Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, julho 02, 2009

Perante o Altar-mor ( impressões sobre o Prelúdio nº 10, de Debussy)




















O homem é todo ele signo.
(A par disso, recitarás Peirce,
ritualisticamente,
quando adentrares a nave principal.)

Repito: o homem é signo.

Não crês nisso.
E nem és católico.
Significa que não percebes
símbolos nos címbalos.
Nem augúrio algum,
em mochos de campanário.
Nada representa nada sobre os altares.
Ou sob eles.
Nada.
Nem Deus.

Preferes, agnóstico, ouvir Sócrates.
Apesar de que Sócrates
semeava a (dú)vida entre os helenos.
E, em vez de ouvi-lo,
todos preferiam ver discóbolos e tragédias.
Mesmo assim, em Atena havia signo.
Tudo nela é ainda signo.

Vem, agora!
Penetra, mansamente, a nave da Palavra:

+Memória e signo sobejam.

Turíbulos.
Responsórios.
Gazofilácios.

E esse metonímico pão,
Alçado até a fronte.

Memória e signo sobejam.+

E o sentido que há em tudo
Vem litúrgico e ritmado:

Luz e treva.
Treva e luz


Compassadamente,
Cadência lenta,
um côro ecoa pela nave:

Vida e morte.
Morte e vida.


Seguem-se badaladas,
brandas e binárias:

Bem e mal.
Bem e mal.
Bem e mal.


Das abóbadas desce a luz:

Deus é espírito e
o homem, pensamento.

E a prece em Peirce:

Signo.
O homem é signo.


Então, avia-te, ó bardo!
E ergue-te em oferenda
Perante o altar-mor da nave principal.



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Releia o poema, ouvindo Debussy: La Cathedrale Engloutie
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