Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, setembro 15, 2006

Demarcação da Poesia nº 2



Meu canto espumeja e baba, como os detritos na lama,
palavras-lixo que enfeiam a orla do manguezal.
Meu versejar, fugidio, repente breve e assustado,
parece um uçá de andada, sob o troar dos trovões.
Canto com meus olhos baços, nessa paisagem restrita,
zanzando entre os mocambos, pelas ruelas estreitas.
Só os pardais sobre o mangue sabem a linguagem da brisa
que soprava na caatinga de onde vim retirante...
Vou cantando e navegando nessa baiteira raquítica,
bichinho instável e manhoso,
feito a alimária cansada que deixei pelos caminhos.
Meu canto veio fugido e encalhou nessas ilhas,
minh’alma presa às raízes, molhando
a crosta de abrolhos de meu chão interior.
Dessa lama pardacenta, surgem palavras aquáticas,
salôbras e insalubres, ligeiras feito os crustáceos,
encovando-se em meu ser.
A alma da maré vazante é um ôco em minhas lembranças,
a angústia de não ser nada nessa cidade de escombros,
mocambos que não produzem palavras pra se cantar.
(Ah...que saudade de lá, de tanger gado moroso e à tardinha aboiar...)


Eurico
In: Ser Tão Profundo/Mangue Interior
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