Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, abril 11, 2008

Eu-lírico nº 3 (reedição-formato blog)



capa do Eu-lirico 3 - meados de 1994



Nota: cada edição do meu zine-collage trazia um poema,

Neste número 3, aparece também um posfácio.



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Mitopoese I: o Unicórnio



...Jaz a Noite Imensa sobre o mangue...

A Cidade surge antes,
das enchentes, das vazantes
fundação amorfa, sem face, vazia...

A Cidade emerge, ser eqüestre,
Alça as patas, veste a ventania,
Galopa vadia, égua numinosa.

A Cidade avança,
Besta airosa,
E aponta para o Atlântico o seu chifre calcário.

A Cidade é vária:
Puta dos batavos, marranos, mascates.

Múltipla, mistério:
Vila pescadora com matrizes míticas;
Titãs com tarrafas, jêjes argonautas,
Ninfas pomba-gira, reis iorubás.

A Cidade é anfíbia:
Ilhas de enxurradas,
Sertões arribados sobre palafitas.

(ouve-se o relincho de uma gente aflita...)

Antes, muito antes,
A Cidade dá cria (protopoesia?)
Sobre os arrecifes que detém o mar.

Vaza a Noite um imenso alfanje:
Ouve-se um vagido.
O sangue, rubro veio, escorre

e tinge o umbigo da pedra
do Reino do Amanhã

(ouve-se, em alarido, a turba;
ouve-se um trotar...)


Eurico
1994


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UM BREVE COMENTÁRIO

por Carlinhos do Amparo




O poeta não filosofa, confunde.
A ele não cumpre investigar o Universo, nem a História,
mas entregar-se amorosamente às forças do sonho,
mergulhar no aórgico, na palpitação jubilosa das origens do ser.
E a origem do ser, como dizem os doutos, dá-se na Poesia.
Qualquer dos doutos: Fichte, Schelling,
ou o nosso, brasileiríssimo, Vicente Ferreira da Silva.
"O mito é em substância Poesia", diz-nos um deles.
"Não é a história que faz o mito, mas o mito é que faz a história", diz-nos um outro.
Pois bem, Mitopoese I: o Unicórnio é o encontro poético
com as matrizes míticas, com a Noite Imensa,
com o Antes, com a Criação.
Em uma dionisíaca revelação,
o poeta foi buscar as fundações mitopoéticas
da Cidade que o trouxe ao Ser.
Confusos?
Não é filosofia. É Poesia.
Poemem-se.

(Carlinhos do Amparo é escritor olindense.)


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À GUISA DE POSFÁCIO:



Rompo um insulamento de vários anos

em que vivi entre leões osmanianos

ou na clausura das efabulações.

Trago os fantasmas, grifos voláteis

que me tocaiam nas entrelinhas.

Abro a janela: EU-LÍRICO

por ela escapa o imaginário,

meu arsenal de indagações.

Todo poeta traz o flanco nu

e adentra a arena.

Essa é a senha: não são moinhos, são gigantes!

Que se derreta a cera dessas asas.

O que me importa é essa luz, é o Sol.


Eurico
1994



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