Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, julho 03, 2011

A PALAVRA (poema desentranhado da prosa de Saramago)




















Cipriano Algor afastou-se em direcção ao forno, ia murmurando, como uma cantilena sem significado, Marta, Marçal, Isaura, Achado, depois por ordem diferente, Marçal, Isaura, Achado, Marta, e outra ainda, Isaura, Marta, Achado, Marçal, e outra, Achado, Marçal, Marta, Isaura, enfim juntou-lhes o seu próprio nome, Cipriano, Cipriano, Cipriano, repetiu-o até perder a conta das vezes, até sentir que uma vertigem o lançava para fora de si mesmo, até deixar de compreender o sentido do que estava a dizer, então pronunciou
a palavra forno,
a palavra alpendre,
a palavra barro,
a palavra amoreira,
a palavra eira,
a palavra lanterna,
a palavra terra,
a palavra lenha,
a palavra porta,
a palavra cama,
a palavra cemitério,
a palavra asa,
a palavra cântaro,
a palavra furgoneta,
a palavra água,
a palavra olaria,
a palavra erva,
a palavra casa,
a palavra fogo,
a palavra cão,
a palavra mulher,
a palavra homem,
a palavra, a palavra,
e todas as coisas deste mundo,
as nomeadas e as não nomeadas,
as conhecidas e as secretas,
as visíveis e as invisíveis,
como um bando de aves que se cansasse de voar e descesse das nuvens, foram pousando pouco a pouco nos seus lugares,
preenchendo as ausências e reordenando os sentidos.

José Saramago, A Caverna, pp. 126-127

Fonte do Texto:
http://www.triplov.org/alquimias/pinto1.html

Fonte da Imagem:
http://proseandoeversando.blogspot.com/2010/08/terra-do-barro.html
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