Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, outubro 20, 2012

O ARQUIVISTA





















O arquivista cofia
os seus extensos bigodes
na incerteza se pode,
ou na certeza que não pode
forjar aquilo que acode
ao seu instinto de ordem.
E sente na alma, fria,
a estranha melancolia
do anseio da simetria
que faz do caos, harmonia.

O arquivista avalia
e seus bigodes cofia:
será a ordem doentia?
E a métrica, antipoesia?

Bilac, em ordem, escandia
e, pasmem, estrelas ouvia,
naquela monotonia
ritmada, mas vazia,
mais parnaso que poesia.

Também verseja, o arquivista,
por entre as caixas em ordem?
Ouve, no acervo, as estrelas?
Perdeu o senso entre os lotes?

Eis que o arquivista debalde
procura a normalidade
que em seu cérebro havia;
como o herói de Cervantes,
surtado, avista gigantes
entre as estantes esguias...
(Que bela patologia!)



Fonte da imagem:
http://storage.mais.uol.com.br/357613.jpg?ver=1

Nota:
Dia Nacional do Arquivista - 20 de Outubro
(uns ainda se orgulham da função)




Eurico
(clic de Juliana das Oliveiras)
 
Postar um comentário