Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, janeiro 03, 2009

Filodoxo ou poeta? Uma crise de identidade...





















O compadre Carlinhos do Amparo, meticuloso e arguto filodoxo olindense, anda a me questionar sobre a minha adesão ao MIL, Movimento Internacional Lusófono, dizendo, entre outras coisas:

1- que estou a esquecer da herança linguística africana, que deduz, por parecer apodítica, da minha cor da pele;
2- cobra-me, além disso, que faça referência à, não menos relevante, contribuição ao léxico deixada pela nossa ancestralidade tupiniquim;
3- e, por fim, acusa-me de maltratar a linguistica moderna, ao fazer uma apologia do sotaque de Portugal.

Eita,que esse compadre está mais pra superego do que pra amigo...rsrsrs

Creio, no entanto, que devo uma explicação ao meu inquieto compadre. E aqui vai a resposta ao dileto pensador do Sítio d’Olinda, com o ensejo de servir de preâmbulo à minha nova série de textos: Frátria.

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A respostas às questões 1 e 2 são simples. Não carecem de muito aprofundamento:

Minha adesão à lusofonia não exclui, nem prescinde de toda a influência das culturas dos povos nativos do Brasil, os chamados indígenas, nem da poderosa participação da inumerável quantidade de africanos que aqui aportaram, como mão de obra escravizada. No entanto, apesar de seus falares africanos e tupinambás, o que nos ficou, enquanto idioma, foi, de fato, o idioma dos portugueses. A estrutura sintática, a fonologia, a dicção de certos vocábulos, mesmo os escritos em nagô ou tupi-guarani, seguem a pronúncia e a grafia do idioma português.
Claro que uma língua é uma possibilidade aberta por uma cultura, que, em si, não é algo isolado de um contexto histórico e geográfico. Podemos ressaltar que o próprio idioma português que atravessou o oceano, já era, culturalmente, mestiço. Basta rememorar a influência de todos os povos que invadiram a península ibérica, desde os romanos até os mouros, passando pelos visigodos. Todos formaram um caldo de cultura, que ensejou a formação dessa língua miscigenada que veio até nós nas caravelas. Contudo, antes que se alevantem contra mim os puristas de plantão, transcrevo o que disse sobre a miscigenação em Portugal, o Rui Martins, intelectual de boa cepa, na Revista Nova Águia:

"Encontramos uma outra chave para a compreensão do problema de saber porque foi em Portugal que se procuraram estabelecer “territórios-ponte” no carácter étnico dos portugueses como uma das populações mais miscigenadas da Europa. Esta rara característica, identificada pelo professor Luís Adão da Fonseca, ao descrever Portugal como “um país de transição”, formatado e gerado pela justaposição e cruzamento de povos e culturas diversas e mais miscigenado e “impuro” que qualquer outra nação europeia. Só uma nação de “rafeiros” poderia erguer esse milagre continental que é o Brasil, senão vejamos a dispersão que condenou a América espanhola à irrelevância política… Só um país como Portugal, que vê cruzar na sua alma, a transcendência judaica, a contemplação berbere, a valentia germânica e a organização prática latina, com mais alguns múltiplos vestígios poderia deitar a semente desta portugalidade que se chama hoje “Portugal”, mas que se poderia chamar “Mundo” ou “Quinto Império-União Lusófona”(...) (grifo meu)
Fonte: http://movimentolusofono.wordpress.com/2008/08/29/do-futuro-da-lusofonia-rui-martins/

Portanto, o que falamos é, em verdade, o extrato neolatino da língua falada na península ibérica, derradeira expressão românica, o arcaico português da Andaluzia. Fruta tardia da cultura grecolatina, apesar de todo o amálgama das culturas que lhe foram adjacentes, é a essa lusofonia que venho aderir no meu blogue. Não posso negar a influência das culturas, de todas as culturas por que passou a minha cultura brasileira, mas é também evidente que sou lusófono, e isso é decorrente dessa cultura, cuja voz é lusitana, na qual me acho inserido, desde o meu nascimento, e da qual, me é impossível escapar.

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3- Para concluir, vamos à questão do sotaque da Dulce Campos: Decerto aprendi lendo o sociolinguista Marcos Bagno, que a prosódia que aqui chegou com as caravelas deve assemelhar-se mais ao Português falado pelos matutos e caipiras do interior do Brasil, do que o falado no Portugal de nossos dias. Como isso se explica? Deixemos o próprio Bagno nos explicar, com o que disse em 1997, in A Língua de Eulália, à pagina 120:



"A presença de aspectos arcaicos é comum a todas as línguas que foram transplantadas de um lugar para outro (...) Existe uma relação entre arcaísmo e distância geográfica: quanto mais distante de seu local de origem mais arcaica fica a língua. Assim acontece, por exemplo, com o francês falado no Canadá, que tem muitos aspectos do francês falado na França no século XVII. (...) Essa mesma relação faz com que a língua das zonas rurais seja mais arcaizante do que a língua das grandes cidades, onde as transformações sociais mais rápidas são acompanhadas no mesmo ritmo por transformações na variedade linguistica(...) o Português do Nordeste brasileiro(...) está muito mais próximo da língua falada por Cabral e Camões do que o português de São Paulo. (...) A língua falada na zona rural nordestina é muito mais arcaica do que a falada nas grandes cidades da região.(...)"



No entanto, prezado compadre, a Canção do Mar, entoada com esse encadeamento de fonemas, como só a Dulce Campos a interpreta, me traz uma reminiscência como que de cânticos mouros, ou mesmo cantigas de moçárabes e seus descendentes, que devem ainda ecoar pelas vielas da Lisboa Antiga. Creio eu, que, lá, mais do que aqui, a cultura dos povos mediterrâneos deve estar entranhada aos costumes, aos gestos, à culinária e, mais profundamente, ao fado. Não me tome por xenófilo, ou mesmo por alienado, ao me derramar em louvores ao encadeado sotaque do fado da dulcíssima Dulce. Mas, lá no fundo d'alma, ecoa-me essa saudade mística, essa emoção em tempo tríbio, que me faz quedar por horas, a ouvir a voz dolente e sensual dessa fadista iluminada.


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