Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, fevereiro 15, 2011

CORDÃO DA SAIDEIRA (o lirismo está preservado)

Edu Lobo



Estudiosos divergem quanto a origem da palavra CARNAVAL. Para uns, a palavra CARNAVAL vem de CARRUM NAVALIS, os carros navais que faziam a abertura das Dionisías Gregas nos séculos VII e VI a.C., para outros, a palavra CARNAVAL surgiu quando Gregório I, o Grande, em 590 d.C. transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, antes do sexto domingo que precede a Páscoa. Ao sétimo domingo, denominado de "qüinquagésima" deu o título de "dominica ad carne levandas", expressão que teria sucessivamente se abreviado para "carne levandas", "carne levale", "carne levamen", "carneval" e "carnaval", todas variantes de dialetos italianos (milanês, siciliano, calabrês, etc..) e que significam ação de tirar , quer dizer:
"tirar a carne" A terça-feira. (mardi-grass), seria legitimamente a noite do carnaval. Seria, em última análise, a permissão de se comer carne antes dos 40 dias de jejum (Quaresma).
                                                                                     (In: http://www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br/carnaval.htm)


O frenesi do carnaval vem da proibição litúrgica, que o catolicismo, em seus áureos tempos, impunha aos seus adeptos. Os fiéis deveriam abster-se da carne, 40 dias antes da Páscoa. Sabendo que se iria entrar em um longo período de abstinência, não só da carne, mas dos prazeres que dela emanam, os antigos foliões se esbaldavam na festa do entrudo. Todos os excessos, até a quarta-feira! Hoje já não é necessário tanto desadouro. Os prazeres são permitidos durante o ano todo. Inclusive os da carne, que, sugiro, sejam desfrutados de forma segura e responsável, em todos os sentidos.


É por isso que brinco nos blocos líricos. O clima do carnaval dos blocos é apolíneo. Destoa da explosão dionisíaca dos outros folguedos de Momo. Os blocos são serenatas carnavalescas, com seus cortejos animados, mas cheios de poesia e de paz. O canto, sustentado por vozes femininas, o acompanhamento a pau e corda, as palhetas sussurando melodias dolentes. Eis os blocos líricos. Neles, ainda se usam  as batalhas de confetes, os jatos perfumados, as serpentinas e até mesmo as flores, que são, amavelmente, atiradas sobre os foliões.


Há quem prefira os Clubes de Máscaras, com seus frevos rasgados, que arrastam a multidão. Eu fico com o lirismo dos blocos, cuja força já está consolidada na sociedade recifense, pela presença vibrante dos poetas, dos maestros e músicos, pela afluência feliz de jovens, crianças e adultos, que neles encontram o seu melhor divertimento.


Os blocos líricos, cruzando as pontes da cidade antiga, sob a luz da lua e das estrelas, são a mais bonita expressão do carnaval pernambucano.  Graças aos Blocos, hoje ainda tem dança, tem frevo, meninas de tranças e cheiro de flores no ar. Os blocos líricos, cada dia mais numerosos e belos, garantem esse nicho de carnaval sentimental, resgatando e preservando o clima bucólico, como esse evocado por Edu Lobo, em seu Cordão da Saideira:




Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça ninguém pra cantar
Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar


Tempo da praia de Ponta de Pedra
Das noites de lua, dos blocos de rua
Do susto e a carreira na caramboleira
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, munguzá, cravo e canela
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar


Tempo do corso, na Rua da Aurora
É moço no passo,
menino e senhora;
Do bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima
Do carramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda apesar da quarta-feira
No cordão da saideira
Vendo a vida se enfeitar



Cordão da Saideira - Edu Lôbo


Fonte da imagem:
http://mpb4cavaleirosdampb.blogspot.com/2011/02/no-cordao-da-saideira-1967.html
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