Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, fevereiro 22, 2009

Reflexões de Carnaval: um maracatu e seu nome















FOTOMONTAGEM ELETRÔNICA DE ADROALDO BAUER.


Corria o ano de 1931, e nos bastidores da política do Estado Novo era decidida a expulsão, pela polícia do Rio, de um francês: o escritor surrealista Benjamim Péret. Seu crime? Ter retomado em um livro chamado O Almirante Negro, a famosa revolta da chibata, numa abordagem que fazia um paralelo com o levante da esquadra russa na baía de Odessa, ocorrida em 1905, e que deu tema à ação do famoso filme de Eisenstein, O Encouraçado Potemkim.

A recriação e a análise que o francês Péret faz da revolta de 1910, ou seja, apenas 5 anos depois dos russos, e liderada por um marinheiro negro, que também se insurgia contra os castigos corporais na esquadra brasileira, provocam sua expulsão do país, em dezembro de 1931.
O livro de Péret era protagonizado por João Cândido Felisberto (1880-1969), cognominado de Almirante Negro, até pouco tempo, um dos nomes proibidos pela Marinha brasileira, sempre constrangida com o fato de um simples marinheiro ter assumido o comando da nossa esquadra, recém-chegada da Inglaterra, quando a sua oficialidade ainda estava aprendendo com os oficiais ingleses como manejá-la.
O paralelo com a revolta do Encouraçado Potemkim fez com que, em novembro de 1931, a edição inteira do livro fosse confiscada. Segundo Jean Puyade, professor e jornalista francês, somente quatro folhas do texto foram encontradas pelo pesquisador Dainis Karepovs e testemunham o vigor que deveria ter sido o conjunto da obra, cujo manuscrito estava pronto em setembro de 1931.

A coincidência desses fatos e datas com a fundação do
Maracatu Almirante do Forte, em 7 de setembro de 1931, me deixou deveras encafifado. Contaram-me que o nome desse maracatu deve-se ao nome de um navio de guerra atracado no porto do Recife, na Semana da Pátria, naquele ano de 1931. Sei não! Quase todo navio de nossa Marinha tem nome de Almirante Fulano de Tal. Mas, apenas Almirante...esquisito isso né?

Interessante ressaltar que, em setembro de 1931, era também fundado o primeiro partido político de negros no Brasil, a FNB, Frente Negra Brasileira. Apesar de que também eram anos de perseguição aos terreiros de candomblé, pelo Estado Novo.
Não é curioso que, com tantos fatos ligados à negritude acontecendo no Brasil, naquele ano, um maracatu escolhesse para seu nome de batismo enquanto nação africana, o nome de um simples navio?
O que tem um navio a ver com a história de um maracatu, a não ser a lembrança dos funestos navios-negreiros?
Deixo essa pergunta no ar.
E salve o Almirante Negro!!!
Pois, no meu íntimo, algo me diz que o povo negro que fundou o Almirante usou de um estratagema, comum à época da repressão, para driblar a polícia política do Estado Novo, dizendo que Almirante era o nome de um navio. Que nada! O Almirante verdadeiro deve ser o marinheiro negro João Cândido, que 21 anos antes da fundação do maracatu, manobrou, sozinho, a moderníssima esquadra atracada no Rio, num feito memorável e digno de nomear qualquer instituição afro-brasileira, inclusive um maracatu.
E, se estiver ao meu alcance, o Almirante do Forte, em breve, homenageará o notável Almirante Negro.


Fonte das informações:
Benjamin Péret: um surrealista no Brasil (1929-1931)
Jean Puyade (professor e jornalista francês, especializado em América Latina)
http://www.oolhodahistoria.ufba.br/artigos/benjamin-peret-surrealista-brasil-jean-puyade.pdf


Fontes auxiliares:
PÉRET, Benjamin. .A palavra a Péret. (Cidade do México, Novembro de 1942). In:
PÉRET, B.; GOMBROWICZ, Witold. Contra os poetas. Tradução, introdução e notas de Júlio Henriques. Lisboa, Antígona, 1989, p. 51.
www.oolhodahistoria.ufba.br - Edição Nº 8





Fonte do samba:

http://www.boemio.com.br/midivoice/nacionais/

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P. S.: Abaixo transcrevo a letra original do samba, antes das alterações da censura em 1970:
Fonte:
http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html


O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)


Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais


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Veja no youtube:
A REVOLTA DA CHIBATA

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