Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, setembro 09, 2010

Ode Etimológica (arcaísmos redivivos)



















Dos muitos livros que herdei de meus avós, um marcou-me a infância e a vida toda. Dele é o interessante diálogo que transcrevo, razão de um de meus mais arraigados vícios:

"– E a senhora, que é? Perguntou-lhe.

– Sou a palavra Ogano.

– Ogano? O que quer dizer isso?

– Nem queira saber, menina! Sou uma palavra que já perdeu até a memória da vida passada. Apenas me lembro que vim do latim Hoc Anno, que significa Este Ano. Entrei nesta cidade quando só havia uns começos de rua; os homens desse tempo usavam-me para dizer Este Ano. Depois fui sendo esquecida, e hoje ninguém se lembra de mim. A senhora Bofé é mais feliz; os escrevedores de romances históricos ainda a chamam de longe em longe. Mas a mim ninguém, absolutamente ninguém, me chama. Já sou mais que Arcaísmo; sou simplesmente uma palavra morta... "

...............................................................in
Emília no País da Gramática, Monteiro Lobato

O arrebol unge de lume o albor de agora,
em um dilúculo crescente,
com ledos rádios iluminescentes.
Eterna antemanhã,
em que a Palavra, alvinitente,
é sempre a Aurora.

Por isso o Sol, renato, faz o dia
e, mesmo astro longevo,
anuncia
a novidade, emb'hora...

Não há palavra antiga,
em verve viva.
A flama é nova,
a cada vez que o fogo faz faúlha.

A fácies desses étimos rebrilha...
num prisma iridescente, evém da hulha;
E exsurge a voz d'outr'hora
em voz de hac hora.


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Fonte da imagem:
Biblioteca de Coimbra
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