Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, setembro 18, 2010

O ARTISTA E SEU CHAPÉU


























Esta edição do Eu-lírico
é dedicada aos inventores silenciosos, aos
que trabalham sem ruído, amassando
o verbo com a ponta dos dígitos,
(mesmo os que usam apenas o índex);

Aos que, verbofágicos, assentam-se
à ceia dos comedores de palavras para degustar
o peixe mitológico
e arquetípico.

Aos incendiários, aos que atritam
palavras coruscantes.
Aos que ousam parir
e dão à luz os seus filhotes, nas cavernas neo-modernas.
Aos roubadores do fogo,
os que expõem suas vísceras aos abutres:

Esta edição do Eu-lírico
é pra vocês

Poetas tribais e ideoplásticos
que vivem sob a unção da Palavra!

(transcrição do pósfácio do Eu-lírico nº 7 jul/ago 1995)


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O ARTISTA E SEU CHAPÉU (um salmo apócrifo)


Ó chamas esfaimadas, velozes, inexatas
como uma língua de lava. Ou rio,
um imenso rio, fumegante enxurrada.
Seu rastro incandescente: o léxico brasil,
palavras fumarentas, falidas e tisnadas,
na língua de estupor de mães desesperadas:
Herodes, ó Herodes!
Romãs ensangüentadas.

(E pode traduzir-se o orbe
em árias, aquarelas, valsas, odes?)


Agulhas de tricô/espasmos nucleares
Aidéticos de trem, luar/Louis Pasteur
Tropel, trovões, tzar/ Tristan Tzara
e a degenerescência que tão clara

Vincos do nada
Ecos vazios
Alvo e absurdo
Demolidor. Cinzel. Nuncas e tudos.

VENDE-SE UM NEXO ÍNDIGO BLUE EM ÓTIMO ESTADO

Chamas na sala, bicos vorazes, mães, lavaredas.
Tenor, gibi, maçã cansada e em relativa ordem

(E ouso perguntar se o mundo pode
traduzir-se...pode?!
em árias, aquarelas, valsas, odes?)

Eurico
(poema transcrito do zine-colagem Eu-lírico, edição nº 7)

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Comentário do Salmo Apócrifo nº XXIV
(por Carlinhos do Amparo)


As palavras são objetos plasmáveis, ideoplásticos, musicais.
Apalpadas, moldam figuras;
Sopradas, produzem voz;
Atritadas, soltam centelhas, chamas incendiárias.

O artista, em seu ofício, debruça-se sobre elas : desmonta-as,
reinventa-as, dá-lhes novo ser. Busca, como o pintor materista,
esmagá-las sobre o suporte. Joga-as umas contra as outras.
Seu intento?
Que elas centelhem. Que tragam de dentro sua luz.
E que essa luz alargue os limites da realidade.
Que nos faça adentrar a instância da Arte.
No mundo absoluto.
Na Poesia.

Neste Salmo XXIV - O Artista e seu Chapéu, o poeta atinge
as palavras em seu âmago. Elas emergem, vulcânicas, ab/surdas,
para reconstruir o mundo, voz flamígena.
O poema busca angustiadamente seu nexo.
Mas o nexo da poesia é o indizível.

Pode a palavra poética traduzir o mundo?
O poema é atravessado por essa antiga questão, como se essa
fosse a sua própria razão de ser: a única coisa que faz sentido
no mundo estranho e hostil em que se dão os poemas.

Mas ouso perguntar se o mundo pode
traduzir-se (pode?!)
em árias, aquarelas, valsas, odes?


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Quero dedicar essa postagem,
apesar de ser uma transcrição de 1995,
ao Mestre Luís de la Mancha
vate da voz incendiária!


A capa daquela edição do fanzine,
inspirada no célebre chapéu com velas de Van Gogh,
deve-se ao pintor Eugenio Paxelly,
poetartista-plástico neo-barroco!
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