Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, agosto 28, 2012

ROLIMÃS (rondó em fluxo de consciência)

CASTELO por E. B. Brito

























Há frestas no mundar-do-mundo,
por onde flui a flor
das formas inefáveis
:
A luz de um jorro d’água
despenca contra o cântaro;
e o ontem se expande, ôntico.


Um galo na aurora, introjetado,
essa presença e um fluxo,
um quase-estado.


O tempo,
rangendo as dobradiças no equinócio;
o eixo desgastado,
do carro de mneme, em rolimãs.


Manhãs,
cama de molas, mãe,
fuga da escola e a bola,
retumbando no zinco dos portões.


Há ecos luminosos ...
Há mesmo luz na voz
do antigo chafariz;
Arcos reflexos, folhas de flandres.
Latas vazias esperam;
em quântico, o universo se expande.


O vento nas anáguas,
réstias do Sol na água,
Há luz!
Há luz nas coisas compossíveis!


Aldravas, velhas casas,
alfinetes em almofadas,
ferrolhos que se abrigam;
As mangas nos quintais
Alpendres, cercas vivas.
Nesse impalpável mundo, a chuva cai.


Uma antiga voz de jorro em latas d’água,
o chafariz
deslizam rolimãs ladeira abaixo,
ladeira acima,
Olinda.
A chuva no telheiro
dum pardieiro.
A Bica do Rosário.
O Bispo do Rosário.
Tempo feliz.
Ecos distantes...
a mesma voz de jorro d’água
do mesmo chafariz;
raios do mesmo Sol, em enfileiradas latas de folha de flandres.
Um mesmo e antigo Antes,
recentemente introjetado, ,
e um tempo,
rangendo nos seus eixos desgastados,
num trilho da memória.
Em rolimãs...





(poema em fluxo de consciência, inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário)

 
Fonte da imagem:
Emanuel Bezerra  de Brito

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