Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, julho 23, 2010

Por que Eu-lírico?




















A propósito da série de poemas que iniciei dias atrás, com o Tamandaré, transcrevo aqui um brevíssimo comentário do mestre Carlinhos do Amparo, extraído do zine Eu-lírico (impresso), nº 6, edição de junho/1995:



Lirismo, sim. Mas não lirismo comedido: pura contemplação da natureza ou catártica expressão das emoções. Lirismo, sim. Porém centrado em uma analítica da existência, se isso lá é possível. Algo como o que nos fala G. M. Kujawski:

“Adotamos aqui o lirismo como método fenomenológico, rigorosamente descritivo, para aprofundar nosso conhecimento da natureza”. (Perspectivas Filosóficas, 1983).

Ou seja:
O poeta tropeça com o estar-aí da coisa. Qualquer coisa: um pássaro, uma pedra (como no célebre poema drummondiano), um recorte qualquer da realidade. E esse choque com a patência da coisa exige a mediação lírica, o assombro, o maravilhamento, a subitânea iluminação do ser. Nesse instante, a Palavra se torna instrumento de reaproximação com o derredor, com a circum-stantia, com a realidade tal como a encontramos.
Uma atitude irrevogável e consciente presentifica-se no eu enunciador do poema, o eu-lírico: a atitude de auscultador, não de estrelas, como em Bilac, mas auscultador da Existência.
Um poema não responde à pergunta: por que um pássaro está aí em vez de não estar?
O poema é o pássaro, vôo repentino, é a coisa no fulgor de sua presença, é o impacto como o essencial. Mas o poema é, antes, o fascínio órfico, o lírico palpitar do real...



Transcrevo também o meu poemeto (nem tão rigorosamente descritivo, tampouco fenomenológico, rsrsrs) que originou o comentário acima, naquela edição de 15 anos atrás, do meu antigo zine-colagem, Eu-lírico:



Um pássaro de seis asas...
Embora o rugir mecânico das coisas,
Um pássaro de seis...
E a urbe e o orbe
E o universo se desdobre,
Um pássaro...
Atávicos urros na estação metroviária neolítica,
Um passarinho...
(dilata-se o real)


Eurico
Jun/1995
************


Fonte da imagem:
Pedra no Caminho

12 comentários:

Almyr Rodrigues disse...

Uma esplêndida explicação... Belo...

Dauri Batisti disse...

A erudição e a emoção se encontram aqui; o livro e o lírio se desfolham na mesma página; ruído e a palavra se sintnizam no mesmo acorde: Eu-lírico

Paula Barros disse...

Eurico, tem horas que tua amiguinha sente cheiro de queimado no único neurônio e não compreende nadica de nada.

Aí, pretendo voltar. rsrs

abraço

Eurico disse...

Paulinha,
quem diz que sabe nada sabe. E vc com essa humildade, me ensina tanto. Haja vista, essa série de poemetos, que surgiu de tua inteligentíssima arte de clicar o mundo.

Abraço fraterno.

Eurico disse...

Dauri,
mais emoção do que erudição. Faço mesmo é uma releitura interminaaaável de Ortega y Gasset, a quem adotei desde 1992, como uma espécie de manual de sobrevivência. rsrsrs
Nada mais. Entanto, os ruídos, as aliterações, a sinestesia... isso eu persigo, é verdade...rs

Abraço fraterno e caloroso, Poeta.

Eurico disse...

Almyr,
grato, gratíssimo.
E seja bem-vindo ao Eu-lírico.

Um abraço fraterno.

Suzana Martins disse...

Um pássaro de seis asas que abraça os versos e segue sem medo...

Adorei!

Beijos

Paula Barros disse...

Eurico, voltei, li e reli, li também os comentários. Observando a emoção que brota, nos seus poemas, em mim.

abraço.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Putz, adorei. Adorei porque estou (mais uma vez) estudando o modernismo primitivista e dá pra ver diferenças essenciais, nessa coisa do lirismo comedido, por exemplo.

E é sempre uma aula vir aqui.

(Sobre Ortega y Gasset eu tenho um amigo que vive me dizendo que preciso lê-lo rs.)

Um abraço!

Eurico disse...

Suzana,
o pássaro de seis asas era uma homenagem, na época, a outro grande escritor, de quem sou fã: Osman Lins, aquel da Lisbela e o Prisioneiro. Ele tem uma obra de arte, em forma de romance, chamada Avalovara. Há um pássaro de seis asas, numa das linhas narrativas deste romance fantástico.

Abraço fraterno e bons ventos em teu Porto Seguro1

Eurico disse...

Éverton, meu querido irmão,
o que o meu compadre Carlinhos faz mesmo é me confundir com seus comentários. Ele se encarregava de discutir o processo criativo em meus poemas. Mas não há nada professoral... nem a intenção de dar aulas. Vc é que é muito generoso conosco.

Leva o meu abraçamigo, Poeta.

Eurico disse...

Paulinha Barros,
é disso que se fala: da emoção.
A apreensão lírica do que se vê, do que se ouve, do que se toca...
Essa é a primeira inteligência das coisas. Sentir já é uma forma de pensar. E vc se emociona pq associa coisas de tua vivência, de tua apreensão da realidade, com a compreensão do texto lido. Conclusão: tua emoção é inteligente e não é PNL...rsrsrs é estesia pura!

Abraço fraterno e agradecido, amiga!