Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, agosto 29, 2010

Lolita (outras evocações)


















(evocação tardia e quase censurada pelo próprio autor, rs)


Outrora, eram os epicuristas,
que ensinavam aos helenos
a arte do bem viver.
Sem falar dos hedonistas,
que em Grécia se compraziam
com a delícia de ser;
já nesses tempos primevos
se admiravam os mancebos,
os tais valentes efebos,
da arte de guerrear.

Agora, os existencialistas,
cuja oportuna malícia,
diz o povo, é escolher
viver do hoje as primícias,
sem se ocupar do amanhã,
vinham à cidade Maurícia
ver um novo efebo na liça,
com uma alegria louçã.

A sensação era Lolita,
a lidadora temida,
que desancava a polícia,
com seus murros de marrã.

Diz que a zona portuária
pertence aos gregos mercantes,
ianques e coreanos,
capitães de longo curso,
aos marujos, aos maganos
e aos ratos de convés.
Mas todos temem Lolita.
Ele é a rainha, é quem dita
a lei, nesses cabarés.

Já fui moleque e arteiro,
e, curioso, na rua
de Nossa Senhora da Guia,
ia ver calçolas quarando,
nos balcões dos pardieiros...

Deus me livre dos pecados da rua do Bom Jesus!
Da difícil-vida-fácil, nos bordéis, à meia-luz.
Corpos despidos das putas,
bem na Vigário Tenório!

Com tanta mulher bonita,
um velhote em suspensórios,
se babava por Lolita...

-- Vôte! Que nem Freud explica!

Não sei se me engano ou não,
mas oiço a voz esquisita
do Liêdo Maranhão.


***

Fonte da imagem:
Bordel - Di Cavalcanti
in Jornal da Besta Fubana

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