Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, fevereiro 15, 2009

Áptero (um repente nordestino)



















Quebradas, as asas que não temos,
dóem muito mais, quando não vemos
onde é que dói a dor,
ou não sabemos...

E que dizer do homem, ser terreno,
cria da terra, errante, o mais pequeno,
a querer avoar, bicho sem asa,
e, afinal, rastejar, dentro de casa,

tateando, a perseguir, em si,
seu proprium, em chã bem rasa?

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Eurico
15 fevereiro 2009


(um improviso pra Mai,

ou seja, uma singela modinha, inspirada em Dante Alighieri,
na qual também ecoa uma secular oitava camoneana)

P.S., em 16/02/2009:

Não resisti à tentação e lhes trouxe a tal oitava de Camões,
que dedico ao Jair que existe dentro de cada um de nós:

"Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Luís de Camões)




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11 comentários:

Beti Timm disse...

Eurico,
menino inteligente e culto! Penso em como é bom e gratificante conhecer pessoas como tu. E aos homens realmente só faltam as asas, pq vontade de voar todos temos.

Beijos alados

Jacinta Dantas disse...

Eurico e sua generosidade. Com esse repente, vc "amplicifa" o Ícaro da May para além das fronteiras - limítrofes - do real e do imaginário. Amo seus escritos, suas "aulas" e seu jeito colocado nas letras.
Beijo

Eurico disse...

Bondade de vcs, Beti e Jacinta. Eu é q fico felicíssimo de poder desfrutar da Amizade dessas duas artistas, cada uma com sua peculiaridde.
Não sou culto, Beti Timm, o que sou mesmo é um bibliodidata compulsivo. rsrsrs

Um beijo agradecido nas duas.

Mai disse...

Amigo d'infância me fazes feliz e mesmo feliz por vezes eu choro quando a emoção me toma de assalto, como agora enquanto li esse teu 'repente' de um lirismo absurdo.

Eurico eu penso que a sintonia e a sincronia se sente assim. E compreendo que a beleza se vê além do que os olhos alcançam, mesmo.

Eu amo a música e a palavra eu também amo a minha terra e minha gente.
Amo os sons e os cheiros dessa Veneza e repentes e aboios. Repentistas e vaqueiros estão em minha memória de infância.

Não poderias dar-me presente mais valioso e belo quanto este.

Me sinto honrada em ter encontrado um amigo de infância como tu.

Beijos e obrigada, sempre.

Mai.
Obs.: O oboista ao lado gravou algum CD com Jean Pierre Rampal?
Se sim, eu tenho.


Outro carinho.
Haja lencinhos de papel...

Mai disse...

Isto é uma epifânia.

Claro que é.

paula barros disse...

Acabei de escrever algo sobre cortar as asas.

Se me cortam as asas, rastejo, mas nunca fica parada, procurar sempre.

beijos

Maybe Tomorrow disse...

Tudo dito me resta dizer. Amei !
Abraços Yvy

Eurico disse...

Mai, querida, fica bem...não fico feliz quando choras...rs
Me enterneço, amiga. Sei que lidas com emoções no dia a dia. E o Jair me fez quedar, meditabundo, horas inteiras. Então alinhavei esse poemeto, de repente. Subitamente. Então o batizei: "repente nordestino". E tem mesmo, esse poema sem asas, algo das toadas e dos aboios. Mas tem muito da reflexão sobre a condição humana.
Um beijo d'amigo d'infãncia! rsrsrs

Jens disse...

Oi Eurico.
Pois, é camarada, a dor é mais intensa quando não sabemos onde ou porque dói. Mas hoje, as amargas, não. Começou o carnaval. Bom feriado pra você. Até quarta.
Um abraço.

Shirley Pacheco disse...

Eu fico pensando no equívoco que Deus teria cometido, se desse ao homem, asas. Mas teu repente não despertou me pessimismo não, viu? apenas minha vontade de pensar... rs.
Bjinho!

€sterança disse...

Olá amigo Eurico!


Estou passando nos blogues amigos para convidá-los a participar da Blogagem Coletiva sobre “INCLUSÃO SOCIAL” que acontecerá no próximo dia 09/03/2009.

Ficarei muito feliz de poder contar com sua participação!
Se for participar, por gentileza, deixe um recado no blog Esterança.

Desde já, muito grata!

Ester