Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, novembro 03, 2008

Recife (miragem cianótica)




Ave maldita,
ave sem plumas.
Feiúra cabralinamente bela
:
asas pardacentas sob um céu aberto e azul.

Em ninhos de miséria e maresia
sob pontes e marquises,
a eclosão famélica de infantes e pardais;

Agora, o ar irrespirável do rio moribundo
:
O bairro antigo e sem vida.
Os arrabaldes com nomes de engenhos de fogo morto.
E essa aristocracia decadente e depressiva.

Um lastimável niilismo.
Crepúsculo dos ídolos
e dos jovens em queda livre
do alto do prédio das Ciências Humanas.

Poetas marginais com cirrose...
Com overdose.
O estreito beco da fome, da sede...
e da morte...


Embora, um fim de tarde em mar azul e transitório...
na exatidão aquática dos versos,
azuladamente, o mar,
miragem cianótica;
azuladamente, amar
em porto provisório...

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Eurico

(fotopoema estático e sem data)

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Fonte da img.:
moreda.files.wordpress.com/2007/03/recife-ceu-azul.jpg

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