Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, janeiro 07, 2012

SONATA PARA O DR. ALZHEIMER (poema completo)

Ao fundo, Annie Fischer, interpreta:




1º Movimento (Adagio. Allegro)

Não ajunteis tesouros na terra...
Mt 6:19


Toda memória é argêntea.
Subterrânea.
Nela não há oiro.
Inúteis, pois, os tesouros sem mapa...

De que adianta a filha
E essa multidão?
Agora tudo é ilha.
E todo o esforço é vão.

Um fado inesperado.
Sim, uma velha música distante.
E estar exausto.

Toda memória é argêntea.
Caverna silenciosa e erma.
Inúteis, pois, os movimentos.
Não há mais oiro algum.

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2º Movimento (Andante espressivo)

Basta a cada dia o seu mal.

Mt 6:34


Desliza a vida e todo o entorno
Sobre movediças dunas.
As coisas todas estão nômades.
Flores de artifício brotam nos jardins abandonados.
Tulipas desconexas
florescem, amarelas e tardias.


São brancos os corredores do hospital.


Não há mais ciclos,
Nem duração.
Apenas essa agenda de encontros desmarcados.
E os relógios de parede já não anunciam as horas.


Vive-se às apalpadelas e não faz escuro.
Nada faz sentido nesses vislumbres da infância.
Decerto há nuvens nos óculos antigos.
Tudo está antigo e nublado.


Um gato sob a cama, fatalista e atemporal,
Não perceberá pesares, solidão, medo, alegrias.
Aqui se pode dormir definitivamente
E sonhar com as eternas ruínas circulares...


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3º Movimento (Vivacissimamente)

Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.

(João 10:10)


Apesar de tudo resta a Vida,
com tudo o que é insolvente e provisório
Embora, evanescente e imprecisa, a Vida...
Resta, ainda.

De algum modo, que não mais contente,
Há frestas para sorrisos
E o aceno transcendente.

De que adiantam saberes
e toda a inútil lógica humana?
Os gatos são mais felizes.
Brincam indenes sobre as casas,
Mesmo sem logus.
Mesmo sem asas.

Hoje vestirei a melhor roupa.
E celebrarei o ar que ainda respiro.
Tomarei banho de mar.
A água morna e arrepios pelo corpo.
Que apesar de tudo resta a Vida.
A minha vida.
Realidade única e indevassável.
A Vida!

Baterei as palmas e piscarei os olhos.
Lamberei os meus lábios salubres.
Celebrarei o Sol e a unicidade.
Eu sou!
Allegro ma non troppo,
Eu sou!
Trago um júbilo comigo:
Eu sou!

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Coda (Finale)



Um cometa passou.
A minha vida...
Espiralada noúre.
Breve lida.
Vivê-la, importa, enquanto dure.


Um comboio passou,
sou o cão que late,
indigna-se, insiste,
e não se abate.


O vale fértil passou.
Sou um camelo que resiste.
Minha alma sucumbe à realidade.
Marteladas de Nietzsche:
Viver consiste em amor fati.




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Poema dedicado à grande amiga Dayse,
acometida precocemente dos males da memória...
Eurico
(transcrição de 4 postagens de 2009)
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