Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

O FREVO E O PASSO (dança, luta, sexualidade, religiosidade)

Passista em salto acrobático

 (Três excertos de Valdemar de Oliveira, datados de 1945*)

“A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional. É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca, mais dionisíaca de nossa música nacional. E aquele rapaz que dançou! Mas será possível que uma coreografia, assim, ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória, que o país ignora, simplesmente porque entre nós ainda são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”.   (MÁRIO DE ANDRADE)

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(...) Duas coisas não descubro no passo: nem sexualidade nem religiosidade.(...) Há de haver oportunidades bem aproveitadas, amor é coisa sempre presente, mas, o passista não está pensando nisso. (...) Parece que a paixão pela dança é tão grande, no passista, que não dá lugar a nenhuma outra. Ele se entrega de corpo e alma aos seus espasmos musculares, se interioriza, de olhar pregado no chão, nos pés. É uma dança egocên­trica, no meio de uma multidão de egocêntricos. O sexo não influi nela. Os recalques libertados são de outra natureza.

Outra coisa é a religiosidade. Não vejo nenhuma. Não tem pinta de misticismo. Nada que revele crença, obediência, fé, respeito a poderes sobrenaturais. Nenhum vestígio de mitos, lendas, superstições. Mesmo em certas atitudes de êxtase, de renúncia, de abandono, não descubro ascensão espiritual, integração no ideal ou no absoluto. Simplesmente cansaço, fadiga, um estado de repleção física. De orgasmo trabalhoso.

“Realizada no ambiente livre das ruas, fora de qualquer artifício, com os recursos exclusivos do instinto e do sentimento”, só uma coisa eu vejo os passistas respeitarem, ainda nos momentos de maior exaltação: a fanfarra que caminha no meio da “onda”. Parece um tabu. Núcleo bem delimitado de um imenso corpo celular em cuja intimidade se processam as mais complexas reações. Lembra um andor no meio do formigueiro de uma procissão: ninguém toca nele, ninguém o empurra.(...)


(...)A introdução do frevo é sumamente violenta. A criatura cai fundo no passo. Sob o excitante metal, o passista dá o que tem. Mas, os primeiros compassos da segunda parte reduzem, de muito, a intensidade do estímulo. A multidão se entrega a um repouso relativo. Mobiliza novas energias. Do 8° ao 13° compassos, porém, os metais pegam de novo, com vontade, e o passista retoma o passo, se esbandalha, para logo descansar no restante da parte. Como esta sempre se repete, o passista goza novas oportunidades de descanso até que volta à introdução, que o desorienta sem mercê. É um fim de mundo: choques brutais, acotovelamentos, pisadelas, empurrões — sem um protesto, sem uma queixa, sem um insulto. Depois de uns dez minutos, o acorde final é recebido com um oh! de decepção e tristeza.(...)



Antigos passistas do Recife 
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(...) O passo que melhor se dança é no bairro de seu berço: São José. E melhor ainda naquelas ruas antigas, mal calçadas e mal iluminadas. O piso uniforme do calçamento moderno rouba, ao passista, uma das forças de sua invenção — a irregularidade das pedras. Depois, onde a multidão se torna menos densa, mais fluida, o passo amortece.

Ainda outra observação: há um misterioso estímulo visual nos archotes ou lampiões que alumiam a multidão, indo com ela, conduzidos por dois ou quatro moleques. À luz deles, reluzem os metais da charanga como chispas de fogo no fundo negro da rua. A obscuridade é um convite ao frevo. Não há passista bom que prefira a rua Nova bem iluminada e bem calçada às ruas de São José, que têm, para ele, encantos de terra natal. Aí e que ele experimenta a sensação de “totalidade”, com que se entrega ao passo, como um místico à adoração de seu deus.

Agora: o que se não deve esperar é que toda a gente que compõe as multidões dos clubes pedestres do Recife, saiba fazer, ou esteja fazendo, o verdadeiro passo. Muitos acompanham o povaréu, tentando, ensaiando, aprendendo. Por isso, muito frevo se poderá ver sem se ter visto o passo. Os bons passistas, de corpo de mola, elásticos, se destacam logo como técnicos, e é nestes que se deve pôr a atenção, porque eles merecem. São os únicos que apreenderam os ritmos essenciais do frevo.(...)

Grupo de passistas
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(...) Música de 2/4 é coisa que não falta a qualquer Carnaval. Gente dançando com ela, arrastada naturalmente, fazendo “cobra” e gatimônias, também não falta. Eu creio, porém, que não há, no mundo inteiro, um binário tão sacudido, tão pessoal, tão típico, como o do frevo nem dança tão estranha e tão expressiva, pelos modos de sua criação, como o passo. Jorge de Lima escreveu, certa vez, que “todas as outras danças, por exemplo, o maracatu, podem ser estilizadas em suas figurações pelos eruditos, menos o frevo, justa­mente pelo cunho irredutivelmente selvagem que há nos menores movimentos e atitudes dos dançarinos”. A verdade é que o passo, apesar de arbitrário e versátil, possui fundamentos técnicos e não exclui, antes convida, ao virtuosismo coreográfico. Se um Lifar visse o passo feito por um passista autêntico, estou certo que imaginaria qualquer coisa de extraordinariamente bela e viva, lá na sua coreografia. E sua estilização ficaria para sempre na memória do mundo.

Valdemar de Oliveira
Recife, dezembro de 1945
*(Extraído de Boletin Latino Americano de Música. Rio de Janeiro; Montevidéu, Instituto Interamericano de Musicologia, 1946, ano 6, v.6, p.157-192)


Fonte do texto:
http://www.jangadabrasil.com.br/realejo/artigos/frevo.asp

Todas as imagens foram recolhidas do Google.
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