Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, setembro 10, 2006

Resenha Livre Nº 1


Uma flor do pântano



O que se vê por um olho nem sempre é o que se vê pelo outro. Esse ditado popular, cheio de sabedoria, servirá de mote inicial para a leitura que faço do livro Memórias de Minhas Putas Tristes, do escritor Gabriel Garcia Marquez.
Um homem, no dia em que completa noventa anos, decide ter uma noite de prazer com uma ninfeta virgem. Para isso contrata, a peso de ouro, com a ajuda de uma cafetina, da qual era freguês antigo, uma menina que estava sendo iniciada no ofício da prostituição.
Esse é o tema principal. Esses, os poucos protagonistas.

O que se vê por um olho:

Perpetra-se um crime nefando: alicia-se uma criança para os prazeres abjetos de um velho decrépito. Tudo no tema cheira a podridão.
Vê bem, o olho políticamente correto.

Mas, o outro olho, o do artista, vê mais longe:

Eis a magia do escritor genial. Como do pântano mais fétido nasce a flor de lótus, consegue Garcia Marquez fazer brotar desse lamentável enredo, a beleza e a ternura. O amor aos noventa anos, paternal e derradeiro, vai surgir das páginas dessa novela exemplar. Surgirá, também, por outras vias, o amor virginal da menina; embora esse desgraçado amor tenha como nascedouro a extrema miséria, a vida sem afetos e sem carinho, sem brinquedos e, quem sabe, sem pai.
Por certo trata-se de uma relação quase incestuosa, se é que também havemos de chamar de incesto à relação amorosa entre avô e neta.
O que resta do romance, ao final, é a história de um ignominioso crime que foi ultrapassado pelo amor. E o livro de Garcia Marquez nos revigora, nos abre o entendimento de que o homem é capaz de purificar-se dentro da imundície, de criar jardins no deserto e de, como se fosse Deus, escrever em linhas tortas uma história do bem. Quem tem ouvidos, ouça; e, quem tem olhos de ver, veja! A arte vê a flor no pântano!
Salve a Literatura! Salve a Vida Humana! Apesar de todas as crueldades, salve!



Eurico – agosto 2006
Aos estagiários do Arquivo Geral do TJPE
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