesmo renovado, pois no bairro da Várzea há gente jovem preservando os valores de nossa cultura.

Não por acaso, acabamos de compor a Marcha-regresso de nosso bloco, que apresentaremos em breve, num próximo acerto-de-marcha, pelas ruas de nossa Várzea querida!

Avante, Flores do Capibaribe!
Agora voltaremos pra casa. A próxima festa será na nossa praça central. E ali poderemos cantar todas as nossas canções e exibir toda a nossa criatividade!


Próxima apresentação:
Dia o6/02/2011. Pelas 19h, no palco da Pça da Várzea do Capibaribe - Recife- PE.

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Fonte da citação:
 Montarroyos, João.* Bloco Apôis Fum: o lirismo e a ousadia de momo. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. 2009.
Texto inédito em publicações sobre o bloco Apôis Fum e faz parte do livro Uma Década de Ouro no Carnaval do Recife, do mesmo autor, a ser lançado em AGO/2009. Direitos autorais reservados.

*Professor de História, escritor e pesquisador de História Social de Pernambuco.
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