Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, abril 24, 2009

Uçá (Demarcação da poesia nº 2)






















Meu canto espumeja e baba,
que nem detritos na lama:
palavras-lixo que enfeiam a orla do manguezal.
Meu versejar, fugidio,
repente breve e assustado,
parece uçá de andada, sob o troar dos trovões.

Canto com meus olhos baços,
nessa paisagem restrita,
zanzando entre os mocambos,
pelas ruelas estreitas.
(Só os pardais sobre o mangue
sabem a linguagem da brisa
que soprava na caatinga de onde vim retirante...)
Vou cantando e navegando
nessa baiteira raquítica,
bichinho instável e manhoso,
feito a alimária cansada que deixei pelos caminhos.

Meu canto veio fugido
e encalhou nessas ilhas,
minh’alma presa às raízes,
molhando a crosta de escolhos de meu chão interior.
Dessa lama pardacenta,
surgem palavras aquáticas,
salobras e insalubres,
ligeiras, feito os crustáceos, encovados em meu ser.

A alma da maré vazante é um oco em minhas lembranças,
a angústia de não ser nada nessa cidade de escombros,
mocambos que não produzem palavras pra se cantar.

(Ai... que saudade de lá,
de tanger gado moroso e à tardinha aboiar...)



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Eurico
In: Ser Tão Profundo/Mangue Interior

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(Essas demarcações servem de abertura às duas partes do meu livro inédito, Ser tão Profundo/Mangue Interior.

O poema Uçá abre a série de poemas da maré, em que o retirante chega a Mucambópolis.)


Fonte da imagem:
caranguejouca-ilhadedeus.blogspot.com/2007/06...

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