Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, maio 21, 2009

Ode quase bíblica - César Leal





















Guernica em 3D (fragmento)




Poetas, é preciso falar a Gog, príncipe
de Mosoc e de Tubal!
Podres estão os frutos da vinha de Baal-Hamon
e eis que é chegado o tempo do Dragão
anunciado pelos profetas


Cantemos a copiosa luz dos corações


e a paz, a paz cantemos,
que não há beleza nos monumentos em chamas,
em mulheres evaporadas
no vórtice das bombas apocalíticas
nos esqueletos cobertos de sono e cal.


Cantemos a paz das longitudes altíssimas,


a paz querida pelas mães e meninos e poetas
que todos desejam viver e amar.


Não cantemos a paz armada, ofertada


pelos canhões,
pelos tanques
e foguetes balísticas, that false peace
That masquerades between the troughs of seas
Deceives in the silence between earthquakes,
or he lull
Between atomic bombs.


Ai de nós!


Os barbitúricos já não limitam o desespero da
Terra
Montanhas se povoam de centauros
e por toda a paisagem noturna
há bazucas, morteiros e canhões
desafiando as estrelas com suas bocas de ferro.


Cantemos a paz, não


cantemos a paz de cinzas — que é triste —
a paz dos mausoléus, a paz
ofertada pelo Dragão
aos meninos de Hiroshima a Nagazaki.


... Peace is the pull


Towards the motion of tree, star and stone,
The contented rhythm of the child at the nipple
The moment of surrender after union.


Poetas, perdoai as rudes notas


deste canto:
— é que meu coração registra um pranto escuro,
o compassivo pranto das mães
cujos filhos foram soprados na Guerra
como lâmpadas. Choram
e não lhes ofereço o mistério de meu canto
porque os olhos são portas
por onde saem fluindo da memória
os recordos mais tristes.


Deixai-as chorar os filhos


sacrificados a um século de Bronze,
pleno de asas, motores e disparos.


Que retornando


aos meus abrigos secretos
como quem foge aos punhos de um bombardeio
ouço o estalar de granadas
em minhas arquiteturas cardíacas.


Cantemos a paz, aspera


tum positis mitescent saecula bellis, a paz


longínqua das estrelas,
o vôo do sol erguido sobre o porto
o lento crescimento dos arbustos
a luz descida nas montanhas
mas não louvemos a paz dos Rosemberg
carbonizados na elétrica tortura.


É preciso crer na paz
— tranqüila em sua esperança
altiva em sua vontade.

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César Leal

Poeta, crítico de poesia, graduado em Filosofia e jornalismo, título de NS Notório Saber. Parecer 242 / 80, do Conselho Federal de Educação, professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Pernambuco.
Fonte do texto:
http://www.revista.agulha.nom.br/cleal2.html#ode

Fonte da imagem:
http://spaceinvaders.com.br/wp-content/uploads/2008/05/guernica1.jpg

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