Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, agosto 08, 2011

MILONGUEANDO UNS TROÇOS




Uma poética não pode ser adâmica, ou seja, jamais se instala num hipotético marco zero da epopéia humana. Todo fazer humano, essa aventura em poíesis, nasce em certa altitude histórica e está irremediavelmente embebida em seu caldo de culturas (no sentido popular que se dá a esse termo: usos, costumes, crenças, vigências consuetudinárias). Uma poética, mesmo miscigenada, não se pode alienar de si mesma, de sua terra, de sua gente, de sua língua. A poética que urde a canção que hoje lhes apresento é profundamente terrunha, telúrica. Canta o seu rincão com voz universal. Uma poética assim não é apenas brasileiríssima e gaúcha. É visceralmente humana:


Milongueando uns troços, de Mauro Moraes/voz: Bebeto Alves




Era inverno sim, eu perdido em mim
Rabiscava uns versos pra enganar a dor
O tédio, o pranto, o tombo
E encantava mágoas, milongueando sonhos
Mas havia em mim, um cismar doentio
De agregar estimas aos atalhos gastos
Dos compadres músicos
Repartindo as tralhas tendo o olhar recluso
Somos dessa aldeia filhos de parteiras
Na parelha injusta da cor
Somos pensadores sem pedir favores
Somos dessa plebe, febre de palavras
Na fronteira oculta dos rios
Somos cantadores sem pedir favores
Caso esta biboca, cova da desova
Dilarece o fruto, mastigando o gulo
O sumo, o tudo, o nada
Pego essa pandilha e engravido a rima
Se amor der sombra, a sesteada é pouca
Pra escorar no esteio, os livros, os arreios
O riso humano, o cusco, os ossos
E talvez, amigos, milongueando uns troços.




Postagem dedicada à minha amiga-escrita Rejane Martins,
que me apresentou o Mauro Moraes, poeta-milongueiro, compositor
desse verdadeiro tratado estético-filosófico, na linguagem dolente e avoenga dos pampas.




Imagem:
Boteco Tchê
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