Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, novembro 14, 2008

Regresso ao Drummond...



















Regresso ao Drummond, meu mestre, minha universidade, para
um novo exercício de leitura submarinha.
Leio e releio esse metapoema, desde muito jovem,
como quem recita um mantra:
repetidas vezes, mas com concentração profunda, com reverência.
Como não tinha disciplina para a vida academica,
estudei, desse modo inusitado, esquadrinhando os grandes poetas.
Nessa foto, em que Drummond aparece na intimidade,
sentado como um menino, despojada postura, eu também
aprendo algo.
Aprendo que o poeta não é o artista dos palcos, das luzes,
dos estereótipos (marginal, popular, letrista, cantador, erudito).
O poeta é apenas um ser humano, com suas pequenas e grandes
alegrias, tristezas, dúvidas, temores... angústias.
Eis o grande exemplo de poeta, como Pessoa, em Portugal:
simples, pacato e com a vida privada
resguardada dos holofotes da mídia.
Ave, Drummond!
Evoé, meu Mestre!
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PROCURA DA POESIA

Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças versos com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema.
Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



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Fonte do txt.:
http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema025.htm


Img Drummond lendo:
http://blog.uncovering.org/archives/uploads/2008/08041601_blog.uncovering.org_drummond.jpg


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